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domingo, 1 de janeiro de 2012

Hélio e a felicidade

Aí está, Hélio mandando bem mais uma vez:

O ano começou. É tempo de resoluções. As promessas que fazemos a nós mesmos com o intuito de nos tornar pessoas melhores e mais felizes podem assumir muitas formas: iniciar aquela dieta, exercitar-se regularmente, não pegar tanto no pé do filho adolescente. Invariavelmente elas dão com os burros na água. Por quê?

O florescente ramo dos estudos da felicidade traz algumas pistas interessantes. Nós, seres humanos, somos ruins em agir com vistas a metas futuras porque, ao contrário do que acreditamos, nossa experiência de "eu" se decompõe em muitos eus que funcionam de forma diversa e têm interesses, às vezes, conflitantes.

É preciso distinguir entre o eu autobiográfico e o eu que vive as experiências. O primeiro é um ator racional, que gerencia as informações e, em geral, toma as decisões. O segundo é pura sensação. É ele que, minuto a minuto, experimenta as dores e os prazeres a que nos submetemos.

E o problema é que o eu autobiográfico age como um tirano, que nunca leva em conta os interesses do eu experiencial. Operando mais com a memória do que com o instante, não hesita, por exemplo, em aumentar a experiência dolorosa aqui e agora, desde que isso lhe pareça necessário para maximizar o que imagina serão suas lembranças futuras.

O eu experiencial, embora menos poderoso na hierarquia cortical, não está desprovido de meios. Ligado às camadas mais primitivas do cérebro, mobiliza recursos como a preguiça e o desgosto, capazes de sabotar até as mais sólidas resoluções de ano novo. 

Esse descompasso entre os diferentes eus está na origem de alguns dos mais importantes erros (ou acertos) que uma pessoa pode cometer, consubstanciados em decisões como as de poupar para a aposentadoria, casar-se e ter filhos. O problema aqui é que o eu futuro imaginado quase nunca corresponde ao eu futuro real. É por isso que a busca pela felicidade é mais capciosa do que parece.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Ateísmo

Não me defino como ateu. Os outros é que são crentes, sem qualquer autorização ou arrimo. Não me defino por oposição aos outros, mesmo que tumultuosa maioria. E essa maioria quer porque quer que eu acredite na inexistência de Deus/deuses. 

Não acredito, não acredito, não acredito!

O fato de Deus e os deuses não existirem, e bem assim o Saci, não me obriga a crer em sua inexistência. Deixem minhas crenças fora disso! Já as mulas-sem-cabeça são um caso à parte, tormentoso. 


Hélio faz, abaixo, outra sóbria intervenção no vespeiro religioso. Matou a pau:

Basicamente, coloquei-me do lado de Daniel [Sottomaior], quando afirma que não existe algo como fundamentalismo ateu, pelo menos não se definirmos o ateísmo como a posição daqueles que não acreditam em afirmações extraordinárias como a existência de um Deus pessoal, milagres e demais violações ao que sabemos sobre a física e a lógica sem que elas se façam acompanhar de evidências palpáveis.

A palavra fundamentalismo, compreendida como uma adesão irrestrita a dogmas e crenças axiomáticas, não combina com ateísmo, porque o incréu racional se veria compelido a mudar de opinião com a apresentação de provas. Se o Criador surgisse nos céus e se comunicasse com a totalidade da população mundial demonstrando seus poderes, por exemplo. Convenhamos que, se o Deus judaico-cristão de fato existisse e tivesse apenas uma fração dos poderes que a tradição lhe atribui, não teria nenhuma dificuldade para realizar um truque desses.

