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sábado, 10 de dezembro de 2011


Abaixo, Hélio faz uma (mais uma) defesa do bom senso e da razão. Confessadamente sou mais passional que Hélio, enxergando mais os prejuízos que os supostos benefícios da religião na história.

Quando digo religião, acorrem as regras infinitamente tristes e arbitrárias dos cultos, e os rios de dinheiro drenados dos incautos, necessários para manter as frotas de jatinhos e iates dos corretores da ignorância e ingenuidade do público.

Diz Hélio:



Já que dois amigos meus, Ives Gandra Martins e Daniel Sottomaior, se engalfinharam em polêmica acerca de um suposto fundamentalismo ateu, aproveito para meter o bedelho nessa intrigante questão. Como não poderia deixar de ser, minha posição é bem mais próxima da de Daniel que da de Ives.
Não se pode chamar de fundamentalista quem exige provas antes de crer. Aqui, o alcance do ceticismo é dado de antemão: a dúvida vai até o surgimento de evidências fortes, as quais, em 2.000 anos de cristianismo, ainda não apareceram.
Ao contrário, dogmas vão contra tudo o que sabemos sobre o mundo. Virgens não costumam dar à luz e pessoas não saem por aí ressuscitando. Em contextos normais, um homem que veste saias e proclama transformar vinho em sangue seria internado. Quando se trata de religião, porém, aceitamos violações à física e à lógica. Por quê?
Ou Deus existe e espera de nós atitudes exóticas -e inconsistentes de uma fé para outra-, ou o problema está em nós, mais especificamente em nossos cérebros, que fazem coisas esquisitas no modo religioso.
Fico com a segunda hipótese. Corrobora-a um número crescente de cientistas que descrevem a religiosidade ou sua ausência como estilos cognitivos diversos. Ateus privilegiam a ciência e a lógica, ao passo que crentes dão mais ênfase a suas intuições, que estão sempre a buscar padrões e a criar agentes.
Posta nesses termos, fé e ceticismo se tornam um amálgama de influências genéticas e culturais difícil de destrinchar -e de modificar.
Como bom ateu liberal, aplaudo avanços no secularismo, já que contrabalançam o lado exclusivista das religiões, que não raro degenera em violência e obscurantismo. Mas, ao contrário de colegas mais veementes, acho que a religião, a exemplo do que se dá com filatelia, literatura e sexo, pode, se bem usada, ser fonte legítima de bem-estar e prazer.

sábado, 12 de março de 2011

Acaso e misticismo


Lamento, mas parece que somente o Hélio escreve coisas inteligentes na imprensa pátria. Coluna após coluna ele filtra o que de melhor é escrito lá fora, traduzindo tudo com um toque pessoal de inteligência e erudição. No texto abaixo ele adverte sobre o papel do acaso em nossas vidas, ilustrando como o misticismo nasce de nossa recusa em compreende-lo corretamente. Apreciemos:

Sempre que eu escrevo sobre religião, como foi o caso na coluna passada, passada, sou invariavelmente assaltado com argumentos do tipo "É preciso que haja um Criador, pois a chance de a vida ter surgido por acaso na Terra é a mesma da de um vendaval varrendo um depósito de lixo fabricar um Boeing 747 a partir dos materiais lá disponíveis".

Admito que a analogia é divertida, mas pouco exata. Ela foi criada por um respeitável astrônomo britânico, sir Fred Hoyle, para defender a hipótese da panspermia, isto é, de que as moléculas que deram origem à vida surgiram no espaço e foram trazidas à Terra por cometas. Sir Fred, que se notabilizou por ser o cientista "do contra" (além da evolução química, opôs-se, entre outras coisas, ao Big Bang), acabou se tornando, por razões óbvias, o herói da turma do design inteligente. É uma pena, porque isso obscurece sua importante contribuição para a nucleossíntese estelar (mais especificamente, o surgimento dos átomos de carbono no núcleo das estrelas).

A ideia básica de Hoyle é que a probabilidade de se obter o conjunto de enzimas para a mais simples das células é de uma em 1040000. Como o número de átomos existentes no úniverso é estimado em "apenas" 1080, o astrônomo concluiu que mesmo um Universo repleto de sopa primordial teria dado pouca chance para processos evolutivos, daí a necessidade de um processo guiado. Apesar de tudo, Hoyle nunca chegou a defender a existência de um Criador. Foi até apelidado de "o ateu favorável ao design inteligente".


