domingo, 4 de janeiro de 2009

Berlim

Memorial aos judeus, bem perto do portão de Brandenburgo, no antigo lado oriental de Berlim. Não longe dali erguem-se modestos apartamentos residenciais, cujos alicerces tocam os bunkers onde Hitler costumava dar expediente.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

domingo, 28 de dezembro de 2008

Assim falou Roubini

(...) a maior bolha de ativos e crédito da história humana está se desfazendo agora, e as perdas totais de crédito devem se aproximar de atordoantes US$ 2 trilhões. Assim, a menos que os governos recapitalizem rapidamente as instituições financeiras, a compressão de crédito se tornará ainda mais severa, porque os prejuízos podem crescer mais rápido que a recapitalização e os bancos se verão forçados a reduzir créditos e empréstimos. Os preços das ações e de outros ativos de risco caíram acentuadamente ante seus picos do final do ano passado, mas existem outros riscos significativos de queda. Um consenso emergente sugere que os preços de muitos ativos de risco -entre os quais as ações- caíram tanto que chegamos ao fundo, e uma recuperação rápida ocorrerá. Mas o pior ainda está por vir. Nos próximos meses, as notícias macroeconômicas e os resultados de lucros e prejuízos das empresas de todo o mundo serão muito piores que o esperado, o que colocará mais pressão de baixa sobre os preços dos ativos de risco, porque os analistas de ações ainda estão se iludindo com a idéia de que a contração econômica será curta e amena. A compressão de crédito se agravará; a desalavancagem continuará, com fundos de hedge e outros agentes endividados forçados a vender ativos em mercados carentes de liquidez e perturbados, o que resultará em novas quedas de preços e levará mais instituições financeiras insolventes a quebrar. Algumas economias de mercado emergente certamente sofrerão crises financeiras graves. Assim, o ano que vem, de 2009, será um período doloroso, de recessão mundial e de mais desgaste financeiro, prejuízos e falências. Apenas ações de política agressivas, coordenadas e efetivas pelos países avançados e de mercado emergente poderão garantir que a economia mundial se recupere em 2010, em lugar de entrar em um período de estagnação econômica mais longo. Um bom 2009 para você também, Roubini!

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Papai Noel às Avessas

Papai Noel entrou pela porta dos fundos (no Brasil as chaminés não são praticáveis), entrou cauteloso que nem marido depois da farra. Tateando na escuridão torceu o comutador e a eletricidade bateu nas coisas resignadas, coisas que continuavam coisas no mistério do Natal. Papai Noel explorou a cozinha com olhos espertos, achou um queijo e comeu.

Depois tirou do bolso um cigarro que não quis acender. Teve medo talvez de pegar fogo nas barbas postiças (no Brasil os Papai-Noéis são todos de cara raspada) e avançou pelo corredor branco de luar. Aquele quarto é o das crianças Papai entrou compenetrado.

Os meninos dormiam sonhando outros natais muito mais lindos mas os sapatos deles estavam cheinhos de brinquedos soldados mulheres elefantes navios e um presidente de república de celulóide.

Papai Noel agachou-se e recolheu aquilo tudo no interminável lenço vermelho de alcobaça. Fez a trouxa e deu o nó, mas apertou tanto que lá dentro mulheres elefantes soldados presidente brigavam por causa do aperto.

Os pequenos continuavam dormindo. Longe um galo comunicou o nascimento de Cristo. Papai Noel voltou de manso para a cozinha, apagou a luz, saiu pela porta dos fundos.

Na horta, o luar de Natal abençoava os legumes.

Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira do Mato Dentro - MG, em 31 de outubro de 1902. De uma família de fazendeiros em decadência, estudou na cidade de Belo Horizonte e com os jesuítas no Colégio Anchieta de Nova Friburgo RJ, de onde foi expulso por "insubordinação mental".

