sábado, 17 de janeiro de 2009

Miriam Leitão

Foi ruim enquanto durou. O governo George W. Bush mentiu, torturou, prendeu pessoas sem acusação, teve prisões secretas, arruinou a economia, deixou um rombo nas contas públicas, desrespeitou a ONU, fez duas guerras, bloqueou acordos contra o aquecimento global, desamparou as vítimas do Katrina, censurou cientistas. Sim, foi pior do que o governo que odiávamos tanto: o de Richard Nixon.

Não, a História não lhe dará razão. Pode fazer o contrário: confirmar as piores suspeitas. Já começa a fazer isso. Bob Woodward, sempre ele, o lendário repórter do Watergate, publicou no “Washington Post” a confirmação de que em Guantánamo se torturava. Mohammed Al-Qahtani, um saudita, foi mantido isolado, impedido de dormir, exposto nu a frio extremo, sofreu afogamentos e outras perversidades próprias de governos extremistas. Quem confirmou isso ao jornalista não foi um “garganta profunda”, mas alguém de quem se sabe nome, rosto e cargo: a juíza Susan Crawford, funcionária do Pentágono, com autoridade de decidir quem deveria ir ou não a julgamento. Qahtani não irá a julgamento porque seu interrogatório foi criminoso. “Nós torturamos”, reconheceu.

George W. Bush foi para a vida americana o que o AI-5 foi no Brasil. Pessoas sumiam sem qualquer acusação formal, eram mantidas presas sem processo e formação de culpa, cientistas do governo, que alertaram sobre aquecimento global, foram perseguidos ou tiveram seus textos alterados, cidadãos tiveram conversas gravadas sem autorização judicial.

No princípio, foi a fraude eleitoral; no fim, o apocalipse econômico. O governo Bush foi todo equivocado, com um intervalo em que ele perdeu a chance aberta por uma tragédia: o 11 de Setembro. A primeira eleição foi perdida no voto popular e vencida no colégio eleitoral graças à manipulação na contagem dos votos no estado governado pelo irmão Jeb Bush, a Flórida. Foi o pior momento recente do sistema eleitoral americano, em que se viu o quanto o sistema e o método de votação haviam envelhecido.

(...) Saddam Hussein era um ditador e ninguém o chora, a não ser seus adeptos ferrenhos. Mas a civilização ganharia se ele fosse deposto de outra forma. O julgamento viciado e o enforcamento grotesco não ajudam a fortalecer princípios e valores democráticos.

Bush não criou um mundo mais seguro com suas guerras sem fim. O mundo estará mais seguro dentro de dois dias, quando chegar ao fim a era Bush. (...)

Na economia, seu governo não foi apenas inepto. Foi irresponsável. Foram perseguidos e silenciados os que dentro da máquina pública alertaram para o risco da bolha imobiliária. Os sinais da excessiva ausência do Estado, no seu papel regulador e fiscalizador, ficaram cada vez mais contundentes. E a resposta foi mais ausência. Bush chegou a tentar nomear executivos da indústria de derivativos para órgãos reguladores do setor imobiliário. Surfou na bolha para se reeleger. O estouro lançou o mundo na era de incerteza. E até ontem, hora final, a crise bancária voltou a piorar.

Os republicanos tinham ao menos a fama de ser responsáveis fiscalmente. Hoje já não podem dizer isso. O governo George W. Bush recebeu os EUA com superávit orçamentário e entrega o país com um enorme déficit, que pode chegar a US$ 1,3 trilhão, e uma dívida crescente.

Bush sabotou deliberada e persistentemente todos os esforços do mundo para reduzir as emissões dos gases de efeito estufa. Não por acaso, o estado campeão de emissões no país é exatamente o Texas. Foi incompetente no Katrina, antes e depois da tragédia, e não entendeu o alerta da natureza. Qualquer minuto de atraso na luta para preservar o planeta é um crime contra as gerações futuras, que herdarão a Terra.

Difícil saber onde Bush não errou. A boa notícia desta manhã de sábado é que faltam dois dias para o fim dos longos e duros oito anos. Terça-feira há de ser outro dia.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Garcia

O que significa "politicamente conveniente"? indagou-se ao sargento Garcia, a propósito de uma decisão técnica de economizar 600 milhões de dólares com um gás de que não precisamos no momento, devidamente sabotada por uma conveniência palaciana. Segundo ele, "num momento de crise econômica, é fundamental preservar os ingressos lá [na Bolívia], onde 40% dos recursos vêm do gás". Ele acrescentou que decisões assim nunca são apenas técnicas, mas sim políticas: "Se fossem, para que fazer eleições de quatro em quatro anos? Bastava fazer concurso público para os técnicos". Lobão: "Na parte da manhã, não havia a necessidade dessas duas térmicas, cuja necessidade surgiu à tarde". Serão religadas as térmicas de Araucária (PR) e Canoas (RS), que têm capacidade para gerar cerca de 600 MW. Então, vamos transferir dinheiro público direto para a conta do Sr. Moralez, aquele amigo que não perde uma oportunidade de lesionar direitos do Brasil. Eleições a cada quatro anos para quê, pergunto eu. Nem vejo tanta necessidade...