Há pelo menos um erro fatal no argumento, a que os biólogos moleculares chamam de falácia de Hoyle. O autor faz suas contas imaginando a probabilidade de uma primeira sequência chegar ao produto final num único passo. Só que nenhum biólogo ousa afirmar que sistemas complexos surgem num único passo. Mesmo quando se considera a origem da vida, é preciso levar em conta os passos intermediários que possam ter sido de alguma valia para a vida pré-celular do organismo. Ignorar isso leva a subestimar grosseiramente a probabilidade do processo.

Subjaz ao erro de Hoyle uma incompreensão fundamental sobre o papel do acaso na evolução. Embora mutações nos seres vivos de fato ocorram aleatoriamente, a seleção subsequente --que conserva o que é útil e despreza o que não o é-- nada tem a ver com acaso. Ela é, se quisermos, o avesso do acaso. Trata-se, na verdade, de um dos poucos processos naturais que conseguem simular o trabalho de projetistas. Só que funciona ao contrário. Ao preservar traços mesmo que milimétricos de utilidade e descartar todas as mutações que não servem para nada (a maioria delas é neutra ou resulta em cânceres, é oportuno lembrar), a seleção consegue, ao longo de inúmeras gerações, produzir estruturas que passam por entidades concebidas por uma inteligência.

Acho que vale a pena agora darmos uma guinada psicológica e tentar entender melhor por que as pessoas compreendem tão mal o acaso. Não parece exagero afirmar que já nascemos com preconceito contra ele. Entre os vieses fundamentais de nosso cérebro, aos quais já aludi algumas vezes neste espaço, está a obsessão pelo controle.

Nós, seres humanos, adoramos estar no controle. E adoramos tanto que achamos que estamos no comando mesmo quando não estamos. Como explica Leonard Mlodinov em seu "The Drunkard's Walk: How Randomness Rules our Lives" (o andar do bêbado: como o acaso comanda nossas vidas), um dos experimentos favoritos dos psicólogos é botar um sujeito diante de luzes que piscam num padrão aleatório e mandá-lo apertar um botão que não faz nada. Em pouco tempo o cara vai dizer que controla as luzes.

Numa variante, colocam um grupo de indivíduos diante de um círculo luminoso onde as luzes piscam ao acaso e dizem que, se elas se concentrarem, farão com que as luzes pisquem num movimento horário. Logo, essas pessoas ficam surpresas achando que conseguiram, embora as luzes sigam piscando aleatoriamente. É até possível fazer com que dois times compitam simultaneamente, um para fazer com que as luzes sigam em movimento horário, e, outro, em anti-horário. O interessante na história é que não haverá perdedores. Os dois lados vão clamar vitória.

A busca por controle está tão impregnada em nossas mentes que produz efeitos inesperados sobre nossos corpos. Num experimento seminal, Ellen Langer dividiu pacientes idosos de asilos em dois grupos. O primeiro podia decidir como dispor as coisas em seus quartos e também pôde escolher uma planta e cuidar dela. O segundo tinha seus quartos arrumados por funcionários. Esses velhinhos também ganharam um planta, mas não puderam escolhê-la nem podiam regá-la, tarefa que cabia ao pessoal de apoio dos asilos. Algumas semanas depois, ambos os grupos foram submetidos a testes que mensuravam o bem-estar. Como o leitor já deve ter adivinhado, o conjuto que exercia controle sobre seu ambiente se saiu bem melhor.

O que ninguém esperava, porém, aconteceu 18 meses depois, quando Langer deu início a um estudo de "follow-up": o grupo que não dispunha de controle apresentou uma taxa de mortalidade de 30%, contra 15% dos que regavam suas próprias plantas.

Outros experimentos de Langer mostraram que a necessidade de sentir-se no controle afeta nossa percepção de eventos aleatórios. Num deles, voluntários preferiram consistentemente jogar contra um adversário que aparentava nervosismo a um que parecia calmo, mesmo sendo uma disputa de cara ou coroa, em que o resultado é determinado exclusivamente pelo acaso, e nada tem a ver com o estado emocional do jogador.

Meu palpite é que esse amor pelo controle, que tem como reverso uma certa fobia do acaso, está também na origem das religiões. Do vodu e dos cultos animistas às rezas, a religião busca transmitir a sensação de que alguém controla o curso dos acontecimentos. Mais do que isso, deixa uma janela para nós mesmos atuarmos. Implorar um favor a um ser onipotente já é tomar algum tipo de atitude, o que é mais do que limitar-se reconhecer o grande papel que o acaso tem sobre nossas existências.

