domingo, 28 de outubro de 2007

O sonho de Dawkins

Richard Dawkins, decano de Oxford, escreveu vasta literatura de divulgação científica. No último livro (Deus, um delírio) ele pôs a mão num vespeiro.
Não há concessões. Resenhado por teólogos, o livro recebeu críticas.
Se Deus é definido pelos religiosos como o bem supremo, a própria vida e tudo que nela há de belo e valoroso, não temos dificuldade para entender as respostas raivosas. Deus é amor, mas afirmar que Ele não existe merece algo mais que uma resposta, embora não cheguemos aos tribunais da consciência da época de ouro do cristianismo.
Alguns estranham que o decano permaneça impune. Outros, como eu, que o público relute em compreender a batalha. Para uma interessante resenha da obra, aqui.

domingo, 21 de outubro de 2007

O Delírio de Dawkins

Alister e, ao que parece, Joanna escreveram "uma resposta ao fundamentalismo ateísta de Richard Dawkins".
Estou irritado com o Alister (vou incluir a Joanna fora dessa).
Ele destruiu minha fé. Era uma fezinha de nada, bem pequenininha, mas era uma fé. Eu acreditava que deviam existir, em algum lugar inescrutável, verdades religiosas que eu desconhecesse, argumentos para contrapor a Dawkins.
Eu já tinha lido 32 páginas e não tinha encontrado nenhuma. Lá pela 70, bateu o desespero. Cumpri as 140 páginas impregnadas de um rancor bocó, uma coisa bem jeca, profundamente vexatória, porque não há nada mais vexatório que ser maldoso com alguém e fracassar.
Francis Collins, que perpetrou "A Linguagem de Deus" é outro "ex-ateu" (não há nada mais hilário que essa categoria). Faz proselitismo de uma espiritualidade vigorosa, desde que seja monoteísta e cristã. E se o leitor não quiser ser monoteísta e cristão?
Ele apresenta, aparentemente a sério, uma tese espantosa: a "lógica espiritual" sem, contudo, definir a expressão, o que desaponta, embora não surpreenda.
O homem chega a ser sincero em algumas partes do "livro", mas põe sua pouca credibilidade a perder com uma incrivelmente criativa "estatística" sobre milagres. Ou quando nos revela que, em algum momento, Deus teria impingido um espírito e uma "lei moral" ao pobre hominídeo em evolução.
Esses autores religiosos observam que "nos anos 60, diziam que a religião estava desaparecendo, substituída por um mundo secular" (Alister) e que, hoje, a religião retomou com força total. Será que Deus, que já é onipotente, precisa dessas "defesas" iradas? Se eles já ganharam a guerra, não entendo a histeria.
Nem me impressiona a atual moda religiosa. A psicanálise floresceu e nos aborreceu por mais de meio século; o comunismo alicerçou estados totais e as piores retóricas políticas por mais de cem anos.
Ora estão mortos (o comunismo da China inspira indulgência e o da Coréia do Norte e Cuba, suspiros de compaixão. Freud se mostrou um charlatão muito cultivado e muito aborrecido).
Não tenho dúvida de que, quando a atual maré religiosa virar, o secularismo chegará a extremos, para o bem e para o mal.
Muitos observam que o ateísmo teria pouco mais de um século. Com cerca de 2.600 anos, Deus/Javé ou sua interessante corruptela Jeová estaria em evidente vantagem.
Com que facilidade esquecem que o Homo sapiens, embora recente, tem significativos 200.000 anos!
Tão logo o excedente cerebral pôde engendrar, atribuímos significados engenhosos a tudo. E desde então a superstição nos acompanha, nas formas mais variadas e loucas. Quando os pequenos bandos de caçadores-coletores se agruparam em conglomerados sociais complexos, surgiram estados e religiões onde antes só havia superstição e relações de parentesco e amizade.
As religiões, instáveis, se transformam, ficam irreconhecíveis e desaparecem. A superstição, não.
Os autores adoram os deuses atuais. Usando duplilinguagem (na terminalogia de George Orwell), eles fazem a defesa possível de um conjunto de miragens que eles mesmos gostariam de abandonar, se tivessem meios. Não os invejo. Não tenho nenhuma pena dos milhões de deuses que morreram. Nem apreço pelos que habitam a mente dos crentes em todos os lugares.
Eu diria, com o gigante Peter Medawar, que esses autores só podem ser eximidos de desonestidade porque, antes de tentar enganar os outros, fizeram de tudo para enganar a si mesmos.

