segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Chapada Diamantina

Chapada Diamantina

O observador de eleições

Observador desenganado de eleições há muito, quisera eu ter escrito o que segue:
O eleitor brasileiro tem mania de olhar com distanciamento típico dos "scholars" o quadro de ruína de sua cidade. Age como se nada fosse com ele. Cômodo. Muito cômodo. Mas desonesto. Todos deveriam desperdiçar um naco deste domingo eleitoral para fazer uma introspecção. Pode ser após o despertar, barriga colada à pia do banheiro, enquanto espalha o dentifrício pelas cerdas da escova. Levando a experiência a sério, depois de bochechar e lavar o rosto, o portador de título eleitoral enxergará no espelho, ao se pentear, o reflexo de um culpado. Indo mais fundo no processo de auto-exame, o eleitor enxergará o óbvio: prefeitos e vereadores não surgem por geração espontânea. Eles nascem do voto. E o eleitor talvez levante da mesa do café da manhã convencido de que os dramas de sua cidade exigem dele uma atitude. Um gesto individual e consciente. Os problemas, por abundantes, não admitem mais que o eleitor se mantenha exilado no conforto de sua omissão política. Intimam-no a retornar à história de sua cidade, consertando-a. O primeiro passo é o abandono da tola retórica de que os políticos "são todos iguais". Não são. A igualdade absoluta é uma impossibilidade genética. É papel do eleitor distinguir diferenças, não erigir desculpas que, na prática, o eximem de pensar. O segundo passo é a caída em si, a descoberta de que se está diante de um desses momentos mágicos. Circunstância única, em que o poder está ao alcance do dedo indicador, que dedilha o teclado da urna eletrônica. A magia desse instante está na possibilidade de começar tudo de novo, do zero. Não é todo dia que se tem uma nova chance. Lembre-se: para o eleito inconsciente, o eleitor impaciente é um santo remédio. Assim, ao abrir o guarda-roupa, escolha um traje especial, à altura da ocasião. Leve a mão ao fundo do armário. Desencave aquela roupa empoeirada. Vista-se de cidadão. Ao ganhar o meio-fio, apague por um instante de sua mente os megatemas que polvilham a primeira página dos jornais. Esqueça George Bush. Risque de seus pensamentos a crise dos EUA e os reflexos dela no Brasil. Abra o seu espírito para as miudezas que o cercam. Se estiver num grande centro, respire com vagar. Absorva cada partícula de poluição a que tem direito. Aguce o tímpano. Deixe que os ruídos urbanos o invadam. Dê uma boa olhada na feiúra à sua volta. Repare na sujeira das ruas e dos monumentos. Fixe o olhar nos buracos da pista. Observe a ausência de transportes coletivos decentes. Note o lixo acumulado na quina do asfalto. Eis a cidade diante dos seus olhos. É nesse pedaço de universo, vísceras à mostra, que você come e passa fome, dorme e perde o sono, trabalha e fica desempregado, ama e odeia, canta e chora, espolia e é assaltado. É aqui que você vive e morre a cada dia. Entrando na cabine eleitoral, trate de pôr um ar solene na face. Não tenha pressa. Você é o dono desse momento. Aproveite-o. Deguste-o. Você é o protagonista do espetáculo. Faça uma visita ao seu interior. Encontre-se consigo mesmo. Certifique-se de que não esqueceu a consciência em casa. Converse com ela. Questione-a. Depois, estique o dedo e vote com a alma. Há sempre a alternativa de lavar as mãos e continuar entregando o caso à divina providência. Se preferir esse caminho, tudo bem. Mas não reclame amanhã, quando descobrir que Deus está morto. Sua omissão o matou. Sente-se. Reze. Peça perdão. Expie os seus pecados. A ruína política é você. PS.: O texto acima é adaptação de um outro, escrito pelo repórter nas eleições municipais de 2000.
Escrito por Josias de Souza às 20h07

Miguel de Cervantes

O herói Sancho e o licenciado Quixote escoltam Cervantes pela velha Madri.

Aniversário

Este é o melhor aniversário que já tive porque estou vivo porque posso lutar (e sorrir) porque posso perder, e recomeçar, e tornar a perder (é do jogo) e sobre isso apenas se diz: é a vida, sem falsificações. O melhor aniversário sem a afetação de encômios e presentes, melhor em si mesmo, fruto previsível da vida, um aniversário meu. Nunca foi tão difícil aniversariar, nunca tão auspicioso. Concedi-me mais tempo, com sua cópia enigmática de primaveras. Que venham as invenções, os enredos tortos e variados: assiste-me uma vida que pontualmente cumpre os ciclos das estações. Aniversario hoje, anunciando o fragor da existência. Mesmo nos dias de hoje é possível aniversariar. Enquanto isso flores juram o sol.

06.10.2001

domingo, 5 de outubro de 2008

Foz do Iguaçu

O manejo do tempo

Fomos perdulários no manejo do calendário todos esses anos. A largura dos dias a altura dos meses a profundidade da vida, imprópria para o uso: somos malabaristas bêbados equilibrados sobre o fio do tempo. Há muito não me envio epístolas na faina desairosa do ócio. Procuro procuro procuro-me no espelho no retrato nos escritos. O que me acho é vago é vão é cego e vário, eu ordinário. A chance ilusória de deter o assalto do tempo, aprisioná-lo em nossa desapercebida mocidade. Os achados da maturidade, os vacilos ante o mortal: oscilamos humanos entre exigências de deuses. 19.10.2001

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Fernando de Noronha

Banhistas renunciam a toda miséria e ganham o azul.

Os sonhos

Alguns sonhos de nós se afastam mudos, desabridos seguem para outras internações. Outros seus frutos alienam sem direção e de nós nos vemos pobres. Entre os que ficam há os eternos, estelares, vão a ser. São esses que eu vim cantar-te.

domingo, 28 de setembro de 2008

Crise

Os congressistas norte-americanos passaram o fim de semana acampados no congresso. Nesse momento, é provável que estejam assinando o maior pacote econômico da história. Miriam Leitão, no Globo, traz algumas oinipões a respeito, neste domingo de fastio:
Frederic Mishkin, economista da Columbia, que foi membro do FED até o mês passado, lembrou que quando as coisas saem do controle, “o custo para consertá-las mais tarde sobe exponencialmente”. O problema é que, mesmo admitindo o risco, os economistas estão alertando que o caminho escolhido pode trazer também inúmeras distorções.
Luiz Zigale, da Universidade de Chicago, diz que o programa de Paulson “comprará ativos podres a preços inflados, criando uma instituição de caridade que provê assistência social para os ricos às custas dos contribuintes”. Ele fala que é também a violação do princípio capitalista de que “os ganhos devem garantir as perdas”. Na época das S&L, os depósitos estavam segurados e o governo teve que pagar o custo. Agora, como garantir o mesmo benefício para credores de bancos de investimento que nem estavam sob supervisão bancária?
Edward Leamer, da Universidade da Califórnia, toca no ponto nevrálgico: Henry Paulson não terá de responder na Justiça por seus atos. “Quando li isso pela primeira vez, pensei que era uma piada”.
É difícil encontrar algum economista, fora do mercado financeiro, que diga que o plano de Paulson resolverá a crise financeira.
Hank Paulson, um cara antenado, que já visitou várias vezes o pantanal, tem muitas horas extras pela frente. Não gostaria de estar no lugar dele.