sexta-feira, 12 de abril de 2013
sexta-feira, 29 de março de 2013
Manias
Fabrício Carpinejar (Zero Hora, 24/03/13):
Toda mulher elegante preserva um altar brega dentro do armário. Conserva uma gaveta onde guarda recortes de jornais e revistas, cifras de músicas, coleciona souvenires.
Se ela não tem um santo bagaceiro, a situação é ainda mais grave: ela é completamente brega. Ter unzinho previne outros. (...)
A razão não vai fazer diferença. Os debates não pousarão em lugar algum. O ídolo está guardado em um esconderijo emocional ignorado, num cativeiro amoroso sigiloso, sem acesso pelas estradas da linguagem.
Hum! Mas se um dia eu chegarMuito estranho...
quarta-feira, 27 de março de 2013
Dawkins, Dennett, Sam Harris e Hitchens
Folha - Deus existe?
Richard Dawkins - Nós não sabemos se
fadas existem. Nós não levamos a sério a existência do deus nórdico Thor, ou de
Zeus, ou de Dionísio ou de Shiva.
Até que tenhamos sérias evidências de que algum deles existiu ou exista, não perdemos tempo com isso. Por que deveria ser diferente com o Deus cristão ou com o judeu ou com o muçulmano?
Folha - E quanto ao que não conseguimos explicar?
Não vem daí uma das "necessidades" da religião e da crença no
"sobrenatural"?Até que tenhamos sérias evidências de que algum deles existiu ou exista, não perdemos tempo com isso. Por que deveria ser diferente com o Deus cristão ou com o judeu ou com o muçulmano?
Eu gostaria que as
pessoas não fossem preguiçosas, covardes e derrotistas o suficiente para dizer:
"Eu não consigo explicar, portanto isso deve ser algo sobrenatural".
A resposta mais correta e corajosa seria: "Eu não sei ainda,
mas estou trabalhando para saber".
sábado, 16 de março de 2013
Ceviche em Lima
Um disco amarelo ultima a tarde sobre Lima.
O ceviche visitou delícias peruvianas.
Daqui a pouco saio para Quito,
depois, quem sabe?
O sol desiste do dia,
entrega-nos ao descanso.
O ceviche visitou delícias peruvianas.
Daqui a pouco saio para Quito,
depois, quem sabe?
O sol desiste do dia,
entrega-nos ao descanso.
sexta-feira, 15 de março de 2013
Viagens
Planejo a próxima viagem.
Pretendo vertiginosos raids sobre as
ilhas Cook, Sociedade, Tuamotu e Marquesas (além de Páscoa), todas no Pacífico
sul. Convoquei agentes de viagem em cinco milhões de quilômetros quadrados, que me
dizem:
– E para que você precisa de tanta ilha? Escolha duas,
ou três, não mais. Não gostamos de corsários!
O que lhes digo é:
– Para as ilhas! Depressa! Hei, irmão, vê se não
economiza nas ilhas aí, meu velho! Me vê um atol espaçoso e bem ventilado! Essa
banquisa, que você me indicou, você não mandaria sua sogra para lá, mandaria?
Ligou-me a Moira, de Papeete. Disse
que não pode ser; que a maioria das ilhas requisitadas não admite turistas, e
menos ainda quem não fala francês e o idioma local. Pimpão, lembrei-lhe que, além do francês,
ignoro o inglês e todas as línguas do Pacífico. E meu portunhol costuma ser
bastante criticado, devido ao estilo (pimpão). Ela me lembrou que a prática
canibal não foi complemente esquecida em muitos desses parcéis...
Esses caras... Nem me conhecem e
já estão morrendo de raiva de mim.
Seja como for, são grandes as expectativas.
quarta-feira, 13 de março de 2013
Laranjeira
Esta é a história
mais simples que consegui imaginar. Não é a melhor, nem a mais sofisticada.
Coisas complexas me ocorreram, mas eram fraudes. Então conto essa historinha,
tão singela, não fora alguns truques que acrescentei na madrugada febril.
Ilíquida anda-me
essa história, indecisa em seu enredo. Não quero acrescentar detalhes outros
que não os estritamente necessários ao seu funcionamento. É uma história, como
direi, despretensiosa, feliz em si, comunicante: resolvida.
Muito diversa das
histórias que ando lendo, de multiversos e outras intoleráveis repetições e
pequenas variações do nosso mundo, tão afim com nossas ambições de
simplicidade.
Não, minha
historia é singela, alheia a intervenções divinas, cataclismos, hecatombes
nucleares, terroristas formulando políticas públicas de ensino. Não vou
retratar a comunidade de inteligência, as mesas de operação dos bancos
centrais, a ponte de comando de um porta-aviões, o fundo dragado do mar.
Minhas
personagens, cegas, são duas criaturas de amor que a carne finalizou em formas
femininas. Eram mãe e filha, caminhando rumo à escola para cegos, onde a filha
estuda.
Iam felizes suas
bastantes vidas, de humanos, de pessoas poupadas da ambição desagregadora. Iam
respirando o ar de laranjeira após uma chuva delicada e operosa, finda havia
pouco. Constituíam a unidade familiar e tiravam insuspeitados empregos do
perfume do ar, do olor que a gostosa umidade oferecia, decorosa.
Não eram ricas,
não estavam com suas vidas garantidas, essas criaturas, mas viviam satisfeitas,
haurindo o presente de cada dia que a madrugada traz embrulhado e a aurora já
revela.
Eram mãe e filha,
uma família, e se queriam. Essa é a historia mais simples e feliz que me
ocorreu, e não quero fatigar sua precária maquinaria com tolices.
segunda-feira, 11 de março de 2013
domingo, 10 de março de 2013
Horas
Horas demoras oras
boquirrotas
pessoas
horários
desmaiados
pedem
espaço, fugas.
O
horizonte aos poucos fendido
numa
cortina escura de nuvens;
as
árvores dos altos da Afonso Pena
intentam
dedos verdes ao vento.
A
cortina aos poucos esvaziando a visão
e seu
discurso auto-referente.
Transidas
árvores do parque
na
comunhão do orvalho estival.
As
pessoas não param para ver a chuva
seu
diálogo com o imêmore ambiente.
Árvores
móveis, as pessoas
não homenageiam
a chuva,
precipital
fonte do verde.
Apanho
esse transporte,
na
estação que finda,
mas
quase não vou.
Vi
chuvas chegarem e irem
sem
entender seu delíquio.
Somos
uma e mesma perda
– que
frutifica.
Que farei?
Que farei, só comigo?
