quarta-feira, 30 de março de 2016
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016
Helio Schwartsman
"Minha terra tem
palmeiras,/ Onde canta o Sabiá;/ As aves, que aqui gorjeiam,/ Não gorjeiam como
lá." O Brasil é um país poético, se admitirmos a definição pessoana de que
o poeta é um fingidor. O Brasil finge tão completamente que chega a acreditar
em seus fingimentos.
Adoramos nos ver como
gente responsável e solidária, que dá prioridade ao que deve ser prioritário.
Por isso, determinamos em lei rígidas vinculações orçamentárias que assegurem
que jamais faltarão recursos para a saúde e a educação.
As boas intenções, porém,
têm o péssimo hábito de esbarrar nos ditames da realidade. É por isso que,
desde 1994, aprovamos as famosas DRUs, as desvinculações de receitas de União,
que permitem aos governantes de turno ignorar parte das vinculações, isto é, cortar
dinheiro da saúde e da educação. O truque é infantil, mas, por alguma razão, a
sensação de dever cumprido não é inteiramente eliminada.
Gostamos de nos ver como
uma democracia moderna e vibrante e, por isso, promovemos consultas públicas
que mobilizam todo o país, como se viu agora no caso da discussão sobre o
currículo nacional. Não se destaca que o MEC não tem como processar (isto é,
ler) as 10 milhões de contribuições que cidadãos levaram ao site do ministério,
o que implica as comissões farão o que lhes der na telha, sem dar muito peso à
participação popular.
Orgulhamo-nos de ser uma
nação soberana e, por isso, baixamos uma lei que garante à Petrobras, orgulho
nacional, participação em todos os campos petrolíferos do pré-sal. Não importa
tanto que a Petrobras esteja atolada em dívidas e que a regra hoje só sirva
para apertar ainda mais as finanças da empresa. Não nos curvamos ao
imperialismo ianque.
Talvez seja a hora de
fingir um pouco menos e sermos mais práticos, ainda que tenhamos de abrir mão de
parte da poesia nacional.
domingo, 7 de fevereiro de 2016
Depressão
Circula na praça uma versão da velha piada sobre a diferença entre recessão e
depressão. Na recessão, seu vizinho perde o emprego. Na depressão, você também
o perde. Recuperação é quando dilma perde o emprego (e é enforcada, incidentalmente).
terça-feira, 26 de janeiro de 2016
quinta-feira, 7 de janeiro de 2016
Monica De Bolle
Para impedir que a
desvalorização do real se transformasse em pesadelo inflacionário ainda pior do
que o aumento de quase 11% dos preços em 2015, o Banco Central acaba de
anunciar prejuízo de 1,5% do PIB, ou cerca de R$ 90 bilhões de reais no ano
passado.
A perda deve-se à forma
como a autoridade monetária brasileira intervém nos mercados de câmbio desde
2013, usando os chamados swaps cambiais. Nessas operações, o Banco Central
entrega ao investidor a variação do dólar em relação ao valor futuro
predeterminado no contrato e em troca recebe a variação dos juros de mercado no
mesmo período. Como as operações são efetuadas em moeda doméstica, não há perda
de reservas. Ou assim nos dizem.
Em 2013, quando essas
operações se avolumaram, o motivo era oferecer proteção aos investidores contra
as bruscas oscilações do câmbio vinculadas ao fim dos estímulos monetários
excepcionais nos EUA. Na época, o temor dos mercados de que a liquidez
internacional se esvaísse diante da mudança de postura do Federal Reserve (Fed)
induziu fortes desvalorizações de moedas emergentes, entre elas do real.
Contudo, quando o tumulto acabou, nosso BC não se fez de rogado. Continuou a
prover “proteção” aos investidores, embora estivesse ficando cada vez mais
claro que o intuito verdadeiro era conter o deslizamento da moeda brasileira.
Contenção que fez o estoque total de swaps cambiais alcançar cerca de US$ 120
bilhões. Como o real só sofreu desvalorizações nos últimos tempos, ao estoque
considerável somaram-se as perdas aviltantes. Aviltantes posto que são forma
perversa de tentar esconder o óbvio: o câmbio flutuante do Brasil quase não
flutua. Ou, quase não flutua de acordo com as pressões existentes no mercado.
