lula
saiu da presidência com um crime (mais um) em mente: falsificar a história,
apagando o Mensalão. Para quem não lembra da verdade, ou não lembra de que lula pediu perdão pelos crimes cometidos em seu governo (embora
alegando desconhecimento), segue o vídeo, bastante didático:
quarta-feira, 18 de julho de 2012
segunda-feira, 18 de junho de 2012
domingo, 17 de junho de 2012
terça-feira, 5 de junho de 2012
Monarquia
Hélio faz uma intervenção
primorosa a respeito da monarquia. Como pode alguém chamar de "rei"
um presunçoso que não aceitaria ter como amigo?
Terminam hoje as
celebrações do jubileu adamantino da rainha Elizabeth 2ª. Os britânicos e os
súditos das outras 15 nações das quais ela é o chefe de Estado já são bem
grandinhos para decidir se querem ou não mantê-la no posto. E, ao menos no caso
dos ingleses, tudo indica que querem.
A pergunta que não quer calar é: de onde vem tanto
fascínio com a realeza? A resposta passa pelo essencialismo, a irresistível
tendência dos seres humanos de enxergar uma natureza secreta por trás das
coisas.
Monarcas souberam explorar isso bem, proclamando
que se sentavam no trono por direito divino. Depois do Altíssimo, eram eles que
mandavam. Para reforçar a obediência, desde Homero reis reservaram para si os
melhores papéis ficcionais. Todos os heróis da "Ilíada" são soberanos
ou herdeiros. O mesmo vale para Gilgamesh, os reis Saul, Davi e Salomão, o
ciclo arturiano, Beowulf e até as histórias infantis, povoadas por príncipes e
princesas. Não é exagero afirmar que, em nossas cabeças, as noções de herói e
rei se misturam.
Após 3.000 anos de doutrinação política e
literária, seria uma surpresa se não víssemos a realeza favoravelmente. O
problema é que, com o progresso da civilização, o princípio mesmo da monarquia
se tornou moralmente injustificável. Como defender que um ser humano tenha
privilégios em virtude não de seu esforço (ou, se admitirmos o direito de
herança, do de seus pais), mas apenas de seu nascimento? É difícil imaginar
ideia mais antidemocrática que essa.
O mais incrível é que, em tempos nos quais apenas
sugerir que possa haver diferenças naturais entre raças, gêneros e grupos
sociais já aciona a patrulha do politicamente correto, milhões de pessoas ainda
se encantem com a mais absurda das dicotomias jamais criadas pelo homem: a
divisão do mundo em soberanos e súditos. Daí que, mesmo sendo inexpressivo, o
movimento republicano inglês tem toda a minha simpatia.
domingo, 27 de maio de 2012
Augusto Nunes
O ex-presidente Lula vem erguendo desde o
começo de abril o mais obsceno dos numerosos monumentos à cafajestagem forjados
desde 2005 para impedir que os quadrilheiros do mensalão sejam castigados pela
Justiça. Inquieto com a aproximação do julgamento, perturbado pela suspeita de
que os bandidos de estimação correm perigo, o Padroeiro dos Pecadores jogou o
que restava de vergonha numa lixeira do Sírio Libanês e resolveu pressionar
pessoalmente os ministros do Supremo Tribunal Federal. De novo, como informou VEJA
neste sábado, o colecionador de atrevimentos derrapou na autoconfiança
delirante e bateu de frente com um interlocutor que não se intimida com
bravatas.
A reportagem de Rodrigo Rangel e Otávio
Cabral reproduz os momentos mais espantosos do encontro entre Lula e o ministro
Gilmar Mendes ocorrido, há um mês, no escritório mantido em Brasília pelo amigo
comum Nelson Jobim, ex-ministro do Supremo e ex-ministro da Defesa. A conversa
fez escala em assuntos diversos até que o palanque ambulante interrompeu o
minueto para dar início ao forró do mensalão. “Fiquei perplexo com o
comportamento e as insinuações despropositadas do presidente Lula”, disse
Gilmar a VEJA. Não é para menos.
“É inconveniente julgar o processo agora”,
começou Lula, lembrando que, como 2012 é um ano eleitoral, o PT seria
injustamente afetado pelo barulho em torno do escândalo. Depois de registrar
que controla a CPI do Cachoeira, insinuou que o ministro, se fosse
compreensivo, seria poupado de possíveis desconfortos. “E a viagem a Berlim?”,
perguntou em seguida, encampando os boatos segundo os quais Gilmar Mendes e
Demóstenes Torres teriam viajado para a cidade alemã num avião cedido por
Carlinhos Cachoeira, e com todas as despesas pagas pelo meliante da moda.
