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sábado, 7 de junho de 2008

Brainstorms

Daniel C. Dennett empreende uma viagem pelos meandros da mente e da psicologia, de um ponto de vista filosófico. Está consolidada certa tradição filosófica que nega a existência do mundo, de mim e de você, sólido leitor, não importa o que eu e você pensemos disso. Não existiria um mundo real, apenas representações (quiçá “interpretações”) de mundo, culturalmente determinadas. E seria impossível, em princípio, distinguir entre duas interpretações, tão diversas quanto possível, não importa quão honestos e competentes sejam os intérpretes. Well, a “interpretação” paquistanesa da bomba atômica guarda notória semelhança com a inglesa ou a soviética, mas esses detalhes não devem fatigar nossos filósofos, que se absolveram de dar uma espiadinha, ainda que ocasional, no(s) mundo(s) à sua volta. Aprendemos, com Zenão de Eléia, que o movimento é impossível, e muitas outras coisas aprendemos desde então, com Kant, Wittgeinstein, Gödel e tantos outros, que parecem gostar de impor interdições radicais ao que podemos saber ou provar. Deduzimos, de tantos “impossíveis”, o sagrado direito de zombar desses senhores que vivem tentando submeter todo o universo a uma de suas manias. Dennett não entra nessa roubada. Mas ele chama a si os raios ao falar daquela “cousa” que não pode ser mencionada. Sem meias palavras, deita falação sobre o livre-arbítrio, último e muito avariado reduto do pensamento religioso. Ocorre que Dennett não escapa do costume filosófico de enquadrar o pensamento dos colegas em is­mos, e os enquadrados não se acostumam a suas celas no espaço lógico da discussão. Daí que vivem organizando rebeliões, pulando de um ismo a outro sem a menor consideração pelos leitores, que não têm como acompanhar essa fatigante dinâmica. Ora esses ismos são meras fachadas, não muito sólidas (algumas não passam de riscas de giz no chão do pensamento, à moda da trilogia de Lars von Trier), e mesmo o enquadramento em vários ismos simultâneos de forma alguma garante que o enquadrado não dê a volta pelos fundos e reivindique uma nova liberdade, insuspeitada, para si e suas idéias. Do pouco que entendi de seus ensaios, concluí que o problema do livre-arbítrio é falso e inofensivo. Apenas um grande mal entendido. Não entendi muita coisa, como se vê. (Daniel C. Dennett, Ensaios filosóficos sobre a mente e a psicologia, Unesp). P.S: A verdade, dizem os neurocientistas, é que as decisões ditas "livres" são tomadas microssegundos antes de se apresentarem à consciência. E isto já pode ser rastreado. Livre arbítrio é outras das ilusões herdadas da idade média.

domingo, 11 de setembro de 2005

Mensagem de domingo

A todos que não quiseram, ou não puderam dormir numa manhã chuvosa de domingo. Fecho a última página de "História natural da religião", de David Hume, tradução de Jaimir Conte (Unesp). Já estava cansado de ler fragmentos. Este foi um dos poucos tomos filosóficos que leio de ponta a ponta (os outros foram de K. Popper, Wittgenstein e Nietzsche). Hume tem intuições profundas, atrapalhadas pelo contorcionismo de afirmações negadas e negações afirmadas imposto pelas ferozes "autoridades" religiosas de então. A Igreja da Inglaterra, e suas posições, teve de ser preservada, com todos os prejuízos desse sectarismo. O catolicismo, e doutrinas quejandas, pôde ser atacado sem problemas. Duzentos e vinte anos não terão passado em vão. Libertos todos os filósofos das cadeias religiosas, alguns foram (alegremente) se entregar a basiliscos, como Heidegger, filósofo de todos os nazismos. Outros perderam-se em estamentos medievais, vastos continentes impossíveis, como são as filosofias de Espinosa, Leibniz e Pascal. Alguns contemporâneos adentraram águas muito rasas, e tornaram-se filósofos insoletráveis (Hilary Putnan, Noam Chomsky) ou pensadores indecidíveis (Roger Penrose et alii). A Escola de Frankfurt, com a suspicaz missão de tornar Marx bem-composto, não produziu nada digno de menção. Do neo-frankfurtismo, algo de Habermas, com seu enfoque exagerado no "discurso", pode se tornar perene (embora eu duvide). Adorno, Durkheim? Ah, fala sério... Entre os pensadores lúcidos e legíveis, fulguram as estrelas de Daniel C. Dennett e, num quadro mais restrito ao pensamento biológico-evolucionista, E. Mayr, R. Dawkins e S. Pinker. Passados dois séculos desde Hume, o problema religioso involuiu para uma mera questão de polidez: respeita-se a opinião alheia. E, num mundo assim opiniático, todas as verdades se equivalem, embora não se sustentem epistemologicamente. Provavelmente, Hume ficaria decepcionado. Após os jornais, mergulho em sua obra máxima (é um domingo).