Finge-se que o instrumento para controlar a inflação ainda são os juros,
enquanto a hemorragia cambial só aumenta.
A perda de 1,5% do PIB
registrada no ano passado é apenas parte das verdades escondidas. A outra parte
é o mito de que dispomos de reservas de cerca de US$ 370 bilhões. Se
interpretarmos os estoque de US$ 120 bilhões em swaps como um fluxo negativo de
capitais que ainda não se concretizou, nossas reservas são de US$ 250 bilhões,
ou 30% menores do que nos dizem.
Diante do estado
lastimável da economia brasileira, a hemorragia haverá de continuar. Com ela,
as verdades escondidas, cada vez mais nítidas.
domingo, 20 de dezembro de 2015
domingo, 13 de dezembro de 2015
domingo, 22 de novembro de 2015
Reynaldo Rocha: O país viciado em morfina
Somente quem já teve a
necessidade de ser medicado com morfina pode entender o uso dessa droga. Nada
contra: sentir dores é pior, muito pior. O problema maior é que ela oculta a
doença. Faz com que as dores sejam suportáveis e desapareçam. Mas elas retornam
ao fim da dose ainda mais intensas.
Durante a paz da droga,
não se consegue enxergar um metro à frente. A ausência da dor é tão bem-vinda
que leva o usuário a esquecer do entorno.
Existe morfina para um
país? O Brasil mostra que sim. Um país não morre. Não desaparece. Sempre
renascerá no dia seguinte. O que leva uma nação a usar morfina? Quem receitou
esta droga que alivia dores e elimina a capacidade de raciocinar, interpretar e
tomar para si as decisões?
Acompanhamos mares de lama
que nos afogam. Somos instados a escolher entre o bandido da Suíça e o canalha
de São Bernardo.
Como no conforto do
opióide, deliramos acordados. E ignoramos que há um mundo fora da agulha no
braço.
Quem está inebriado se
esquece que a dor maior vem depois. O fim do efeito da anestesia é o começo do
pesadelo.
O Brasil está anestesiado,
viciado em morfina. As doses são sempre mais elevadas.
Um mal é substituído por
outro. A terapia não busca a cura. Só prolonga a sobrevida.
Até quando? Um país não
morre. Mas o país somos nós. E nós somos finitos. Com ou sem morfina.
sábado, 14 de novembro de 2015
terça-feira, 3 de novembro de 2015
José Casado
A fila do cartório
estancou. No balcão, uma jovem senhora de cabelos prateados arriscava a
serenidade diante do indecifrável. Para conceder um documento, exigiam-lhe o
CPF da mãe.
Ela argumentava: — Mas a
minha mãe morreu há trinta anos e nunca teve um CPF...
— Só com o CPF dela —
repetia a cartorária.
Ao perceber que a fila a
conduzira à fronteira de uma dimensão irreal, onde o absurdo é a regra,
aventurou-se num quase patético pedido de ajuda: — Por favor, então me
explique: como é que eu tiro o CPF de alguém que não é mais uma pessoa?
A escrevente mirou-a com
firmeza, e retrucou: — Eu não sei, mas sem o CPF não faço.
Cármen Lúcia Antunes Rocha
agradeceu e foi embora mastigando seus versos prediletos de Carlos Drummond de
Andrade:
As leis não bastam
Os lírios não nascem da lei
Meu nome é tumulto, e
escreve-se na pedra...
Três décadas atrás, nas
aulas de Direito Constitucional na PUC de Minas, aprendera que o Estado existe
para servir às pessoas. Hoje, na vice-presidência do Supremo Tribunal Federal,
continua acreditando que o Estado não existe para infernizar a vida dos outros. (...)
Hélio Schwartsman - BANDIDOS
Qual a diferença entre o
coletor de impostos e o mafioso, já que ambos forçam o pobre do cidadão a pagar
por "serviços" que ele não necessariamente deseja contratar? É claro,
que, para os libertários radicais, a resposta é "nenhuma", mas, se
formos um pouco menos intransigentes, vamos encontrar algumas ideias
interessantes.
