domingo, 16 de junho de 2013

Meus livros de cabeceira

Manual dos Insultos (compêndio). Na verdade é obra introdutória a essa arte milenar. Eu mesmo fiz generosos acréscimos ao repertório, um pouco tímido, e muitos vão de emenda, sem outro afã que contribuir. Obra edificante. Se o leitor sente algum apreço pelo meu jeito de ser, se gostou de alguma coisa que eu disse, tudo se deve à leitura atenta desse livrinho.

Kama Sutra (para lésbicas). Por puro e ortodoxo, dispensa comentários. Muito do que sou, devo a essa obra ilustrada, educativa e cativante. 

Shiraz

Na chegada a Shiraz um velho "sugeriu" o seguro estatal. Aguardei na madrugada quase uma hora pelo visto. Após uma saraivada de perguntas repetitivas, dobrei o burocrata com minha funcional. Vocês não adivinham o amor que desperta num burocrata um plastiquinho embandeirado.

Após apertar os olhinhos no pequeno cartão, dificilmente aceito no Brasil, ele pergunta:

- Judiciário?
- Te falei, rapaz. Judiciário!
- Tipo... ministerial?
- Imperial! Quase sideral! Só estou abaixo do PRE, se já não ultrapassei aquele vadio.

Visto concedido, valor pago, esperei a emissão, e a sagração do carimbo. Um gato passeava sobre os guichês, àquela hora dormidos.

Atrás das gôndolas um motorista brincava de carrinho com minha mala, risonho: vruuuum, vruuuuum!

Ao hotel.  Um labirinto que, na urgência da madrugada, me pareceu interminável.

Na portaria um funcionário sonolento apontou meu quarto. Era o primeiro, atrás de uma enorme porta dupla, vermelha, estofada. Liguei o ar e desmaiei. Sobreveio o almoço.

Verifiquei depois que a funcional, na verdade, é a carteirinha de sócio da Afatrems. Coisa pouca.

Liberdade, ainda que tardia

Finalmente deixei a prisão dos aiatolás.

Jornais, canais de notícia, blogs, redes sociais: tudo ameaça o regime, evidentemente insustentável.

A polícia está o tempo todo vigiando. Você sai de um restaurante, lá está o carro verde dos comissários.

Vê-se por que lula é tão amiguinho desse regime: é o que ele gostaria de implantar no Brasil. Controle social da mídia: o PT tem muito a aprender com os aiatolás.

Quanto aos iranianos, deixo para um outro momento. O importante é que consegui livrar-me solto.

O povo que vi nas ruas, não. 

terça-feira, 4 de junho de 2013

Istambul

Da torre Gálata tive uma visão. Um fantasma preto me olhou e atravessou a rua.

Istambul convulsiona. Ajudei uns caras a tacar pedra na polícia, na praça Taksim. Ela nos presenteou com balas de borracha, jatos de água e gás pimenta. 

"Dói, um tapinha não dói, só um tapinha!", entrou cantando a tropa de choque. Ocorreu-nos criticar o desafino dos granadeiros. 

Na volta, bem na esquina onde o tram faz a curva, comprei um baglamas, mais um, de sorte que agora tenho dois para carregar. Se quiser posso jogar um na sua mão, leitor, ou preferes um buzuki?

Seja como for logo saio para um lugar mais tranquilo e muito pacífico: o Irã.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Capadócia

Cheguei hoje. A Capadócia é bem mais do que dizem os manuais. As chaminés de pedra, imensas, são variadas e coloridas. Fiz um passeio de quad, e me emocionei com o vale, multicolorido, e com as cidades dos trogloditas.

Numa delas, um prédio formado no arenito. Massive! Só o que denunciava a montanha era a presença de cavalos pastando no topo.

Daqui a pouco saio para os balões. Meus amigos estão torcendo. Meus inimigos, mais ainda.

Vai ser bom, ora se vai. 

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Pamukkale

Mármore líquido. Uma província de travertino.

Luz excessiva no branco demasiado. Não suportei mais que algumas horas.

Turquia

Provisoriamente serei turco. Cheguei há uns dias, e fui bem recebido. Fiquei em Selçuk, de onde sai para conhecer Éfesos, Priene, Dídima e Mileto.

Fui à casa de Maria, mãe de Jesus. Já ouviram falar?

O que mais me impressionou foi o templo de Apolo em Dídima. Você interage com o monumento, sobe em suas escadarias e colunas, é admitido em seu átrio, mediante um túnel descendente, em mármore.

Algumas colunas vertiginosas, e uma coluna derrubada nos fundos dão uma idéia da grandiosidade que não vislumbrei nem no Partenom, em Atenas.

Na verdade, nessa peregrinação pelo meditarrâneo, o que mais impressionou foram as ruínas gregas de Agrigento e Dídima.

Nessa viagem fui a mais templos do que recomenda a pureza ateia e o bom senso.

Seja como for, saio logo mais para a Capadócia, onde chego pela manhã, para um vôo de balão e outras diversões nesse excelente país.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Rodes

Após um mês peripatético pela Europa, massagem com peixinhos, fechando a Grécia.

Eles esfoliam e limpam, no que me pareceu um carinho.

Eu vinha de uns trinta dias sem lavar os pés, num massacre diário. Sabe, numa viagem você precisa eleger prioridades. Os pés não estavam no topo da lista. Vou lavando outras partes, de sorte que os peixinhos tiveram material para se fartar, conquanto alguns tenham ido a nocaute.