Já um fundamentalista religioso é alguém que não muda de opinião, pois não há uma forma lógica possível de indicar para além de qualquer dúvida que o Deus judaico-cristão não existe. Ele é definido de modo que sempre pode escapar para os interstícios do discurso e da própria epistemologia. Ou, para colocar o problema num exemplo concreto, eu poderia demonstrar a existência de Papai Noel capturando-o e o apresentando aos céticos, mas não há como provar que o bom velhinho não existe, pois o fato de eu não encontrá-lo mesmo com séculos e séculos de busca pode significar apenas que não o procurei direito. Nesse sentido, os ateus estão do lado confortável da equação, já que, por idiossincrasias da lógica (é difícil refutar um juízo particular negativo), caberia aos religiosos provar que o Deus monoteísta existe, o que ainda não fizeram em cerca de 2.000 anos de cristianismo e 3.000 de judaísmo.

Se a questão da existência ou não de um Criador é tão elusiva do ponto de vista formal, por que a maioria da população do planeta continua, com tão pouca base concreta, acreditando em algum tipo de entidade metafísica que comanda ou pelo menos influi nos destinos dos homens?

O meu palpite, que é referendado por um número crescente de psicólogos e neurocientistas como Catherine Caldwell-Harris, Andrew Newberg, David Comings, é o de que estamos aqui lidando com diferentes estilos cognitivos. Ateus privilegiam as camadas mais externas e frontais do cérebro, além do córtex anterior cingulado, dando preferência a raciocínios lógicos e exatos, enquanto os crentes se fiam mais nos lobos temporais, confiando em suas intuições. Não é um acaso que uma resposta religiosa comum às objeções dos ateus seja: "eu sei que Ele existe".

Pessoalmente, já adotei um ateísmo mais militante. Achava que era importante expor o maior número de pessoas a ideias ateias para que elas pelo menos soubessem que é possível pensar fora do registro das religiões e chegassem a suas próprias conclusões. Continuo pensando que o debate franco é positivo, mas estou cada vez mais inclinado a considerar que o que define a religiosidade de uma pessoa é uma complexa combinação de fatores genéticos e socioculturais. Nesse contexto, a militância (seja ela do lado religioso ou ateu) se torna menos importante, pois acaba sendo uma espécie de pregação para convertidos.

É claro que, no que concerne a direitos e liberdades, tanto religiosos como ateus estão autorizados a dizer o que bem entendem. Enquanto permanecermos no reino das palavras, estamos seguindo as regras do jogo democrático. Tentar converter ou desconverter alguém é plenamente legítimo, tanto para Richard Dawkins como para os testemunhas de Jeová. E nem é preciso que os argumentos sejam bons. Só o que não pode acontecer é que saiamos do campo da semântica para adotar técnicas mais físicas de persuasão, como a censura a ideias, sob pena de prisão, e as fogueiras, que já foram utilizadas no passado. É também por aí que acho que não podemos falar em fundamentalismo ateu, uma vez que jamais ouvi falar de um que adotasse outra arma que não o discurso. Na verdade, considerando que foi só muito recentemente que conquistaram o direito de expor livremente seus pontos de vista, ateus até que fazem um uso bastante parcimonioso da palavra.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

A impostura dos royalties

Hélio Schwartsman comenta, na Foha, a novela dos royalties, com imposturas de parte a parte. O RJ extrai 80% dos hidrocarbonetos (petróleo e gás) no país, e considera, com certa razão, um roubo o que os outros estados pretendem. Lindbergh, senador por esse Estado, disse que a mudança nos royalties tiraria dinheiro da saúde. Fatos: os municípios e estados beneficiados tratam a verba como anabolizante da gastança. Alguns municípios, mesmo após os desvios, não têm onde torrar uma montanha de dinheiro, dentro da liturgia do orçamento público. Constroem estádios muito maiores que suas populações, aplicam em projetos lunáticos. E mesmo assim sobra dinheiro. O RJ torra tudo em salários e outras despesas correntes, de costas para o futuro. 

Fala Hélio:

Essa disputa entre os Estados pelos royalties do petróleo é um dos raros casos em que nenhum dos lados envolvidos tem razão, pelo menos a julgar pelos cânones da boa teoria econômica.