Destaco aqui a teoria do
economista Mancur Olson, que traça uma distinção bacana entre bandidos
itinerantes e estacionários. Ambos querem tirar o nosso dinheiro, mas são
animais distintos tanto pelos incentivos que os movem como pelos métodos de que
se valem. O ladrão itinerante, típico de situações de anarquia, se limita a
tomar aquilo que deseja e saltar para o próximo povoado. Para tornar suas
ameaças mais críveis e seu nome mais temido, não hesita em matar e destruir.
Já o bandido estacionário
é, como o nome diz, um ladrão que não circula muito. Está sempre roubando as
mesmas pessoas repetidas vezes. Se for apenas medianamente inteligente, ele vai
concluir que ficará mais rico se permitir que suas vítimas habituais sobrevivam
e experimentem algum sucesso econômico. O bandido estacionário, que é um outro
nome para tirano, acabará aos poucos promovendo atividades típicas de governo,
como oferecer proteção contra os bandidos itinerantes e favorecer a produção, o
comércio etc. Segundo Olson, é na transição dos bandidos itinerantes para os
estacionários que encontramos as sementes da civilização que, em etapas
posteriores, desembocarão na democracia institucional.
Algo deu muito errado com
o Brasil nos últimos meses, já que, em vez de assistir à germinação das
sementes civilizacionais de Olson, como seria de esperar, estamos às voltas com
a degeneração de nossos políticos, que parecem estar regredindo de bandidos
estacionários para bandidos itinerantes. Assim, acabarão matando a galinha dos
ovos de ouro.
Hélio Schwartsman - ABORTO
O Estado pode, em tempos
de paz, obrigar alguém a correr riscos físicos aos quais não está disposto? Ele
poderia me forçar a saltar de paraquedas ou a passar um ano num pesqueiro
comercial? Se você, como eu, acha que não, então deveria, como eu, defender o
direito ao aborto para as mulheres.
A gravidez, embora não
seja considerada doença, é um estado que eleva bastante a chance de uma mulher
morrer. Na tentativa de tornar a análise de risco mais intuitivamente amigável
para as pessoas, estatísticos desenvolveram uma unidade especial, a micromorte.
Definida como a chance de um óbito por milhão de eventos, a micromorte permite
comparar o perigo envolvido em atividades e estados tão distintos quanto
escalar o Himalaia (39.427 micromortes por tentativa), submeter-se a uma
anestesia para cirurgia eletiva (10 micromortes, no Reino Unido), ou apenas
completar um ano de vida em Serra Leoa (119.000 micromortes).
Dar à luz no Brasil
implica um risco de 620 micromortes. É mais que as 120 micromortes da gestante
britânica, mas menos que as 2.100 da média mundial. De todo modo, concentra em
algumas horas um perigo maior que o de passar um ano servindo como soldado
britânico no Afeganistão (47 micromortes) ou trabalhando em minas de carvão
(430 micromortes).
Se admitimos o princípio
de que o Estado não pode fazer um cidadão correr riscos à saúde que não deseje,
então a legalização do aborto se torna uma necessidade lógica. "E o
feto?", perguntarão os defensores das criancinhas não nascidas. Os que
acreditam em Deus devem se queixar com o Criador, já que o plano divino dá
poucas chances aos embriões.
sexta-feira, 30 de outubro de 2015
Adriano Pires e Abel Holtz
Em 2013, para o então
ministro Guido Mantega conseguir fechar as contas, foi feito o primeiro leilão
do pré-sal no regime de partilha. Naquela ocasião, o governo, sempre em tom
populista e ufanista, anunciou que leiloaria a maior reserva de petróleo do
mundo, o chamado Campo de Libra. Como seria uma joia da coroa, o governo
estipulou o bônus de assinatura em R$ 15 bilhões. Uma pedalada de primeira.