Oscila o tempo. Visito uma flor, descanso. O passo,
tardamundo, ameaça errar. Estarão me esperando? Terão paciência?
Consultadas, as setas da vida cabriolam, empostam e mentem,
provendo uma história, um conto.
As bossas se esvaem, tardonhas. Algumas tardes são
alcançadas; pedem resgate.
Que farei só, comigo?
Emiti alguns poemas, que as flores enviaram. Fundeado nas
imediações da realidade, espero o porto, além. A dispensação do mar encapela o
coração.
sexta-feira, 8 de março de 2013
O cérebro imperfeito
Dean Buonomano, na mesma linha de Kahneman, Dan Ariely e outros descreve como as
limitações do cérebro influenciam nossa vida e moldam a percepção que temos do
real.
O
cérebro é uma rede com 90 bilhões de neurônios conectados por 100 trilhões de
sinapses, que passou por um incremento nos últimos 200 mil anos, com adição da última
camada de material processante: o neocórtex, cujos neurônios podem ter 10.000
conexões cada um (média de 1.000), contra 10 de outras partes menos "badaladas".
Um neurônio do neocórtex interage de forma massiva, participando de inúmeras
redes simultaneamente. Mas os neurônios e
as sinapses mudam à medida que aprendemos, e suas propriedades, por sua vez,
determinam quem somos e como nos comportamos - os programas que o cérebro roda.
(pág. 13)
Assim,
neurônios e sinapses são nosso software. Até que ponto o sistema operacional neural, estabelecido pela evolução,
está bem sintonizado com o mundo
digital, sem predadores, com excesso de açúcar, cheio de efeitos especiais,
cercado de antibióticos, saturado pela mídia e densamente povoado? Nossa
mente foi moldada e evoluiu para lidar com a escassez, não com o excesso
hodierno. Não reconhecemos a natureza estatística do mundo, e estamos alheios
aos fatores irracionais e arbitrários que governam nossas decisões e
comportamentos.
Você,
senhor leitor, domina leitura labial? Agarantcho que sim, apesar de não se dar
conta. Leitura labial é parte inseparável da comunicação verbal, praticada
inconscientemente por todos, desde bebês.
Efeito
priming: um estímulo prévio pode facilitar [e induzir] o processamento subsequente de outros estímulos. Envolve memória
implícita, inconsciente. Exemplifico:
1.
Em que continente fica o Quênia?
2.
Quais as duas cores opostas no jogo de xadrez?
3.
Diga o nome de um animal.
20%
das pessoas respondem zebra, quando,
sem indução, seriam menos de 1%. O conhecimento é armazenado de forma
associativa: conceitos relacionados
(...) estão ligados entre si. A primação afeta tudo em nossa vida, até
nossos sonhos, dado o trabalho associativo da memória.
Explícita,
ou declarativa, é acessada por
lembrança consciente ou descrição verbal. Podemos simplesmente declará-la.
Capital do Brasil: Buenos Aires. Da Austrália? Sydney, e não se fala mais nisso.
Andar
de bicicleta, tocar violino ou saber uma senha somente ao teclado (padrão
motor) são demonstrações de memória implícita, não declarativa. Qual letra está à esquerda do J no teclado qwerty? Não sabe? Então como consegue
digitar hesitar, hein? Aposto que você nem sabia que sabia (temos um teclado
armazenado na memória implícita).
O cérebro humano armazena conhecimento factual sobre o mundo de forma relacional. (...) um item é armazenado em relação a outros, e seu significado deriva dos outros itens aos quais está associado, diz o autor.
Como
a memória está fisicamente armazenada
no cérebro? Através de padrões de disparos, ou seja, da plasticidade sináptica. Deve ficar claro que o armazenamento
envolve populações, e não neurônios isolados,
e que a plasticidade sináptica
associativa (neurônios que disparam juntos) formam a base da memória
semântica. (...) memória e significado
estão entrelaçados: os links são tanto o de memória quanto o de significado.
Notem que as operações de registro e leitura da memória são independentes: o ato de recuperar uma memória pode alterar
seu conteúdo, sobrescrevendo registros. O recuperar memória submete-se à
lógica do contágio.
Assim,
mesmo após os neurônios que representam "pão" silenciarem, os
neurônios continuam a sussurrar para seus parceiros, e instala-se incontrolável
algazarra café com pão café com pão café
com pão por alguns instantes, mesmo antes do surgimento em cena do triunfante
café (efeito primação). Seu cérebro
tentará, sempre, antecipar o que vem a seguir.
- Como está sua memória?
- Costuma parecer-se com o esquecimento, mais ainda encontra o que lhe pedem. Estou estudando anglo-saxão e não sou o último da classe. Borges, O Outro, Livro de Areia.
A
ilusão do corpo.
Oliver
Sacks conta o caso do homem que, tendo sofrido derrame, ao acordar no hospital
encontrou uma perna sem corpo em cima de sua cama. Avesso a brincadeiras,
jogou-a pra fora da cama, indo parar no chão. A perna era dele.
Síndrome
do membro fantasma e somatoparafrenia
(a condição acima) são imagens espelhadas da mesma incapacidade de sentir o
próprio corpo. Numa, a pessoa sente um membro inexistente; na outra, nega a
existência de um membro em perfeito estado. Em outra estranha condição, a
pessoa sente um membro saudável (do joelho pra baixo, por exemplo), e o repudia
a ponto de exigir sua amputação. Mais estranho ainda, sentem-se melhor sem ele.
Ao
contrário do que poderíamos pensar, membros fantasmas não são ilusões. A sensação de nossos membros reais é que é uma
ilusão. Seu corpo está representado ponto a ponto dentro do crânio, de
acordo com regras de primazia cortical. A projeção desse corpo que você conhece
é um truque imodesto de nosso cérebro. Os
membros fantasmas representam apenas a ilusão normal do corpo que deu errado
porque a sensação é projetada para um membro que não existe mais. As áreas
do cérebro responsáveis pelo membro perdido não recebem a informação que o
corpo mudou e, à semelhança do soberano que, por ignorância, continua a
"governar" parte já perdida de seu império, persiste em gerar a
ilusão inalterada do corpo que já não corresponde.
Zumbido
no ouvido também pode ser descrito assim. As preciosas células ciliadas da
cóclea morrem (por uso de certos medicamentos, ou ruído excessivo, por exemplo),
privando o correspondente córtex auditivo de sua fonte de estímulo. Essa área
pode ser capturada por regiões auditivas contíguas e ficar para sempre
reproduzindo o lucilar dos neurônios vizinhos. Prenota-se que a perda auditiva
associada em geral corresponde à frequência dos ruídos.
