I.
Divulgo agora, talvez na esperança de compartilhar com pessoas de conformação moral e espiritual mais elevadas que eu, essa experiência profundamente perturbadora. Divulgo, talvez, para livrar-me desse peso; para tentar ficar em paz com minha consciência.
Durante muito tempo não consegui dormir, após tomar conhecimento dessas contundentes anotações. Hesitei ao longo de alguns anos, talvez à espera de vir a compreender seu significado.
Conheci Winston na faculdade. Era um cara comum, se o termo não for ofensivo, conquanto ostentasse orgulhosa inteligência. Aos poucos, Winston se revelou uma pessoa amistosa, afável, de intelecto irrequieto.
Eu diria que nos tornamos amigos. Não sei se ele consentiria essa afirmação, algo pretensiosa.
Se mais não digo, é porque nada de notável havia nessa amizade, exceto a visível superioridade de Winston.
Ele dirigia as conversas, brincava com idéias, doutrinas. Ciências aplicadas, fundamentos de filosofia, matemática, astronomia. Discursava, defendia e atacava posições. Apaixonava-se por idéias e, quando finalmente eu supunha compreendê-las, elas já tinham caído em desgraça, ou estavam esquecidas.
Eram monólogos, às vezes áridos, às vezes acalorados, e acontecia de eu estar por perto, ocasionalmente. Eu ouvia, tentando aprender, esforçando por esconder minha ignorância.
Faço aqui a divulgação desse libelo contra o cristianismo, e as religiões em geral. Trata-se de uma sátira, escrita sem pretensões literárias, para divertimento de seu redator, suponho.
Agora que se passaram tantos anos do desaparecimento de Winston, e como é voz corrente que ele está morto, faço a divulgação da única e discutível herança dessa esfuziante mente.
De minha parte, não acredito na morte de Winston. As circunstâncias de seu desaparecimento, na ilha sul da Nova Zelândia, a extensa viagem à Ásia, tudo leva a crer que Winston planejou mais uma patranha, e esteja alocado nalgum ponto da orla desse oceano que ocupa metade do globo.
Seu corpo nunca foi encontrado. Seus bens (por volta de duzentos mil dólares) foram liquidados meses antes da viagem e convertidos em moeda americana. Após ingressar regularmente na Índia, fez uso de passaportes falsos, como se descobriu numa extensa investigação.
Passou ao Paquistão, depois Java, Bali, Sumatra, e outras ilhas da Indonésia, Timor Leste, Nova Guiné, Austrália e Nova Zelândia. Não é impossível que esteja, neste momento, num barco de pescador, a caminho de sua milésima ilha nesse largo oceano.
Desapareceu no dia 6 de maio de 2002, nas montanhas que vigiam Queenstown. Foi avistado pela última vez se dirigindo para Milford Sound, de carro.
Para mim, que encontrei guarida na fé cristã, é penoso percorrer as linhas desse relato ímpio. Alguns poderiam enxergá-lo como uma pequena diabrura, produto de uma alma sequiosa de encontrar algo em que acreditar. Às vezes penso sentir pena de seu pobre autor, mas quem sou eu para julgar o imprevisível vulcão de idéias que assolava, a intervalos, aquela mente?
Tremi ao pensar no destino dessa infeliz alma. Se Deus, a quem ele despreza, não se cansa de demonstrar misericórdia, também é um Deus de retidão e justiça. Nem me tranqüiliza pensar que Deus tem um plano para Winston: temi pela força necessária para demovê-lo de sua incredulidade zombeteira.
Não espero compreender a mínima fração da mente de Deus, mas sei que tudo que Ele faz é incensurável e bom para nós, que estamos a sua mercê, saibamos ou não.
Tampouco tentarei esboçar uma resposta aos injustos ataques desferidos contra o sentimento religioso, e a fé cristã. Por várias razões: a primeira é que a sátira foi construída de forma despreocupada, sem qualquer apoio científico ou filosófico. Logo, não requer resposta; a segunda é que a sátira é inexpressiva literariamente, como o próprio autor admite, o que dispensa qualquer réplica; a terceira (e verdadeira), é que não me acho capacitado a debater o que foi escrito, seja qual for sua real envergadura e significado.
De Winston, nascido e criado em lar piedoso, filho de praticantes do protestantismo, talvez possa ser dito:
“O que é curioso é que, divorciado da teologia calvinista, ficou sendo um calvinista sem teologia, isto é, um homem com todos os prejuízos dos sectários dessa fé, tormentos e escrúpulos de consciência, aversão ao catolicismo, intolerância, repugnância pelos judeus, apesar de parecer mais um profeta do Antigo Testamento do que um adepto cristão”, duras palavras aplicadas a Carlyle.