E, como o livro de Mlodinov explora muito bem, esse papel é muito, muito maior do que gostamos de acreditar. É claro que também há espaço para o talento e a determinação, mas, mesmo assim, fatores aleatórios seguem com enorme influência.

No fundo, a conta é simples. Como diz Mlodinov, "se os eventos são aleatórios, nós não estamos no controle, e, se estamos no controle, eles não são aleatórios". Esse choque fundamental é uma das principais razões por que confundimos habilidade com sorte e ações sem sentido com controle. É também uma das razões por que muitos de nós acreditam em deuses e ficam de cabelo em pé com a simples sugestão de que a vida (e a nossa existência e a de todos os que amamos) resulte do encontro inopinado de moléculas de carbono com mais meia dúzia de produtos químicos baratos.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Religião

O Globo de hoje:
ROMA - A religião é um "produto" da evolução do cérebro humano, de modo que a idéia de Deus, assim como os comportamentos religiosos, encontram seu fundamento no mundo real no qual o cérebro é predisposto a funcionar. A tese é do pesquisador americano Pascal Boyler, que publicou seu artigo na revista científica Nature. Boyler, professor do departamento de Psicologia e Antropologia da Universidade Washington, detalha em sua pesquisa que formas cognitivas predispõem o homem a praticar a fé religiosa.
"Um dia encontraremos as provas para demonstrar que nossa inata propensão ao pensamento religioso deriva do fato de que nossos antepassados tiravam disso uma vantagem evolutiva." Por exemplo, a tendência a criar imagens imateriais e a ver Deus como uma figura antropomórfica é explicada pelo hábito infantil de criar figuras semelhantes às reais em sua imaginação - aos moldes dos amigos imaginários. O pesquisador descreve que também os rituais religiosos seriam comportamentos padrão do cérebro humano, comportamentos estereotipados e repetitivos como os que ocorrem em distúrbios obsessivo-compulsivos, nos quais o fiel assume obrigações por sua crença, mesmo que não traga efeitos reais. Uma outra característica do cérebro humano que pode explicar alguns aspectos da religião, segundo Boyer, é a tendência a socializar, a tecer coalizões que vão além das relações de parentesco. Essa inclinação à vida em grupo cria a comunidade religiosa, que cria para si as regras próprias de cada crença. Segundo Boyer, não será descoberto o "circuito do pensamento religioso" ou os "genes da fé", mas constatamos que "a religião é um produto da nossa evolução". - Um dia encontraremos as provas para demonstrar que nossa inata propensão ao pensamento religioso deriva do fato de que nossos antepassados tiravam disso uma vantagem evolutiva - declarou o pesquisador. - Pensamentos religiosos parecem ser uma propriedade emergente de nossa capacidade cognitiva padrão. As informações são da Ansa