Como explica Flávia Caheté Lopes Carvalho em "Aspectos Éticos da Exploração do Petróleo", sua dissertação de mestrado, conceitualmente os royalties servem para compensar as próximas gerações pelo uso presente de um bem que, por ser exaurível, não estará disponível no futuro, quando valeria mais do que hoje. 

Quem destrinchou as bases matemáticas do problema foi Harold Hotteling (1895-1973) num texto clássico de 1931. A ideia central do autor é que é preciso pôr um preço extra na utilização de bens esgotáveis para estabilizar o mercado e maximizar, ao longo do tempo, os benefícios que eles podem produzir.É claro que apenas cobrar os royalties não basta para assegurar que o objetivo seja alcançado. Seria necessário também aplicar os recursos em áreas estratégicas, que preparem o país para o futuro no qual o petróleo não mais existirá. Tipicamente, o dinheiro deveria ir para rubricas como pesquisa, desenvolvimento tecnológico e educação. São, afinal, conhecidos os perigos da "doença holandesa", a desindustrialização provocada pela exploração de recursos naturais e pelas distorções cambiais dela decorrentes. 


O Brasil, contudo, deturpou inteiramente a ideia por trás dos royalties. Os Estados que hoje os recebem não pensam duas vezes antes de empenhá-los no pagamento de despesas correntes e até no financiamento da guerra fiscal, como vem fazendo o Rio de Janeiro. Tampouco consta que as unidades federativas prestes a tomar sua parte no butim estejam pensando muito seriamente em constituir fundos tecnológicos.Mais uma vez, vamos rifando o futuro de nossos filhos e netos em troca de mais um punhado de cargos e verbas para torrar.

sábado, 12 de março de 2011

Acaso e misticismo


Lamento, mas parece que somente o Hélio escreve coisas inteligentes na imprensa pátria. Coluna após coluna ele filtra o que de melhor é escrito lá fora, traduzindo tudo com um toque pessoal de inteligência e erudição. No texto abaixo ele adverte sobre o papel do acaso em nossas vidas, ilustrando como o misticismo nasce de nossa recusa em compreende-lo corretamente. Apreciemos:

Sempre que eu escrevo sobre religião, como foi o caso na coluna passada, passada, sou invariavelmente assaltado com argumentos do tipo "É preciso que haja um Criador, pois a chance de a vida ter surgido por acaso na Terra é a mesma da de um vendaval varrendo um depósito de lixo fabricar um Boeing 747 a partir dos materiais lá disponíveis".

Admito que a analogia é divertida, mas pouco exata. Ela foi criada por um respeitável astrônomo britânico, sir Fred Hoyle, para defender a hipótese da panspermia, isto é, de que as moléculas que deram origem à vida surgiram no espaço e foram trazidas à Terra por cometas. Sir Fred, que se notabilizou por ser o cientista "do contra" (além da evolução química, opôs-se, entre outras coisas, ao Big Bang), acabou se tornando, por razões óbvias, o herói da turma do design inteligente. É uma pena, porque isso obscurece sua importante contribuição para a nucleossíntese estelar (mais especificamente, o surgimento dos átomos de carbono no núcleo das estrelas).

A ideia básica de Hoyle é que a probabilidade de se obter o conjunto de enzimas para a mais simples das células é de uma em 1040000. Como o número de átomos existentes no úniverso é estimado em "apenas" 1080, o astrônomo concluiu que mesmo um Universo repleto de sopa primordial teria dado pouca chance para processos evolutivos, daí a necessidade de um processo guiado. Apesar de tudo, Hoyle nunca chegou a defender a existência de um Criador. Foi até apelidado de "o ateu favorável ao design inteligente".