Daí, paradoxalmente, emerge a necessidade de publicar essa sandice: para que pessoas mais bem aquinhoadas possam entender e refutar quanto foi dito, se entenderem necessário.
Não digo isso em demérito ao autor, não.
Passei muitas noites em vigília, invocando Deus, rogando a sua inesgotável benevolência para com os homens carecedores do dom da fé.
Então percebi que devia publicar a sátira, como forma de alertar as pessoas, nesse iludido início de século, de que o discurso científico ou filosófico não são panacéia para todos os males do homem. Existe um espírito, sustentáculo do livre-arbítrio, insuflado por Deus, insuscetível de apropriação pelo cálculo.
Ele se alimenta da virtude que emana de Deus, de sua luz. O amor de Deus, seja qual for o nome Lhe for dado, flui generosamente para a humanidade, salvando-a de si mesma.
Fórmulas matemáticas são boas aproximações descritivas do mundo extensível; teorias científicas são ferramentas importantes para se pensar a matéria, sua constituição e comportamento, mas nada disso provê o homem da matéria-prima da vida: o amor divino.
Jamais alcancei a natureza e os fundamentos das idéias que davam entrevista naquela mente. Mesmo agora, é com assombro que corro os olhos pelo manuscrito que ora apresento.
“Ensaio.
Concebo a idéia. Não consigo saber como um portento desses me ocorreu, mas o sólido fato é que estou prestes a declarar uma nova utopia aos homens.
Bilhões de seres humanos darão a vida defendendo essa minha idéia, enquanto outros bilhões se lançarão como demônios sobre quem a professar, e rios de sangue correrão na batalha pela verdade.
Não sei como expor isto que é mais que um conceito, um sistema filosófico. É uma nova forma de encarar a vida e a morte; uma alternativa a diversas ordens de -ismos; às crenças humanas em geral.
Seu enunciado ainda não formulei; sua mensagem central luta por abrir caminho em minha equívoca consciência. Suas mensagens auxiliares também estão em gestação, e receio que nunca serão apresentadas ao mundo.
Entanto adivinho quão essencial é essa fortuna, e já vejo bilhões de crânios pulverizados por defenderem pequenas heresias, versões ligeiramente amaneiradas dessa fecunda idéia, por outros bilhões de seres ofendidos em sua pureza e ortodoxia.
Vou apresentar uma idéia, revolucionária como algumas outras, radical como poucas. Uma idéia seminal, violenta: um insight fundamental.
É provável que alguma divindade entre como ingrediente, e a teodicéia exija antagonistas rubros, sagazes e falcatos. Apraz-me que o pólo divino seja ambíguo, e que o demoníaco seja desenhado com algum grau de definição moral. Não sei se adoto deus único, formado por quatro partes indissociáveis, ou deuses múltiplos, funcionando em regime de plantão. Um deus único é conceitualmente viável, mas veja-se a tragédia do judaísmo-cristianismo: começou com Jeová “Eu Sou o que Sou”, depois foi incorporando Jesus, e o Espírito Santo, numa confusa povoação do estado divino.
Um deus formado por duas pessoas é arranjo logicamente possível, mas isto é bem pouco para os nossos propósitos. Quem acreditaria em um deus dual? Um deus formado por duas partes, ainda que indissociáveis, levantaria suspeitas de impasse, e suscitaria a noção do duplo, que tanto horror traz à limitada mente humana.
Já um deus ternário apresenta diversas vantagens. Não seria facilmente reduzido a dois pólos, nem teria contra si a maldição do número par, uma classe de número insuficientemente mágica, como se sabe. Também contaria, o seu resultado, com os favores de uma dízima periódica, irracional e infinita, esses últimos atributos encontradiços em deuses, arcanos ou modernos.
Por outro lado, se é vantajoso ser trino, quando se é Deus, surpreendem-se inúmeras virtudes em ser quaternário.
Conheço deuses do Oriente e do Ocidente. Aqueles tendem a ser numerosos, ao custo de uma sensível diluição de seus poderes sobre os hospedeiros. Estes conhecem arianismos, austeridades e paternalismos, no sentido que um urso polar emprestaria ao termo. São muito inclinados a sentir ciúmes.
Todos eles mandam matar com facilidade; presidem guerras com alegria, enforcam crianças e queimam as colheitas dos ímpios, em nome do amor, da bondade, da edificação humana. Sobretudo do amor.
