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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Ateísmo

Não me defino como ateu. Os outros é que são crentes, sem qualquer autorização ou arrimo. Não me defino por oposição aos outros, mesmo que tumultuosa maioria. E essa maioria quer porque quer que eu acredite na inexistência de Deus/deuses. 

Não acredito, não acredito, não acredito!

O fato de Deus e os deuses não existirem, e bem assim o Saci, não me obriga a crer em sua inexistência. Deixem minhas crenças fora disso! Já as mulas-sem-cabeça são um caso à parte, tormentoso. 


Hélio faz, abaixo, outra sóbria intervenção no vespeiro religioso. Matou a pau:

Basicamente, coloquei-me do lado de Daniel [Sottomaior], quando afirma que não existe algo como fundamentalismo ateu, pelo menos não se definirmos o ateísmo como a posição daqueles que não acreditam em afirmações extraordinárias como a existência de um Deus pessoal, milagres e demais violações ao que sabemos sobre a física e a lógica sem que elas se façam acompanhar de evidências palpáveis.

A palavra fundamentalismo, compreendida como uma adesão irrestrita a dogmas e crenças axiomáticas, não combina com ateísmo, porque o incréu racional se veria compelido a mudar de opinião com a apresentação de provas. Se o Criador surgisse nos céus e se comunicasse com a totalidade da população mundial demonstrando seus poderes, por exemplo. Convenhamos que, se o Deus judaico-cristão de fato existisse e tivesse apenas uma fração dos poderes que a tradição lhe atribui, não teria nenhuma dificuldade para realizar um truque desses.

Já um fundamentalista religioso é alguém que não muda de opinião, pois não há uma forma lógica possível de indicar para além de qualquer dúvida que o Deus judaico-cristão não existe. Ele é definido de modo que sempre pode escapar para os interstícios do discurso e da própria epistemologia. Ou, para colocar o problema num exemplo concreto, eu poderia demonstrar a existência de Papai Noel capturando-o e o apresentando aos céticos, mas não há como provar que o bom velhinho não existe, pois o fato de eu não encontrá-lo mesmo com séculos e séculos de busca pode significar apenas que não o procurei direito. Nesse sentido, os ateus estão do lado confortável da equação, já que, por idiossincrasias da lógica (é difícil refutar um juízo particular negativo), caberia aos religiosos provar que o Deus monoteísta existe, o que ainda não fizeram em cerca de 2.000 anos de cristianismo e 3.000 de judaísmo.

Se a questão da existência ou não de um Criador é tão elusiva do ponto de vista formal, por que a maioria da população do planeta continua, com tão pouca base concreta, acreditando em algum tipo de entidade metafísica que comanda ou pelo menos influi nos destinos dos homens?

O meu palpite, que é referendado por um número crescente de psicólogos e neurocientistas como Catherine Caldwell-Harris, Andrew Newberg, David Comings, é o de que estamos aqui lidando com diferentes estilos cognitivos. Ateus privilegiam as camadas mais externas e frontais do cérebro, além do córtex anterior cingulado, dando preferência a raciocínios lógicos e exatos, enquanto os crentes se fiam mais nos lobos temporais, confiando em suas intuições. Não é um acaso que uma resposta religiosa comum às objeções dos ateus seja: "eu sei que Ele existe".

Pessoalmente, já adotei um ateísmo mais militante. Achava que era importante expor o maior número de pessoas a ideias ateias para que elas pelo menos soubessem que é possível pensar fora do registro das religiões e chegassem a suas próprias conclusões. Continuo pensando que o debate franco é positivo, mas estou cada vez mais inclinado a considerar que o que define a religiosidade de uma pessoa é uma complexa combinação de fatores genéticos e socioculturais. Nesse contexto, a militância (seja ela do lado religioso ou ateu) se torna menos importante, pois acaba sendo uma espécie de pregação para convertidos.