Há pelo menos um erro fatal no argumento, a que os biólogos moleculares chamam de falácia de Hoyle. O autor faz suas contas imaginando a probabilidade de uma primeira sequência chegar ao produto final num único passo. Só que nenhum biólogo ousa afirmar que sistemas complexos surgem num único passo. Mesmo quando se considera a origem da vida, é preciso levar em conta os passos intermediários que possam ter sido de alguma valia para a vida pré-celular do organismo. Ignorar isso leva a subestimar grosseiramente a probabilidade do processo.

Subjaz ao erro de Hoyle uma incompreensão fundamental sobre o papel do acaso na evolução. Embora mutações nos seres vivos de fato ocorram aleatoriamente, a seleção subsequente --que conserva o que é útil e despreza o que não o é-- nada tem a ver com acaso. Ela é, se quisermos, o avesso do acaso. Trata-se, na verdade, de um dos poucos processos naturais que conseguem simular o trabalho de projetistas. Só que funciona ao contrário. Ao preservar traços mesmo que milimétricos de utilidade e descartar todas as mutações que não servem para nada (a maioria delas é neutra ou resulta em cânceres, é oportuno lembrar), a seleção consegue, ao longo de inúmeras gerações, produzir estruturas que passam por entidades concebidas por uma inteligência.

Acho que vale a pena agora darmos uma guinada psicológica e tentar entender melhor por que as pessoas compreendem tão mal o acaso. Não parece exagero afirmar que já nascemos com preconceito contra ele. Entre os vieses fundamentais de nosso cérebro, aos quais já aludi algumas vezes neste espaço, está a obsessão pelo controle.

Nós, seres humanos, adoramos estar no controle. E adoramos tanto que achamos que estamos no comando mesmo quando não estamos. Como explica Leonard Mlodinov em seu "The Drunkard's Walk: How Randomness Rules our Lives" (o andar do bêbado: como o acaso comanda nossas vidas), um dos experimentos favoritos dos psicólogos é botar um sujeito diante de luzes que piscam num padrão aleatório e mandá-lo apertar um botão que não faz nada. Em pouco tempo o cara vai dizer que controla as luzes.

Numa variante, colocam um grupo de indivíduos diante de um círculo luminoso onde as luzes piscam ao acaso e dizem que, se elas se concentrarem, farão com que as luzes pisquem num movimento horário. Logo, essas pessoas ficam surpresas achando que conseguiram, embora as luzes sigam piscando aleatoriamente. É até possível fazer com que dois times compitam simultaneamente, um para fazer com que as luzes sigam em movimento horário, e, outro, em anti-horário. O interessante na história é que não haverá perdedores. Os dois lados vão clamar vitória.

A busca por controle está tão impregnada em nossas mentes que produz efeitos inesperados sobre nossos corpos. Num experimento seminal, Ellen Langer dividiu pacientes idosos de asilos em dois grupos. O primeiro podia decidir como dispor as coisas em seus quartos e também pôde escolher uma planta e cuidar dela. O segundo tinha seus quartos arrumados por funcionários. Esses velhinhos também ganharam um planta, mas não puderam escolhê-la nem podiam regá-la, tarefa que cabia ao pessoal de apoio dos asilos. Algumas semanas depois, ambos os grupos foram submetidos a testes que mensuravam o bem-estar. Como o leitor já deve ter adivinhado, o conjuto que exercia controle sobre seu ambiente se saiu bem melhor.

O que ninguém esperava, porém, aconteceu 18 meses depois, quando Langer deu início a um estudo de "follow-up": o grupo que não dispunha de controle apresentou uma taxa de mortalidade de 30%, contra 15% dos que regavam suas próprias plantas.

Outros experimentos de Langer mostraram que a necessidade de sentir-se no controle afeta nossa percepção de eventos aleatórios. Num deles, voluntários preferiram consistentemente jogar contra um adversário que aparentava nervosismo a um que parecia calmo, mesmo sendo uma disputa de cara ou coroa, em que o resultado é determinado exclusivamente pelo acaso, e nada tem a ver com o estado emocional do jogador.

