sábado, 5 de janeiro de 2013

Álvaro Pereira Júnior

O texto mais emblemático desse início de ano (com ajustes):

Trezentos e sessenta e cinco dias de farsa, de conversas imaginárias, de não diálogos, (...) não presença, não sorrisos, de perda de tempo. 

Ano de indecisões, ou decisões erradas, desastre iminente, passos mal dados, de indefinição, de atrasos, adiamentos. De insegurança, arrependimento, da brutalidade da dúvida, (...) caixas postais vazias, telefones sempre mudos, mensagens dissipadas no éter como fumaça virtual. 

Do céu coalhado de coisas mortas, estrelas que já não existem (mas só agora seu brilho nos atinge, estertor feito de fótons). (...) De perder apostas, ficar devendo, implorar clemência, ouvir um não a cada hora. 

Ano de vacilar na curva, de ir embora para nunca mais voltar, mas acabar voltando por falta de alternativa. De passar datas em branco, esquecer essas datas, ou lembrar e não sentir nada, nada mesmo. 

De experiências terríveis, aniquilação, de escorregar com tudo, de deslizes sem volta ou perdão. De ser um fio desencapado, nunca relaxar. De ter uma britadeira endógena entre os ouvidos, 24 horas por dia, descanso impossível, inferno, vigília autoimposta. 

Do erro do médico, do planejamento precário, da combustão incompleta, da fuligem que mancha o pulmão. De não entender nada, de correr sem ter aonde chegar. Do fracasso recorrente, vexame, vergonha. 

Todo ano novo pode ser o pior ano de nossas vidas. 

Basta caprichar. Falta muito pro carnaval?

Marco Antonio Villa

A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002 foi recebida como um conto de fadas. O país estaria pagando uma dívida social. E o recebedor era um operário.

Operário que tinha somente uma década de trabalho fabril, pois aos 28 anos de idade deu adeus, para sempre, à fábrica. Virou um burocrata sindical. Mesmo assim, de 1972 a 2002 ─ entre a entrada na diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e a eleição presidencial ─, portanto, durante 30 anos, usou e abusou do figurino do operário, trabalhador, sofrido.

A posse ─ parte dos gastos paga pelo esquema do pré-mensalão, de acordo com depoimento de Marcos Valério ao Ministério Público ─ foi uma consagração. Logo a fantasia cedeu lugar à realidade. A mediocridade da gestão era visível. Como a proposta de governo ─ chamar de projeto seria um exagero ─ era inexeqüível, resolveram manter a economia no mesmo rumo, o que foi reforçado no momento da alta internacional no preço das commodities.

Quando veio a crise internacional, no final de 2008, sem capacidade gerencial e criatividade econômica, abriram o baú da História, procurando encontrar soluções do século 20 para questões do século 21. O velho Estado reapareceu e distribuiu prebendas aos seus favoritos, a sempre voraz burguesia de rapina, tão brasileira como a jabuticaba. Evidentemente que só poderia dar errado. (...) o governo ficou, como está até hoje, buscando desesperadamente algum caminho. Sem perder de vista, claro, a eleição de 2014, pois tudo gira em torno da permanência no poder por mais um longo tempo, como profetizou recentemente o sentenciado José Dirceu.

Os bancos e as empresas estatais foram usados como instrumentos de política partidária, [como] correias de transmissão, para o que chamou o ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal, de “projeto criminoso de poder”, quando do julgamento do Mensalão. Os cargos de direção foram loteados entre as diferentes tendências do Partido dos Trabalhadores (PT) e o restante foi entregue à saciedade dos partidos da base [alugada] no Congresso Nacional. O PT transformou o patrimônio nacional, construído durante décadas, em moeda para obter recursos partidários e pessoais, como ficou demonstrado em vários escândalos durante a década. (...)

Não será tarefa fácil retirar o PT do poder. (...) A incapacidade da oposição de cumprir o seu papel facilitou em muito o domínio petista. Deu até um grau de eficiência política que o PT nunca teve. E o ano de 2005 foi o ponto de inflexão, quando a oposição, em meio ao escândalo do Mensalão, e com a popularidade de Lula atingindo seu nível mais baixo, se omitiu, temendo perturbar a “paz social”. Seu principal líder, Fernando Henrique Cardoso, disse que Lula já estava derrotado e bastaria levá-lo nas cordas até o ano seguinte para vencê-lo facilmente nas urnas. Como de hábito, a análise estava absolutamente equivocada. E a tragédia que vivemos é, em grande parte, devida a esse grave erro de 2005. Mas, apesar da oposição digna de uma ópera-bufa, os eleitores nunca deram ao PT, nas eleições presidenciais, uma vitória no primeiro turno.

O PT não esconde o que deseja. Sua direção partidária já ordenou aos milicianos que devem concentrar os seus ataques na imprensa e no Poder Judiciário. São os únicos obstáculos que ainda encontram pelo caminho. E até com ameaças diretas, como a feita na mensagem natalina ─ natalina, leitores! ─ de Gilberto Carvalho (ex-seminarista, registre-se) de que “o bicho vai pegar”. A tarefa para 2013 é impor na agenda política o controle social da mídia e do Judiciário.