Com quatro seres informando nosso deus, poder-se-ia designar um como guardião de cada dimensão conhecida: as três espaciais e a temporal, atendendo-se às exigências das relatividades especial e geral.
Quatro também são os pontos cardeais, e o crente saberia que Deus é onipresente.
Quatro, ainda, são as categorias apriorísticas de Kant: quantidade, qualidade, relação e modalidade. Isso deveria bastar para revelar a insondável profundidade do número escolhido, sua feliz adequação à composição divina.
Com quatro entidades na Unidade, a eventual crucificação de um deles – e deuses são especialmente suscetíveis a assassinatos conspícuos e a extinções provocadas pelo ingrato esquecimento – não desfalcaria de forma comprometedora a divindade, que três remanesceriam, compondo um verossímil colégio de desígnios a governar, com alguma plausibilidade, o mundo.
Deuses são sinceros nos assassinatos, posto que barrocos: às vezes como algozes, às vezes como vítimas. Não há deus que não se jacte de perpetrar ou sofrer periódicos massacres. Que culto coletivo estaria completo sem um revigorante banho de sangue, um implacável pogrom contra uma minoria (os portadores de sardas, os leitores de Playboy, por exemplo)?
Com Tolstói, dir-se-ia que todos os agnósticos são muito parecidos entre si. Já os crentes, cada qual tenta ser o mais parecido com as idéias a que nomeia Deus.
Os cínicos argumentariam que os crentes são preocupantemente parecidos com o oposto das qualidades divinas em que fingem acreditar. Este não é um tema fácil.
Enfim, quis acreditar um deus que, ao contrário dos deuses em uso, públicos ou secretos, pudesse ser intuído de forma não-contraditória.
Também não me decidi se prestigio a igualdade, a caridade, ou a supremacia do mais forte, como áreas de concentração dessa minha teoria. Se Wittgenstein (II) elegeu a inconsistência da linguagem; Schopenhauer (aos 31 anos) a vontade e sua representação; e Nietzsche (não sem antes detonar a “vontade” em Schopenhauer) a vontade de potência como contribuições filosóficas fundamentais, não vejo por que não possa apresentar essa minha idéia, a um tempo religião, sistema de poder e princípio de sólidas bases científicas.
A primeira, reivindicada pelo socialismo e suas atrozes variantes, pugnava que os seres humanos são sobretudo iguais, querendo nos fazer acreditar que disso derivaria um sistema econômico viável.
Os regimes políticos daí advindos provaram ad nauseam a falácia da igualdade, da maneira mais inimaginável. Erigiram-se, invariavelmente, regimes brutais, em que as pessoas não passavam de insumos baratos e irrelevantes. O estado comunista usou, moeu e descartou seus súditos, enquanto o tirano de plantão vivia de expurgos cada vez mais surreais.
A história desse delírio coletivo ainda está por ser detalhada.
Pretenderam inúmeros cristianismos, a maioria sediada em alguma versão de textos alegadamente sagrados, que a caridade é, entre as medidas humanas, a mais excelente.
A partir do original caridade, erigiu-se o amor em pedra de cantaria desse sistema religioso. Caridade (ou amor) é apenas iuma ideia utilitária, aposta excessivamente óbvia para qualquer profeta sequioso de arrebanhar asseclas.
Cristão seria aquele que ama o semelhante, que doa desinteressadamente, não revida agressões, despreza a riqueza e não pretende o poder, entre outras angelicais normas de conduta (ou, então, o Novo Testamento é um vasto sistema de sarcasmo e duplilinguagem).
Desnecessário dizer, não tenho visto ser assim. Mas, diriam, se não temos flagrado muitos cristãos amando, ou, pelo menos, não assassinando descaradamente o amigo, o irmão, em troca de algumas moedas, isso não invalida o contributo de Cristo, que sofreu na cruz para nos salvar.
Não me sinto inteiramente salvo, e não consigo invejar os remidos. Diariamente eles cometem alguns crimes contra o próximo, antecipadamente perdoados por um Deus de conveniente misericórdia.
Está bem estabelecido que Deus é sempre bondoso conosco e nossa família, mas será que devia demonstrar tanta tolerância para com os ímpios?
Jorge Santayanna, poeta e filósofo, acreditava que o cristianismo é má interpretação literal de metáforas judias. Ele deplorou sua fé perdida, “esse esplêndido erro tão afim com os impulsos e ambições da alma”.
Eu diria que os impulsos e ambições da alma nada têm com as covardias e farsas cristãs, conforme o pressuroso Nietzsche.