Meu palpite é que esse amor pelo controle, que tem como reverso uma certa fobia do acaso, está também na origem das religiões. Do vodu e dos cultos animistas às rezas, a religião busca transmitir a sensação de que alguém controla o curso dos acontecimentos. Mais do que isso, deixa uma janela para nós mesmos atuarmos. Implorar um favor a um ser onipotente já é tomar algum tipo de atitude, o que é mais do que limitar-se reconhecer o grande papel que o acaso tem sobre nossas existências.

E, como o livro de Mlodinov explora muito bem, esse papel é muito, muito maior do que gostamos de acreditar. É claro que também há espaço para o talento e a determinação, mas, mesmo assim, fatores aleatórios seguem com enorme influência.

No fundo, a conta é simples. Como diz Mlodinov, "se os eventos são aleatórios, nós não estamos no controle, e, se estamos no controle, eles não são aleatórios". Esse choque fundamental é uma das principais razões por que confundimos habilidade com sorte e ações sem sentido com controle. É também uma das razões por que muitos de nós acreditam em deuses e ficam de cabelo em pé com a simples sugestão de que a vida (e a nossa existência e a de todos os que amamos) resulte do encontro inopinado de moléculas de carbono com mais meia dúzia de produtos químicos baratos.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Religião

Hélio Schwartsman escreve, mais uma vez, sobre religião nas escolas, e mais uma vez sinto que é dever meu compartilhar suas opiniões.

"O que são as histórias da Bíblia? Fábulas, contos de fadas?", pergunta a professora do 3º ano do ensino fundamental. "Não", respondem os alunos. "São reais!"
A cena, que teve lugar numa escola pública de Samambaia, cidade-satélite de Brasília, abre a reportagem de Angela Pinho sobre o ensino religioso no Brasil, publicada no último domingo na Folha. É um retrato perfeito da encrenca em que essa disciplina, que vem crescendo e hoje abarca mais ou menos a metade das escolas do país, nos lança.

Se as historietas bíblicas são reais, como quer a professora, então nós temos vários problemas. Procedamos por ramos do saber, a começar da física. De acordo, com Josué 10:12, Deus parou o Sol para que os israelitas pudessem massacrar os amorreus. Mesmo que eu não duvidasse da onipotência do Senhor, pelo que sabemos hoje de mecânica, nada na Terra sobreviveria a uma súbita interrupção de seu movimento de rotação. Em quem o aluno deve acreditar, no professor de religião ou no de ciência?

A física não o comoveu? Que tal a geologia? Pela Bíblia, a Terra tem cerca de 6.000 anos --5.771, a confiar nas contas dos rabinos. Pela geologia, são 4,5 bilhões. É difícil, para não dizer impossível, conciliar a literalidade das Escrituras com a existência de fósseis com idades substancialmente maiores que os seis milênios. Do lado de qual professor o aluno deve perfilar-se?

Talvez o problema esteja nas ciências "duras". Passemos às humanidades. A Bíblia, como todo mundo sabe ou deveria saber, é a fonte da moral, e os ensinamentos que ela traz nessa área são incontestáveis. Será? Em várias passagens, o "bom livro" autoriza ou mesmo manda fazer coisas que hoje consideraríamos horríveis, como vender nossas filhas como escravas (Êxodo 21:7) e assassinar parentes que abracem outras religiões (Deuteronômio 13:7). Se julgamos que a ética se aprende através de exemplos livrescos, sugiro trocar as Escrituras pelo mais benigno Marquês de Sade.

OK. Alguém pode argumentar que essa professora é uma exceção. Afinal, ela parece estar sustentando a inerrância da Bíblia, conceito que, no Brasil, é defendido por poucas religiões, notadamente adventistas e testemunhas de Jeová. Para as demais, as Escrituras não precisam e nem podem ser tomadas ao pé da letra. Admito que essa mudança de discurso nos livra de algumas das dificuldades mais vexatórias --já não precisamos conciliar o criacionismo da Terra jovem com as aulas de ciência--, mas nem de longe acaba com elas.

