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domingo, 28 de agosto de 2011

Uma modesta proposta


Vinicius Torres Freire, na FSP de hoje, reproduz algumas idéias interessantes: 

Para economistas tucanos, "transição completa" do país depende de privatização ampla, geral e irrestrita

Economistas um dia associados ao governo tucano e a FHC têm um programa contra "tudo isso que está aí", como dizia o PT nos tempos fernandinos.

É um programa de oposição ao desenvolvimentismo acidental dos petistas. À herança econômica do estatismo militar (1964-85). À ideia de implantar um Estado de bem-estar social no Brasil, "à moda europeia"; à Carta de 1988.

Linhas de força desse "programa" foram apresentadas em seminário do Instituto FHC, na semana passada. Os expositores eram André Lara Rezende, Edmar Bacha, Gustavo Franco, Pedro Malan e Pérsio Arida.

O seminário era um debate intelectual, não reunião partidária, claro. Mas o que se pregava por lá?

Primeiro, redução de gasto público e impostos de modo a permitir o aumento da poupança, do poder de decisão privado sobre poupança e investimento e, de quebra, a queda dos juros.

Não se trata só da ladainha sobre gasto excessivo e inflação. Não se trata de coisa pequena, mas:

1) da limitação legal da despesa pública (ideia de Malan);

2) de equilíbrio orçamentário que dê conta não só do deficit anual (2,2% do PIB) mas ainda da monstruosa rolagem da dívida que deveria ser amortizada anualmente (17% do PIB. Ideia de Franco);

3) de reforma fiscal-constitucional que reconhecesse a ilusão de que poderemos ter um "welfare state" europeu (Malan e Franco).

Segundo, propôs-se privatização, claro. Mas não só de empresas restantes ou da infraestrutura de serviços públicos. De um modo metafórico, mas não muito, propôs-se a "privatização" das reservas internacionais (ativos e moedas conversíveis comprados pelo BC, grosso modo dólares).

Isto é, sugeriu-se a liberdade geral de manter moeda no exterior (o que, hoje, pouparia o governo/BC de gastar na compra de dólares a fim de conter a valorização do real).

Em suma, pede-se a abertura da fronteira final das finanças (ideias de Franco e Arida), o que redundaria num mercado de câmbio mais equilibrado, além de reduzir ineficiências e incertezas que prejudicam investimentos do e no Brasil etc.

Propôs-se privatizar os recursos ou a gestão dos fundos de poupança obrigatória, como FGTS e FAT (Arida e Franco). Ou dar cabo do crédito dirigido por leis ou pelo governo (o dinheiro da poupança para habitação; o crédito rural).

Em 2010, o FGTS bancou investimentos de R$ 45 bilhões (63% em habitação, 24% em infraestrutura, 10% em saneamento). Dos R$ 41 bilhões do FAT, 50% foram para seguro-desemprego, 21,5% para o abono salarial e 11,5% para o BNDES.

Franco e Arida dizem que tais fundos expropriam o trabalhador (não rendem de fato quase nada) e beneficiam empresários com empréstimos baratinhos ("fisiologia industrial", no dizer de Franco). Além do mais, distorcem o mercado de crédito e impedem a queda dos juros. Sob gestão livre e privada, renderiam mais para os trabalhadores; a alocação de capital seria mais eficiente no país.

É um programa radical. É ignorado pela oposição, se é que os tacanhos tucanos do PSDB de hoje ainda merecem tal nome.

Politicamente, o "programa" não tem corpo nem alma. Mas é um bom debate num país em que o mercado é atravancado e o Estado está fora do lugar.

sábado, 17 de fevereiro de 2007

Teclado Qwerty

Anotei, certa vez, ao chegar a Paris:
Por incrível que pareça, o avião não caiu nenhuma vez! Hoje, um montão de coisas. Não vou contar agora porque o teclado francês foi feito, bem, por um retardado mental. As letras estão dispostas segundo caprichos que não conhecem o padrão mundial - apelidado Qwerty. Elas trocam de lugar, e escrever se torna uma excruciante procura... Não tem jeito: prêmio IgNobel para esse gênio.
O teclado francês não segue o padrão Qwerty. Deveria?
Jared Diamond, em Armas, Germes e Aço, anotou (p. 248-9): este livro (...) foi digitado em um teclado Qwerty, cujo nome foi extraído das seis letras da esquerda para a direita da fileira superior do teclado. (...) o layout desse teclado foi projetado em 1873 como uma proeza de antiengenharia. Ele emprega uma série de truques perversos destinados a obrigar os datilógrafos a digitar o mais lentamente possível, como espalhar as letras mais comuns por todas as fileiras do teclado e concentrá-las no lado esquerdo (forçando as pessoas destras a usar a mão mais fraca). A explicação dessa bizarrice é que as máquinas de escrever de 1873 emperravam se as teclas adjacentes fossem tocadas numa seqüência rápida, de modo que os fabricantes tinham de reduzir a velocidade dos datilógrafos. (...) experiências com um teclado mais eficiente, em 1932 [quando o problema técnico das teclas adjacentes fora abolido], mostraram que poderíamos dobrar nossa velocidade na datilografia e reduzir nosso esforço em 95 por cento. Mas nessa época o teclado Qwerty já estava consolidado. Era tarde demais: milhões de datilógrafos, a indústria e os vendedores se encarregaram de desencorajar qualquer tentativa de mudança. Não fora “uma decisão tomada em 1882 por uma certa Sra. Longley, que fundou o Instituto de Taquigrafia e Datilografia de Cincinatti, e o sucesso do brilhante aluno de datilografia da Sra. Longley (...) que arrasou seu rival não-Qwerty (...) em um famoso concurso de datilografia de 1888” e hoje talvez estivéssemos digitando em teclados decentes... Os economistas se engalfinham em torno desse problema, que explicita a temeridade de confiar cegamente no “mercado” (que, afinal, criou o teclado Qwerty). Alguns economistas, contudo, dizem que exilar as teclas de maior freqüência nos confins do teclado pode ser benéfico (não sei como), e mostram “pesquisas”, que têm a interesante propriedade de "provar" o que eles desejam. Sabem, isso de economista, ele pode ser honesto, bom pai, bom vizinho e até torcedor do nosso time. Mas é sempre prudente prender o patife. Não custa lembrar: “Com quantos economistas pode-se trocar uma lâmpada?” Três respostas possíveis: (a) Dois – Um para trocar a lâmpada e outro para segurar a escada imaginária. (b) Oito – Um para trocar a lâmpada e sete para garantir que todo o resto permaneça como está. (c) Nenhum – todos estarão esperando que apareça uma mão invisível. Pois bem, e o teclado francês?
Se os franceses queriam marcar posição, poderiam ter adotado o teclado Dvorak, muito mais eficiente, tornando sua economia mais competitiva. Tomar o que já era ruim e piorá-lo, de birra, eis uma conduta digna de prêmio IgNobel.