Gilmar confirmou que se encontrou com o
senador em Berlim. Mas esclareceu que foi e voltou em avião de carreira, bancou
todas as despesas e tem como provar o que diz. “Vou a Berlim como você vai a
São Bernardo. Minha filha mora lá”, informou, antes da recomendação final: “Vá
fundo na CPI”. Lula preferiu ir fundo no palavrório arrogante. Com o
desembaraço dos autoritários inimputáveis, o ex-presidente que não desencarnou
do Planalto e dá ordens ao Congresso disse o suficiente para concluir-se que,
enquanto escolhe candidatos a prefeito e dá conselhos ao mundo, pretende usar o
caso do mensalão para deixar claro quem manda no STF.
Alguns dos piores momentos da conversa
envolveram quatro dos seis ministros que Lula nomeou:
CARMEM LÚCIA
“Vou falar com o Pertence para cuidar dela”. (Sepúlveda Pertence, ex-ministro
do STF e hoje presidente da Comissão de Ética Pública, é tratado por Carmen
Lúcia como “guru”).
DIAS TOFFOLI
“Ele tem que participar do julgamento”. (O ministro foi advogado do PT e chefe
da Advocacia Geral da União. Sua mulher defendeu três mensaleiros. Mas ainda
não descobriu que tem o dever de declarar-se sob suspeição).
RICARDO LEWANDOWSKI
“Ele só iria apresentar o relatório no semestre que vem, mas está sofrendo
muita pressão”. (Só falta o parecer do revisor do processo para que o
julgamento comece. Lewandowski ainda não fixou um prazo para terminar o serviço
que está pronto desde que ganhou uma toga).
Os outros dois ministros nomeados por Lula
são Joaquim Barbosa (considerado “um traidor”) e Ayres Britto, a quem Gilmar
relatou na quarta-feira o encontro em Brasília. O atual presidente do STF soube
pelo colega que Lula pretende seduzi-lo com a ajuda do jurista Celso Antonio
Bandeira de Mello, amigo de ambos e um dos patrocinadores da sua indicação.
Imediatamente, Ayres Britto associou o que acabara de escutar ao que ouviu de
Lula num recente almoço no Palácio da Alvorada. “O ex-presidente me perguntou
se eu tinha notícias do Bandeirinha e disse: ‘Qualquer dia a gente toma um
vinho’”, contou o ministro a VEJA.
Na mesma quarta-feira, a chegada ao STF de
um documento assinado por dez advogados de mensaleiros comprovou que Lula age
em parceria com a tropa comandada pelo inevitável Márcio Thomaz Bastos. “Embora
nós saibamos disso, é preciso dar mostras a todos de que o Supremo Tribunal
Federal não se curva a pressões e não decide ‘com a faca no pescoço’”, diz um
trecho desse inverossímil hino à insolência. A expressão foi pinçada da frase
dita em 2007 pelo ministro Ricardo Lewandowski, num restaurante em Brasília,
depois da sessão que aprovou a abertura do processo do mensalão. Faltou
completar a frase do revisor sem pressa: “Todo mundo votou com a faca no
pescoço. A tendência era amaciar pro Dirceu”.
O escândalo descoberto há sete anos se
arrasta no STF há cinco, mas os dez doutores criticaram “a correria para o
julgamento, atiçada pela grita”. Eles resolveram dar lições ao tribunal por
estarem “preocupados com a inaudita onda de pressões deflagradas contra a mais
alta corte brasileira”. O Brasil decente faz o que pode para manifestar seu
inconformismo com o tratamento gentil dispensado pela Justiça a pecadores que
dispõem de padrinhos poderosos e advogados que cobram por minuto. São pressões
legítimas. Preocupante é o cerco movido a um Poder independente por um ex-chefe
do Executivo. Isso não é uma operação política, muito menos uma ação jurídica.
É um genuíno caso de polícia.
Se
os bacharéis do mensalão efetivamente se preocupam com pressões ilegais, devem
redigir outro documento exigindo que Lula aprenda a comportar-se como
ex-presidente e pare de agir como um fora-da-lei.
sábado, 26 de maio de 2012
Lula e Hitler
Lula delira. Recuperando-se de uma doença,
voltou com tudo para perpetrar mais crimes. No dia 26 de abril passado tentou
intimidar Gilmar Mendes (ministro do Supremo), provavelmente uma das pessoas mais
intimoratas da face da Terra:
Em seguida, Lula
comentou que tinha o controle político da CPI do Cachoeira. E ofereceu proteção
a Gilmar. Garantiu que ele não teria motivo para preocupação.
- Fiquei perplexo
com o comportamento e as insinuações despropositadas do presidente Lula - comentou
Gilmar com a VEJA.
Lula foi adiante em sua conversa com Gilmar:
- E a viagem a
Berlim?
Nos bastidores da
CPI corre a história de que Gilmar e o senador Demóstenes Torres teriam viajado
juntos a Berlim com despesas pagas por Cachoeira.