Mais
bizarra é a síndrome da mão alienígena:
o membro adquire um "novo dono", com planos secretos e alterados. A
mão alienígena desabotoa a camisa que a mão normal se esforça por abotoar, para
perplexidade e frustração de seu dono: "Não sei o que minhas mãos estão
fazendo. Não estou no controle". O membro alienígena exibe vontade própria
e, para a mortificação de seus donos, quer participar: "Se ao menos eu soubesse
quem está puxando meu cabelo..."
A
síndrome de Capgras pode ser hilária,
principalmente se você não a sofre. A vítima pode reconhecer que sua mãe se
parece muito com sua mãe, mas insiste que ela é, na verdade, alguém que finge ser sua mãe. Alguns pacientes
Capgras sustentam que a pessoa que acena do fundo do espelho é um ardiloso
impostor. Já passei por isso, embora tenha renunciado a atacar o vil trapaceiro.
Muito
em função do funcionamento modular do cérebro, os sintomas sugerem danos às
áreas que ligam reconhecimento facial à importância emocional. Na ausência de
qualquer sentimento de afeto ou familiaridade com o rosto conhecido, o paciente
conclui que se trata de um charlatão, conclusão só reforçada pelas extremadas
demonstrações afetivas do suposto embusteiro.
Fechando,
o piloto automático de um avião pode saber
a posição do trem de pouso, flaps e ailerons mas, ao contrário do cérebro, não pode
senti-los. E quando essa consciência
do corpo falha, o resultado pode ser uma das síndromes acima.
Consciência
e distorções.
Somente uma pequena parte desses
estímulos [informações sensoriais] chega à consciência, e as que conseguem são muito processadas. Algumas
coisas são editadas; outras, retocadas ou reconstruídas por completo - o que
percebemos em nível consciente é, em essência, um pacote do departamento de
marketing.
Leitura,
por exemplo. Inconscientemente você junta palavras e expressões. Conscientemente,
apreende o significado da frase em pontos fundamentais. A própria consciência é
ilusória; ela não é um relato contínuo
on-line de eventos que ocorrem no mundo, mas uma construção após o fato, o que
exige cortar, colar e atrasar blocos de tempo antes de criar uma narrativa
agradável dos eventos externos.
Medo.
O medo, como se sabe, é um dos fundamentos dos governos: "Para os Estados
Unidos, não haverá retorno à (...) era de falso conforto em um mundo perigoso."
Baby Bush, 2003.
Nos
EUA, entre 1995 e 2005 tivemos 3.200 mortos em ataques terroristas; 400 mortos
por raios; 7.000 fatalidades associadas ao clima; 180.000 assassinatos; 300.000
suicídios e 450.000 mortes no trânsito. Ninharia, comparados com 1.000.000 de
mortes reivindicadas pelo cigarro e 6.000.000 associadas a doenças cardíacas.
Guerra
ao terror? Ao custo de, ao menos, U$D 5.000.000.000.000? A indústria de armas
está rindo da sua cara. Somos cegos para os verdadeiros perigos, e para a
manipulação mais descarada. Bush
sequestrou o medo coletivo para que ele e os seus ganhassem. Verdadeira
política da amígdala.
O
vírus da raiva, por exemplo, manipula o comportamento de seu hospedeiro, de
modo a infectar outros com a maior eficácia possível. O Toxoplasma gondii manipula o comportamento dos ratos, que perdem o
medo e rapidamente migram para a boca dos gatos, hospedeiro necessário para a
reprodução do protozoário.
(...) nossas ações parecem resultar de negociações entre as áreas cerebrais mais antigas, como a amígdala, e os módulos frontais mais novos. Juntas, essas áreas podem chegar a algum consenso em relação ao compromisso apropriado entre emoções e razão, tema desenvolvido por António Damásio.
O
número de conexões que saem da amígdala em direção às áreas corticais é maior
do que na direção inversa: a amígdala possui influência maior sobre o córtex do
que o contrário. A estimulação emocional pode dominar o pensamento.
Concluo,
a respeito do medo irracional. Em 2007, penúltimo ano de Bush, o orçamento
militar foi de U$D 700 bilhões, sendo destinados míseros U$D 2 bilhões para
estudar e curar doenças cardíacas. Há algo de errado quando 2.800 pessoas são
infinitamente mais importantes que 6 milhões!
Raciocínio
irracional. O inconsciente.
Nossa
mente consciente, em geral, justifica decisões que já haviam sido tomadas por
forças desconhecidas. Somos
criaturas dependentes do contexto.
Você
é um idiota!
O valor dessa frase depende de quem a profere:
a) você mesmo; b) seu melhor amigo; c) seu chefe; d) um estranho. O contexto é
a chave interpretativa.
Os
dois sistemas, de Kahneman, foi assim
descrito pelo autor: o sistema automático
é aquele que pensamos ser nossa intuição e é inconsciente, rápido, associativo
e sem esforço. Ele é muito sensível ao contexto e às emoções, ansioso por tirar
conclusões precipitadas, e tem alguns desvios e hipóteses preconcebidas. (...)
O sistema reflexivo é lento, e requer
esforço e pensamento consciente. É
flexível e ponderado.
Responda
rápido (não vale consultar): o que as vacas bebem?
a)
leite (sistema automático)
b)
água (sistema reflexivo).
Você
acabou de ganhar 50 pratas, num experimento. Pergunto: você prefere FICAR com
49% ou PERDER 49% desse dinheiro? Hein?
Essas pegadinhas ilustram a relação entre primação comportamental, efeito de enquadramento e ancoragem: a propagação da atividade entre grupos de neurônios representando conceitos associados, emoções e ações. O priming implanta uma forma de sensibilidade ao contexto.
Dean sintetiza a distinção de Kahneman (p. 155):
As decisões que moldam nossa vida resultam de dois sistemas bem complementares. O automático é rápido e inconsciente, e se baseia, em grande parte, na arquitetura associativa do cérebro. Esse sistema é o mais emocional e atende quando as coisas soam boas ou ruins, justas ou injustas, razoáveis ou arriscadas. O segundo, o sistema reflexivo, é consciente, requer esforço e está em sua melhor situação quando é beneficiado por anos de prática e aprendizado. O sistema automático em geral requer a tutela do sistema reflexivo. O automático tem como principal função fornecer o contexto necessário para nossas decisões e, pelo fato de a sensibilidade ao contexto ser inconsciente e estar no núcleo de nosso hardware neural, ela é um recurso difícil, senão impossível de desligar.
Bugs da publicidade.