Como já expliquei numa coluna antiga, embora seja em teoria possível juntar uma teologia um bocadinho mais sofisticada com a seleção natural neodarwinista, essa conciliação acaba resultando num Deus menos atuante, que cria as leis do universo e se retira. Ocorre que esse é o Deus de Newton e de Leibniz, mas não o das pessoas que vão a cultos. Para elas, um Deus que não ouve preces e não interfere nos destinos dos humanos é inútil. E esse Deus que elas querem --e que os sacerdotes pretendem colocar nas aulas de religião-- é, pelo menos no plano psicológico, incompatível com a ciência contemporânea que deveria ser ensinada nas escolas.

Não estou evidentemente sugerindo que as pessoas devam rifar Deus para ficar com a ciência. Essa é a minha opção, mas não acho que deva impô-la a ninguém. O simples fato de uns 90% da humanidade manifestar preferências religiosas é um bom indício de que essa é uma característica da espécie, como a tendência a gostar de música ou aquela quedinha por substâncias psicoativas. A verdade é que o ser humano tem algo de esquizofrênico. Só conseguimos conchavar crenças religiosas, que de algum modo acabam apelando ao impossível ou improvável, com o rigor lógico exigido pelo método científico, porque nosso cérebro está dividido em módulos. "Grosso modo", quando a parte responsável pelo pensamento lógico está ativa, inibe a área da religião, e vice-versa. Com esse mecanismo, as contradições, quando não passam despercebidas, tornam-se digeríveis.

Até para facilitar esse processo, não convém que religião e ciência sejam ensinadas no mesmo espaço. Para que a criançada aprenda desde cedo a distinguir o discurso do "lógos" (científico) do do "mythos" (religioso), é melhor que a escola trate apenas da ciência e que a religião fique a cargo dos templos.

Cuidado, não estou afirmando que não seja possível estudar a religião com ferramentas científicas. Em princípio, a sociologia, a antropologia, a psicologia e a neurociência estão aí para isso. Mas convém lembrar que estamos falando aqui de crianças de 6 a 15 anos, muitas das quais mal conseguem aprender português e as operações aritméticas básicas. Não me parece que a abordagem científica da religião deva ocupar um lugar muito alto na lista de prioridades. De resto, duvido que o lobby que advoga pelo ensino religioso esteja ansioso para ver a fé submetida a exame crítico.

Para além da cabeça da garotada, o ensino religioso na rede oficial também gera uma série de problemas institucionais. Como eu escrevi em texto que acompanhou a reportagem principal, a existência dessa disciplina em escolas públicas fere a separação entre Estado e igreja. Pelo menos em teoria, o Brasil é um Estado laico. Não há religião oficial e o artigo 19 da Constituição proíbe expressamente o poder público de estabelecer cultos religiosos, subvencioná-los ou manter com eles relações de dependência ou aliança. É claro que a teoria soçobra antes mesmo de chegarmos ao artigo 19. O próprio preâmbulo da Carta invoca a "proteção de Deus", e o artigo 210 prevê o ensino religioso nas escolas públicas de ensino fundamental.

Vale aqui observar que a única Constituição verdadeiramente laica que tivemos foi a de 1891, que rompeu com a Igreja Católica e eliminou quase todos os seus privilégios. As que a sucederam reintroduziram o ensino religioso.
Embora doutrinadores gostem de dizer que não há contradição entre os artigos 19 e 210, é forçoso reconhecer que colocá-los lado a lado gera pelo menos um mal-estar. Não é o único. A diferença é que, ao contrário de outros estrépitos constitucionais, que conseguem passar relativamente despercebidos, esse está produzindo consequências.
Por considerar que o Estado não pode regular matéria religiosa sem romper sua neutralidade diante delas (que caracteriza o laicismo), o CNE (Conselho Nacional de Educação) optou por não fixar parâmetros curriculares nacionais para a disciplina. A decisão é institucionalmente correta (e constitui uma prova indireta do erro que foi colocar o ensino religioso na escola pública), mas gerou um deus nos acuda, onde cada Estado definiu ao sabor da conjuntura política local como a matéria seria ministrada.

