quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Casamento

Não sei se caso ou compro um cachorro.

"Mira que bonito el perrito", dizem os amigos.

Em Vegas deu-me ganas de casar, como todo turista respeitoso e cumpridor de seus deveres. 

Me alertaram para a inteira conveniência de ter uma noiva, nesse caso.

Well, será que as altas religiões constituídas de Nevada admitem casamentos mistos, por exemplo com coisas?

"Mira que bonito el perrito", dizem os amigos, com uma sutileza que levantou suspeitas.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Poetas de Muro

Quanto tempo segues comigo?
Preparo café ou minha vida?

Ação Poética de León, México.

Isla Janitzio

O casal de alemães volta da escalada ao monumento comendo um pastelzinho.

"Como se chama isso?", perguntaram ao guia. "Gordita", disse ele. 

"Deus do céu, eu comi isso?", exclamou a moça, ao consultar no guia de viagem o significado. 

Mais modesto, comi carnitas na praça de Quiroga, a caminho de Pazcuaro.  Carne de porco assada, com toucinho, na tortilla. Não é pra frescos. Tudo manual...

Isso de tortillas, eu pensava que conhecia, até provar uma no La Biznaga, aventura já relatada. Bem, se você não foi ao Biznaga, não sabe o que e uma tortilla no estado de arte.

No mesmo dia, passamos por Tzintzuntzan, nome que vale por um solfejo prosódico.

Agora, voltamos das mariposas monarca. Elas forravam o chão, e também algumas árvores, mas não alcançamos voassem.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Guanajuato

Casa Valadez. Iniciei com o melhor gaspacho que já sonhei e não sabia possível.

Depois, espuma de queijo. Isso mesmo: espuma, na taça. Ao fundo, vegetais quentes prelibavam o momento.

Acaso o leitor sabe o que acontece quando jamon serrano, azeite e figos, primícias mediterrâneas, se juntam? Bem...

Atum perfeito, selado, desmanchava na boca. Na boa.

Enquanto isso, uma trupe medieval liderava uma mobilização. Iniciada por um contrabaixo-caixão empunhado e tocado heroicamente na horizontal. Canções que nascem da alma, coracionalmente. Música e lira, numa callejoneada seguida por uma horda de turistas.

Ao ensejo da mob entregaram um assado e me repito: perfeito.

A sobremesa me encontrou exaurido em fruição.

O paraíso em seis passos. Seis apresentações, seis estações de bondade.

A estudiantina deu a volta na praça e se concentrou no fosso em frente à igreja. Performance festiva, despretensiosa, com muito lirismo medieval, como a gente pensa que existe em castelos europeus, mas só existe aqui, no México.

De colores...

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Oaxaca

Não sei por que escolhi uma cerveza bufadora. Isso nunca tinha me ocorrido antes.

"Hei, por que essa cerveja se chama bufadora?", indaguei.

O resto da tarde, quando concluía Oaxaca - bem, já sabem.

San Cristobal de Las Casas

Ao acordar o ônibus escalava a montanha na intenção de Las Casas.

Descobri um bebezinho sonhando em segredo no meu colo, a mãe invadida em sono.

O sol franqueava nívea manhã, e a névoa queria vales e montes.

Indinha e mãe dormiam em plena paz.

Com as mãos a lindinha comunicou-me pequenos mistérios. 

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Oaxaca

Já sai do hotel com más intenções. Fui a um museu com tesouros pré-hispânicos. Deleitei-me com a expressividade de certas esculturas. Umas irmãs gêmeas pareciam ter vida própria.

Depois, Maria Bonita. Um queijo oaxaquenho  acompanhou a limonada. A melhor bebida de Oaxaca é a limonada com soda, julgo.

Isso foi só distração. Quando o La Biznaga abriu, adivinhem quem estava lá, junto com franceses, suecos, e todos os famintos?

Eu.

Isso mesmo. E fui de ceviche de atum (regular), e carne assada a moda oaxaquenha. Aí sim, a experiência se deu.

Uma carne em tiras de felicidade, douradas. Junto com o queijo de cabra em amêndoas, foi estabelecendo riquezas e quereres.

Depois, o chocolate local, em torta, um verdadeiro desacato.

Após um giro pela cidade, com fotografia na luz temperada do fim de tarde, voltei ao Biznaga, para uns negócios inconclusos: a salada de jamon Pata Negra. Com melões (o que sói acontecer na Itália) e peras, fechou Oaxaca, provisoriamente.

Vivenciei gusanos, mezcal com laranja e chapolins puxados no tempero. Tudo diz com um México indígena,  exuberante, exagerado.

Que bom voltar!

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Oaxaca recôndita

Após experimentar gusanos (coros) e chapolins (gafanhotos), junto com mezcal, hoje fui ao Maria Bonita sentir a cozinha oaxaquenha de raízes.

Não me arrependi, não.

Sopa típica (num primeiro momento, a gente fica chateado com tanta sopa num pais tão quente, mas depois acostuma) de abobrinhas e otras cositas, preparando o prato principal: pimenta recheada com coisas deliciosas.

Depois, um café de altitude, para desbastar o sono.

Após o museu (belíssimo), e a siesta, o jantar, com cordeiro e perdiz.