Apesar de toda a
propaganda que antecedeu o leilão, só apareceu um consórcio, formado por
Petrobrás, Shell, a Total francesa e duas empresas chinesas. As razões para
haver um só consórcio e, consequentemente, para o insucesso do leilão foram as
de sempre: instabilidade regulatória e insegurança jurídica. Mas o governo
atingiu seu objetivo: arrecadar R$ 15 bilhões e fechar as contas de 2013. O fim
justificou os meios.
É sempre bom lembrar que a
grande sacrificada foi a Petrobrás, que acabou ficando com 40% do consórcio,
quando, de acordo com a Lei da Partilha, poderia ficar com apenas 30%. Mas isso
foi necessário, pois, caso contrário, não haveria nenhum vencedor do leilão e o
governo não atingiria o objetivo de arrecadar os R$ 15 bilhões. Este ano, o
governo também precisa fechar suas contas, e, como a Petrobrás está quebrada, a
solução foi apelar para uma nova pedalada, desta vez no setor elétrico.
Em 2012, no auge de suas
políticas populistas e eleitoreiras, o governo publicou a Medida Provisória
(MP) 579, que tinha como objetivo reduzir as tarifas por meio da renovação das concessões
de usinas hidrelétricas. Na propaganda do governo, isso seria possível porque
essas usinas já estavam amortizadas, então os consumidores seriam agraciados
com tarifas menores, contemplando só a operação e a manutenção dessas usinas.
Na época, Cesp, Cemig e Copel resolveram não aderir à MP 579, alegando, com
razão, que prejudicariam seus acionistas, pois a tarifa oferecida pelo governo
causaria total desequilíbrio econômico e financeiro nas empresas. As empresas
do grupo Eletrobrás foram obrigadas a aderir à MP, por ordem de seu acionista
majoritário, o governo federal, mesmo em prejuízo dos acionistas minoritários.
Passados dois anos
(principalmente após as eleições de 2014), o governo, por meio da MP 688, muda
a MP 579 e pretende cometer mais uma pedalada contra os consumidores de energia
elétrica. A pedalada vai ocorrer se o Congresso Nacional aprovar a MP 688,
permitindo que o governo promova o leilão das 29 usinas hidrelétricas da Cesp,
Cemig e Copel.
Para atrair investidores e
arrecadar R$ 17 bilhões, o governo resolveu que nós, consumidores, pagaremos
uma espécie de imposto pelos próximos 30 anos. A mágica é passar da tarifa de
R$ 36/MWh, definida pelo próprio governo na MP 579 como valor necessário à
operação e manutenção das usinas, para R$ 137/MWh. Ou seja, um aumento de quase
300%. Com isso, cria-se uma taxa de retorno acima dos 9%, para interessar os
investidores, e nós financiaremos o governo para que ele possa receber os R$ 17
bilhões e "fechar as contas".
Pode ser que o atual
quadro político financeiro e a bagunça regulatória obriguem o governo a repetir
a pantomima do leilão de Libra, e veremos a constituição de um único consórcio,
com a presença da Eletrobrás, para vencer o leilão de todas as 29
hidrelétricas. Três observações importantes merecem ser feitas: 1) estes R$ 17
bilhões não acrescentam nenhum novo MW ao sistema elétrico; 2) o governo está
nos obrigando, na forma de um imposto mascarado, a pagar mais uma vez usinas
que já estariam amortizadas; e 3) essa pedalada significa um aumento de tarifa
de cerca de 3% a 4%. Com a inflação mais despacho térmico e câmbio de Itaipu,
calculamos aumentos médios de 20% nas tarifas ao longo de 2016.
Conclusão: o setor de
energia continua sendo usado pelo governo com o único objetivo de arrecadação
fiscal, sem nenhuma preocupação em resolver as questões regulatórias.
segunda-feira, 26 de outubro de 2015
Samuel Pessoa
(...)
É mito que o gasto social
tenha crescido no período Vargas e sido reduzido na ditadura militar. Há
crescimento suave e contínuo desde a República Velha até o fim do regime
militar, forte crescimento após a redemocratização, um salto em FHC e outro
maior com Lula.