Vejamos como a classe média brasileira está sendo instruída no tema. A citação é de uma revista semanal:
'A doutrina que se foi cimentando nos primeiros séculos da Igreja ensina que Cristo tem uma dupla natureza: é integralmente divino e integralmente humano. É divino porque é uma das três formas de Deus (...) e, como tal, existe desde antes da Criação.’
Mais à frente, reproduz-se esta notícia:
‘Os seguidores de Maomé não acreditam que Jesus seja o Filho de Deus, já que o Corão diz que Alá não gerou nem foi gerado, e repudiam a Santíssima Trindade, que violaria o conceito da unicidade de Deus. Mas consideram Jesus um dos grandes profetas e admitem a concepção imaculada – Maria teria engravidado de Cristo, ainda virgem, por intercessão divina.’
Com exceção dessa última parte, acho que os muçulmanos estão com a razão. Os gulosos cristãos, não se contentando com ter em Cristo um dos mais destacados procuradores de Deus, aventuraram-se a decretá-lo seu filho único, membro pleno do board que aporta sarjetas ou bilhões de dólares ao destino humano, num gigantesco bingo.
Reservo-me o direito de não endossar a concepção virginal e a volta de Jesus, temas assaz tormentosos, áridos e de difícil comprovação, após vinte séculos mentirosos.
Outro ponto de contato entre as minhas convicções e as dos maometanos envolve um pequeno detalhe do cristianismo, uma coisinha de nada: a crucificação. Sabe-se quanto Jesus sofreu na cruz para tornar-nos novamente aceito aos olhos de Deus.
Suspeito, contudo, que a crucificação não foi dolorosa o bastante para expiar, verbi gratia, meus pecados, horrendos.
Tivesse o redentor experimentado um câncer fulminante num filho; tivesse mergulhado num Alzheimer profundo; incorrido no destino inexorável de milhões que dependem da saúde e previdência públicas brasileiras, aí se poderia falar num resgate completo das nossas ofensas.
De molde que, como muitos não-cristãos, acredito que o episódio da cruz foi um grande mal-entendido. Parece que aos judeus também repugna a idéia de Deus sacrificando o próprio filho, ou que um inocente deva morrer pela conduta alheia.
Se bem que as objeções hebréias são inconsistentes, tivermos em mente o simulacro do sacrifício de Isaque por Abrãao. A religião foi a mais forte das paixões de Kierkegaard, e preocupou-o singularmente esse sacrifício. Sem conhecer detalhes dessa preocupação, arrisco dizer que o episódio, puramente literário, é outra das teratologias bíblicas, compradas sem critério no supermercado de idéias religiosas de então.
Tudo que Jesus disse, e está na Bíblia, disse-o quase cem anos depois de morto, o que apenas prova a excepcional indústria de seus diligentes médiuns. Se eu deixar para registrar observações sobre um artista, um político ou uma idéia qualquer na semana que vem, ou, melhor ainda, no ano que vem, é provável que um ataque fulminante venha a se parecer com um pequeno panegírico, ou que loas incondicionais e sinceras soem como agressões coléricas. Mas eu não sou divino, deve ser isso.
O fato notável é que, contemporâneos a Jesus, existiam milhares de profetas pregando nos desertos estéreis do oriente médio, Índia, China, Golfo do México, Califórnia, Peru, e na Mongólia.
É possível supor um profeta pataxó fazendo peregrinações ao Monte Pascoal, bradando contra o cinismo oportunista de pajés bem estabelecidos no sistema político da tribo, e anunciando boas-novas, alimentos para os pobres e carregamentos confiáveis de finas ervas.
Uma abordagem estocástica da história é suficiente para mostrar que, entre milhares de profetas, todos filhos de Deus ou seus bastante procuradores, qualquer deles tinha chance de passar à história como proprietários de verdades eternas.
Aconteceu ser um tal Jesus. Poderia ter sido João Batista, ou um egípcio qualquer, um persa, um txucarramãe, um maia. Bastaria posicionar-se na orla de um grande império decadente, e ter um bocado de sorte. O lado excitante disso é que não sabemos se, no futuro, centenas de bilhões de pessoas estarão dando a vida por algum mendigo que hoje perambula pelas ruas de São Paulo, pregando uma nova doutrina, que só será compilada, compreendida e purificada muitos anos após sua morte, conquistada num hospital conveniado ao Sistema Único de Saúde.
Tudo sopesado, fico com a firme impressão que Jesus encarrapitou-se num madeiro, adivinhando uma vaga no Olimpo, só para sacanear a nós, ateus de boa vontade do Século XXI.
Winston.”