É claro que, no que concerne a direitos e liberdades, tanto religiosos como ateus estão autorizados a dizer o que bem entendem. Enquanto permanecermos no reino das palavras, estamos seguindo as regras do jogo democrático. Tentar converter ou desconverter alguém é plenamente legítimo, tanto para Richard Dawkins como para os testemunhas de Jeová. E nem é preciso que os argumentos sejam bons. Só o que não pode acontecer é que saiamos do campo da semântica para adotar técnicas mais físicas de persuasão, como a censura a ideias, sob pena de prisão, e as fogueiras, que já foram utilizadas no passado. É também por aí que acho que não podemos falar em fundamentalismo ateu, uma vez que jamais ouvi falar de um que adotasse outra arma que não o discurso. Na verdade, considerando que foi só muito recentemente que conquistaram o direito de expor livremente seus pontos de vista, ateus até que fazem um uso bastante parcimonioso da palavra.

domingo, 21 de outubro de 2007

O Delírio de Dawkins

Alister e, ao que parece, Joanna escreveram "uma resposta ao fundamentalismo ateísta de Richard Dawkins".
Estou irritado com o Alister (vou incluir a Joanna fora dessa).
Ele destruiu minha fé. Era uma fezinha de nada, bem pequenininha, mas era uma fé. Eu acreditava que deviam existir, em algum lugar inescrutável, verdades religiosas que eu desconhecesse, argumentos para contrapor a Dawkins.
Eu já tinha lido 32 páginas e não tinha encontrado nenhuma. Lá pela 70, bateu o desespero. Cumpri as 140 páginas impregnadas de um rancor bocó, uma coisa bem jeca, profundamente vexatória, porque não há nada mais vexatório que ser maldoso com alguém e fracassar.
Francis Collins, que perpetrou "A Linguagem de Deus" é outro "ex-ateu" (não há nada mais hilário que essa categoria). Faz proselitismo de uma espiritualidade vigorosa, desde que seja monoteísta e cristã. E se o leitor não quiser ser monoteísta e cristão?
Ele apresenta, aparentemente a sério, uma tese espantosa: a "lógica espiritual" sem, contudo, definir a expressão, o que desaponta, embora não surpreenda.
O homem chega a ser sincero em algumas partes do "livro", mas põe sua pouca credibilidade a perder com uma incrivelmente criativa "estatística" sobre milagres. Ou quando nos revela que, em algum momento, Deus teria impingido um espírito e uma "lei moral" ao pobre hominídeo em evolução.
Esses autores religiosos observam que "nos anos 60, diziam que a religião estava desaparecendo, substituída por um mundo secular" (Alister) e que, hoje, a religião retomou com força total. Será que Deus, que já é onipotente, precisa dessas "defesas" iradas? Se eles já ganharam a guerra, não entendo a histeria.
Nem me impressiona a atual moda religiosa. A psicanálise floresceu e nos aborreceu por mais de meio século; o comunismo alicerçou estados totais e as piores retóricas políticas por mais de cem anos.
Ora estão mortos (o comunismo da China inspira indulgência e o da Coréia do Norte e Cuba, suspiros de compaixão. Freud se mostrou um charlatão muito cultivado e muito aborrecido).
Não tenho dúvida de que, quando a atual maré religiosa virar, o secularismo chegará a extremos, para o bem e para o mal.
Muitos observam que o ateísmo teria pouco mais de um século. Com cerca de 2.600 anos, Deus/Javé ou sua interessante corruptela Jeová estaria em evidente vantagem.
Com que facilidade esquecem que o Homo sapiens, embora recente, tem significativos 200.000 anos!
Tão logo o excedente cerebral pôde engendrar, atribuímos significados engenhosos a tudo. E desde então a superstição nos acompanha, nas formas mais variadas e loucas. Quando os pequenos bandos de caçadores-coletores se agruparam em conglomerados sociais complexos, surgiram estados e religiões onde antes só havia superstição e relações de parentesco e amizade.
As religiões, instáveis, se transformam, ficam irreconhecíveis e desaparecem. A superstição, não.
Os autores adoram os deuses atuais. Usando duplilinguagem (na terminalogia de George Orwell), eles fazem a defesa possível de um conjunto de miragens que eles mesmos gostariam de abandonar, se tivessem meios. Não os invejo. Não tenho nenhuma pena dos milhões de deuses que morreram. Nem apreço pelos que habitam a mente dos crentes em todos os lugares.
Eu diria, com o gigante Peter Medawar, que esses autores só podem ser eximidos de desonestidade porque, antes de tentar enganar os outros, fizeram de tudo para enganar a si mesmos.