sábado, 21 de junho de 2008

Uma sátira

I. Divulgo agora, talvez na esperança de compartilhar com pessoas de conformação moral e espiritual mais elevadas que eu, essa experiência profundamente perturbadora. Divulgo, talvez, para livrar-me desse peso; para tentar ficar em paz com minha consciência. Durante muito tempo não consegui dormir, após tomar conhecimento dessas contundentes anotações. Hesitei ao longo de alguns anos, talvez à espera de vir a compreender seu significado. Conheci Winston na faculdade. Era um cara comum, se o termo não for ofensivo, conquanto ostentasse orgulhosa inteligência. Aos poucos, Winston se revelou uma pessoa amistosa, afável, de intelecto irrequieto. Eu diria que nos tornamos amigos. Não sei se ele consentiria essa afirmação, algo pretensiosa. Se mais não digo, é porque nada de notável havia nessa amizade, exceto a visível superioridade de Winston. Ele dirigia as conversas, brincava com idéias, doutrinas. Ciências aplicadas, fundamentos de filosofia, matemática, astronomia. Discursava, defendia e atacava posições. Apaixonava-se por idéias e, quando finalmente eu supunha compreendê-las, elas já tinham caído em desgraça, ou estavam esquecidas. Eram monólogos, às vezes áridos, às vezes acalorados, e acontecia de eu estar por perto, ocasionalmente. Eu ouvia, tentando aprender, esforçando por esconder minha ignorância. Faço aqui a divulgação desse libelo contra o cristianismo, e as religiões em geral. Trata-se de uma sátira, escrita sem pretensões literárias, para divertimento de seu redator, suponho. Agora que se passaram tantos anos do desaparecimento de Winston, e como é voz corrente que ele está morto, faço a divulgação da única e discutível herança dessa esfuziante mente. De minha parte, não acredito na morte de Winston. As circunstâncias de seu desaparecimento, na ilha sul da Nova Zelândia, a extensa viagem à Ásia, tudo leva a crer que Winston planejou mais uma patranha, e esteja alocado nalgum ponto da orla desse oceano que ocupa metade do globo. Seu corpo nunca foi encontrado. Seus bens (por volta de duzentos mil dólares) foram liquidados meses antes da viagem e convertidos em moeda americana. Após ingressar regularmente na Índia, fez uso de passaportes falsos, como se descobriu numa extensa investigação. Passou ao Paquistão, depois Java, Bali, Sumatra, e outras ilhas da Indonésia, Timor Leste, Nova Guiné, Austrália e Nova Zelândia. Não é impossível que esteja, neste momento, num barco de pescador, a caminho de sua milésima ilha nesse largo oceano. Desapareceu no dia 6 de maio de 2002, nas montanhas que vigiam Queenstown. Foi avistado pela última vez se dirigindo para Milford Sound, de carro. Para mim, que encontrei guarida na fé cristã, é penoso percorrer as linhas desse relato ímpio. Alguns poderiam enxergá-lo como uma pequena diabrura, produto de uma alma sequiosa de encontrar algo em que acreditar. Às vezes penso sentir pena de seu pobre autor, mas quem sou eu para julgar o imprevisível vulcão de idéias que assolava, a intervalos, aquela mente? Tremi ao pensar no destino dessa infeliz alma. Se Deus, a quem ele despreza, não se cansa de demonstrar misericórdia, também é um Deus de retidão e justiça. Nem me tranqüiliza pensar que Deus tem um plano para Winston: temi pela força necessária para demovê-lo de sua incredulidade zombeteira. Não espero compreender a mínima fração da mente de Deus, mas sei que tudo que Ele faz é incensurável e bom para nós, que estamos a sua mercê, saibamos ou não. Tampouco tentarei esboçar uma resposta aos injustos ataques desferidos contra o sentimento religioso, e a fé cristã. Por várias razões: a primeira é que a sátira foi construída de forma despreocupada, sem qualquer apoio científico ou filosófico. Logo, não requer resposta; a segunda é que a sátira é inexpressiva literariamente, como o próprio autor admite, o que dispensa qualquer réplica; a terceira (e verdadeira), é que não me acho capacitado a debater o que foi escrito, seja qual for sua real envergadura e significado. De Winston, nascido e criado em lar piedoso, filho de praticantes do protestantismo, talvez possa ser dito: “O que é curioso é que, divorciado da teologia calvinista, ficou sendo um calvinista sem teologia, isto é, um homem com todos os prejuízos dos sectários dessa fé, tormentos e escrúpulos de consciência, aversão ao catolicismo, intolerância, repugnância pelos judeus, apesar de parecer mais um profeta do Antigo Testamento do que um adepto cristão”, duras palavras aplicadas a Carlyle. Daí, paradoxalmente, emerge a necessidade de publicar essa sandice: para que pessoas mais bem aquinhoadas possam entender