Por exemplo, o gasto
público com o ensino fundamental entre 1932 e 1964 foi constante, na casa de
0,8% do PIB. De 1964 até 1970, subiu para 1,5% do PIB e atingiu 1,7% em 1984.
Com a redemocratização, há um salto no gasto público com o fundamental para
2,5% do PIB em 1986, nível em que permaneceu até 2004.
O mesmo ocorre com a taxa
bruta de matrícula. No final do Império, as taxas de matrícula no fundamental
eram da ordem de 7%. Cresceram ao longo da República Velha para 27%. De 1933
até 1984, cresceram lentamente, até atingir 104% em 1984 (a taxa bruta pode ser
maior que 100% em razão de alunos que cursam o ciclo fora da idade correta).
Para o ensino médio, a
melhora substantiva ocorreu logo em seguida ao golpe militar, quando as taxas
cresceram de 7% para 32% em 1977. O segundo salto do ensino médio foi de 1994
até 2003, quando cresceu de 40% para 80%.
Nos anos 1950, as taxas
brutas de matrícula no fundamental eram da ordem de 55% e o gasto público total
com educação, da ordem de 1,5% do PIB. O gasto público por aluno no fundamental
era de 10% do PIB per capita; no ensino médio, era de 100% do PIB per capita,
e, no superior, de 1.000% do PIB per capita.
A escola pública dos anos
1950 expulsava os filhos dos pobres ainda no fundamental, em razão das
elevadíssimas taxas de reprovação, e em seguida gastava com os filhos dos ricos
dez vezes mais no médio e cem vezes mais no superior.
Minha colega do Ibre
Juliana Cunha construiu série do gasto total com Previdência desde 1920. Não há
nenhuma descontinuidade perceptível na série até a redemocratização, quando há
forte aceleração. É conhecido que o grande salto no gasto social foi a
universalização da saúde com o SUS e a criação da assistência social não
contributiva aos idosos, ambos após a redemocratização.
No governo FHC, o gasto
social cresceu 0,17 ponto percentual do PIB por ano, e, no período petista, até
agora e em razão da bonança econômica, o crescimento foi de 0,29 ponto
percentual.
Assim, o que diferencia
FHC do PT no governo não é o crescimento do gasto social, mas sim o excesso de
intervencionismo estatal no petismo, para estimular o desenvolvimento
econômico. É a mesma diferença que há entre a República Velha e o período do
nacional-desenvolvimentismo.
domingo, 25 de outubro de 2015
Gustavo Franco
(...) A inflação é: (a) um aumento generalizado nos preços;
ou (b) a perda do poder de compra da moeda?
Se você escolheu a opção (a), está diante de um
fenômeno social complexo, pois é preciso pensar como é que o padeiro se
comunica com o barbeiro e com os produtores de tomates, pepinos, aço e
computadores, e também com as companhias aéreas e restaurantes, para todos
aumentarem seus preços mais ou menos na mesma velocidade.
Talvez eles leiam os mesmos jornais, de onde aprendem
sobre os andamentos da moeda e do crédito público, pois afinal, se existe uma
única coisa a unir esses personagens da vida produtiva brasileira, é que todos
querem moeda em troca de seus bens e serviços. A moeda é a “cafetina
universal”, para usar uma expressão de Shakespeare, que Marx gostava muito de
repetir.
É claro que isso nos leva à opção (b): é claro que a
inflação também é a perda de poder aquisitivo da moeda, as duas alternativas
estão corretas, um velho truque docente, muito usado nos vestibulares.
(...)
Seria chocante se dissesse (...) que o
papel-moeda é uma tecnologia de pagamento que tende ao desuso, ao menos desde
os anos 80, e que os contadores dos bancos centrais desse planeta não sabem ao
certo se a moeda emitida nessas instituições tem a natureza de uma dívida.
Nos cruzeiros de 1942 estava inscrito nas cédulas que
“se pagará ao portador desta a quantia de ...”, e vinha escrito o valor da
cédula. Uma promessa pagável com o próprio instrumento, uma estranha redundância.
