segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Indio Feliz

Ao flanar por Águas Calientes, observei que as pessoas saíam animadas de um certo beco, e um súbito militarismo as movia. No fim da tarde em que medrei por entre os assombros de Machu e Wayna Pichu, ao voltar das piscinas termais instaladas no mais alto da cidade, resolvi investigar esse beco. 


O Indio Feliz é um pequeno bistrô de um casal franco-peruano. Ambiente aconchegante, incluindo lareira, atendimento caloroso e competente. Uma placa participa que todos são bem vindos: nacionais, estrangeiros e extraterrestres. Fui admitido na quota desses últimos. Os pratos foram se sucedendo, num menu generoso. 


A culinária peruana, inovadora, não é isenta de contradições, o que faz a delícia do turista. No Peru um milho cor de uva faz-lhe as vezes, numa beberagem desconcertante. 


pisco sour é um coquetel caliente, que rapidamente chama aos brios o freguês. Pedi um, depois outro, e logo eu estava dominando idiomas ameríndios que os próprios incas ignoram, mas respeitam, por ser linguajar de quem edifica assombros. 


À saída eu estava mais feliz, e marchei direto para o hotel.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Jabor

Jabor sintetiza a atual onda matadouro adentro:
Vejo, assustado, que querem substituir o patrimonialismo "burguês" pelo sindicalista, claro que numa aliança de metas e métodos com o que há de pior na política deste país. Vão partir para um controle soviético e gramsciano vulgar do Estado para ter salvo-condutos para suas roubalheiras num país sem oposição, entregue a inimigos da liberdade de opinião. Escrevo isso enojado pela mentira, vencendo com 80% de Ibope, apagando da história brasileira o melhor governo que já tivemos de 94 a 2002, com o Plano Real, com a Lei de Responsabilidade Fiscal, com a telefonia moderna de hoje, com o Proer que limpou os bancos e impediu a crise de nos atingir, com privatizações essenciais que mentem ao povo que "venderam nossos bens...", com a diminuição da pobreza em 35% que abriu caminho para o progresso econômico de hoje, apropriado na "mão grande" por Lula e seus bolchevistas. Ladroeira pura, que o povo, anestesiado pelo Bolsa Família e pelas rebolations do Lula na TV, não entendem.
Também estou enojado com os vergonhosos tucanos apanhando na cara por oito anos sem reagir. O governo Lula roubou FHC e o mais sério período do país, e seus amigos nunca o defenderam nem reagiram. São pássaros ridículos em extinção.

domingo, 29 de agosto de 2010

O grande irmão



Acha que Lula quer “esmagar" a oposição. "Ele continua como uma figura extravagante, ferindo a lei”, declarou Jarbas.

“Ele se considera acima de tudo, da Constituição, da Justiça, do Tribunal de Contas, do Congresso. É um semideus. Então, acha que pode tudo".

Assim como em 1986, após o milagre do cruzado, e em 1994, com o Real, a manada segue o líder. A diferença é que o Plano Real propiciou a infraestrutura política e econômica que conduziu o país à atual quadra benéfica, e contra os quais Lula e o petismo encarniçado tanto lutaram.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Cabelo


Sobre viagens, um relato (não sei com que grau de verossimilhança):


40º dia de viagem. O cabelo, pela nuca. Fernando, meu estilista, atende no Paraguai, não na Nova Zelândia. Após jogar-me de um avião, caindo por 2 minutos, e de um passeio a 100 km/h em lancha a jato, num furioso rio povoado por pedras inamistosas, uma cabeleireira cheinha me aguardava.


Ela começou com uma máquina sub-zero, que aplicava com grande convicção. Depois a trocou por outra, para um corte ainda mais impiedoso (senti que ela acreditava naquele corte, para o qual se preparara a vida inteira). Alguns movimentos enérgicos com uma tesoura e, sim, tudo estava consumado.


Sabem, a tolerância do meu cabelo para com erros é exatamente zero.


"Well, tenho dois bonés. Tranquilo, no más", reconfortei-me. Por insegurança, ou costume, comprei mais um.


"Que marmota é essa?" exclamou uma das moças da inspeção sanitária em Honolulu, dias depois, ao me comparar à fotografia do passaporte. "Acaso  vieste zombar do povo havaiano?".


"Deveras divertido esse seu corte, em rodelas", retalhou a outra.

Sem ligar para o elogio, agendei com o Fernando: "Aparentemente fracassou esse seu corte neo-zelandês, será que não, Nhonho?


Tudo isso me lembra o método de um renomado estilista.


Nunca o vi cortar o cabelo de suas clientes - modelos famosas - mas, pelos resultados, fica claro que a operação toda não requer mais que um lança-chamas e um (opcional) extintor de incêndio. Ao estilo "que me carregue o diabo".


Arnaldo Antunes é outro que vive às turras com seu cabeleireiro. O que ele tem contra costeletas?


Bem, chega de experiências estilísticas.

Nova Zelândia

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Copa

Ubaldo, no Estadão: - Termina o primeiro tempo! Não vá embora, porque no intervalo teremos a execução do Concerto Número Um para Vuvuzela e Orquestra, com o famoso solista Tispandongo Uzuvido, a Copa é uma festa!

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Taíba

Taíba, praia a 80 km de Fortaleza. Sobre a viagem, outra pessoa que não eu talvez dissesse:

Ele chegou incógnito, exausto, mas, dias depois, já ninguém ignorava que vinha do sul, que se nutre de lagostas e que seu lema, se ele tivesse um, seria “meu reino por um banho de mar”.