As pesquisadoras Debora Diniz, Tatiana Lionço e Vanessa Carrião, em "Laicidade e Ensino Religioso no Brasil", traçam um panorama desse pequeno caos.
Pelo que elas puderam levantar, Acre, Bahia, Ceará e Rio de Janeiro optaram por um sistema confessional, que não se distingue da educação religiosa oferecida em escolas ligadas a igrejas. Não é preciso PhD em Direito para constatar que esse tipo de ensino afronta o dispositivo da Lei de Diretrizes e Bases da Educação que veda o proselitismo no ensino religioso.

Os demais Estados menos São Paulo escolheram o modo interconfessional, no qual as religiões hegemônicas se unem contra as mais fracas e contra ateus e agnósticos para definir um núcleo de valores a ser ensinado aos alunos. Tampouco é um exemplo de defesa dos direitos das minorias.

Apenas São Paulo fez uma leitura um pouco mais crítica dos mandamentos constitucionais e se definiu pelo ensino não confessional. Pelo menos no papel, aqui as crianças têm aulas de história das religiões, no que é provavelmente a única forma de juntar sem produzir muitas fagulhas o ensino religioso com o princípio da separação entre Estado e religião.

Resta apenas responder porque a laicidade é assim tão importante. O problema com as religiões reveladas é que elas trazem absolutos morais. Se a lei foi baixada pelo Altíssimo, apenas querer discuti-la já representaria uma segunda ofensa contra o Criador. E utilizar absolutos na política --religiosos ou ideológicos-- é ruim porque eles a descaracterizam como instância de mediação de conflitos. O remédio contra isso, como já intuíram no século 18 os "philosophes" do Iluminismo francês e os "founding fathers" dos EUA, é a separação Estado-igreja. Ela facilita o advento da política como arte da negociação e, mais importante, favorece a noção de que minorias têm direitos que devem ser protegidos mesmo contra a maioria. Aqui, paradoxalmente, o laicismo se torna a principal força a proteger as religiões umas das outras.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Homeopatia


Hélio Schwartsman, articulista da folha, investe contra a homeopatia, essa lenda moderna. Funciona assim: seus "princípios ativos" são diluídos a tal ponto que não resta nada deles no "medicamento", ou, por outra, resta menos que substâncias como o ouro, arsênico ou chumbo.

Assim, quem toma droga homeopática está rigorosamente sob efeito de placebo, com os mesmíssimos resultados. Não advogo o banimento da homeopatia (está bem, advogo sim...), mas, pelo menos, que as pessoas sejam informadas de que ela não é o que finge ser: terapia médica. Está ao lado do curandeirismo, astrologia e outras formas de ociosidade remunerada. Seus seguidores mantêm o mito da "memória das moléculas", uma mentira cruelmente desmentida pela Física. Se existisse essa memória, um objeto banhado a ouro não demoraria nadinha a se "lembrar" de que também pode ser ouro e, bem, não temos visto isso acontecer...

Segue o Hélio:  
 