A
partir de 1929 a indústria do tabaco conseguiu associar o vício do fumo, até
então uma atitude mal vista entre as mulheres, ao movimento feminista. Cigarro
passou a ser a “tocha da liberdade” (SIC). Até os anos 1950 os médicos
apareciam nos anúncios de cigarro, jurando que o vício era saudável. A
indústria nunca pagou por esses crimes contra a humanidade.
Hoje
convivemos com a publicidade massacrante do álcool, que atinge principalmente
adolescentes; propaganda política simplória continua a saturar a mídia,
promovendo políticos que, bem, você sabe.
Bug sobrenatural.
Pascal
Boyer, citado pelo autor: “os conceitos e atividades religiosas sequestraram
nossos recursos cognitivos”. Uma característica da mente facilmente cooptável é
considerar a existência de um agente, mesmo quando não há. A religião, muitas vezes, dota de mente, vontade e
intenções objetos inanimados, animais e construções etéreas que chamamos deuses.
Serão
os antigos e ociosos mitos religiosos adaptativos?
Sobre
o surgimento e esquecimento interminável de deuses, considere Hitchens, leitor:
“o que pode ser afirmado sem provas também pode ser rejeitado sem provas”. A ciência não deve perguntar se os deuses
existem, mas por que eles existem em nosso cérebro.
Dean conclui a obra: habitamos simultaneamente várias localizações dentro do continuum irracional-racional.
quarta-feira, 6 de março de 2013
Rápido e Devagar
Então temos o livro de Kahneman. Não
sei que dizer ante o calhamaço: 500 páginas, fora os apêndices, alentados.
Pra
começar, realmente acreditamos saber o que se passa em nossa mente; achamos que
um pensamento consciente leva ordenadamente a outro, mas esse não é o caso na
maioria das vezes: impressões, pensamentos e atitudes surgem em nossa
consciência "do nada", e muita vez sequer são percebidos.
Pediu-se a pacientes cegos, com danos ao córtex visual,
que identificassem círculos ou quadrados numa tela. Acertaram em média 50%,
índice de escolhas aleatórias. Em outro experimento, os pacientes deveriam
dizer se a face mostrada era amiga ou inimiga, o que foi identificado
corretamente em dois terços dos casos. Milagre? Chute? Não, aparentemente.
A
área fusiforme (especializada em
reconhecer rostos), intacta, estava analisando e julgando, inconscientemente,
os rostos mostrados, embora o córtex visual estivesse inativo (abstraio a
guerra entre localizacionistas e o
pessoal das redes dinâmicas – Nicolelis
e outros –; bem como a teoria das ilhas
de visão como explicação para o fenômeno). Blindsight, ou visão cega, é o termo para essa condição, largamente
conhecida: conscientemente a pessoa está cega – mas partes do cérebro ainda
enxergam, e julgam.
Segundo
a nova abordagem do inconsciente (Ran Hassim, da Hebraica de Jerusalém, entre
outros), os processos conscientes podem não passar de 5% da atividade mental
(para Gazzaniga, seriam 2%). Tudo o mais é inconsciente. Falar, por exemplo:
você não cata as palavras uma a uma. Simplesmente experimenta o fluxo de
ideias, e sua mente as recobre de palavras e gestos. Um segundo idioma
exemplifica o esforço inglório para tornar automático um vasto sistema de
mistérios.
“O que nos faz felizes?” rendeu
oportunidade de enfiar o pé na jaca, como visto. Retomo de onde parei, com Rápido e Devagar - duas formas de pensar,
de Daniel Kahneman, Nobel de economia em 2002, professor de Princeton.
O livro centra fogo nos vieses de intuição, origem de erros
sistemáticos que se repetem de forma previsível. Você acredita saber o que se
passa em sua mente, mas, diga, como detecta irritação na voz de alguém ao
telefone, ao final de três palavras? E como evita a colisão iminente, se age
antes de entender a ameaça? E o problema não se resume a memórias não declarativas, como veremos,
com sorte.
Vieses de intuição e heurísticas de
julgamento são dois dos objetos conceituais trabalhados na obra, que
persegue nominalmente três distinções: entre os eus experiencial e recordativo,
entre a concepção dos agentes nas economias clássica e comportamental e entre o
automático Sistema 1 e o oneroso Sistema 2.
I.
Começo pelo último. Dois sistemas. Rápido e devagar. Metáforas de agência, qual
o ganho?
Definamos:
Sistema 1, rápido, intuitivo, é mais
influente do que sua experiência lhe diz que é; e é o autor secreto de muitas
das escolhas e julgamentos que você faz. Sim, você. Seu âmago é a memória
associativa; está habilitado a construir uma interpretação coerente do que está
acontecendo a qualquer instante (parte desse sistema, sediado no hemisfério
esquerdo do cérebro, é o que chamaríamos "programa gerador de conversa
fiada", e seus produtos são encontradiços em horóscopos e papers de consultores de mercados, por
exemplo). Ele pode pensar muitas coisas ao mesmo tempo, desde que rotineiras, já subjugadas pelo
aprendizado; sustenta invencível desavença com os exigentes raciocínios
estatísticos.
De
uma vez por todas, vou exemplificar, seguindo o autor:
17 x 24 =
Seguinte: você detectou rápido o problema, descartou
automaticamente 12.609 e 123, por improváveis, mas não se deu ao trabalho de
calcular. Até aí, Sistema 1. Se precisasse, calculava metodicamente e obteria o
produto. Note que para algumas pessoas a resposta surgiria espontânea, devido a
exaustivo treinamento, como rotina incorporada ao Sistema 1. Para o resto de
nós, o resultado dependeria de papel, lápis e o concurso de regras de
aritmética básica (ou uma calculadora). Repare no trabalho mental: deliberado,
laborioso e aparatado = Sistema 2.
Agora
preste atenção:
2
x 2 =
Não está em nosso poder deter a resposta, da mesma
forma que a visão, ainda que rápida, de um rosto humano irado, ou sorrindo, ou
chateado produz imediato e involuntário diagnóstico de ordem psicológica. Essa
aferição ocorre toda vez que vemos um rosto, ainda que não nos demos conta, nem
nos importemos.
Temos,
pois (classificação de Stanovich e West, utilizada pelo autor):
Sistema
1: opera automática e rapidamente, com
pouco ou nenhum esforço e nenhuma percepção de controle voluntário.
Sistema
2: aloca atenção às atividades mentais
laboriosas que o requisitam, incluindo cálculos complexos. As operações do
sistema 2 são muitas vezes associadas com a experiência subjetiva de atividade,
escolha e concentração.