Gilmar confirmou o
encontro com Demóstenes em Berlim. Mas respondeu que tinha como provar que
pagou as próprias despesas,
- Vou a Berlim como
você vai a São Bernardo do Campo - afirmou Gilmar se dirigindfo a Lula. Uma
filha de Gilmar mora em Berlim.
Constrangido,
Gilmar aconselhou Lula:
- Vá fundo na CPI.
Na cozinha do
escritório, onde Lula comeu frutas, Gilmar ainda ouviu ele dizer outras coisas.
Por exemplo: que encarregaria Sepúlveda Pertence, ex-ministro do STF, de
convencer a ministra Carmem Lúcia a deixar o julgamento do mensalão para 2013.
Pertence foi o
principal padrinho da indicação de Carmem Lúcia para o STF.
- Vou falar com
Pertence para cuidar dela - antecipou Lula.
Parafraseio o que disse abaixo:
Esperamos
que o Supremo rechace essa manobra, digna de Hitler, e ponha na cadeia boa
parte dos criminosos do PT.
Saco de merda quase
a rebentar, Lula mandou instalar uma CPI esperando intimidar o PGR, empastelar
a revista Veja e, sobretudo, adiar o julgamento da camorra, para obter a prescrição dos crimes.
Vai quebrar a cara
como nunca antes. Gilmar deveria ter dado voz prisão a esse bandido.
terça-feira, 22 de maio de 2012
Lula e Goebbels
Hoje deparei com a seguinte
frase de Lula: "O PT era mais atacado do que hoje por grande parte
dos políticos da oposição e por uma parte da imprensa brasileira. Na verdade,
era um momento em que tentaram dar um golpe neste país".
Será mesmo? Vamos ver.
Antonio Fernando de
Souza, o Procurador Geral que denunciou o Mensalão, na Veja:
O PT tem se
dedicado a difundir a versão de que o mensalão não passa de uma farsa... Chamar esse
episódio de farsa é acusar o procurador-geral e os ministros do Supremo de
farsantes. Dizer que aqueles fatos não existiram é brigar com a realidade, é
querer apagar a história. Esse discurso não produzirá nenhum efeito
no STF. Os ministros vão julgar o processo com base nos autos. E há
inúmeras provas de tudoo o que foi afirmado na denúncia. Depoimentos, extratos
bancários, pessoas que foram retirar dinheiro e deixaram sua assinatura.
O senhor se sente incomodado com isso? Na democracia, todas as pessoas estão sujeitas à fiscalização, ao controle, à responsabilização, e há órgãos dispostos a isso. Não serão os partidos políticos nem seus dirigentes que vão dizer o que é crime e o que não é crime. Quando eles querem transmitir um ar de que não aconteceu nada, estão indo para o reino da fantasia. Negar a existência do mensalão é uma afronta à democracia.
O senhor se sente incomodado com isso? Na democracia, todas as pessoas estão sujeitas à fiscalização, ao controle, à responsabilização, e há órgãos dispostos a isso. Não serão os partidos políticos nem seus dirigentes que vão dizer o que é crime e o que não é crime. Quando eles querem transmitir um ar de que não aconteceu nada, estão indo para o reino da fantasia. Negar a existência do mensalão é uma afronta à democracia.
Está comprovado que
o PT utilizou dinheiro público no mensalão? Quem vai fazer esse juízo é o
Supremo. Da perspectiva de quem fez a denúncia e acompanhou o processo até
2009, digo que existe prova pericial mostrando que dinheiro público foi
utilizado. Repito: há prova pericial disso. E o supremo, quando recebeu a
denúncia, considerou que esses fatos têm consistência.
O que o senhor
achou da iniciativa de alguns parlamentares de tentar usar uma CPI para
investigar a imprensa? A imprensa não faz processo penal, a imprensa dá
a notícia, dá a informação. Parece mais um meio de desviar a atenção do
inquérito fundamental.
Os acusados tentam reduzir o caso a um crime eleitoral. É uma boa estratégia? A referência que fazem é que a movimentação de dinheiro tinha origem em caixa dois de campanha. Do ponto de vista ético e jurídico, isso não altera nada. Quando há apropriação do dinheiro público, não é a sua finalidade que vai descaracterizar o crime. No processo do mensalão, temos imputação de crimes de lavagem de dinheiro, corrupção passiva, ativa, peculato, evasão de divisas, quadrilha, falsidade ideológica. Crimes assumidamente confessados. Eles não podem deixar de admitir.
Os acusados tentam reduzir o caso a um crime eleitoral. É uma boa estratégia? A referência que fazem é que a movimentação de dinheiro tinha origem em caixa dois de campanha. Do ponto de vista ético e jurídico, isso não altera nada. Quando há apropriação do dinheiro público, não é a sua finalidade que vai descaracterizar o crime. No processo do mensalão, temos imputação de crimes de lavagem de dinheiro, corrupção passiva, ativa, peculato, evasão de divisas, quadrilha, falsidade ideológica. Crimes assumidamente confessados. Eles não podem deixar de admitir.