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Krugman

O fato é que os recentes números econômicos são assustadores, não apenas nos Estados Unidos, mas ao redor do mundo. O setor manufatureiro, em particular, está despencando em toda parte. Os bancos não estão emprestando, as empresas e os consumidores não estão gastando. Não vamos medir palavras: isto se parece muito com o início da segunda Grande Depressão.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Verissimo

Luiz Fernando Verissimo, no blog do Noblat:

Não acredito na reencarnação, mas confesso que tenho um medo: o de morrer, ser reencarnado e encontrar reencarnada uma das pessoas com quem vivo discutindo a reencarnação, dizendo que não acredito. E que não perderá a oportunidade de, todas as vezes que nos encontrarmos, gritar:

- Eu não disse?!

Não vai dar para agüentar.

Também me imagino chegando no céu e descobrindo que é tudo exatamente como o descrevem os crentes, ou pelo menos exatamente como o descrevem as anedotas. São Pedro, o portão, os anjos, tudo.

- Eu não acredito no que estou vendo! - direi.

São Pedro entenderá mal minha exclamação e dirá:

- Bacana, né?

- Não. É que eu era ateu e não acreditava em nada disso.

- E agora, acredita?

- Claro.

- Então vai para o inferno - dirá São Pedro, já levando o dedo ao botão que abre o alçapão.

- Mas, por quê? - perguntarei, espantado.

- Adesistas não.

E tem aquela do cara que chega no céu e enquanto preenche a ficha na recepção vê passar dois barbudos conversando animadamente. Começa a perguntar:

- Aqueles dois não são...

- São eles mesmos - diz São Pedro. - Marx e Freud. Na sua caminhada matinal.

- Mas, eles aqui?

- Qual é o problema?

- Era o último lugar em que eu esperava encontrar esses dois. Marx, o materialista ateu, que dizia que a religião era o ópio do povo. Freud, o homem que liquidou com a idéia da alma eterna. No céu?!

- Bom, nossos critérios de admissão são flexíveis...

Nisso Marx e Freud começam a discutir em altos brados.

- O que é isso? - pergunta o recém-chegado.

- Você não conhece o velho ditado? Dois judeus, quatro opiniões diferentes.

- Mas eles parecem que vão se engalfinhar!

- Você devia ver quando Jesus caminha com eles. Aí ninguém se entende.

Outro cara chega no céu entusiasmadíssimo. "Que maravilha!" diz, olhando em volta. A vida eterna. Paz para sempre. Tudo imutável e perfeito.

- É - diz São Pedro. - Mas você devia ver isto aqui nos bons tempos...

Berlim

A torre ao fundo é herança do regime comunista.

Berlim

Memorial aos judeus, bem perto do portão de Brandenburgo, no antigo lado oriental de Berlim. Não longe dali erguem-se modestos apartamentos residenciais, cujos alicerces tocam os bunkers onde Hitler costumava dar expediente.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

domingo, 28 de dezembro de 2008

Assim falou Roubini

(...) a maior bolha de ativos e crédito da história humana está se desfazendo agora, e as perdas totais de crédito devem se aproximar de atordoantes US$ 2 trilhões. Assim, a menos que os governos recapitalizem rapidamente as instituições financeiras, a compressão de crédito se tornará ainda mais severa, porque os prejuízos podem crescer mais rápido que a recapitalização e os bancos se verão forçados a reduzir créditos e empréstimos. Os preços das ações e de outros ativos de risco caíram acentuadamente ante seus picos do final do ano passado, mas existem outros riscos significativos de queda. Um consenso emergente sugere que os preços de muitos ativos de risco -entre os quais as ações- caíram tanto que chegamos ao fundo, e uma recuperação rápida ocorrerá. Mas o pior ainda está por vir. Nos próximos meses, as notícias macroeconômicas e os resultados de lucros e prejuízos das empresas de todo o mundo serão muito piores que o esperado, o que colocará mais pressão de baixa sobre os preços dos ativos de risco, porque os analistas de ações ainda estão se iludindo com a idéia de que a contração econômica será curta e amena. A compressão de crédito se agravará; a desalavancagem continuará, com fundos de hedge e outros agentes endividados forçados a vender ativos em mercados carentes de liquidez e perturbados, o que resultará em novas quedas de preços e levará mais instituições financeiras insolventes a quebrar. Algumas economias de mercado emergente certamente sofrerão crises financeiras graves. Assim, o ano que vem, de 2009, será um período doloroso, de recessão mundial e de mais desgaste financeiro, prejuízos e falências. Apenas ações de política agressivas, coordenadas e efetivas pelos países avançados e de mercado emergente poderão garantir que a economia mundial se recupere em 2010, em lugar de entrar em um período de estagnação econômica mais longo. Um bom 2009 para você também, Roubini!