Identificamo-nos
com o sistema 2, o eu consciente,
raciocinador, que tem crenças, faz escolhas e decide o que pensar e o que fazer.
E, contudo, é o Sistema 1 o faz-tudo silencioso (embora sujeito a vieses), originando sem esforço as impressões e
sensações que são as principais fontes das crenças explícitas e escolhas
deliberadas do Sistema 2 (nosso eu,
portanto).
O
sistema 1 é quem dirige o carro por uma rua vazia; compreende sentenças
simples; detecta hostilidade em uma voz; lê palavras em grandes cartazes;
encontra um movimento decisivo no xadrez e executa os mais ousados e
maravilhosos movimentos ao piano ou cello,
se você estudou o suficiente (e, portanto, acumulou memórias não declarativas). Suas capacidades incluem habilidades inatas que compartilhamos com outros animais.
Memória é atributo do Sistema 1, máquina
associativa que representa a realidade por um complexo padrão de ligações.
O
controle da atenção, contudo, é compartilhado pelos dois sistemas.
É
próprio do Sistema 2: manter velocidade de caminhada mais rápido que o normal;
monitorar a conveniência de seu comportamento numa festa; professar um número
de telefone; preencher declaração de imposto de renda; dirigir no "lado
errado" da via, como os ingleses; verificar a validade de um argumento
lógico complexo.
O
Sistema 2 vive no confortável modo "só me chame quando não souber o que
fazer", com uma fração de sua capacidade em uso. O Sistema 1 gera continuamente sugestões para o Sistema 2: impressões,
intuições, intenções e sentimentos. Se endossadas pelo Sistema 2, impressões e
intuições se tornam crenças, e impulsos se tornam ações voluntárias, diz o
autor, sintetizando a interação entre os dois.
O
Sistema 2 é chamado quando surge uma questão para a qual o Sistema 1 não tem
resposta; quando se detecta um evento que
viola o modelo de mundo mantido pelo Sistema 1. A maior parte do que você (seu Sistema 2) pensa e faz origina-se de seu
Sistema 1, mas o Sistema 2 assume o controle quando as coisas ficam difíceis, e
normalmente ele tem a última palavra (p. 34).
A
divisão de trabalho entre os sistemas minimiza o esforço e otimiza o
desempenho.
O
arranjo lembra as demais soluções de compromisso do organismo: alargamento da
pélvis das mulheres versus menor
capacidade craniana dos bebês; dispendiosos dois rins e dois pulmões, versus morte no caso de falha de um
deles e todo um universo de trade-offs
angustiantes. Funciona, em regra, mas o Sistema 1 exibe vieses: tendência a erros sistemáticos em circunstâncias
específicas. Propende a responder pergunta diversa da que lhe foi endereçada, e
se ressente de lógica e estatística.
E
não pode ser desligado, gerando inúmeras oportunidades de conflito com o
Sistema 2, e seu custoso mecanismo de razão, lógica e autocontrole. Experimente
não olhar a pessoa vestida de modo excêntrico, ou forçar sua atenção num livro
de direito. Não consegue? Está tudo bem, não precisa ficar assim.
Feita
a distinção (aos trancos e barrancos), transitemos pelas ideias mais
representativas, colhidas aqui e ali, no afã de conferir significado à
distinção proposta.
1.
O Sistema 1 exerce maior influência no comportamento quando o Sistema 2 está ocupado:
ficamos menos dispostos (ou capazes) de exercer autocontrole, no chamado esgotamento do ego. Suprimir reações
emocionais cobra seu preço, que inclui: reagir agressivamente a provocação, ser
impulsivo, sair-se mal em tarefas cognitivas e de tomadas de decisão.
Exercer
autocontrole é exaustivo e desagradável. Exige atenção e esforço. Controlar
pensamentos e comportamentos é uma das tarefas do Sistema 2.
2.
Efeito ideomotor: uma ideia influencia ações. Nossas ações e emoções podem ser primadas (efeito priming) por eventos dos quais nem sequer temos consciência: a maior parte do trabalho do pensamento
associativo é silencioso, oculta-se de nossos eus conscientes.
3. O mundo faz muito menos sentido do que você
pensa. A coerência deriva principalmente do modo como sua mente funciona.
Da mesma forma como visão tridimensional é construção permanente do cérebro:
dispendiosa, não existe fora de nossas mentes.
É
fácil confundir familiaridade com verdade. Conforto cognitivo (derivado de
prévia exposição, consciente ou não) predispõe a crenças. Ainda que a
familiaridade seja inconsciente: é possível estabelecer uma senha simplesmente
tornando familiar uma ordem oculta de símbolos dissimulados numa sequência
aleatória. A memorização fica por conta do padrão velado, e será inconsciente.
Familiaridade engendra apreço, que pode ser mero efeito da exposição. Conforto
cognitivo prediz crenças, como bem sabem os clérigos.
4.
Religião e sistemas. (...) nossa
prontidão nata de separar causalidade física e intencional explica a quase
universalidade de crenças religiosas. [Paul Bloom]: "percebemos o
mundo dos objetos como essencialmente separado do mundo das mentes, tornando
possível para nós conceber corpos sem alma e almas sem corpo". Os dois modos de causação que estamos
ajustados para perceber tornam natural para nós aceitar as duas crenças
centrais de muitas religiões: uma divindade imaterial é a causa última do mundo
físico, e almas imortais temporariamente controlam nossos corpos enquanto
vivemos (...). A religião, e suas verdades estabelecidas pela
"autoridade", deixa-se surpreender no Sistema 1. Incerteza e dúvida
são domínio do Sistema 2.
5.
Máquina de tirar conclusões precipitadas e o viés da confirmação. Gilbert, alguma vez resenhado, sustenta que a compreensão de uma afirmação deve começar
com uma tentativa de acreditar nela: a pessoa deve primeiro saber o que a ideia
iria significar se fosse verdadeira. Ele vê a descrença como operação do Sistema 2, o que explica quão custosa,
em oposição à crença, automática e preguiçosa. Desacreditar é um trabalho árduo, e o Sistema 2 se cansa facilmente
(p. 345).
Daí,
a propósito de um experimento: A
perturbação do Sistema 2 tinha um efeito seletivo: tornava difícil às pessoas
"desacreditar" de sentenças falsas. (...) os participantes esgotados acabavam pensando que muitas das falsas
sentenças eram verdadeiras. A moral é significativa: quando o Sistema 2 está
mais empenhado em tudo, somos capazes de acreditar em quase qualquer coisa. O
Sistema 1 é crédulo e propenso a acreditar, o Sistema 2 é encarregado de
duvidar e descrer. As pessoas são mais propensas a embarcar em canoas
furadas com o Sistema 2 sobrecarregado, com o ego esgotado, deprimido. O viés confirmatório favorece a aceitação
acrítica de sugestões e o exagero da probabilidade de eventos extremos e
improváveis [como os milagres].