Esse manuscrito foi mostrado para o padre Júlio. Padre Júlio deixou a batina há muito, para se casar, mas mantém vida piedosa. É uma das pessoas mais inteligentes que conheço, e dava aula de teologia na faculdade em que eu e Winston estudáramos. Tem, portanto, credenciais para opinar sobre o relato.
Um pouco constrangido pelo que leu, padre Júlio, judeu e católico, entregou-me a seguinte anotação, que utilizo para finalizar estas linhas:
“Chocante. Winston desfere golpes contra tudo em que as pessoas sensatas acreditam. Apesar disso, sustento a inocência do autor ou, pelo menos, a inocuidade de seus ataques.
Vejamos a superficialidade, a ligeireza desses desatinos:
‘Todos eles mandam matar com facilidade; presidem guerras com alegria, enforcam crianças e queimam as colheitas dos ímpios, em nome do amor, da caridade, da edificação humana. Sobretudo do amor.’
Com ênfase doentia, Winston afirma, mas não prova. Não lhe ocorreu que a imputação de semelhantes crimes não pode ser assacada contra Deus?
Outro parágrafo: ‘Deuses são sinceros nos assassinatos, posto que barrocos: às vezes como algozes, às vezes como vítimas. Não há deus que não se jacte de perpetrar ou sofrer periódicos massacres. Que culto coletivo estaria completo sem um revigorante banho de sangue, um implacável pogrom contra uma minoria (os portadores de sardas, os leitores de playboy, por exemplo)?’
Está provado que Winston sequer pretendeu criticar as religiões. Parece que o propósito foi mesmo o de provocar o leitor, mediante chocarrices. Trata-se de mais uma emulação intelectual desse aventureiro do pensamento.
Uma aventura incômoda, é verdade, mas que sequer merece reprimendas, se pensarmos na irrisoriedade dos argumentos. Sua ferocidade, fingida, não deve causar senão sorrisos indulgentes. É assim que vejo o manuscrito do Winston”.
Creio ser justa a crítica; algo condescendente, mas sincera. Eis tudo.
II.
Um segundo texto me chegou às mãos, e ele é difícil. Não tive oportunidade de mostrá-lo ao padre Júlio. Pretende-se um breve comentário à obra de Sören Kierkegaard. É perturbador.
“O cristão Sören Kierkegaard apresenta interessantes contribuições filosóficas ao cristianismo. Ou muito me engano ou seu pensamento, compendiado por Borges, é um consistente programa para o agnosticismo:
Evangélico luterano, negou os argumentos que provam a existência de Deus e a encarnação de Jesus, que julgou absurdos do ponto de vista racional, e propôs para cada crente um ato de fé individual. Não aceitou a autoridade da Igreja e escreveu que cada pessoa tem o dever de optar.
Para ele, não há argumentos que provem a existência de Deus; não há arrimo racional para a encarnação de Jesus. Vamos admitir: o homem é honesto.
Essas ‘provas’ vinham definhando desde Kant, Hume e Locke, já um tanto livres da tutela clerical.
Proponho, em face das documentadas imposturas das religiões em geral, e da cristã em particular, um ato individual de repúdio à fé. Proponho a opção de cada um por nenhum deus, que todos se mostraram ociosos solecismos.
Quem se der ao trabalho de Edward Gibbon constatará a mutação de idiomas e ídolos a que chamamos história. Quem puder aceitar que os fatos da história são perecíveis não há de se importar com a superação da Trindade.
A quem não puder renunciar ao suborno do céu, apresento esse deus ora aprimorado: quatro entes integrados na fraternidade.
Ele dispensa a fé, por conformar sua natureza e verdades aos fatos empolgados pelo conhecimento científico, sem perder sua haura de glória, sua autoridade.
Não haverá fé. Não se concederá o benefício da dúvida a entidades perjuras. Se esse deus disser, por exemplo, que a densidade do universo é maior que o valor necessário para a contração gravitacional, a prova científica de um universo aberto será suficiente para sua incineração e eterna desonra.
Se, por outro lado, suas verdades, mesmo concordantes com a colheita empírica de fatos, tenderem a doutrina, qualquer que seja seu teor de humanismo, esse só fato o fará merecedor de todo repúdio, de toda traição humana.
Não haverá doutrina. Não se permitirá que humanos terceirizem pensamentos e afetos. Cada qual deve sentir por si mesmo, e ninguém terá permissão para colonizar a mente alheia, mesmo que para livrá-la de suposta ignorância.
Ficam expressamente abolidos, enquanto perdurar a humanidade, o pecado e sua horrenda expiação; as oferendas, e seu comércio; a intermediação de espertos e santos; a anuência a toda forma de violência, mormente as praticadas em nome do amor.
