O herói Sancho e o licenciado Quixote escoltam Cervantes pela velha Madri.
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segunda-feira, 6 de outubro de 2008
terça-feira, 5 de julho de 2005
Espanha, uma viagem
1.
Chegado de inopino à Espanha, adverti que seria razoável comprar um guia, um que fosse. Encontrei, na promoção “tudo por um 1 Euro” do Corte Inglés, um simpático livrinho intitulado “dormindo como um rei (na rodoviária)”.
2. Tapas e queijos
Todos procuram um bar, chegado o fim da tarde. Ele se aproxima depois das 20 horas, numa Europa primaveril. Após acondicionar a máquina fotográfica, a segunda máquina fotográfica, a mochila cheia de acessórios fotográficos, os óculos os mapas o lenço o chapéu e o corpo numa cadeira, uma pergunta a queima-roupa: “quieres tapas?”
“Quiê quié isso”, volvi.
O camarero, sem mais aquela, distribuiu tapas a todos ao alcance de suas mãos ligeiras. Na tevê se enfrentavam Málaga e Sevilha, que acompanhei impassível, enquanto o chope era vertido.
À saída uma placa explicava toda a filosofia: “aqui tapeamos, y bien”.
Repercuti com a espanhola Rocio, com quem converseu na Cartuja (uma catedral) o acontecido, instando-a a jamais pedir tapas, quando no Brasil.
3.
Perdi-me nas ruas do bairro judeu de Santa Cruz, que começa ali mesmo, na Basílica de Sevilha. Fui até a casa em que morou um filantropo chamado Pôncio Pilatos, cônsul romano no início da era cristã, e depois até a mais antiga casa de tapas da cidade (desde 1670, conforme a garbosa placa à entrada), onde tapeei a fome com uma competente porção de bacalhau.
Se outro dia fiz um arrastão pelos museus da cidade, hoje mergulhei de cabeça nessa Sevilla, tão necessária.
De manhã, a catedral Macarena, a muralha ao lado e o Hospital das Sete Chagas, sede do parlamento Andaluz. Depois, as colunas romanas, num lugar mal arrumado, e volto à basílica, para fotos.
No almoço, paella com mariscos (deliciosa); depois, a Plaza de Toros, interessante, e a siesta, lá pelas 15 horas. A partir daí internei-me no bairro de Santa Cruz, tendo antes o cuidado de passar no Corte Inglés. Para os minuciosos, presto contas: passe de ônibus até a Macarena: 1 E; entrada na Mararena: de graça; Plaza de Toros: 4 E; paella no centro: 9 E; um livro intitulado El Nacimiento del Mundo Moderno: 1,5 E; tapa de bacalhau (absolutamente deliciosa), omelete com jamon e suco: 5,5 E. Depois, frutas e água em Santa Cruz: 3,20. Entrada no Hospital da Caridade: 4 E. Caminhar por becos labirínticos e ruas insensatas, de 1 metro de largura: de graça.
Total da aventura: 29,90 E.
3.
Se a sureña El Calafate tem La Vaca Atada, restaurante dos mais aconchegantes, a cosmopolita Barcelona tem La Vaca Paca. Em comum uma sugestão velada de pampas e vaquinhas nutritivas.
4.
No alto da serra, na Igreja de Montserrat, a 2 horas de Barcelona, entrei na fila que me deparou logo após um pátio vigiado por aparatosas janelas. Não sabia para que servia, nem o tempo de espera, mas parecia importante, bem ali na entrada do templo.
Entrei. Todos visivelmente ansiosos, e um diria que se avizinhava um êxtase.
Desafortunadamente, aquela fila era a dos que necessitam ser açoitados duas vezes ao dia.
Aconteça o que acontecer, mantenha-se longe de filas, a não ser em repartições que gozem de boa reputação.
As montanhas Montserrat lembram, nos ângulos mais favoráveis, a rocha Uluru, na Austrália central. Em minha ignorância geológica cheguei a ver o mesmo aglomerado sedimentar da meseta australiana. Montserrat, é claro, está acima dessa ilusão.
5.
Gaudi:
Há algo na Sagrada Família que não pertence ao realizável, ao humano. Tentei saber de onde provém seu poder de entesourar em nós o belo. Parece que é algo alheio à fadiga das gruas e do concreto.
A evidência de Gaudi na orgânica matriz, árvore total não isenta de sandices. Sua simples postulação levanta vastos estamentos de fé e dúvida, bem acima de nossos precários rascunhos de mundo.
O sagrado, o sublime, num assombroso inventário de delírios.
6.
Madrid: tarde redonda e branca, a desejar poemas. Drummond percebeu o impasse, bem antes: “A tarde talvez fosse azul, não houvesse tantos desejos.”
Conclusão.
Ganhei o mundo, a alma acumulou largas milhas, e já agora se expande em seus labirintos.
25.06.2005
domingo, 12 de junho de 2005
Madrid
Olá, gente! (vocês ainda estão aí, não é mesmo?)
Bem, estou terminando a viagem (antecipei o regresso, por motivo de reunião de trabalho).
Madri, já conhecia. Dos três grandes museus, já conhecia o Prado (que tornei a visitar, hoje) e o Reina Sofia (que abriga o quadro Guernica, de Picasso). Conheci, assim, o Thyssen, que tem muitas obras bonitas, dos mudernos.
Voltei ao parque do Retiro, e à Gran Via, com todos os turistas de sempre.
O templo de Debod, trasladado inteiro do Egito, assim como o Dendur, do Metropolitan de NY, é interessante e pequeno. Fotografei-o ao amanhecer.
A novidade foi conhecer Ávila e Segóvia. A primeira é uma cidadela inscrita em muralhas de muitos quilômetros, numa interessante tapeçaria medieval. Elas enlaçam a cidade, deixando-nos com a visão autêntica de eras repletas de guerras e perigos.
Segóvia é de várias felicidades.
Uma delas é o Alcázar (palácio construído pelos mouros, depois tomados pelos cristãos).
Estacionado no alto de um penhasco, vê-se campos e igrejas e palácios (o que mais?).
A catedral tem uma torre particularmente importante. Vista a certa distância, é um impressionante maciço ocre, brandamente visitado pelo sol primaveril. Tentei fotografá-la, sem qualquer resultado digno de menção.
O Aqueduto, romano, está bem no centro, e constitui um poderoso testemunho dessa civilização.
Tem varios quilômetros de extensão, e uma altura inimaginável. Magnifico. Fotografei-o, tambem com resultados duvidosos.
Ademais, há vários prédios antigos, medievais, que valem o esforço da viagem. A cidade é impressionante (já o disse), amplamente favorável a uma visita sem pressa.
Agora, uma noite de sono, operação retorno e... São Paulo.
Madrid, 12 de junho de 2005.
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