A nossa pupila diz que quantidade de homens há dentro de nós. Afirmamo-nos pela luz que fica debaixo da sobrancelha. Os Trabalhadores do Mar – Victor Hugo – traduzido por Machado de Assis.
Sou o menino que a vida
ensinou demais a sentir;
o que se demora na
lição do sentimento.
Um menino improvável, de
começos extraordinários.
Quem o consultava ficava
melancólico pelo resto da vida.
Eu, que o entrevistei, terei agora de me
dedicar à complexa arte de envelhecer.
16.11.2008.
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domingo, 16 de novembro de 2008
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Luz
Se o seu enclavinhar é único
que dizer dos olhos?
No calor de suas mãos,
perfeito empalme de sonhos.
No ponto de ônibus
o descortinar de um mundo
real?
Não certamente,
que a realidade não compreende
o mágico, o etéreo.
No ponto de ônibus 1987
o interpelar da quintessente beleza
melífluo diálogo
penumbra que às almas põe a lume.
Tão grave demanda
frente a frente
com tão ansiado dulçor ...
E o seu primeiro
sorriso que é de lindes lindíssimo
dos futuros emprestou auxílio
(os sorrisos-ensaios do querer)
a vida
para sempre me iluminou.
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
Caixa Postal
Abro a caixa postal
na expectativa de temperar
matéria viva com esperança.
Mas de lá, sei, saltam
selos, logotipos, divisas duras,
a nódoa comercial.
Detetives, banqueiros,
estatais, o sapateiro,
alfaiates me querem,
em pessoa ou na
forma promissória.
“Compre, adquira, receba grátis
(por módica quantia indenizatória);
consuma o que quiser
apenas nos pague, Senhor nº n,
que somos entidade filantrópica,
sem fins lucrativos, mas
amamos fazer circular a riqueza.”
No sábado abro a caixa dos correios
e o negócio é uma feijoada,
a que compareço,
em minha (predileta)
manifestação cartão de crédito.
Os afiadores de facas merchandaizam
(que facas, limadas, abrem novas polpas,
sequer supostas na praça dos desatentos).
Matéria viva não há. A última
carta de amor recebida
foi nunca
e desde então me apreende
essa procura
(carta de amor: pro cura).
A última carta de amor recebida,
embebida em anseio e vocativo natural,
veio de uma terra tão difícil...
(conheço o lugar, mas os ventos
estão desaparelhados de rosa).
“Senhor Gérson, elimine sua
pediculose, refresque seu quarto,
compre dólares verdes georges,
arremate nosso dócil camelo,
viagem de férias pelas arábias;
entre para o seleto clube de civis
que possuem um caça usado,
vá à Polônia ver o túmulo do Papa...
Senhor Gérson, que chato!
O senhor não tem colaborado!”
Indiferente a tudo,
ambiciono o bilhete
da remota companhia
a prometer viagens à Lua.
No domingo,
não obstante a dificuldade de acordar,
com as chaves da felicidade nas mãos
lanço-me ao bunker onde se esconde
tanta correspondência
para retirar meu certificado de vitória,
meu diploma de bem-sucedido na vida.
Nesse mesmo domingo
é que as correspondências comerciais
mais se mostram terríveis:
desarmando mãos varadas pela expectativa
e driblando olhos injetados de necessidade,
de co-respondência,
elas partiram voluptuosas para o negaceio,
amigando-se às mitológicas cartas de amor,
deixando meu pobre ego
à mingua das carícias superficiais
comerciais
que tanto amo desprezar.
Releio, altavoz,
antiga correspondência:
“compre nossos serviços, senhor
___________________________,
que nós só o prestamos por altruísmo
(e faremos descontos especiais a quem nos ligar
com lágrimas nos olhos e cartão de crédito nas mãos).
Lucro não nos dá, senhor. Nós o amamos,
deixe-nos embriagar suas baratas,
reformar suas teias de pensamentos
e gritos”.
O que mais me agrada
é a correspondência bancária.
Não raro vou às lágrimas,
enlevado com os poemas
em forma de extrato.
Os borderôs de cobrança
me comovem. Seriam aqueles números
(montante, multa por atraso e juros de mora)
a música de Pitágoras, que a impressora
vazou em manchas pretas?
Embora eu saiba que
eles são contra apresentação,
eu me apresento,
de mãos abertas,
e os recolho para brincar em meu colo,
em minha conta bancária.
Os bônus de desconto
expiam meu salário
salvando a espécie pecadora.
Abro minha carteira com alegria:
fui convidado a comprar.
De joelhos chego ao templo do consumo
e, já que de nada careço,
deixo minha oferenda,
comprando-me numa liqüidação anual.
sábado, 25 de outubro de 2008
Poema
Vou produzir um
poema auto-evidente,
sigilo em toda fome,
notório.
Um poema síndrome,
padrão de toda dor,
perdido.
Um poema ansioso,
difícil de sentir,
angustiado.
Vou produzir um poema
que há de ser meu aparato e cópia
minha imagem refletida, fugaz.
Um poema que as editoras hão
de recusar com entusiasmo.
Depois vou me embrulhar nesse poema,
esquecer a vida, dispensar os sentidos,
desfazer-me em palavras.
23.02.2002.
Aos 30
algumas vantagens a contar:
poemas
algumas fotos
(quantas válidas?)
1.000.000 páginas lidas
muitas com entusiasmo
outras com o nariz torcido
outras com indisfarçável indiferença
outras ainda com a sensação de dever cumprido.