Não haverá guerras. A democracia não mais será imposta pelo genocídio. A filantropos como Hitler e Bush não se concederão sociedades flácidas, crédulas e ingênuas.
Convida-se a todos para gentilmente refletir sobre as riquezas humanas: tolerância e edificação solidária do homem, sem ilusões.
Não haverá proselitismo. Inexistem boas novas que não sejam patrimônio prévio de cada homem.
Esses alguns pensamentos a propósito da crítica de Sören Kierkegaard ao cristianismo.”
O texto, digitado em tipos verdana tamanho 14, contém as linhas gerais do pensamento de Winston acerca da religião anunciada (com sarcasmo) no primeiro texto. Não está assinado, mas entranha-se logicamente com a sátira, embora a negue e por ela seja negado parcialmente, como todo texto complexo. A noção de texto definitivo não pertence senão à religião e ao cansaço, diz Borges, acho que com essas mesmas palavras.
Kipling observou que ao escritor é permitido urdir fábulas, mas que lhe é vedado saber a moral da história. Winston, creio, não desmente essa tradição.
Carlos. 2.5.2006.
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sábado, 21 de junho de 2008
terça-feira, 3 de junho de 2008
Carlos
Carlos era uma boa pessoa. Escreveu uma biografia, em que não ambicionou se ater à estrita verdade. Declaro não lhe guardar rancor.
Esta não é uma biografia, mas pretende servir à memória de Carlos, agora que ele não está mais entre nós.
Infelicitava-o ataques de tédio, falta de dinheiro e enxaquecas. Rechaço as afirmações de que Carlos era limitado intelectualmente. Ele apenas não sentia o chamado da perspicácia e da consistência. Seus pensamentos eram modestos, davam voltas e quase sempre tornavam ao ponto de partida, amedrontados.
Suas relações com o vernáculo eram difíceis. Em várias ocasiões presenciei injustas hostilidades contra a gramática.
Acreditou em Fernando Collor, nas guerras petroleiras dos Bush, em duendes; lia Paulo Coelho. Até Kasparov lê, que se há de fazer?
Esteve no hotel Glória, no Rio de Janeiro, pouco antes do acidente. Despertou sincera e profunda antipatia logo ao chegar. Não só dos funcionários do hotel, mas também dos participantes do simpósio.
Espontaneamente, e sem a concorrência de um só gesto de Carlos, os funcionários do hotel entraram a odiá-lo. Desde os porteiros, até os funcionários do caixa (com quem jamais falou), passando pelas camareiras (que pouco o viam), eles intuíram que sua obrigação imediata era o ódio. Antigas desavenças foram esquecidas; inimigos de quinze, vinte anos deram-se as mãos, unidos no projeto maior de afrontar hóspede tão gostoso de odiar.
Ninguém sabe por que era tão gratificante odiar Carlos. Ele não era arrogante, não tinha sucesso na vida, cumprimentava até os mendigos que passavam do outro lado da rua, não era bonito (Deus sabe quanto Carlos não era bonito), nem rico. Mas ninguém que o conhecesse deixaria de considerar: “eu tenho de odiar esse manezim!”
Ex-funcionários, em cujas escandalosas demissões foram negligenciadas verbas indenizatórias – e que haviam jurado incinerar o hotel – de repente telefonaram oferecendo seus conhecimentos à casa para fazer sofrer o nosso Carlos.
Não se sabe como Carlos desenvolveu esse dom, de despertar iras assassinas no mais pacato interlocutor. O leitor pode pensar que Carlos não fazia o menor esforço para ser amado ou, pelo menos, aceito. O paradoxal é que não fazia outra coisa na vida.
A razão das dificuldades de Carlos, arrisco dizer, é que ele vivia além de suas posses afetivas. O aspecto pouco animador de sua vida interior talvez residisse, justamente, nos gastos anímicos exagerados, empreendidos no afã de ser aceito.
Diversas vezes tentei ajudá-lo. Carlos não era de perseverar. Mal percebia dificuldades, corria a se refugiar em livros de auto-ajuda, e nos insossos programas de tevê; acossado pelas asperezas da vida, entrava em devaneios; sonhava mundos amenos, mais simples.
– Essas fugas te consomem – tentei alertá-lo.
Em toda a vida freqüentou diversos esquecimentos. Esqueceu como foi sua infância, de escassos encantos; esqueceu a escola em que estudou, a cidade em que cresceu; os amigos, que o perderam antes de mesmo de serem esquecidos.
Esqueceu as surras que levou ou empreendeu, os tombos; esqueceu as namoradas unilaterais dessa mesma infância, e as felicidades que a visitaram, intermitentes.