e refutar quanto foi dito, se entenderem necessário. Não digo isso em demérito ao autor, não. Passei muitas noites em vigília, invocando Deus, rogando a sua inesgotável benevolência para com os homens carecedores do dom da fé. Então percebi que devia publicar a sátira, como forma de alertar as pessoas, nesse iludido início de século, de que o discurso científico ou filosófico não são panacéia para todos os males do homem. Existe um espírito, sustentáculo do livre-arbítrio, insuflado por Deus, insuscetível de apropriação pelo cálculo. Ele se alimenta da virtude que emana de Deus, de sua luz. O amor de Deus, seja qual for o nome Lhe for dado, flui generosamente para a humanidade, salvando-a de si mesma. Fórmulas matemáticas são boas aproximações descritivas do mundo extensível; teorias científicas são ferramentas importantes para se pensar a matéria, sua constituição e comportamento, mas nada disso provê o homem da matéria-prima da vida: o amor divino. Jamais alcancei a natureza e os fundamentos das idéias que davam entrevista naquela mente. Mesmo agora, é com assombro que corro os olhos pelo manuscrito que ora apresento. “Ensaio. Concebo a idéia. Não consigo saber como um portento desses me ocorreu, mas o sólido fato é que estou prestes a declarar uma nova utopia aos homens. Bilhões de seres humanos darão a vida defendendo essa minha idéia, enquanto outros bilhões se lançarão como demônios sobre quem a professar, e rios de sangue correrão na batalha pela verdade. Não sei como expor isto que é mais que um conceito, um sistema filosófico. É uma nova forma de encarar a vida e a morte; uma alternativa a diversas ordens de -ismos; às crenças humanas em geral. Seu enunciado ainda não formulei; sua mensagem central luta por abrir caminho em minha equívoca consciência. Suas mensagens auxiliares também estão em gestação, e receio que nunca serão apresentadas ao mundo. Entanto adivinho quão essencial é essa fortuna, e já vejo bilhões de crânios pulverizados por defenderem pequenas heresias, versões ligeiramente amaneiradas dessa fecunda idéia, por outros bilhões de seres ofendidos em sua pureza e ortodoxia. Vou apresentar uma idéia, revolucionária como algumas outras, radical como poucas. Uma idéia seminal, violenta: um insight fundamental. É provável que alguma divindade entre como ingrediente, e a teodicéia exija antagonistas rubros, sagazes e falcatos. Apraz-me que o pólo divino seja ambíguo, e que o demoníaco seja desenhado com algum grau de definição moral. Não sei se adoto deus único, formado por quatro partes indissociáveis, ou deuses múltiplos, funcionando em regime de plantão. Um deus único é conceitualmente viável, mas veja-se a tragédia do judaísmo-cristianismo: começou com Jeová “Eu Sou o que Sou”, depois foi incorporando Jesus, e o Espírito Santo, numa confusa povoação do estado divino. Um deus formado por duas pessoas é arranjo logicamente possível, mas isto é bem pouco para os nossos propósitos. Quem acreditaria em um deus dual? Um deus formado por duas partes, ainda que indissociáveis, levantaria suspeitas de impasse, e suscitaria a noção do duplo, que tanto horror traz à limitada mente humana. Já um deus ternário apresenta diversas vantagens. Não seria facilmente reduzido a dois pólos, nem teria contra si a maldição do número par, uma classe de número insuficientemente mágica, como se sabe. Também contaria, o seu resultado, com os favores de uma dízima periódica, irracional e infinita, esses últimos atributos encontradiços em deuses, arcanos ou modernos. Por outro lado, se é vantajoso ser trino, quando se é Deus, surpreendem-se inúmeras virtudes em ser quaternário. Conheço deuses do Oriente e do Ocidente. Aqueles tendem a ser numerosos, ao custo de uma sensível diluição de seus poderes sobre os hospedeiros. Estes conhecem arianismos, austeridades e paternalismos, no sentido que um urso polar emprestaria ao termo. São muito inclinados a sentir ciúmes. Todos eles mandam matar com facilidade; presidem guerras com alegria, enforcam crianças e queimam as colheitas dos ímpios, em nome do amor, da bondade, da edificação humana. Sobretudo do amor. Com quatro seres informando nosso deus, poder-se-ia designar um como guardião de cada dimensão conhecida: as três espaciais e a temporal, atendendo-se às exigências das relatividades especial e geral. Quatro também são os pontos cardeais, e o crente saberia que Deus é onipresente. Quatro, ainda, são as categorias apriorísticas de Kant: quantidade, qualidade, relação e modalidade. Isso deveria bastar para revelar a insondável profundidade do número escolhido, sua feliz adequação à composição divina. Com