Aos 30
várias amizades confiscadas,
outras entre famosos da literatura,
e uma filosofia por se firmar.
Parafraseando o capiau:
não tenho tudo que amo
não amo tudo que tenho
não tenho tudo que tenho...
mas que conversa aborrecida
essa de ter e amar!
terça-feira, 14 de outubro de 2008
A difícil primavera
Não sendo o caso de primavera,
colhamos as flores provisórias
que alentam o dia possível.
Elas resolveram publicar-se:
sabem a manhã e lindam o dia.
Eu quase não sei tanto amarelo,
tanto pássaro. Eu quase não sei.
A planície de girassóis dançarinos
devassada pela claque pânica das aves.
Um sol vertiginoso resolve a tarde,
os reflexos de um coração diamantino.
Vão-se os pássaros,
apagam-se os incêndios amarelos
de girassóis fortes em sol nutriz.
Cabisbaixos, eles passarão a noite
sem dar confiança às estrelas
que, lindas, embaixarão
mensagens de ternura e avivos.
O discurso provisório das
flores comunicando o dia.
Chapadão do Sul, maio de 2004.
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
Excursão
Na excursão das crianças ao cinema
verificou-se:
um alarmante déficit de mães
uma contenda envolvendo o Hulk e o Andrezinho
um bulício articulado papelinho de bala
um plocar-trovoada de chicletes
o salto olímpico de pipocas esquivando-se
de bocas molhadas de gula
uma incontrolável epidemia de dor de barriga
uma cacofonia de choros desafinados
e uma poltrona vazia que era minha.
O filme passava,
as horas passavam
e as crianças, que se haviam sujado
ao não alcançarem banheiros,
subiam uniformes ao caminhão do Exército.
1999.
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
Aniversário
Este é o melhor
aniversário que já tive
porque estou vivo
porque posso lutar (e sorrir)
porque posso perder, e recomeçar,
e tornar a perder (é do jogo)
e sobre isso apenas se diz:
é a vida, sem falsificações.
O melhor aniversário
sem a afetação de encômios e presentes,
melhor em si mesmo,
fruto previsível da vida,
um aniversário meu.
Nunca foi tão difícil aniversariar,
nunca tão auspicioso.
Concedi-me mais tempo,
com sua cópia enigmática
de primaveras.
Que venham as invenções,
os enredos tortos e variados:
assiste-me uma vida
que pontualmente cumpre
os ciclos das estações.
Aniversario hoje, anunciando
o fragor da existência.
Mesmo nos dias de hoje
é possível aniversariar.
Enquanto isso
flores juram o sol.
06.10.2001
domingo, 5 de outubro de 2008
O manejo do tempo
Fomos perdulários no manejo
do calendário todos esses anos.
A largura dos dias
a altura dos meses
a profundidade da vida,
imprópria para o uso:
somos malabaristas bêbados
equilibrados sobre o fio do tempo.
Há muito não me envio epístolas
na faina desairosa do ócio.
Procuro procuro procuro-me
no espelho no retrato nos escritos.
O que me acho é vago
é vão é cego e vário,
eu ordinário.
A chance ilusória de deter
o assalto do tempo,
aprisioná-lo em nossa
desapercebida mocidade.
Os achados da maturidade,
os vacilos ante o mortal:
oscilamos humanos
entre exigências de deuses.
19.10.2001
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
Os sonhos
sábado, 20 de setembro de 2008
A fuga
Deixa que fujam as galáxias todas
contentar-me-ei com o calor de uma estrela.
Viveremos na mais completa amplitude.
Pois deixa que as galáxias
se afastem todas, convulsas,
em sua insensata jornada pelos céus.
Ficaremos. Seremos humanos, mesmo assim.
Que importa as galáxias fugirem, confusas,
arrastando consigo o tecido espaço-temporal?
Temos seu registro de luz,
não nos desviaremos do caminho
que convém seguir.
Porfiaremos, humanos desde os princípios,
junto a nossa pequenina e boa estrela.
Luz e calor vitais.
9.2.2002
domingo, 20 de julho de 2008
Sobre fotografia e poesia
domingo, 13 de julho de 2008
Apresentação do autor
Escrevo poemas como quem pinta. Não faço fotografias, tento não fatigar realidades. Importam-me aqueles traços erráticos de sentimentos, impressões, pendores, simpatias e antipatias que subjazem a qualquer empreendimento humano, e que alguns, parece, não vêem. Semelhantemente ao pintor pós-everything, sinto-me livre para figurar o que me der prazer. Palavras, palavras, muitas delas corrompi sem culpa. Outras diligentemente tentei purificar, sem culpa (precisa dizer que fracassei?). Muitas tentei inventar, ao que elas se desinventaram, me aborrecendo. Algumas figurei sem conhecer-lhes a história, as preferências ideológicas e sintáticas. Palavras incorporei por desleixado senso musical; suas aparências, cheiros, e o que mais elas às vezes gritam, às vezes sussurram.
Escrevo por não poder falar. Escrevo o que não quereria falar, mas cantar. Escrevo músicas profanas, contemporâneas, que ouvi nos sonhos, e não as sei.
Gerson Noronha Mota
A potência da poesia
A potência da poesia
paz
é a luz no jardim
e voga na manhã descoberta,
querida vida
a se dar.
O trabalho da poesia,
vida aberta,
é a conquista eficiente da primavera,
sua chuva inaugural.
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