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domingo, 16 de novembro de 2008

O menino

A nossa pupila diz que quantidade de homens há dentro de nós. Afirmamo-nos pela luz que fica debaixo da sobrancelha. Os Trabalhadores do Mar – Victor Hugo – traduzido por Machado de Assis. Sou o menino que a vida ensinou demais a sentir; o que se demora na lição do sentimento. Um menino improvável, de começos extraordinários. Quem o consultava ficava melancólico pelo resto da vida. Eu, que o entrevistei, terei agora de me dedicar à complexa arte de envelhecer. 16.11.2008.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Luz

Se o seu enclavinhar é único que dizer dos olhos? No calor de suas mãos, perfeito empalme de sonhos. No ponto de ônibus o descortinar de um mundo
real? Não certamente, que a realidade não compreende o mágico, o etéreo. No ponto de ônibus 1987 o interpelar da quintessente beleza melífluo diálogo penumbra que às almas põe a lume. Tão grave demanda frente a frente com tão ansiado dulçor ... E o seu primeiro sorriso que é de lindes lindíssimo dos futuros emprestou auxílio (os sorrisos-ensaios do querer) a vida para sempre me iluminou.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Caixa Postal

Abro a caixa postal na expectativa de temperar matéria viva com esperança. Mas de lá, sei, saltam selos, logotipos, divisas duras, a nódoa comercial. Detetives, banqueiros, estatais, o sapateiro, alfaiates me querem, em pessoa ou na forma promissória. “Compre, adquira, receba grátis (por módica quantia indenizatória); consuma o que quiser apenas nos pague, Senhor nº n, que somos entidade filantrópica, sem fins lucrativos, mas amamos fazer circular a riqueza.” No sábado abro a caixa dos correios e o negócio é uma feijoada, a que compareço, em minha (predileta) manifestação cartão de crédito. Os afiadores de facas merchandaizam (que facas, limadas, abrem novas polpas, sequer supostas na praça dos desatentos). Matéria viva não há. A última carta de amor recebida foi nunca e desde então me apreende essa procura (carta de amor: pro cura). A última carta de amor recebida, embebida em anseio e vocativo natural, veio de uma terra tão difícil... (conheço o lugar, mas os ventos estão desaparelhados de rosa). “Senhor Gérson, elimine sua
pediculose, refresque seu quarto, compre dólares verdes georges, arremate nosso dócil camelo, viagem de férias pelas arábias; entre para o seleto clube de civis que possuem um caça usado, vá à Polônia ver o túmulo do Papa...
Senhor Gérson, que chato!
O senhor não tem colaborado!” Indiferente a tudo, ambiciono o bilhete da remota companhia a prometer viagens à Lua. No domingo, não obstante a dificuldade de acordar, com as chaves da felicidade nas mãos lanço-me ao bunker onde se esconde tanta correspondência para retirar meu certificado de vitória, meu diploma de bem-sucedido na vida. Nesse mesmo domingo é que as correspondências comerciais mais se mostram terríveis: desarmando mãos varadas pela expectativa e driblando olhos injetados de necessidade, de co-respondência, elas partiram voluptuosas para o negaceio, amigando-se às mitológicas cartas de amor, deixando meu pobre ego à mingua das carícias superficiais comerciais que tanto amo desprezar. Releio, altavoz, antiga correspondência: “compre nossos serviços, senhor ___________________________, que nós só o prestamos por altruísmo (e faremos descontos especiais a quem nos ligar com lágrimas nos olhos e cartão de crédito nas mãos). Lucro não nos dá, senhor. Nós o amamos, deixe-nos embriagar suas baratas, reformar suas teias de pensamentos e gritos”. O que mais me agrada é a correspondência bancária. Não raro vou às lágrimas, enlevado com os poemas em forma de extrato. Os borderôs de cobrança me comovem. Seriam aqueles números (montante, multa por atraso e juros de mora) a música de Pitágoras, que a impressora vazou em manchas pretas? Embora eu saiba que eles são contra apresentação, eu me apresento, de mãos abertas, e os recolho para brincar em meu colo, em minha conta bancária. Os bônus de desconto expiam meu salário salvando a espécie pecadora. Abro minha carteira com alegria: fui convidado a comprar. De joelhos chego ao templo do consumo e, já que de nada careço, deixo minha oferenda, comprando-me numa liqüidação anual.

sábado, 25 de outubro de 2008

Poema

Vou produzir um poema auto-evidente, sigilo em toda fome, notório. Um poema síndrome, padrão de toda dor, perdido. Um poema ansioso, difícil de sentir, angustiado. Vou produzir um poema que há de ser meu aparato e cópia minha imagem refletida, fugaz. Um poema que as editoras hão de recusar com entusiasmo. Depois vou me embrulhar nesse poema, esquecer a vida, dispensar os sentidos, desfazer-me em palavras. 23.02.2002.