6.
O que você vê é tudo que há: evidência escassa (WYSIATI). Trata-se de um viés
de julgamento e escolha que explica por que saber
pouco torna tão fácil ajustar tudo que você sabe em um padrão coerente (e
ilusório). Coerência e conforto cognitivo nos dizem por que podemos pensar com rapidez e como somos capazes de extrair sentido de
uma informação parcial em um mundo complexo. WYSIATI explica: i)
superconfiança (nosso sistema associativo
tende a se acomodar em um padrão coerente de ativação e de dúvida e ambiguidade
suprimidas); ii) efeitos de enquadramento e iii) negligência com a
taxa-base. Formamos julgamentos intuitivos acerca de coisas sobre as quais
pouco sabemos, ou com base em amostras exíguas.
7.
Apresento agora um drama: você muitas
vezes tem respostas para perguntas que não compreende completamente,
apoiando-se em evidências que não é capaz de explicar, nem de defender.
Fazemos isso substituindo a pergunta complexa por outra, não necessariamente
mais simples, porém mais familiar, e julgamos ter dado resposta apropriada.
Quando as pessoas são obrigadas a julgar probabilidade,
em regra julgam alguma outra coisa,
acreditando terem tratado a probabilidade satisfatoriamente. À pergunta:
"o quanto você está feliz com sua vida?" respondemos, em geral:
"qual é meu humor no momento?”; "qual será a popularidade do
presidente daqui a seis anos?", respondemos: "qual a popularidade do
presidente agora?".
No contexto das atitudes (...) o Sistema 2
age mais como um defensor para as emoções do Sistema 1 do que como um crítico
dessas emoções - ele mais endossa que impõe. Sua busca por informações e argumentos
está na maior parte restrita à informação que seja consistente com crenças
existentes, não com uma intenção de examiná-las.
Síntese
do Sistema 1: gera impressões, sentimentos e inclinações que, quando endossados
pelo Sistema 2, tornam-se crenças, atitudes e intenções; gera intuições
especializadas, após treinamento adequado; liga conforto cognitivo com ilusões
de veracidade, sentimentos prazerosos e vigilância reduzida; infere e inventa causas e intenções; negligencia
ambiguidades e suprime dúvidas; foca na (escassa) evidência existente e ignora
a (enorme) evidência ausente (WYSIATI); exibe aversão a perdas e confere peso
excessivo a probabilidades baixas.
Os
seguintes excertos vêm ao encontro:
(...)
sustentar uma dúvida é um trabalho mais
árduo do que passar suavemente a uma certeza. (...) tendemos a exagerar a consistência e a coerência do que vemos. O Sistema 1 se antecipa aos fatos ao
construir uma imagem rica com base em fragmentos de evidência. Uma máquina de
tirar conclusões precipitadas agirá como se acreditasse na lei dos pequenos
números [amostras insuficientes para sustentar conclusões]. (...) vai produzir uma representação da realidade que faz sentido demais. O
maquinário associativo procura causas. (...) somos ávidos por padrões, temos fé em um mundo coerente, em que as
regularidades (...) não aparecem por
acidente, mas como resultado de uma causalidade mecânica ou da intenção de
alguém. (...) terminamos com uma
visão do mundo em torno de nós que é mais simples e mais coerente do que os
dados justificam.
Previsões
intuitivas são quase completamente
insensíveis à qualidade preditiva real da evidência. Tendem a ser
superconfiantes e extremadas. Previsões
extremas e tendência a prever eventos raros com base em evidência fraca são
ambas manifestações do Sistema 1. (...) é
natural para o Sistema 1 produzir julgamentos superconfiantes, pois a confiança
(...) é determinada pela coerência da
melhor história que você é capaz de contar a partir da evidência disponível.
(...) suas intuições produzirão previsões
que são extremas demais e você se mostrará inclinado a depositar excessiva fé
nelas.
Ilusão
de compreensão. Achados:
1.
Falácia narrativa (Nassim Taleb): histórias distorcidas de nosso passado
moldam nossas visões de mundo e nossa expectativa de futuro. Todo evento
preeminente recente é um candidato a se tornar o núcleo de uma narrativa causal.
Há uma tentativa contínua de conferir sentido a essa vasta coisa chamada mundo.
(...) humanos se iludem constantemente
construindo relatos inconsistentes do passado e acreditando que são
verdadeiros.
Hélio
Schwartsman desenvolve:
A história não é uma ciência no mesmo
sentido em que o é a física ou até a economia. Ela não apenas é incapaz de nos
dar um modelo por meio do qual possamos fazer previsões como ainda traz a
incrível propriedade de tornar o próprio passado incerto. (...)
Tamanha elasticidade é possível porque o cérebro humano não foi concebido para fazer história. Qualquer evento histórico é fruto de um número tão grande de interações entre pessoas e ocorrências (climáticas, econômicas etc.) que é simplesmente impossível calculá-las. Só que nossas mentes não se acanham diante da intratabilidade do problema e adotam sua hipótese preferida como eixo explicativo, ignorando tudo que não se encaixe nela. A história é necessariamente refém de nossos gostos, preferências, condicionamentos, isto é, de nossa ideologia.
Tamanha elasticidade é possível porque o cérebro humano não foi concebido para fazer história. Qualquer evento histórico é fruto de um número tão grande de interações entre pessoas e ocorrências (climáticas, econômicas etc.) que é simplesmente impossível calculá-las. Só que nossas mentes não se acanham diante da intratabilidade do problema e adotam sua hipótese preferida como eixo explicativo, ignorando tudo que não se encaixe nela. A história é necessariamente refém de nossos gostos, preferências, condicionamentos, isto é, de nossa ideologia.
2.
As inconsistências narrativas (contradições) reduzem o conforto de nossos
pensamentos e a clareza de nossos sentimentos. Buscamos narrativas
explanatórias simples e coerentes, exagerando a consistência das avaliações: o
líder de uma democracia não pode ser genocida; Napoleão não pode ter sido um
inepto; pais não podem ser maldosos com os próprios filhos.
A mente humana não lida bem com
não-eventos, afinal, onde estão os
contrafatos? A linguagem sugere que o mundo é mais conhecível do que de fato é. Compreendemos muito menos o passado do
que acreditamos, vítimas de robusta
ilusão cognitiva, o que induz erro sério: avaliar a qualidade e acerto das
decisões apenas por sua taxa de sucesso (viés de resultado), sem indagarmos se
as crenças que embasaram a decisão eram razoáveis ou defensáveis.