Sabem que não será tarefa fácil, porém a simples ameaça pode-se transformar em instrumento de coação. O PT tem ódio das liberdades democráticas. Sabe que elas são o único obstáculo para o seu “projeto histórico” (SIC). E eles não vão perdoar jamais que a direção petista de 2002 esteja hoje condenada à cadeia.

A década petista terminou. E nada melhor para ilustrar o fracasso do que o crescimento do produto interno bruto (PIB) de 1%. Foi uma década perdida. Não para os petistas e seus acólitos, claro. Estes enriqueceram, buscaram algum refinamento material e até ficaram “chiques”, como a Rosemary, sua melhor tradução. Mas o Brasil perdeu.

Poderíamos ter avançado melhorando a gestão pública e enfrentado com eficiência os nossos velhos problemas sociais, aqueles que os marqueteiros exploram a cada dois anos nos períodos eleitorais. Quase nada foi feito ─ basta citar a tragédia do saneamento básico ou os milhões de analfabetos.

Mas se estagnamos, outros países avançaram. E o Brasil continua a ser, como dizia Monteiro Lobato, “essa coisa inerme e enorme”.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013


O Bolsa Tudo, instituído pelo querido Líder, constitui o maior programa de compra de voto do mundo, em prestações mensais continuadas. Acima, o Grande Irmão dispensa dupla graça, e por isso o adoramos, com fervor.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Casa dos Contos

Leio no jornal:

Procura-se. Estatura ordinária, olhar espantado, cor acabralhada, moleirão. Terá 35 anos. Tira a barba toda. Deixa bigodes. Oficial de pedreiro.

Excetuados bigodes e ocupação (no momento, não tenho nenhuma), a notória semelhança com o procurado - um escravo fugitivo do Século 19 - me assombra. Da altura de séculos o edital me reclama, desde a Casa dos Contos, freguesia de Ouro Preto. Sinto que não terei forças muito mais tempo para a fuga. 

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Ricardo Noblat

No segundo semestre de 2005, quando havia estourado o escândalo do mensalão, Lula foi à TV pedir desculpas aos brasileiros. Aproveitou para dizer que fora traído. E apunhalado pelas costas. Nunca quis dizer quem o traiu. Sempre remeteu o caso à Justiça.

O Supremo Tribunal Federal concluiu há pouco o julgamento do mensalão - o mais longo de sua história. Foram 53 sessões. E concluiu:

a) Uma sofisticada organização criminosa tentou se apoderar de parte do aparelho do Estado.
b) Para prolongar a permanência do PT no poder, montou-se o esquema do mensalão - o pagamento de suborno para que deputados votassem como queria o governo.
c) Parte do dinheiro do mensalão foi subtraído dos cofres públicos.
d) O STF apontou e condenou os mensaleiros.
Lula, agora, sabe quem o traiu. E o apunhalou pelas costas.

De acordo?

domingo, 9 de dezembro de 2012

Intrometida-chefe


Ronaldo Costa Couto: "O primeiro economista da história foi Cristóvão Colombo, que quando partiu não sabia para onde ia e quando chegou não sabia onde estava. Tudo por conta do governo". 

Era 4,5% o crescimento garantizado, que agora sabemos  menos de 1% e caindo. Pibinhos, bafões e, agora, apaguinhos.

Não é glorioso ter uma país assim meiguinho?

O que a intrometida-chefe está fazendo? Ah, sim: arrombando o país com um surto de ideologia farsesca. Rompe contratos, brutaliza investidores, servidores e o contribuinte: o que falta para defenestrarmos a abelhuda-chefe? 

Lembram da gerentona? 10 anos no governo, superpoderes administrativos, e o resultado: obras zoadas, dinheiro saindo pelo (e com o) ladrão, o estado tomado de assalto. 

Enquanto os vizinhos, iguais dependentes da exportação de commodities, crescem 5%, crescemos 0,5%, apesar da ensandecida renúncia fiscal, que esgarça o já cambaleante equilíbrio federativo. 

Em marcha acelerada (para trás), talvez o eleitor acorde do pesadelo e apeie a quadrilha do poder.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Viva a jurisprudência do Supremo

José Augusto Garcia de Sousa, professor da FGV Direito Rio, em O Globo:

De origem italiana, a teoria do garantismo penal preconiza o fortalecimento das garantias processuais dos réus, coibindo-se os excessos do poder punitivo do Estado. No sistema penal brasileiro, repleto ainda de violências e arbitrariedades — notadamente contra os menos favorecidos —, o generoso ideário garantista encontrou solo fértil para se propagar.


De modo desconcertante, porém, a teoria no Brasil revelou-se útil, sobretudo a criminosos de colarinho branco e privatizadores dos cofres públicos. Autores de ilícitos peculiarmente intrincados, eles passaram a invocar o santo nome do garantismo para usufruir, cada vez mais, uma jurisprudência que sublima aspectos formais do processo e impõe cargas probatórias quase irreais à acusação.