A onda Huck

Não concordo com o roubo de relógios. Nem mesmo o de Rolex (se eu pudesse, também teria um, e minhas horas seriam de infindas paixão e beleza. Ou, pelo menos, de uma conspícua soberba).
Mas precisamos resolver a questão aqui: gosto tanto do nosso Luciano que eu mesmo teria pago alguém para furtá-lo.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Notinhas

1. Embora com retoques, Mônica mostra que é abençoada. Já Renan expõe a vergonha do Senado. Ele vendeu a alma a Lula para vencer o primeiro round, mas terá de deixar a presidência da Casa.
Melhor fora um pacto com o diabo.
2. Em meio ao maior constrangimento de que se tem notícia no Senado, Sarney não pronunciou, em público, uma mísera palavra sobre a crise. Só fala nos subterrâneos, ao pé de certos ouvidos. Nas últimas horas, o ex-presidente passou a vocalizar, modulando a voz, uma tese perigosa. Para Sarney, ao levar a guerra contra o presidente do Senado às últimas conseqüências, a oposição alveja o próprio pé. Ao vender a tese de que o Legislativo tornou-se um antro de perversões, PSDB e DEM contribuem, diz Sarney, para tonificar a boa imagem de Lula e do governo dele. Mantida a estratégia, avalia, “o povo vai acabar exigindo o terceiro mandato do Lula.” Há cerca de 20 dias, Arthur Virgílio (AM), líder do PSDB, injetou uma provocação a Sarney num discurso que fazia da tribuna do Senado. Exortou-o a mover os lábios. Disse que, com a autoridade de ex-presidente da República, Sarney não tinha o direito de silenciar diante da crise que rói as entranhas do Senado. (Josias de Souza)
3. Sarney é uma vergonha, e deveria ser banido da face dessa boa República. Está insinuando essa vagabundagem para tirar proveito (herdar a presidência do Senado).
Ao contrário da declaração marota de Sarney a respeito de Lula, o povo brasileiro não desejamos essa desgraça. Esperamos, sinceramente, não ter de pegar em armas contra essas imundícies.
Se não podes se comportar com a dignidade que se espera de um ex-presidente, cale-se imediatamente, Sarney!

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Belém

Alguns querem crer que Jesus não existiu ou que, tendo existido, não foi o deus que a propaganda depois cuidou erigir. Alheio a essas dificuldades teológicas, estou felicíssimo por estar aqui, na terra onde Jesus nasceu. Ficarei para a festa do Círio de Nazaré. Embora cético, até já estive na Basílica de Nazaré, reconhecendo o terreno.
Belém impacta fortemente. Culinária, gente, o passeio público: a cidade tem identidade. Marajó é um escândalo de rios, céu e areia. E luz. Guarás e búfalos passeiam para lá e para cá sem nenhum problema. Nós os fotografamos, respeitosos.

sábado, 6 de outubro de 2007

Marajó

Sol intenso, ondas: Marajó, em todas as cores. Praias em tudo felizes, sem o sal.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Notinhas

1. Pilar da República, o STF aceitou processar 40 dos mais ilustres bandidos da nação. O comissário Josef Dirceu trabalhava uma "anistia" para si mesmo, que talvez colasse, num congresso que às vezes não se dá ao respeito. Assistimos ao milagre de um presidenciável se transformar em presidiável. Ainda que não cheguemos às condenações criminais, o comissário não estará na lista de elegíveis nas próximas eleições, o que não é pouca coisa.
2. Uma das pessoas mais tóxicas do mundo, Karl Rove deixou a canoinha de Bush. Logo seu chefe lhe fará companhia. Na América Central, um teatro infame: o latifúndio de Castro, com milhões de escravos, e o campo de concentração de Bush, separados por uma cerca. Fascismos possíveis pela indiferença com que o resto do mundo assiste ao exercício de tiranias assassinas.
3. Cortaram o benefício da mãe de Grazi. Acho injusto. Se todo o programa é destinado a criar dependência das esmolas do governo, por que cortar só a mãe de Grazi, uma mulher que dotou o mundo de todas aquelas alegrias?