3.
Ideia-chave: O maquinário (...) do Sistema 1 faz com que vejamos o mundo
como mais ordenado, simples, previsível e coerente do que na realidade é. A
ilusão de que se compreende o passado alimenta a ilusão adicional de que se
pode prever e controlar o futuro.
4.
Ilusão de validade e habilidade. Confiança
é um sentimento que reflete a coerência da informação e o conforto cognitivo de
processá-la. Após minuciosa investigação chegou-se a um (quase) consenso de
que os negociantes de bolsa de valores disputam um mero jogo de azar.
Correlação com habilidades? Zero. Macacos jogando cara ou coroa exibiriam
melhor desempenho que os agentes dessa indústria multibilionária. É que eles
operam em ambiente preditivo de validade
zero. Ao contrário do que diz o bom senso, conjecturas sensatas não são
melhores que chutes no escuro.
5.
Pesquisadores da universidade Duke coligiram 11.600 prognósticos de diretores
financeiros de grandes corporações sobre o mercado de ações no curto prazo. A correlação entre as estimativas e o valor verdadeiro
foi ligeiramente inferior a zero! As previsões desses especialistas não
valem nada, e não parece que eles se importam. O caso Sadia, com perdas
bilionárias em apostas erradas (que puseram fim à empresa) não é isolado, ao
contrário do que pensávamos.
(...)
pessoas podem manter uma fé inabalável em
qualquer proposição, por mais absurda que seja, quando ela é sustentada por uma
comunidade de crentes que pensam igual. (...) não podemos suprimir a intuição poderosa de que o que faz sentido em
retrospectiva hoje era imprevisível ontem. A ilusão de que compreendemos o
passado fomenta a superconfiança em nossa capacidade de prever o futuro.
6.
Agora, uma declaração forte: o mistério
de saber sem saber não é um traço distintivo da intuição, é a norma da vida
mental. A intuição [para o
perito] não é nada mais, nada menos que
reconhecimento [de memórias não declarativas]. Confiança subjetiva não é um bom diagnóstico de precisão: julgamentos
que respondem à pergunta errada também podem ser feitos com confiança elevada.
Uma apreciação imparcial da incerteza
é o alicerce da racionalidade.
Parece,
assim, que ambos sistemas rodam um modelo de mundo, mas o do Sistema 2 é
analítico, bem aparelhado e favorece os mais honestos esforços argumentativos,
usa as melhores ferramentas da razão. Para aqueles que a desdenham, experimente
alimentar o mundo, ou construir máquinas e teorias testáveis que desautorizem a
razão.
II.
Dois eus.
Não
faça como eu, leitor, não confunda os Sistemas 1 e 2 com os dois eus. Os sistemas são metáforas criadas para tornar menos árdua a
compreensão dos dois modos típicos de atitude mental. Como vimos, o primeiro é
rápido, intuitivo e automatizado. Se você treinou cirurgias cardíacas 40 anos,
operar passou à órbita do Sistema 1, exceto alguma complicação. O Sistema 2
carrega todos os sectarismos do raciocínio, da análise amarga e demorada, da
ponderação ranzinza. Incorpora artefatos sofisticados e comporta grandes
conglomerados de ideias em simultaneidade, a exemplo da teoria da relatividade
e da evolução. Amiúde trabalha com ideias contraintuitivas, como a mecânica
quântica e a teoria da decisão (matriz da estatística).
Dois eus são outra metáfora simplificadora, justificadas por
sua utilidade: o eu experiencial,
que responde à pergunta: está doendo
agora? e o eu recordativo, que
responde à pergunta: como foi isso, no
todo? A partir de lembranças esse eu simula uma entidade que perdura no
tempo e compõe uma história e um mapa (meio roto e zoado) do mundo. Em sua
missão de construir um contramundo interno, ele só presta atenção ao pico e ao
final, retendo um traço simplificado de tudo que o eu experiencial vivencia. Um
momento representativo, portanto, fortemente
influenciado pela regra pico-fim.
Assim, em vez de uma soma de
vivências, com marcadores de estados emocionais, temos um resumo que
negligencia a duração, tanto para o prazer como para a dor. A vida é
representada por uma fatia prototípica de tempo, não por uma sequência de
fatias de tempo. Portanto, sua
"felicidade total" foi a felicidade de um período típico em sua vida,
não a soma (ou integral) de felicidade pela duração de sua vida.
É
assim que o eu recordativo funciona: entretece histórias e as amoeda para
compor uma entidade auto-referida. Acrescente o notoriamente fugaz
livre-arbítrio e eis delineada uma coisa bisonha, arbitrária: nós.
Enfatizando,
a memória (abastecida pelo Sistema 1) é afetada pela negligência com duração e
regra pico-fim, inconsistências
incorporadas ao design de nossas mentes. Se isso solapa os fundamentos do
modelo de agente racional, que alegra
certas heresias econômicas, tanto melhor. Na avaliação intuitiva de vidas
inteiras, picos e finais importam. Duração, não.
Quanto
você estaria disposto a pagar por férias em algum paraíso se, ao final, todas
as imagens mentais, recordações, fotos e vídeos fossem eliminados? Não muito,
não é mesmo? Turismo, esse bem de
experiência, é sobre construir histórias e entesourar lembranças
aprazíveis.
Então,
pense numa cirurgia em que você vai gritar de dor e implorar que o cirurgião
pare. Ao final, medicamentos amnésicos restituirão a paz inocente. E então?
(...) sinto pena de meu eu sofrendo, mas
não mais do que sentiria de um estranho em sofrimento. (...) eu sou meu eu recordativo, e o eu
experiencial, que vive de fato minha vida, é como um estranho para mim,
revela o autor. A propósito, se você achou desumana a história do sofrimento
insuportável tratado a posteriori com
amnésicos, bem, você não está muito informado sobre anestesiologia.
III.
Utilidade esperada x teoria da perspectiva:
O erro da economia clássica.
O
matemático Daniel Bernoulli buscou formalizar a relação entre o valor
psicológico da desejabilidade do
dinheiro e sua real quantia, o que resultou na teoria da utilidade esperada. Tratava-se de tentar relacionar intensidade psicológica a magnitude física do estímulo (bem-estar
experimentado x quantia em dinheiro). Ocorre que a utilidade depende do histórico pessoal de riqueza, não só da
riqueza presente. Para um economista clássico, a utilidade de um ganho é
aferida comparando-se as utilidades de dois estados de riqueza. Mas o
milionário e o mendigo têm visões bem distintas de um ganho de 500 pratas. Com
Bernoulli, bastava saber o estado de riqueza para determinar a utilidade.