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Volta ao criacionismo

Editorial da Folha de S. Paulo, de hoje: NO BRASIL como em outros países, observa-se uma crescente pressão de determinadas comunidades religiosas para aumentar a influência sobre o ensino. A face mais visível da investida está na reivindicação de que a mal denominada "teoria" criacionista seja ministrada lado a lado com a teoria da evolução por seleção natural. Sob o argumento de que Charles Darwin (1809-1882) não explicou tudo sobre o mundo natural e por isso sua teoria não teria comprovação definitiva, defende-se o ensino da alternativa: uma inteligência superior teria criado o mundo com todas as espécies conhecidas. Há poucos conjuntos de proposições sobre a natureza que encontram tanta corroboração em fatos quanto a teoria da evolução. Sua versão conhecida como Síntese Moderna agregou as descobertas da genética à matriz do pensamento darwiniano e se encontra na raiz do enorme desenvolvimento das ciências biológicas durante o século 20. Ao criacionismo falta apoio empírico minimamente comparável. Apesar disso, alguns estabelecimentos brasileiros com orientação religiosa ensinam a criação divina até em aulas de biologia, física e química. A justificativa está numa noção de pluralismo que não tem cabimento no ensino de ciências. A obrigação do professor dessas disciplinas é apresentar a seus alunos o conhecimento mais atual e seguro, com apoio em observações e medições. É um equívoco atribuir o mesmo status a coisas tão díspares. De um lado, uma teoria aperfeiçoada e corroborada ao longo de 150 anos de estudos; de outro, uma narrativa religiosa, apoiada sobre a autoridade bíblica e recusada pela maioria dos cientistas. O equívoco maior, contudo, é não restringir o ensino do criacionismo às aulas de religião, permitindo que seja ministrado em ciências. Essa atitude solapa, na formação das crianças, os fundamentos do método científico. Apontar a incongruência entre criacionismo e ciência, no entanto, é o máximo que o poder público tem a fazer nesses casos. Se a opção dos pais, consciente, recair sobre uma escola religiosa privada que ministre o criacionismo, inclusive em ciências, essa é uma esfera de decisão imune à intervenção do Estado. A Bíblia faz afirmações ambiciosas, totais, sobre o mundo, assumindo a cosmogonia do contexto em que redigida. Exatamente como as outras grandes mitologias de então, a Bíblia tem hoje mero valor literário, que reputo modesto. O que me agasta é sua moralidade (não me detive ante a autoridade de Homero, por esse mesmo delito, lembro). O mundo foi criado em seis dias? Foi. E não. Certo. O que preocupa é o duplipensar inerente ao discurso criacionista.

sábado, 13 de dezembro de 2008

França

Espanha

Tempo de estudo

Comprei várias sacas de café, em ordem a prevenir tardes acidentadas e noites nebulosas. Não demorou nadinha para o estômago, esse versátil comissário da digestão do mundo, vetar o ouro negro. Inabilitado o café, passei a extrair da coca cola a cafeína necessária à disciplina das pálpebras. Resultado: ainda não passei em nenhum concurso e, como o leitor pode ter adivinhado, já fui internado três vezes, por overdose de coca (cola).

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Uma empulhação no Congresso

Fernandão Rodrigues, na Folha de hoje: 
O modismo agora no Congresso é a tese da "coincidência de mandatos". Trata-se de unificar as eleições de todos os cargos eletivos do país: vereador, prefeito, deputados, governador, senador e presidente. Os mandatos passariam a ter cinco anos, sem reeleição para os postos executivos. O Brasil adotou os quatro anos de mandato com chance de uma reeleição só a partir do pleito de 1998. (...) Adversários do modelo sempre sacam do coldre o sofisma sobre a alta taxa de reeleição entre os prefeitos e governadores que disputam no cargo um segundo mandato. Mas essa é a lógica do sistema. O ciclo político é de mandatos com oito anos com uma espécie de mata-burros no meio. Administradores rejeitados ficam pela estrada. Marta Suplicy que o diga. A tese a favor da coincidência de mandatos pode ser resumida em dois pontos: 1) o Brasil pára a cada dois anos, por que as eleições de prefeitos e de vereadores são separadas das outras, e 2) custa muito caro fazer tantas eleições. Primeiro, o Brasil não pára em ano de eleições. Mais de 5.500 prefeitos foram eleitos em outubro. Nenhuma cidade entrou em colapso por causa das campanhas. Sobre o custo das eleições, o valor é bem menor do que a soma das emendas ao Orçamento apresentadas por deputados e senadores. Em democracias desenvolvidas, quanto mais se vota, melhor. Na cabeça de muitos no Congresso, o raciocínio é o oposto. Querem os eleitores votando menos. Suas excelências seguem em marcha batida para consolidar aquela triste máxima: toda vez que um deputado tem uma idéia, o Brasil piora. 
As eleições no Brasil são, sim, carésimas. Mas existem coisas piores. Estive dando uma espiadinha no sistema tributário nacional e fiquei estomagado com a orgia de impostos e contribuições, criadas como se o mundo durasse só até amanhã e fosse imperioso virar o contribuinte de cabeça pra baixo e extrair-lhe o último ceitil. 

Lembro-me de uma "contribuição" incidente sobre a assimilação de tecnologias de ponta, cujo produto supostamente se destina ao fomento dessa mesma tecnologia. Paga-se 10 por cento para utilizar um produto de que o País precisa desesperadamente. Um observador intergalático perguntaria quem foi o inimigo do País que inventou essa bisonhice... 

Quanto à coincidência de mandatos, na condição de criado do Estado em todas as eleições nos últimos 20 anos, tenho lá minhas simpatias... Talvez não seja a maior empulhação em gestação no Congresso.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008