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Crise

A crise aérea dura dez meses. O “governo” não mexeu um dedo, mas piscou recentemente, após aquela brincadeira envolvendo 200 almas. Detonaram a múmia da Defesa, que há tempos vem iludindo os coveiros. Nunca na estória destepaiz tivemos uma camarilha tão deslumbrada e obscena. Por inútil, chamamos “tudo isso que está aí” (e que ostenta uma estrelinha vermelha) de governo por mera cortesia. Agora, chega o reizinho mandão, a sacar o brigadeiro e enquadrar a Anarq. Efêmero, o “novo aeroporto” de São Paulo durou só dez dias, tempo suficiente para ganhar manchetes e comentários ingênuos (se alguém promete comprar um carro daqui a 15 anos, bem, desnecessário se ocupar da criatura). Vida longa ao Vergonhão Aéreo.
Lá lá lá.

terça-feira, 24 de julho de 2007

Hobby

Os adeptos de hobbies não medem esforços na hora de torrar fortunas em inutilidades. Ultimamente, venho investindo furiosamente em equipamentos fotográficos. Lentes? Compro como se o todo o estoque mundial fosse acabar amanhã. Já me ocorreu que não seria nada mal se, às vezes, eu aprendesse a fotografar. Nem que seja por engano. Alguém disse que, com filmes de 35 mm (o tamanho normal do fotograma), você precisa de uns 200 cliques para acertar uma foto. Sebastião Salgado revelou que precisa de uns 2.000. Com meus modestos e certeiros 1.000 cliques por foto, passei a olhar com desprezo para o pobre Salgado. Ainda é cedo para sair por aí frequentando cursos e quetais.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Penedo

De um lado, Neópolis. Do outro, Penedo, quatro séculos de história. No meio, o Velho Chico. Um casarão antigo me servirá de pousada, e amanhã saio para ver a foz desse observador privilegiado da saga e miséria do sertão. Pela manhã, registrei a escalada de mandacarus nos paredões que guarnecem as águas desse rio. Depois, do alto de Piranhas, vi a chuva encortinar o horizonte, cobrindo tudo de branco. O queijo de coalho, a carne seca e a mandioca esclareceram do que se trata. O sertão, as águas, a gente. É bom presenciar esse encontro.

Rio São Francisco

Canindé do São Francisco é uma cidadezinha às margens desse rio de grandes sofrimentos e muitas cicatrizes hidrelétricas. De minha janela vejo a mais recente delas, Xingó, muro insólito na garganta do rio. O vale abaixo abre-se majestoso. O rio segue apequenado, entre pedras. Acima da barragem, um lago de muitos braços, e canions areníticos graciosos. No sertão, à margem, a macambira ilustra agrestes tristeza e vigor. Águas verdes compõem o cenário dessa piscina espaçosa e índia. Encerro o passeio em Piranhas. Vou me mudar para a foz do rio.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Jalapão

Bomdiaêêê! Estou em Manaus, após uma semana no Jalapão. São rios e cachoeiras, dunas e chapadas a perder de vista. O cerrado em cópia vitoriosa. Eu quase não basto para tanta viagem...

sábado, 19 de maio de 2007

Inverno em Bonito

Novamente o inverno me pega em Bonito. Volto já a minha cidade. Abro os jornais. Vejam o que Josias aprontou desta vez:
Todo brasileiro em dia com suas obrigações fiscais deveria ter o direito de acompanhar o que é feito com o fruto do seu suor. Tomo por mim. Sempre que pago imposto, sou assaltado por dois sentimentos devastadores. O primeiro é a saudade. O outro é a incerteza. Dói-me não poder zelar pelo futuro do meu dinheirinho.
De minha parte, não penso no que o Governo faz com meu dinheiro (chega de passar raiva).
Prefiro ler os manuais de minhas máquinas fotográficas e lentes.

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Aviso

Deixarei de atualizar este blog diariamente (como tento fazer, quando a preguiça deixa). Agora, só em cybercafés. Considero muito mais honesto o gesto de encostar o cano de uma arma em nossas cabeças, com a exigência de nossas carteiras, do que a conta apresentada pelas companhias telefônicas.
Mandei a minha ao inferno (espero que faças o mesmo, prudente leitor).
Seja como for, quem quiser falar comigo não tem com que se preocupar. O lava-jato da esquina tem um daqueles enormes orelhões. É só deixar o recado com um dos moleques que ocasionalmente atendem as chamadas, estridentes. A cada dois anos eu passo lá para checar as mensagens (é minha versão de telefone molecular).

terça-feira, 1 de maio de 2007

Tom Jones, de Henry Fielding

Clarice Lispector traduziu e adaptou para nós Tom Jones, de Henry Fielding. Anotei, em suas páginas finais: “Os personagens trocam loucamente de lugar e status. Num momento, serão enforcados com todo o peso do mundo em suas costas. Minutos depois renunciam às aflições e se dirigem ao paraíso terreno, no exíguo espaço de meia dúzia de parágrafos. O capítulo final é uma montanha-russa de vertiginosos caprichos. Ninguém está seguro de sua sorte.” Deve haver resumos que façam mais justiça ao autor e à tradutora. Ofereço este. Campo Grande, 10 de abril de 2007.