Para
a teoria da perspectiva (derivada da
economia comportamental, que rendeu um Nobel ao autor), é necessário investigar
o referencial, capaz de influenciar
até nos gostos. É preciso estar atento às heurísticas, tais como aversão a perdas e resistência a mudanças (originárias do Sistema 1). Para essa
teoria, pontos de referência devem ser considerados e perdas avultam maiores
que os ganhos respectivos.
A
teoria da perspectiva tenta descrever as escolhas que as pessoas fazem,
independente de serem ou não racionais: pesos
de decisão não seriam idênticos a probabilidades. As pessoas atribuem valores a
ganhos e perdas, mais do que a riqueza, e os pesos de decisão que atribuem a
resultados são diferentes de probabilidades.
Conforme estabelecido em economia comportamental,
perturbação emocional é associativa, automática e descontrolada; emoção é
insensível ao nível de probabilidade. A teoria da perspectiva difere da teoria
da utilidade na relação que sugere haver entre probabilidade e peso de decisão.
Loteria, por exemplo, é sobre fantasias agradáveis com o improvável. A mera (e
remota) possibilidade importa. O mesmo peso excessivo atribuído a eventos
improváveis explica a indústria dos seguros: o mais pobre paga um ágio para
transferir o risco ao mais rico, em prol de conforto cognitivo.
Para
o agente racional (economia clássica) o preço de compra é um histórico
irrelevante - e sabemos que não é assim. Curiosidade: para os realmente pobres, pequenas quantias
recebidas de dinheiro são percebidas como redução
de prejuízo, não como ganho. O
problema deles é que todas as suas escolhas se dão entre perdas. Despesas
são prejuízos.
Não
temos inclinação, nem os recursos mentais para conferir consistência a nossas
preferências, e elas não são magicamente ajustadas para serem coerentes, como é
o caso no modelo de agente racional.
A
economia comportamental nos fala ainda de contas
mentais: exceto para os muito pobres, dinheiro
é um substituto para pontos em uma escala de autoimagem e realização. O
placar está instalado em nossa cabeça, de acordo com regras do incentivo
social. A verdadeira moeda é emocional.
Terminada
a viagem, hora de conclusões.
O eu recordativo é construção do
Sistema 2, lastreado em memórias, domínio do Sistema 1. Se essa
proposição o pegou de surpresa é porque você anda a ler o resumo de trás pra
frente.
Favorecemos
curtos períodos de intensa alegria em detrimento de longos períodos de
felicidade moderada, dada a negligência com duração e a regra pico-fim, atribuíveis ao Sistema 1.
Percebeu
o conflito? O atento Sistema 2 é quem
pensamos que somos. (...) articula
julgamentos e faz escolhas, mas com frequência endossa ou racionaliza ideias e
sentimentos que foram gerados pelo Sistema 1. Mas erros e vieses nem sempre
são atribuíveis ao modo rápido de pensar. O Sistema 2 exibe a racionalidade que
pode, não a que desejaríamos. Está adstrito à nossa formação. Se conhecemos a
lei dos vasos comunicantes,
resolvemos problemas em que a intuição falha. Se soubermos que o acaso não tem
memória, e que amostras exíguas induzem erros colossais (a lógica do namoro),
estaremos livres de uma série de ilusões de prognósticos.
O
Sistema 1 mantém repertório de habilidades adquiridas numa vida inteira de
prática, e que produz soluções automáticas e adequadas à maioria das tarefas
que nos damos. Quando é encontrado um
desafio para o qual uma reação apta está disponível, essa reação é evocada,
em geral de forma inconsciente.
Mas
esse sistema não gera um sinal de alerta
quando se torna pouco confiável. Respostas intuitivas vêm à mente com rapidez e
confiança, sejam originárias das habilidades, sejam da heurística [vieses]. Não existe um modo simples de o Sistema 2
fazer a distinção entre uma reação apta e uma reação heurística [viciada].
Atenção
é atributo da consciência? Consciência é só quando nos demoramos na reflexão
informada?
O
que somos nós, consciente ou
inconsciente? Receio que ambas as coisas, nem sempre harmônicas. Conquanto o inconsciente
possa chegar a 98% de nossa atividade mental, segundo fundadas suspeitas,
melhor prestarmos alguma atenção a esse desconhecido.
Inconsciente,
inconsciente... divago, sem atinar com resposta aceitável. Espero que Gazzaniga
(Who's in Charge, O Passado da Mente
etc), Mlodinow (Subliminar) Eccles e
Karl Popper venham absolver-me de minha indigência.
Em
meio à perplexidade com os eus experiencial e recordativo (e com os sistemas),
suspeito que falar de felicidade pode ser mera provocação. O que torna o eu experiencial feliz não é exatamente a mesma coisa que
satisfaz o eu da lembrança.
Hélio
Schwartsman arremata, e sinto que com proveito:
(...) Nós, seres humanos, somos ruins em agir com
vistas a metas futuras porque, ao contrário do que acreditamos, nossa
experiência de "eu" se decompõe em muitos eus que funcionam de forma
diversa e têm interesses, às vezes, conflitantes.
É preciso distinguir entre o eu
autobiográfico e o eu que vive as experiências. O primeiro é um ator racional,
que gerencia as informações e, em geral, toma as decisões. O segundo é pura
sensação. É ele que, minuto a minuto, experimenta as dores e os prazeres a que
nos submetemos.
E o problema é que o eu autobiográfico
age como um tirano, que nunca leva em conta os interesses do eu experiencial.
Operando mais com a memória do que com o instante, não hesita, por exemplo, em
aumentar a experiência dolorosa aqui e agora, desde que isso lhe pareça
necessário para maximizar o que imagina serão suas lembranças futuras.
O eu experiencial, embora menos
poderoso na hierarquia cortical, não está desprovido de meios. Ligado às
camadas mais primitivas do cérebro, mobiliza recursos como a preguiça e o
desgosto, capazes de sabotar até as mais sólidas resoluções de ano novo.
Esse descompasso entre os diferentes
eus está na origem de alguns dos mais importantes erros (ou acertos) que uma
pessoa pode cometer, consubstanciados em decisões como as de poupar para a
aposentadoria, casar-se e ter filhos. O problema aqui é que o eu futuro
imaginado quase nunca corresponde ao eu futuro real. É por isso que a busca
pela felicidade é mais capciosa do que parece.
É isso aí. Por enquanto.
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