quatro entidades na Unidade, a eventual crucificação de um deles – e deuses são especialmente suscetíveis a assassinatos conspícuos e a extinções provocadas pelo ingrato esquecimento – não desfalcaria de forma comprometedora a divindade, que três remanesceriam, compondo um verossímil colégio de desígnios a governar, com alguma plausibilidade, o mundo. Deuses são sinceros nos assassinatos, posto que barrocos: às vezes como algozes, às vezes como vítimas. Não há deus que não se jacte de perpetrar ou sofrer periódicos massacres. Que culto coletivo estaria completo sem um revigorante banho de sangue, um implacável pogrom contra uma minoria (os portadores de sardas, os leitores de Playboy, por exemplo)? Com Tolstói, dir-se-ia que todos os agnósticos são muito parecidos entre si. Já os crentes, cada qual tenta ser o mais parecido com as idéias a que nomeia Deus. Os cínicos argumentariam que os crentes são preocupantemente parecidos com o oposto das qualidades divinas em que fingem acreditar. Este não é um tema fácil. Enfim, quis acreditar um deus que, ao contrário dos deuses em uso, públicos ou secretos, pudesse ser intuído de forma não-contraditória. Também não me decidi se prestigio a igualdade, a caridade, ou a supremacia do mais forte, como áreas de concentração dessa minha teoria. Se Wittgenstein (II) elegeu a inconsistência da linguagem; Schopenhauer (aos 31 anos) a vontade e sua representação; e Nietzsche (não sem antes detonar a “vontade” em Schopenhauer) a vontade de potência como contribuições filosóficas fundamentais, não vejo por que não possa apresentar essa minha idéia, a um tempo religião, sistema de poder e princípio de sólidas bases científicas. A primeira, reivindicada pelo socialismo e suas atrozes variantes, pugnava que os seres humanos são sobretudo iguais, querendo nos fazer acreditar que disso derivaria um sistema econômico viável. Os regimes políticos daí advindos provaram ad nauseam a falácia da igualdade, da maneira mais inimaginável. Erigiram-se, invariavelmente, regimes brutais, em que as pessoas não passavam de insumos baratos e irrelevantes. O estado comunista usou, moeu e descartou seus súditos, enquanto o tirano de plantão vivia de expurgos cada vez mais surreais. A história desse delírio coletivo ainda está por ser detalhada. Pretenderam inúmeros cristianismos, a maioria sediada em alguma versão de textos alegadamente sagrados, que a caridade é, entre as medidas humanas, a mais excelente. A partir do original caridade, erigiu-se o amor em pedra de cantaria desse sistema religioso. Caridade (ou amor) é apenas iuma ideia utilitária, aposta excessivamente óbvia para qualquer profeta sequioso de arrebanhar asseclas. Cristão seria aquele que ama o semelhante, que doa desinteressadamente, não revida agressões, despreza a riqueza e não pretende o poder, entre outras angelicais normas de conduta (ou, então, o Novo Testamento é um vasto sistema de sarcasmo e duplilinguagem). Desnecessário dizer, não tenho visto ser assim. Mas, diriam, se não temos flagrado muitos cristãos amando, ou, pelo menos, não assassinando descaradamente o amigo, o irmão, em troca de algumas moedas, isso não invalida o contributo de Cristo, que sofreu na cruz para nos salvar. Não me sinto inteiramente salvo, e não consigo invejar os remidos. Diariamente eles cometem alguns crimes contra o próximo, antecipadamente perdoados por um Deus de conveniente misericórdia. Está bem estabelecido que Deus é sempre bondoso conosco e nossa família, mas será que devia demonstrar tanta tolerância para com os ímpios? Jorge Santayanna, poeta e filósofo, acreditava que o cristianismo é má interpretação literal de metáforas judias. Ele deplorou sua fé perdida, “esse esplêndido erro tão afim com os impulsos e ambições da alma”. Eu diria que os impulsos e ambições da alma nada têm com as covardias e farsas cristãs, conforme o pressuroso Nietzsche. Vejamos como a classe média brasileira está sendo instruída no tema. A citação é de uma revista semanal: 'A doutrina que se foi cimentando nos primeiros séculos da Igreja ensina que Cristo tem uma dupla natureza: é integralmente divino e integralmente humano. É divino porque é uma das três formas de Deus (...) e, como tal, existe desde antes da Criação.’ Mais à frente, reproduz-se esta notícia: ‘Os seguidores de Maomé não acreditam que Jesus seja o Filho de Deus, já que o Corão diz que Alá não gerou nem foi gerado, e repudiam a Santíssima Trindade, que violaria o conceito da unicidade de Deus. Mas consideram Jesus um dos grandes profetas e admitem a concepção imaculada – Maria teria engravidado de Cristo, ainda virgem, por intercessão divina.’ Com exceção dessa última parte, acho que os muçulmanos estão com a razão. Os gulosos cristãos, não se contentando com ter em Cristo um dos mais destacados procuradores de Deus, aventuraram-se a decretá-lo seu filho único, membro pleno do board que aporta sarjetas ou bilhões de dólares ao destino humano, num gigantesco bingo. Reservo-me o direito de não endossar a concepção virginal e a volta de Jesus, temas assaz tormentosos, áridos e de difícil comprovação, após vinte séculos mentirosos. Outro ponto de contato entre as minhas convicções e as dos maometanos envolve um pequeno detalhe do cristianismo, uma coisinha de nada: a crucificação. Sabe-se quanto Jesus sofreu na cruz para tornar-nos novamente aceito aos olhos de Deus. Suspeito, contudo, que a crucificação não foi dolorosa o bastante para expiar, verbi gratia, meus pecados, horrendos. Tivesse o redentor experimentado um câncer fulminante num filho; tivesse mergulhado num Alzheimer profundo; incorrido no destino inexorável de milhões que dependem da saúde e previdência públicas brasileiras, aí se poderia falar num resgate completo das nossas ofensas. De molde que, como muitos não-cristãos, acredito que o episódio da cruz foi um grande mal-entendido. Parece que aos judeus também repugna a idéia de Deus sacrificando o próprio filho, ou que um inocente deva morrer pela conduta alheia. Se bem que as objeções hebréias são inconsistentes, tivermos em mente o simulacro do sacrifício de Isaque por Abrãao. A religião foi a mais forte das paixões de Kierkegaard, e preocupou-o singularmente esse sacrifício. Sem conhecer detalhes dessa preocupação, arrisco dizer que o episódio, puramente literário, é outra das teratologias bíblicas, compradas sem critério no supermercado de idéias religiosas de então. Tudo que Jesus disse, e está na Bíblia, disse-o quase cem anos depois de morto, o que apenas prova a excepcional indústria de seus diligentes médiuns. Se eu deixar para registrar observações sobre um artista, um político ou uma idéia qualquer na semana que vem, ou, melhor ainda, no ano que vem, é provável que um ataque fulminante venha a se parecer com um pequeno panegírico, ou que loas incondicionais e sinceras soem como agressões coléricas. Mas eu não sou divino, deve ser isso. O fato notável é que, contemporâneos a Jesus, existiam milhares de profetas pregando nos desertos estéreis do oriente médio, Índia, China, Golfo do México, Califórnia, Peru, e na Mongólia. É possível supor um profeta pataxó fazendo peregrinações ao Monte Pascoal, bradando contra o cinismo oportunista de pajés bem estabelecidos no sistema político da tribo, e anunciando boas-novas, alimentos para os pobres e carregamentos confiáveis de finas ervas. Uma abordagem estocástica da história é suficiente para mostrar que, entre milhares de profetas, todos filhos de Deus ou seus bastante procuradores, qualquer deles tinha chance de passar à história como proprietários de verdades eternas. Aconteceu ser um tal Jesus. Poderia ter sido João Batista, ou um egípcio qualquer, um persa, um txucarramãe, um maia. Bastaria posicionar-se na orla de um grande império decadente, e ter um bocado de sorte. O lado excitante disso é que não sabemos se, no futuro, centenas de bilhões de pessoas estarão dando a vida por algum mendigo que hoje perambula pelas ruas de São Paulo, pregando uma nova doutrina, que só será compilada, compreendida e purificada muitos anos após sua morte, conquistada num hospital conveniado ao Sistema Único de Saúde. Tudo sopesado, fico com a firme impressão que Jesus encarrapitou-se num madeiro, adivinhando uma vaga no Olimpo, só para sacanear a nós, ateus de boa vontade do Século XXI. Winston.” Esse manuscrito foi mostrado para o padre Júlio. Padre Júlio deixou a batina há muito, para se casar, mas mantém vida piedosa. É uma das pessoas mais inteligentes que conheço, e dava aula de teologia na faculdade em que eu e Winston estudáramos. Tem, portanto, credenciais para opinar sobre o relato. Um pouco constrangido pelo que leu, padre Júlio, judeu e católico, entregou-me a seguinte anotação, que utilizo para finalizar estas linhas: “Chocante. Winston desfere golpes contra tudo em que as pessoas sensatas acreditam. Apesar disso, sustento a inocência do autor ou, pelo menos, a inocuidade de seus ataques. Vejamos a superficialidade, a ligeireza desses desatinos: ‘Todos eles mandam matar com facilidade; presidem guerras com alegria, enforcam crianças e queimam as colheitas dos ímpios, em nome do amor, da caridade, da edificação humana. Sobretudo do amor.’ Com ênfase doentia, Winston afirma, mas não prova. Não lhe ocorreu que a imputação de semelhantes crimes não pode ser assacada contra Deus? Outro parágrafo: ‘Deuses são sinceros nos assassinatos, posto que barrocos: às vezes como algozes, às vezes como vítimas. Não há deus que não se jacte de perpetrar ou sofrer periódicos massacres. Que culto coletivo estaria completo sem um revigorante banho de sangue, um implacável pogrom contra uma minoria (os portadores de sardas, os leitores de playboy, por exemplo)?’ Está provado que Winston sequer pretendeu criticar as religiões. Parece que o propósito foi mesmo o de provocar o leitor, mediante chocarrices. Trata-se de mais uma emulação intelectual desse aventureiro do pensamento. Uma aventura incômoda, é verdade, mas que sequer merece reprimendas, se pensarmos na irrisoriedade dos argumentos. Sua ferocidade, fingida, não deve causar senão sorrisos indulgentes. É assim que vejo o manuscrito do Winston”. Creio ser justa a crítica; algo condescendente, mas sincera. Eis tudo. II. Um segundo texto me chegou às mãos, e ele é difícil. Não tive oportunidade de mostrá-lo ao padre Júlio. Pretende-se um breve comentário à obra de Sören Kierkegaard. É perturbador. “O cristão Sören Kierkegaard apresenta interessantes contribuições filosóficas ao cristianismo. Ou muito me engano ou seu pensamento, compendiado por Borges, é um consistente programa para o agnosticismo: Evangélico luterano, negou os argumentos que provam a existência de Deus e a encarnação de Jesus, que julgou absurdos do ponto de vista racional, e propôs para cada crente um ato de fé individual. Não aceitou a autoridade da Igreja e escreveu que cada pessoa tem o dever de optar. Para ele, não há argumentos que provem a existência de Deus; não há arrimo racional para a encarnação de Jesus. Vamos admitir: o homem é honesto. Essas ‘provas’ vinham definhando desde Kant, Hume e Locke, já um tanto livres da tutela clerical. Proponho, em face das documentadas imposturas das religiões em geral, e da cristã em particular, um ato individual de repúdio à fé. Proponho a opção de cada um por nenhum deus, que todos se mostraram ociosos solecismos. Quem se der ao trabalho de Edward Gibbon constatará a mutação de idiomas e ídolos a que chamamos história. Quem puder aceitar que os fatos da história são perecíveis não há de se importar com a superação da Trindade. A quem não puder renunciar ao suborno do céu, apresento esse deus ora aprimorado: quatro entes integrados na fraternidade. Ele dispensa a fé, por conformar sua natureza e verdades aos fatos empolgados pelo conhecimento científico, sem perder sua haura de glória, sua autoridade. Não haverá fé. Não se concederá o benefício da dúvida a entidades perjuras. Se esse deus disser, por exemplo, que a densidade do universo é maior que o valor necessário para a contração gravitacional, a prova científica de um universo aberto será suficiente para sua incineração e eterna desonra. Se, por outro lado, suas verdades, mesmo concordantes com a colheita empírica de fatos, tenderem a doutrina, qualquer que seja seu teor de humanismo, esse só fato o fará merecedor de todo repúdio, de toda traição humana. Não haverá doutrina. Não se permitirá que humanos terceirizem pensamentos e afetos. Cada qual deve sentir por si mesmo, e ninguém terá permissão para colonizar a mente alheia, mesmo que para livrá-la de suposta ignorância. Ficam expressamente abolidos, enquanto perdurar a humanidade, o pecado e sua horrenda expiação; as oferendas, e seu comércio; a intermediação de espertos e santos; a anuência a toda forma de violência, mormente as praticadas em nome do amor. Não haverá guerras. A democracia não mais será imposta pelo genocídio. A filantropos como Hitler e Bush não se concederão sociedades flácidas, crédulas e ingênuas. Convida-se a todos para gentilmente refletir sobre as riquezas humanas: tolerância e edificação solidária do homem, sem ilusões. Não haverá proselitismo. Inexistem boas novas que não sejam patrimônio prévio de cada homem. Esses alguns pensamentos a propósito da crítica de Sören Kierkegaard ao cristianismo.” O texto, digitado em tipos verdana tamanho 14, contém as linhas gerais do pensamento de Winston acerca da religião anunciada (com sarcasmo) no primeiro texto. Não está assinado, mas entranha-se logicamente com a sátira, embora a negue e por ela seja negado parcialmente, como todo texto complexo. A noção de texto definitivo não pertence senão à religião e ao cansaço, diz Borges, acho que com essas mesmas palavras. Kipling observou que ao escritor é permitido urdir fábulas, mas que lhe é vedado saber a moral da história. Winston, creio, não desmente essa tradição. Carlos. 2.5.2006.