Como se fosse pouco, na volta ao hostel teve um chope encorpado. O leitor fica muito chateado se eu confessar que foi com amendoins?

domingo, 29 de dezembro de 2013

Oaxaca

Não disse que o México e uma festa?

Fui a Taxco, capital da prata no México, com um soberbo conjunto arquitetônico. Por qualquer motivo, que ora me escapa, lembrou a pequena cidade Bósnia que visitei ainda neste ano.

Agora, curto esta Oaxaca indígena e maravilhosa. Ruas lotadas, restaurantes impecáveis, construções coloniais.

No passeio de ontem, comida em buffet turístico, novamente. Perguntei ao um mexicano se aquela panelada negra que me dizia frijoles era mesmo de confiáveis feijões. Confirmado, coroei o arroz com o brilhante creme negro.

Era chocolate (na verdade, mole negro, picante), e passei as três horas seguintes comendo arroz com chocolate apimentado.

Pela noite, o restaurante La Biznaga me enganou. Pedi uma entrada, veio o mais delicioso taco que já provei na vida, em porção pantagruélica. O queijo de cabra, dialogando com o abacate, fez-me sentir coisas.

Depois, um mahi mahi, que venho cuidando desde o Tahiti, trouxe convicção e encantamento ao passeio pelo coração do México. Na folha da bananeira, o Dorado se estabeleceu em minha memória de glutão.

Sabem, nem sempre sou assim, pantagruélico.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Cidade do México

Após alguns meses, estou de volta, a cidade e ao Tacuba Bar, de onde redijo estas notas.

A cidade está mais calma, sem os baderneiros de agosto; mais bonita, agradável, e fresca

Após o giro por seus monumentos, jantar degustação no Tacuba, claro que si. Tivemos camarão no abacate e sopa de aspargos, no lucro. Agora, creio que um bacalhau se prepara na cozinha.

Quem me conhece sabe da minha fissura por bacalhau.

No caso, um bacalhau desfiado, com molho adocicado. Não chega a empolgar, mas vale a experiência.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Puerto Madryn

Chope artesanal, encorpado, estilo europeu. Assaram e serviram o melhor pão que já comi na vida, por mais constrangedor que isso seja as boas padarias que já frequentei. 

O prato principal, massa caseira com frutos do mar, resultou assombroso. O restô Patagônia nos eleva noite adentro.

Eu vinha da península Valdés, de gigantes calmos. Primeiro, os elefantes na praia. Alguns filhotes aprendiam os ofícios do mar. Machos indolentes se deixavam ficar. Toleravam as crianças, que iam e vinham da água, alheios as orcas professoras.

Na Caleta Valdes, elefantes sorviam o sol, sem qualquer problema. 

Depois, abordagem de baleias na tarde impecável. A península era um lago encorajador, com azuis profundos acima e abaixo da linha d'água. Montanhas soleadas sugeriam praias ao longe.

As baleias não sonegaram sua graça, mas só as mamães apareceram, cada qual mais orgulhosa. Uma após outra, vieram mostrar sua contribuição para um mundo melhor, e mais rico.      

Todos os azuis faziam da linha d'água um limite arbitrário e desnecessário.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Stromboli

Aos pés do Stromboli
Black Sabbath entoava Changes
E foi como se o sol emitisse

Luz negra

E já não bastássemos
Nem nos reconhecêssemos
E foi tudo.

Oscilei profumundo
Visitei as origens do mal,
Não me quis.

Equivocou-se o sol, mentiu?
Gravitou  antiluz
E vaguei sombrio.

O que me dói?
Do que sofro?
De escuridão. 

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Baleias Franca

Porto Pirâmides. As franca conduzem seus cachorros de cinco metros pelo berçário. Elas não são feias: apenas trazem a cabeça complexa. 

As eubalaena se experimentam, deixam-se estar nessa sopa de baleias que é a Península, por agora. 

Um filhote branco nos atraiu. A mãe, faceira, o apresentou a embarcação

Outra mãe investia vigorosamente em seu filhote doente, que boiava desenganado. Não havia salvação, e os biólogos anotaram a tristeza.

Mais de mil francas vêm veranear na Península, para nossa alegria.    


Península Valdés

Descemos a Ponta Ninfa, praia onde elefantes se fazem ao mar. As crianças brincavam na água, perto das mães. Machos de 5 toneladas vigiavam da água, meio ursos, meio antas. 

Alguns, indelicados, arrotavam com saúde (eu disse arrotavam por mera cortesia). 

Um sol debruçado no precipício se despedia da praia, a mais ampla em que já estive. 

Rafting Salta

Rio tranquilo. Águas frias cortando o deserto. A mesma aragem dos condores convidava ao banho. As corredeiras, sonolentas, não surpreendiam. Apenas alguns splashes.

Nos paredões inclinados, antigas praias de oceanos arruinados, vimos subir os rastros de dinossauros, a progressão dos passos coleantes de tartarugas e colonias de estromatólitos em bolotas.

Mares soçobrados testemunham suas praias, agora em ângulo de 45 graus.

E seus antigos habitantes assinam mensagens sóbrias, cravadas na pedra. No rio Juramento a emoção não exclui ajustes em nossa efêmera compreensão de mundo. 

Acima, condores vigiavam os passos consolidados de monstros caídos.