Carlos era generoso, mas pouco podia fazer para mostrar-se. Era um desvalido. Sua mulher o abandonou, assim que pôde. Os filhos o abandonaram, assim que puderam. Foi feliz com outras mulheres, que não foram felizes com ele. As decepções cumularam-no, sem prejuízo do bom humor, que lhe caía bem.
Torcedor do Flamengo, mas principalmente de Zico, Júnior, Leandro e Éder, visitou a Gávea; participou de um transe coletivo no Maracanã. Naquele domingo, as hordas chegavam de todos os lados. A Zona Norte forneceu carregamentos dos mais exaltados torcedores; o Livramento, o Adeus, o Dona Marta: de toda parte eles desciam, varados da necessidade prévia de humilhar o adversário.
Do Caixa d´Água baixaram varões exemplarmente motivados; munidos de foguetes – que poderiam, sem dificuldade, trazer embaraços à VI Frota – via-se quanto eles acreditavam no time.
O Maracanã tremia em ondas, entregue aos movimentos das massas. Já nem importava o que os jogadores faziam em campo, mesmo porque, da arquibancada, pouco se distinguia além de formiguinhas uniformizadas correndo aleatoriamente atrás de algo, de qualquer forma invisível. A torcida bastava a si mesma, munida de radinhos, mantendo-se informada dos acontecimentos no remoto campo. Se os soldadinhos de chumbo se reuniam no centro do campo, alguém passava a senha, e a comemoração tinha início.
A princípio, as torcidas vacilavam sobre quem tinha feito o gol, então ambas se levantavam, eufóricas. Depois de alguma apreensão, permeadas de histéricos desmentidos pelo rádio, e na impossibilidade de se saber quem tinha marcado (se é que um gol se produzira) chegava-se a um acordo, e a torcida (do Flamengo, por exemplo) arrogava-se o direito de saborear aquele gol, tão necessário.
Foram 93 minutos desde o nada até a glória incandescente. Armam-se os foguetes, acendem-se as piras, transbordam cascatas de rubros fogos, a torcida erige deuses, transida de furiosa felicidade. Em meio a ela, Carlos, oscilando junto com a arquibancada, num encapelar uniformizado, enquanto lá embaixo os jogadores já se dirigiam a suas ferraris.
Consumada a apoteose popular, cada carlos devia se resignar a sua respectiva insignificância.
O nosso exerceu diversas soberbas. A mais lembrada é sua humildade. Custava-lhe falar de si mesmo; não consentia que outros em sua presença o fizessem. Era um notório defensor da abolição dos títulos; empreendia filantropias desinteressadas, o que só aumentava o rancor que lhe votavam os amigos.
Lia distraidamente e sem compromisso. Não favorecia negociatas, conchavos, e outros bons negócios. O que não o isentava de ser usado nesses mesmos conchavos; de ser instrumento da perfídia alheia.
Carlos exerceu soberana irrisoriedade. Não há um único episódio, um único móvel de sua vida que exorbite o irrisório, o ordinário. Quando se formou (em direito); quando operou o joelho; quando casou; quando nasceram-lhe os filhos; quando salvou crianças da fome: essas coisas, consideradas em si mesmas, alcançavam especial grandeza. No que dissessem com Carlos, encolhiam, encolhiam e se perdiam nas cavas insondáveis do irrisório.
Empreendeu esforços heroicos para conferir totalidade a seus dias; alimentou e cuidou, anonimamente, de um batalhão de órfãos, desistiu de seus sonhos, em prol dos sonhos dos filhos. Essas iniciativas implicaram na felicidade, na fortuna alheia. No que concerniam a Carlos, tornaram-se memórias de gris irrisoriedade.
Não se deve confundir irrisório com efêmero. As coisas mais importantes da vida podem ser efêmeras: o sorriso de uma mulher ou de uma criança; a festa de casamento; a palavra amiga; a mão de carta redentora; o lampejo azulado antes do raio. Que há de mais efêmero (e mais importante), que o sim de uma mulher?
Que nunca seja irrisório.
Havia algo em Carlos que eu não saberia figurar: em português é usada a palavra tristeza, sem ser inteiramente. Não consentirei o solecismo depressão (o que aborreceria a memória de Carlos), não. Todo o Carlos engenhava impoluta tristeza, para além de qualquer dor.
Comecei a falar de Carlos, cometi alguma indiscrição e vejo que ele se evade, complexo. Não acredito em pessoas complexas. Possa o leitor perdoar essa sinceridade.