A inscrição depois foi substituída por “valor legal” e, anos mais tarde, por
razões hoje compreensíveis (talvez um desabafo), os dizeres passaram a ser
“Deus seja louvado!”
Veja no balanço do Banco Central a conta “meio
circulante”, que diz respeito ao papel-moeda em circulação: o saldo é R$ 196
bilhões para setembro/2015, tratando-se claramente de um passivo não exigível,
embora não pertença ao patrimônio líquido. Veja, agora, a estatística para a
“Dívida Líquida do Setor Público” e seus componentes. Lá está a “base
monetária”, dentro da qual está o “meio circulante”.
Bem, o papel-moeda não é bem dívida do Estado, e esta,
por sua vez, quando encarnada em títulos da dívida pública, ou dívida
mobiliária, parece moeda, daí se falar em “quase moeda” pois, afinal, é muito
líquida e é com ela que o Estado paga suas contas.
Não seria razoável pensar a moeda e títulos da dívida
pública como uma coisa só, apenas expressões diferenciadas do “crédito
público”, um atributo intangível que pulsa conforme a qualidade do governo?
Acho muito apropriado definir o meio circulante como
uma espécie de ação preferencial ao portador, emitida pelo Estado, em pequenas
denominações e que o Banco Central distribui pela rede bancária em troca de
papel-moeda velho e, às vezes, em troca de outros tipos de dívida do Estado.
Outra maneira de ver é tomar a moeda como dívida, mas
na forma de um instrumento perpétuo e sem juros. Visto assim, é fácil ver que o
Estado preferirá sempre se financiar com esse tipo de obrigação. Porém, a
sociedade necessita muito pouco desse instrumento e cada vez menos. A ideia de
“rodar a guitarra” e abusar da emissão desses papéis, ou de moedas metálicas,
está cada vez mais obsoleta, pois a demanda é muito limitada. A guitarra do
século 21 é a dívida.
Aqui no Brasil, desde 2011 o TCU obriga o Banco Central
a divulgar o tamanho de suas receitas decorrentes do poder de emitir moeda.
Foram R$ 12,7 bilhões em 2014, equivalentes a 0,23% do PIB, já deduzidos os
custos de produção desse acréscimo (R$ 487 milhões). Não é muito e não se
vislumbra como isso possa crescer.
Pois bem, diante dessas definições, a ideia que o
papel-moeda vai acabar, por conta do plástico e do tag, para não falar de
milhas ou do bitcoin, parece especialmente grave diante da ansiedade recente em
torno do monstro que dá título a este artigo. Na presença dessa criatura
alienígena recém-chegada, segundo se diz, o governo não terá alternativa senão
imprimir vastas quantidades de papel-moeda para pagar suas contas, inclusive a
dívida pública.
Mas como se dará tal coisa se o papel-moeda está
destinado à extinção?
(...)
De fato, a vida ficaria muito mais difícil para a
bandidagem na ausência de dinheiro em espécie, pois tudo transitaria por bancos
deixando rastros para os agentes da lei. Foi assim que pegaram o doleiro
Youssef, por exemplo, e se desenrolou o novelo do “petrolão”.
Quanto ao financiamento do Estado sob dominância
fiscal, todavia, não vamos escorregar na nossa ansiedade: é tudo uma questão de
preço. Pague-se mais juro que o povo aceita mais dívida, e esse tem sido o
caminho percorrido faz muitos anos. O Brasil não tem a maior taxa de juros do
mundo porque seus poupadores são campeões mundiais de ganância, mas porque tem
o Estado mais endividado do mundo em proporção à riqueza do país. O monstro não
é de outro planeta, nem é desconhecido: mora em Brasília há muitos anos e vinha
emagrecendo até 2008. A partir daí, Dilma Rousseff, seguindo conselhos
econômicos da pior espécie, resolveu terminar a dieta, e a criatura recomeçou a
crescer.
Quanto mais dívida, mais juros, simples assim. Não há
nada de novo nesse assunto de dominância fiscal, apenas mais clareza sobre como
a política fiscal esmaga a política monetária, o que é um grande progresso.
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