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Papai Noel às Avessas

Papai Noel entrou pela porta dos fundos (no Brasil as chaminés não são praticáveis), entrou cauteloso que nem marido depois da farra. Tateando na escuridão torceu o comutador e a eletricidade bateu nas coisas resignadas, coisas que continuavam coisas no mistério do Natal. Papai Noel explorou a cozinha com olhos espertos, achou um queijo e comeu.

Depois tirou do bolso um cigarro que não quis acender. Teve medo talvez de pegar fogo nas barbas postiças (no Brasil os Papai-Noéis são todos de cara raspada) e avançou pelo corredor branco de luar. Aquele quarto é o das crianças Papai entrou compenetrado.

Os meninos dormiam sonhando outros natais muito mais lindos mas os sapatos deles estavam cheinhos de brinquedos soldados mulheres elefantes navios e um presidente de república de celulóide.

Papai Noel agachou-se e recolheu aquilo tudo no interminável lenço vermelho de alcobaça. Fez a trouxa e deu o nó, mas apertou tanto que lá dentro mulheres elefantes soldados presidente brigavam por causa do aperto.

Os pequenos continuavam dormindo. Longe um galo comunicou o nascimento de Cristo. Papai Noel voltou de manso para a cozinha, apagou a luz, saiu pela porta dos fundos.

Na horta, o luar de Natal abençoava os legumes.

Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira do Mato Dentro - MG, em 31 de outubro de 1902. De uma família de fazendeiros em decadência, estudou na cidade de Belo Horizonte e com os jesuítas no Colégio Anchieta de Nova Friburgo RJ, de onde foi expulso por "insubordinação mental".

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Volta ao criacionismo

Editorial da Folha de S. Paulo, de hoje: NO BRASIL como em outros países, observa-se uma crescente pressão de determinadas comunidades religiosas para aumentar a influência sobre o ensino. A face mais visível da investida está na reivindicação de que a mal denominada "teoria" criacionista seja ministrada lado a lado com a teoria da evolução por seleção natural. Sob o argumento de que Charles Darwin (1809-1882) não explicou tudo sobre o mundo natural e por isso sua teoria não teria comprovação definitiva, defende-se o ensino da alternativa: uma inteligência superior teria criado o mundo com todas as espécies conhecidas. Há poucos conjuntos de proposições sobre a natureza que encontram tanta corroboração em fatos quanto a teoria da evolução. Sua versão conhecida como Síntese Moderna agregou as descobertas da genética à matriz do pensamento darwiniano e se encontra na raiz do enorme desenvolvimento das ciências biológicas durante o século 20. Ao criacionismo falta apoio empírico minimamente comparável. Apesar disso, alguns estabelecimentos brasileiros com orientação religiosa ensinam a criação divina até em aulas de biologia, física e química. A justificativa está numa noção de pluralismo que não tem cabimento no ensino de ciências. A obrigação do professor dessas disciplinas é apresentar a seus alunos o conhecimento mais atual e seguro, com apoio em observações e medições. É um equívoco atribuir o mesmo status a coisas tão díspares. De um lado, uma teoria aperfeiçoada e corroborada ao longo de 150 anos de estudos; de outro, uma narrativa religiosa, apoiada sobre a autoridade bíblica e recusada pela maioria dos cientistas. O equívoco maior, contudo, é não restringir o ensino do criacionismo às aulas de religião, permitindo que seja ministrado em ciências. Essa atitude solapa, na formação das crianças, os fundamentos do método científico. Apontar a incongruência entre criacionismo e ciência, no entanto, é o máximo que o poder público tem a fazer nesses casos. Se a opção dos pais, consciente, recair sobre uma escola religiosa privada que ministre o criacionismo, inclusive em ciências, essa é uma esfera de decisão imune à intervenção do Estado. A Bíblia faz afirmações ambiciosas, totais, sobre o mundo, assumindo a cosmogonia do contexto em que redigida. Exatamente como as outras grandes mitologias de então, a Bíblia tem hoje mero valor literário, que reputo modesto. O que me agasta é sua moralidade (não me detive ante a autoridade de Homero, por esse mesmo delito, lembro). O mundo foi criado em seis dias? Foi. E não. Certo. O que preocupa é o duplipensar inerente ao discurso criacionista.