Tutty

Tutty Vasques, sendo maldoso no Estadão de hoje: O plantão de Fátima Bernardes ao relento na porta do hotel que hospeda a seleção brasileira em Johannesburgo já está virando ponto de peregrinação internacional. Tudo começou depois que ela quase pegou pneumonia no sereno do Fantástico. Toda noite, desde então, um grupo de torcedores brasileiros leva chocolate quente, chimarrão, cobertas e o que mais possa ajudar a apresentadora a vencer o frio nas madrugadas do Jornal Nacional na África do Sul.
A ação humanitária virou romaria quando vizinhos sul-africanos, sem entender direito a movimentação, espalharam o boato de que as aparições de Fátima ao vivo eram milagrosas. Comenta-se em Soweto que ela teria feito Dunga ver Ramires e Daniel Alves no lugar de Felipe Melo e Elano. Resultado: espera-se, já para a edição desta quarta-feira, a presença no local de uma pequena multidão de afro-desvalidos em busca da graça de Fátima no telejornal da Globo.
Quem sabe, se der confusão, William Bonner tira a patroa dessa roubada, né? Por que deixar a pobre coitada toda madrugada - o JN entra no ar à 1h10 horário local -, costeando o alambrado da concentração? A não ser que algum jogador pule a cerca na imagem de fundo, que informação o cenário deserto e gelado acrescenta à fala de Fátima? Pura maldade de editor - ô, raça!

domingo, 14 de março de 2010

Armínio Fraga

Armínio, um dos melhores economistas que o Brasil já teve, fala ao Estadão de hoje:

Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central (BC) e uma das figuras mais destacadas do segundo governo de Fernando Henrique Cardoso, está preocupado com a "mexicanização" do Brasil - controle pelo Estado de diversos setores da economia, reforçado por laços com empresas monopolistas e oligopolistas.

A seguir, a entrevista com Fraga, que hoje dirige a Gávea Investimentos, empresa de gestão de recursos.

Quanto o sr. acha que o Brasil pode crescer daqui em diante?

Sem aumentar a taxa de investimento e melhorar a educação, acho difícil passar de 5%, e nem sei se 5% é sustentável. Mas acho que há espaço para a taxa de investimento crescer e a educação melhorar. Nesse caso, a economia aguentaria crescer a uma taxa maior, por mais tempo, algo em torno de 6% a 7%.

Como o sr. vê a atual discussão sobre o papel do Estado?

Não acho que se deva dispensar o Estado. Acredito num Estado presente, ativo, cumprindo seu papel. Mas há uma certa expectativa de que o Estado resolva tudo. Meu receio, no campo político, são alguns traços de doenças do Estado, de ocupação do aparelho de Estado, que me incomodam. Não é questão de Estado mínimo ou máximo, mas de Estado ocupado. É o medo de uma mexicanização.

O sr. poderia explicar melhor?

No México, os governos do PRI (Partido Revolucionário Institucional) tiveram, durante décadas, o controle do aparelho de Estado, nomeando juízes, controlando vários setores da economia. É algo que deixou consequências até hoje. E, nessa situação, quando o governo não controla diretamente, ele cria ou facilita o surgimento de monopólios, que ficam próximos do governo. É um modelo que também inclui um certo pacto com os sindicatos que, no caso do México, no campo da educação, tem sido um desastre. Um modelo meio nacionalista, no mau sentido. Claro que tem um modelo muito mais radical, muito pior, que é o da Venezuela, que está em péssima situação.

Como assim?

Acho que o País voltou a sonhar com um modelo da década de 50 ou de 70. E as pessoas se esquecem que esse modelo, mesmo sendo importante na fase de industrialização e de construção de infraestrutura, também gerou um megaendividamento público, esqueletos e abriu espaço para a corrupção. Isso tem um preço. Não foi um modelo que nos colocou numa trajetória de convergência para os melhores padrões de vida do mundo. Nos fez crescer durante um certo período, mas depois se esgotou. Outra questão preocupante é que há no ar uma sensação de que o indivíduo não é importante - falta preocupação com educação, com empreendedorismo.

Qual a sua opinião sobre a proposta de reativação da Telebrás?

É incompreensível para mim, num setor extraordinariamente bem-sucedido. Não vejo razão para criar nada. Se o governo quiser subvencionar pesquisa ou expansão em regiões que não justificam economicamente a curto prazo, ele pode fazer, colocar no Orçamento, que tem recursos finitos, e aí essa política vai disputar com outros usos do dinheiro, como água, saneamento ou infraestrutura que é um problemão no Brasil. E aí se vê o que tem mais retorno social. A questão é sempre colocada na base de se dizer que "esse investimento é bom", mas outros investimentos também são, e gritam para ser executados. O governo tem de decidir, não dá para fazer tudo.

Qual a sua visão sobre a política externa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva? Como viu o episódio recente do apoio a Cuba na ocasião da morte de um dissidente em greve de fome?

Isso assustou todo mundo. Que coisa, que mania! O que há de tão bom numa ditadura? Não consigo entender. Tem gente morrendo lá, qual é a graça? Não entendo o excesso de apreço ao Hugo Chávez (presidente da Venezuela) e ao Mahmoud Ahmadinejad (presidente do Irã). Acho de mau gosto e politicamente estranho uma aproximação tão grande, tão alegre, com esses ditadores e quase ditadores, que não trazem nada de bom e podem até prejudicar o Brasil no mundo comercial. Daqui a pouco vão inventar nos Estados Unidos e na Europa mais restrições a nós em função dessa política. Isso é diferente de um diálogo sóbrio com todo mundo, de uma política externa independente, voltada ao interesse nacional. Também acompanhei essa tentativa de introduzir um certo controle à imprensa, à educação superior - são cacoetes que vejo com certa preocupação. Dá impressão que existe uma usina de ideias desse tipo, o que me incomoda.