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sábado, 21 de janeiro de 2012
Guatemala
Filipe, o índio veio da foto, aliviou-me dos últimos dólares, exatamente os que me
socorreriam em caso de situação desesperadora em alguma fronteira agreste e sem
lei da América Central.
"Esta é uma situação desesperada", ele lembrou. "Não podes fugir ao seu destino (e ao quadro). Será seu ou de mais ninguém. Quando o pintei, senti certas urgências, certa ânsia; vi que o quadro me pintava, ria-se do mundo e o negava. Concluí: é isso ou a aniquilação! Será que o proprietário, anterior a qualquer negócio, virá?"
Quase não fui, mas o quadro, que me
reclamava desde o fim das eras, chamejava suas cores, e tive de ir. Pensei:
"um quadro se sonha em San Juan, nas orelhas do azulado Atitlán,
e não existirá se eu não for (ou pior, será vendido a outro turista)".
Adquirida a obra, em demoras (a transferência de dólares foi lenta e
dubitativa), tive dificuldade de voltar: no píer o piloto ameaçava apagar
meus registros de sua embarcação. Só a vigorosa intervenção dos amigos
teuto-hondurenhos salvou-me os planos. sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
Panajachel
Se o leitor não se sente confortável quanto à pronúncia, não será punido se disser apenas Pana.
Trata-se de um vilarejo às margens do lago Atitlán, incensado por Huxley. Povo engalanado em vestes tradicionais indígenas, numa rica tapeçaria humana, o que lembra muito a gente das montanhas ao norte do Vietnã, na fronteira com a China. Esses trajes, ricos, não são vendidos, mas transferidos entre as famílias. E o idioma é musical e misterioso.
Atravessando o lago, nos vilarejos menores, você depara com cooperativas de artesãos, pintores, escultores nativos, e vive os dilemas do consumo.
Em San Juan um índio me aliviou de meus últimos dólares, e me confiou um seu trabalho. Não dá pra resistir ao charme e labor autêntico desses descendentes dos maias.
Vindo para Guate (Cidade da Guatemala) reparei nos ônibus, de um colorido psicodélico, tripulados por ferraristas de alma. São máquinas modernas, encarroçadas localmente (pensei), que voam pelas sinuosidades emolduradas por vulcões. Às vezes o passageiro é admitido de inopino, no passeio. O cobrador abre a portinhola traseira, pega o balaio, sobe uma escada pelo lado de fora, acomoda a bagagem no teto, desce a escada, pula para a oposta, abre a escotilha e se aconchega junto aos passageiros. Tudo com o ônibus em furiosa passagem montanha acima e abaixo.
Não concordo com os riscos assumidos, mas é bonito ver o trabalho desses acrobatas.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Atitlán
O lago é emoldurado por cones, restos de um antigo vulcão, massivo. Há uma neblina permanente, e uma luz azulada sob o sol. Nas bordas, vilarejos e vilas de agricultores, artesãos - a gente do lugar - com língua e costumes próprios.
Se o leitor pensa em miséria e guerra civil ao ler Guatemala, bem, isso é passado. O povo é pobre, mesmo para padrões brasileiros, mas sem miséria. E, agora, tudo se volta ao turismo, o que faz todo o sentido, considerando as formidandas paisagens e motivos deste admirável país.
Amanhã, Panamá. Convém curtir mais um pouco.
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