Reforçou-se assim a índole atavicamente elitista do processo penal aqui praticado. Um processo amigo dos poderosos e endinheirados, além de surdo aos protestos do homem da rua contra a impunidade dos delitos financeiros. Instrumento, em suma, de realimentação das nossas mazelas sociais, transportando para o plano processual a desigualdade que existe fora dos autos.

O julgamento do mensalão veio trazer, em boa hora, o contraponto. Proclamou-se que a Constituição não garante para os acusados de corrupção processos seis estrelas, em que só por acidente alguma condenação corre o risco de acontecer. Em um Estado declaradamente social como o nosso, não faz sentido, do ponto de vista constitucional, que crimes muito perversos para a comunidade sejam premiados, logo eles, com as maiores franquias processuais. Se a jurisprudência do Supremo realmente mudou, foi para melhor. Com a sensibilidade que se espera de uma Suprema Corte.

É certo que um processo não cura cinco séculos de negociatas e desprezo pelo bem comum. Sem embargo, o julgamento do mensalão já representa ponto luminoso na História da nação. Um país mais ético e justo, muito além de mera bandeira retórica, significa direito fundamental de cada um de nós. Garantido pela Constituição.

Baleia azul - fim trágico

Jubartes na ilha Fraser

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Sandro Vaia

O Partido dos Trabalhadores, que chefia a coalizão que governa o País, costuma confundir Nação, Estado, País e partido. Para eles, parece ser tudo uma geléia só.

Por isso, parece estar muito mais preocupado em divulgar notas gravemente ofensivas às instituições republicanas, como o Poder Judiciário, culpado por condenar os malfeitos de alguns de seus mais ilustres militantes, do que realmente conduzir o país nos trilhos do crescimento sustentado com eficiência e competência.

Seria melhor que o partido que comanda a coalizão se preocupasse com o primor de gestão que está sob sua responsabilidade e sob o comando da senhora gerente famosa por seu rigor e seus murros na mesa que, por enquanto, entre outras coisas, produziu:

* oito apagões consecutivos no Norte e no Nordeste do País em menos de quatro meses;
* a declaração de seu ministro da Justiça de que preferia se matar a cumprir pena numa prisão brasileira, sendo que as prisões estão sob sua área de responsabilidade e dos 312 milhões de reais que deveria investir em sua melhora, conseguiu gastar apenas 63,5 milhões;
* o primeiro prejuízo da Petrobrás nos últimos 13 anos e perda de valor de mercado da empresa em mais de 50% em menos de 3 anos. A não realização de metas “irreais” (segundo sua presidente Graça Foster), entre as quais a construção de 3 refinarias prometidas durante o governo Lula;
* crescimento de 1,5%, o mais fraco entre os países emergentes, depois de o ministro da Fazenda ter previsto sucessivamente crescimentos de 4,5% ,4%, 3,5% , 3% ,2,5 % e 2%, sem acertar nenhuma das previsões;
* o anúncio repetido da meta da construção de 6 mil creches, sendo que não há notícia que tenham sido entregues mais de 10 em todo o País;
* a incapacidade de gerar o superávit primário prometido de 3,1% do PIB, ou 139,8 bilhões de reais;
* a incapacidade de atingir o centro da meta de inflação, de 4,5%, apesar das sucessivas baixas de juros promovidas pelo Banco Central;
* a incapacidade de gerar políticas públicas destinadas a reduzir a violência no País e melhorar o espantoso índice de 50 mil homicídios anuais;
* a falta de medidas destinadas a baixar o Custo Brasil e melhorar os índices de produtividade da produção industrial brasileira;
* atraso nas obras de transposiçao do Rio São Francisco.


Estes são alguns indicadores de que a gestão do País não deveria se resumir apenas à produção de manifestos recheados de bravatas políticas e vazios de conteúdo e bom senso.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

BNDES

Para que serve, de verdade, o BNDES?

"O", no blog do Alex, arrisca:

Eu diria que a existência do BNDES se deve à sua utilidade para os governantes de plantão. O BNDES é um instrumento que os governantes do dia usam para transferir recursos para seus plutocratas de confiança. Também é um instrumento de chantagem contra o empresariado. Esta é a razão de sua existência. Esta é a natureza da besta. 


Tal finalidade hedionda deve ser disfarçada da população, daí a necessidade de desculpas como custos ‘socioambientais’, política industrial etc. Às vezes ouvimos que o papel do BNDES seria crucial para financiar o investimento no Brasil, o que é grotescamente curioso, pois a vasta maioria dos países de desenvolvimento similar ao Brasil consegue investir mais que o Brasil sem depender de um banco estatal de desenvolvimento de tal dimensão. 


Agora, ouvimos dos custos “socio-ambientais”. Mas por que o BNDES seria necessário para financiar o transporte em massa? Não podem os governos de São Paulo ou do Rio, ou concessionarias do setor privado, emitir dívida? Não pode a União garantir tal dívida se existe algum motivo de bem-estar social ou externaliade justificando isso? 


Cínico que sou, desconfio que a raison d’être do financiamento por um banco estatal é evitar-se a disciplina do mercado e garantir que as obras possam ser superfaturadas. Como disse, esta é a natureza da besta.