Escrevo essa reportagem sob overdose. Acabo de ingerir 60 comprimidos... de um preparado homeopático. 
De acordo com a bula do complexo homeopático nº 35, da Farmácia Almeida Prado, destinado a tratar "nervosismo", eu deveria procurar meu médico. De acordo com a química, porém, não preciso me preocupar. 
As substâncias do complexo nº 35, preparadas segundo as regras da homeopatia, são tão diluídas que eu não absorvi mais do que uns poucos milhões (106) de moléculas dos ingredientes originais. E isso é insuficiente para produzir efeitos orgânicos. 
Para dar termo de comparação, uma colher de chá de açúcar contém 7 sextilhões (7x1021) de moléculas de sacarose. Basicamente, o que eu consumi foram as bolinhas de lactose que servem de excipiente para os comprimidos. Elas bem que poderiam ser mais saborosas. 
Fiz esse experimento antecipando-me ao protesto global contra a homeopatia, iniciativa de um grupo de céticos que ocorre em 79 cidades de 27 países neste fim de semana. Os manifestantes vão, como eu, tomar doses maciças de remédios homeopáticos para chamar a atenção da população para o fato de que eles são inertes, isto é, "são feitos de nada", no dizer da campanha. Mais detalhes no site do movimento: www.1023.org.uk
No Brasil, estão previstas manifestações em São Paulo, Natal e Porto Alegre. Hoje, o braço paulistano vai se reunir na praça Benedito Calixto e precisamente às 10h23 cometerá a "overdose homeopática". Vá e leve seu complexo homeopático favorito, pois não haverá distribuição de drogas no local. 
O 10:23 que dá nome ao movimento é uma referência à constante de Avogadro (6,02x1023), a garantia estequiométrica de que preparados em diluições superiores a 12C passam a ter mais chances de não conter nenhuma molécula do princípio ativo do que de conter. 
A meta do movimento não é banir a homeopatia, mas levantar a discussão sobre seus fundamentos de modo que as pessoas possam fazer escolhas informadas sobre sua utilização. Outro objetivo é evitar que governos gastem preciosos recursos com tratamentos sem confirmação científica. Seria como financiar pesquisas astrológicas em vez de astronômicas. 
PS - Passadas mais de 24 horas da minha overdose, ainda não senti nada, mas, depois de ler a nota da entidade dos homeopatas, fiquei com vontade de me entregar à polícia. Quem gosta de homeopatia poderá dizer que é um efeito colateral do complexo nº 35. 

domingo, 9 de janeiro de 2011

Hélio Schwartsman

Hélio Schwartsman comenta com rara maestria a questão do nepotismo, na folha de 08.01.11:  

Todos os mamíferos investem nos cuidados com a prole. Lula é um mamífero. Logo, Lula investe nos cuidados com a prole.

Mais do que explicar a concessão de passaportes diplomáticos e férias no Guarujá a familiares, o silogismo escancara uma armadilha evolutiva: o desacerto entre nossa programação biológica e o ambiente moderno em que vivemos.

A natureza nos preparou para favorecer filhos, irmãos etc., mas isso não combina com as exigências democráticas de impessoalidade e mérito na administração pública. O resultado é a sucessão de pequenos e grandes escândalos de nepotismo, envolvendo favorecimentos suspeitos, contratações irregulares, funcionários-fantasmas etc.

Vale observar que o modelo tem alcance mais geral. O descompasso entre pendor biológico e mundo moderno ajuda a explicar outras mazelas contemporâneas, como a epidemia de obesidade (somos programados para gostar de doces e gorduras num ambiente em que gastamos cada vez menos calorias) e até o crime (o assassinato pode ser visto como uma forma extrema, e ilegal, de solucionar conflitos).

Voltando ao nepotismo, ele também está envolvido naquilo que o psicólogo Steven Pinker chama de paradoxo fundamental da política: o amor (e proteção) que pais dedicam a seus filhos torna impossível que uma sociedade seja, ao mesmo tempo, justa, livre e igualitária.

Se ela é justa, as pessoas que se esforçarem mais acumularão mais bens. Se é livre, elas os transmitirão a seus parentes. Mas, neste caso, a sociedade deixa de ser igualitária e justa, pois alguns herdarão riquezas pelas quais não trabalharam.

Sob essa chave interpretativa, uma ideologia política nada mais é do que a escolha de qual dessas características deve preponderar. Sistemas mais à esquerda enfatizam o igualitarismo, enquanto a direita enaltece a liberdade. Cada um deles define seu próprio "blend" como a materialização da justiça. O paradoxo, porém, subsiste