Não diria que Carlos tinha personalidade complexa. Diria que era acidentado o percurso até seu suposto cerne, e que procurar essa essência seria como procurar o mais modesto rancho no mais remoto sítio num continente entregue ao abandono.
Esse traço da personalidade de Carlos, a princípio confundido com improbidade afetiva, descrevia uma variável importante em sua economia mental, persistente. Carlos era triste, sem sê-lo necessariamente.
Patrocinou inúmeras causas morais, previamente perdidas. Posicionou-se ao lado dos ianques na estafante guerra chamada Século XX, sem saber que era traído pelo complexo industrial-militar da América, que a empreendera. Guerras de cem anos ou mais não chegam a ser novidade. Novidade foi o culto entusiasmado a filantropos como Hitler e Stalin.
Se me pedissem para formular um mundo que não pudesse ser pensado, por contraditório, eu polidamente refugaria. Borges apresenta-nos esta enormidade: um mundo em que só é verdade o que acontece a cada trezentas noites.
Isso implicaria que todos os eventos desse mundo, que perdura e portanto precisa sacar somas de realismo e localidade no banco do espaço-tempo, são invariavelmente falsos, exceto os ocorridos ao redor do prazo mágico.
Borges não se dá conta, ou não se importa, que não existe mundo sem eventos, e que nenhum mundo de respeito toleraria intervalos arbitrários de veracidade; espasmos existenciais fixados por capricho.
Ora um mundo em que tudo fosse mentira seria um não-mundo, o ocioso emprego dos petrechos da existência em uma vasta facécia.
Fui amigo de Carlos, não seu confessor. Não saberia dizer, por exemplo, por que ele correspondeu ao amor de algumas moças, e ignorou o de outras, igualmente lindas (fique claro que toda moça que por nós se apaixona é linda).
Desde Mônica, passando por tantas paulas, fabrícias e anas, muitas mulheres submeteram Carlos a esforços anímicos, procurando ganhar suas fortalezas ora com carinhos, ora com desdém. Carlos caiu gostoso nas muitas armadilhas que elas lhe prepararam (é de mau gosto não cair nos laços de uma mulher). Com isso, seu músculo cardíaco sofreu inúmeras fraturas; foi estraçalhado por mulheres tranquilas e seguras na disciplina exclusiva de fazer-nos sofrer. Mas isso é secundário. O importante é cair em todas essas armadilhas, insisto.
Patrícia, por exemplo, arranjou noivo, só para dilacerar o pobre Carlos, que a essa altura se apaixonara por aquele corpinho, por aquelas duas esmeraldas instantes, por aquela inteligência feminil, de claros pendores para a ira. Ele começara a depender dela para sorrir, para acreditar. Quando soube do noivado, estrelas borradas e trêmulas acusaram o golpe.
É difícil antecipar-se à ira de uma mulher. Normalmente, até pensamos que estamos agradando, quando sobrevém a tormenta. Elas chegam de mansinho, muita vez sorrindo, e despejam doses cavalares de desprezo. Apresentam-nos ao noivo; viajam com um cara (você não conhece o tal cara ou, pior, conhece); namoram um amigo; vão estudar no exterior.
Saberá, o homem, o que quer uma mulher? Saberá a mulher?
Carlos não sabia, desnecessário dizer. Ele as amava; elas sabiam que empolgavam aquele coração. Toda mulher sabe que merece ser amada. Cada qual exige amor inaugural, frescor de flor do campo orvalhada. O melhor é não se demorar para obedecê-las.
Carlos não se consentia inteiramente; não era tranquilo conviver consigo mesmo. Pegava em armas contra si. Passava longas temporadas ausente; sumia, fugia para regiões não sabidas da migração anímica; reaparecia muitas pessoas depois, desarvorado, faminto de vivências amenas, de interações gentis.
Carlos, como contar-te?
Vou dizer só mais umas coisinhas e já finalizo. Carlos estava para receber uma promoção na vida: casaria com uma moça em cuja alma a natureza fora muito feliz. Era dessas moças peritas em convivência: uma verdadeira mulher. Dessas que nos invadem as agruras, os queixumes, trazendo o hidromel do sorriso, aconchegando-nos com palavras quentes e vivificantes.
Interveio o destino, não permitindo que todo aquele encanto fosse contaminado pelas artes invejosas do cotidiano. Carlos foi colhido pela noite terminal; juntou-se a estrelas em fuga, e a essa altura talvez alimente a poeira que vai contrair-se para formar novas estrelas.
E é assim que hoje seus amigos se lembram de Carlos: como um jardim acolhedor, descansando em eterna sombra.
Winston, 9 de outubro de 2004.
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