Aos 30

algumas vantagens a contar: poemas algumas fotos (quantas válidas?) 1.000.000 páginas lidas muitas com entusiasmo outras com o nariz torcido outras com indisfarçável indiferença outras ainda com a sensação de dever cumprido. Aos 30 várias amizades confiscadas, outras entre famosos da literatura, e uma filosofia por se firmar. Parafraseando o capiau: não tenho tudo que amo não amo tudo que tenho não tenho tudo que tenho... mas que conversa aborrecida essa de ter e amar!

terça-feira, 14 de outubro de 2008

A difícil primavera

Não sendo o caso de primavera, colhamos as flores provisórias que alentam o dia possível. Elas resolveram publicar-se: sabem a manhã e lindam o dia. Eu quase não sei tanto amarelo, tanto pássaro. Eu quase não sei. A planície de girassóis dançarinos devassada pela claque pânica das aves. Um sol vertiginoso resolve a tarde, os reflexos de um coração diamantino. Vão-se os pássaros, apagam-se os incêndios amarelos de girassóis fortes em sol nutriz. Cabisbaixos, eles passarão a noite sem dar confiança às estrelas que, lindas, embaixarão mensagens de ternura e avivos. O discurso provisório das flores comunicando o dia. Chapadão do Sul, maio de 2004.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Excursão

Na excursão das crianças ao cinema verificou-se: um alarmante déficit de mães uma contenda envolvendo o Hulk e o Andrezinho um bulício articulado papelinho de bala um plocar-trovoada de chicletes o salto olímpico de pipocas esquivando-se de bocas molhadas de gula uma incontrolável epidemia de dor de barriga uma cacofonia de choros desafinados e uma poltrona vazia que era minha. O filme passava, as horas passavam e as crianças, que se haviam sujado ao não alcançarem banheiros, subiam uniformes ao caminhão do Exército. 1999.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Aniversário

Este é o melhor aniversário que já tive porque estou vivo porque posso lutar (e sorrir) porque posso perder, e recomeçar, e tornar a perder (é do jogo) e sobre isso apenas se diz: é a vida, sem falsificações. O melhor aniversário sem a afetação de encômios e presentes, melhor em si mesmo, fruto previsível da vida, um aniversário meu. Nunca foi tão difícil aniversariar, nunca tão auspicioso. Concedi-me mais tempo, com sua cópia enigmática de primaveras. Que venham as invenções, os enredos tortos e variados: assiste-me uma vida que pontualmente cumpre os ciclos das estações. Aniversario hoje, anunciando o fragor da existência. Mesmo nos dias de hoje é possível aniversariar. Enquanto isso flores juram o sol.

06.10.2001

domingo, 5 de outubro de 2008

O manejo do tempo

Fomos perdulários no manejo do calendário todos esses anos. A largura dos dias a altura dos meses a profundidade da vida, imprópria para o uso: somos malabaristas bêbados equilibrados sobre o fio do tempo. Há muito não me envio epístolas na faina desairosa do ócio. Procuro procuro procuro-me no espelho no retrato nos escritos. O que me acho é vago é vão é cego e vário, eu ordinário. A chance ilusória de deter o assalto do tempo, aprisioná-lo em nossa desapercebida mocidade. Os achados da maturidade, os vacilos ante o mortal: oscilamos humanos entre exigências de deuses. 19.10.2001

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Os sonhos

Alguns sonhos de nós se afastam mudos, desabridos seguem para outras internações. Outros seus frutos alienam sem direção e de nós nos vemos pobres. Entre os que ficam há os eternos, estelares, vão a ser. São esses que eu vim cantar-te.

sábado, 20 de setembro de 2008

A fuga

Deixa que fujam as galáxias todas contentar-me-ei com o calor de uma estrela. Viveremos na mais completa amplitude. Pois deixa que as galáxias se afastem todas, convulsas, em sua insensata jornada pelos céus. Ficaremos. Seremos humanos, mesmo assim. Que importa as galáxias fugirem, confusas, arrastando consigo o tecido espaço-temporal? Temos seu registro de luz, não nos desviaremos do caminho que convém seguir. Porfiaremos, humanos desde os princípios, junto a nossa pequenina e boa estrela. Luz e calor vitais. 9.2.2002

domingo, 20 de julho de 2008

Sobre fotografia e poesia

Meus amigos poetas não se cansam de elogiar as fotos. Os fotógrafos, desejosos de agradar, dizem que minha poesia se recupera a olhos vistos. O público, mais sábio, me absolveu de ambas as fadigas.

domingo, 13 de julho de 2008

Apresentação do autor

Escrevo poemas como quem pinta. Não faço fotografias, tento não fatigar realidades. Importam-me aqueles traços erráticos de sentimentos, impressões, pendores, simpatias e antipatias que subjazem a qualquer empreendimento humano, e que alguns, parece, não vêem. Semelhantemente ao pintor pós-everything, sinto-me livre para figurar o que me der prazer. Palavras, palavras, muitas delas corrompi sem culpa. Outras diligentemente tentei purificar, sem culpa (precisa dizer que fracassei?). Muitas tentei inventar, ao que elas se desinventaram, me aborrecendo. Algumas figurei sem conhecer-lhes a história, as preferências ideológicas e sintáticas. Palavras incorporei por desleixado senso musical; suas aparências, cheiros, e o que mais elas às vezes gritam, às vezes sussurram.
Escrevo por não poder falar. Escrevo o que não quereria falar, mas cantar. Escrevo músicas profanas, contemporâneas, que ouvi nos sonhos, e não as sei. Gerson Noronha Mota

A potência da poesia

A potência da poesia paz é a luz no jardim e voga na manhã descoberta, querida vida a se dar. O trabalho da poesia, vida aberta, é a conquista eficiente da primavera, sua chuva inaugural.