O sapo não lava o pé
Não lava porque não quer...

Nunca entendi essa calunia. As salamandras, por exemplo, muito mais malandras, não sofrem semelhante dissabor.

Eu comera um atum selado no azeite, e salada de lulas marinadas, também ao azeite.

Os peixinhos doutores (não sei quanto dos meus pés eles comeram) fazem flutuar no neon, e sentimos que deveriam continuar.

Saímos mais leves. Os pés, agradecidos, pisam suave o calçamento da velha Rodes. 

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Creta

O Lonely diz que essa ilha, onde floresceu a civilização minóica, é a culminação da Grécia. Percebi Creta como a Grécia profunda.

Fui a Samaria, maior cânion da Europa. Eles te conduzem pelas montanhas até uma garganta impronunciável e te soltam na banguela.

Dezoito quilômetros depois você é pescado na portaria, quase chegando ao mar.

Destino mágico. Paredes inesgotáveis, rios que somem sob a montanha e reaparecem, mais necessários e raros. Caminhei por um leito árido, no vértice de um abismo em flor.

Depois as águas me encontraram e foi como se não tivessem sangrado o coração da terra.

Passeio de muitas horas, terminando no mar líbio. De volta a Heraklion, o hippocambos me aguardava, para os frutos do mar que derretem na boca.

Pedi a conta. Veio a sobremesa, não solicitada, mas muito apreciada: petit gateau com cachaça grega. Arrasador. Esse povo sabe mesmo como agradar. 

Creta induz êxtases e contemplações.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Opa

Come-se bem no mediterrâneo, já sabemos, mas na Grécia, e especialmente aqui em Creta, a coisa chega perto da orgia gastronômica.

Ontem pedi um menu fixo, arapuca pra turista. Veio uma sinfonia de delícias, começando por salada grega, pãezinhos quentes com iogurte e terminando num peixe que, de tenro, não pode ser descrito.

Não acreditei: depois do peixe, eu pagaria uns 200. Deu 12. incluído o vinho cretense.

Hoje, no almoço, lulas e polvos no carvão, à perfeição, acompanhados de pimenta verde grelhada, no azeite. Aprendi essa marra de pimenta verde grelhada aqui na Grécia. Uma cerveja grega conformou o conjunto, mavioso.

Quando, horas depois, apareci pra jantar, o garçom não me deixou terminar o pedido. Fui de salada grega com fetta e mexilhões no bafo. Sim, o garçom tinha razão. Era impossível ir mais longe.

O Porto de Heraklion foi cenário generoso.

Opa!

terça-feira, 21 de maio de 2013

Οια

Entre Φιρα e Οια exercemos a flauta no fio de um penhasco de posses.

O Εγεu argumentava de ambos os lados, um drama.

Delícia essa Grécia que há.

Recebi hoje uma carta. atravessou eras:

"Seu idiota!

O que você fez, dessa vez? Não faço idéia, já que escrevo com dez anos de antecedência. Seja o que for, não tem perdão, esta ouvindo?

Não tem perdão!"

As cartas que me escrevo.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Comidinhas

A Grécia delicia. O iogurte é um queijo cremoso, e está em toda parte. Almocei algumas vezes iogurte com nozes, ou frutas vermelhas. Maravilhoso.

Fetta é outro queijo marcante. Assado, com tomates, ou fresco, com azeite, é uma grande entrada a essa cozinha única. Mas o que delicia mesmo são lulas e polvos na brasa. E as costelinhas de carneiro, mexilhões e tudo o mais que o mediterrâneo provê, e que os gregos colhem há mais de 3000 anos, languidamente.

A cozinha mediterrânea são os ingredientes. E preparos sacerdotais.

Em Atenas provei tira-gostos de outro mundo: pimentas verdes curadas, com azeitonas, berinjelas e outras querências gregas. Nunca vi nada igual, na simplicidade e no sabor. Uma tora de pão grego, e fui me abastecendo.

A cozinha mediterrânea, que venho acompanhando com entusiasmo renovado a cada cidade, desde Palermo, passando por Taormina e Nápoles, mostra um aroma e matriz de sabores desconcertantes, herança imprevista da vasta cultura greco-romana, que me assombra.

E eu nem falei dos doces.

Μικονοσ

Ilha apaixonante. Faz jus à fama. Você se encanta de cara com os labirintos brancos e azuis, a luz primal, quase demasiada, a presença do mar.

Delos é pisar terreno sagrado. Subi ao monte, após errar por sua desolação de mármore. É como Pompéia, na fuga pânica dos séculos. 

As praias de Míconos nem valem a visita. Farofa e água fria. 

Saio agora para Santorini, esse penhasco povoado. 

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Hidra

Hoje visitei três ilhas: Hidra,  Ποροσ e Αεγινα, com um templo soberbo - Φαια.

Na volta interessou-me um buzuki. Já pensou eu de buzuki? Bem, nenhum vôo de respeito aceitaria uma configuração dessas, e acabei com um baglamas, para acompanhar umas músicas rebéticas.

Agora se faz tarde. Amanhã saio de Piraeus rumo a Míconos. Aí é que começa mesmo.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Acrópole

Ela me esperou 2500 anos
e, tal qual Roma,
adivinhem...

As cariátides segredaram:
sou uma discreta reunião
de insuficiências várias.