Osmar Serraglio,
relator da CPI dos Correios, em entrevista a Veja:
Seis
anos após o término dos trabalhos, o deputado guarda vivas na memória as
artimanhas que precisou driblar para que a investigação não terminasse em
pizza. E seu calmo semblante endurece à simples menção sobre as negativas da
existência do mensalão: “As provas estão todas lá. Não inventamos nada”,
afirma. Confira a seguir a entrevista concedida pelo parlamentar ao site de
VEJA, em seu gabinete em Brasília.
O
que pensa quando ouve que o mensalão não existiu? Não admito
que se diga isso. Em matéria de provas, nossa CPI foi muito consistente.
Relatamos as evidências que colhemos - não inventamos nada.
Acredita
que o trabalho da CPI vai contribuir para uma eventual condenação dos
mensaleiros no STF? Claro
que sim. Tanto é que a Procuradoria-Geral da República baseou-se em muitos
dados que colhemos para apresentar sua denúncia ao Supremo. Falar a uma CPI tem
o mesmo efeito que falar em juízo. Além disso, há muitas apurações que foram
feitas pela Polícia Federal a nosso pedido. Todas as provas estão com os
ministros do STF.
E o
que o senhor espera desse julgamento? Espero Justiça e o reconhecimento de
que nosso trabalho não foi uma banalidade. A comissão não foi feita para o deleite
dos parlamentares, assim como o relatório não foi uma produção apenas minha,
mas de todos os colegas que participaram da investigação. O relatório de uma
CPI é, em matéria de prova, algo muito consistente. Por isso, se nada for
feito, estaríamos diante de um incentivo à impunidade, do reconhecimento de que
vale a pena ser malandro. A condenação dos mensaleiros seria o coroamento da
ideia de que, no Brasil, não é tão simples sair com sacolas de dinheiro para
cima e para baixo.
Delirando,
Lula afirmou que a oposição foi forçada a recuar diante do apoio que recebeu
dos movimentos sociais. Ele também citou artistas populares como o apresentador
de TV Raul Gil e o cantor e vereador Agnaldo Timóteo (SIC).
"Eu disse: 'Não
vou me matar como Getúlio [Vargas] e não vou fugir obrigado como o João
Goulart. Só tem um jeito de eles me pegarem aqui. É eles enfrentarem o povo nas
ruas deste país.'"
Nunca
antes na história deste país houve um criminoso como Lula. Após comandar o
maior esquema de corrupção da história, foi salvo por um "erro de estratégia" da
oposição, que recusou-se a explorar a crise, esperando democraticamente que os
eleitores enxotassem a camorra do PT. Tragicamente, o inacreditável ciclo
econômico trouxe uma maré de riqueza sem precedentes, que o povo fingiu
acreditar ser devida a Lula e os mensaleiros. O resultado todos conhecem.
Agora,
esperamos que o Supremo rechace essa manobra, digna de Goebbels, e ponha na
cadeia boa parte do PT criminoso (desculpem o pleonasmo).
Saco de merda quase
a rebentar, Lula mandou instalar uma CPI esperando intimidar o PGR, empastelar
a revista Veja, adiar ou jogar uma cortina de fumaça sobre o julgamento da camorra.
segunda-feira, 14 de maio de 2012
H.Stern
Sempre que
passo em frente, entro. Não é nada, é só um cacoete. Os vendedores, temerosos,
perguntam, entre nervosos e maravilhados ante a visão de um pobre:
- Ppppois não?
Meu procedimento é
simples: inspeciono os relógios, dos mais simpáticos aos mais caros. Naturalmente
os vendedores tentam sonegar a linha safira, com seus azuis cobalto e ouros ditosos.
Exijo vê-los.
Aproveitando a
receptividade, e ao ensejo de um exame rigoroso, me ponho a funcionar:
- Quero água quero
água quero água.
Água depressa se
providencia, para abafar o escândalo. Relógios descem ao parecer mais judicioso.
- Chocolates, café,
chocolate, café, belgium chocolate,
biscoitos...
Enquanto águas, chocolates, chás e biscoitinhos vão deliciando, fiscalizo os relógios, sua relativa eficácia
em registrar as proezas do tempo.
Sobre não ser
linear, o tempo é trêmulo, torto e propenso a cantorias, ébrio elementar; roliço
e namorador, dá cambalhotas, estatela nas imediações da realidade, e dança. Não
gostaria de denunciar todas as iniquidades do tempo, nem acredito seja esse o propósito
do leitor mais sóbrio. Basta dizer, com Drummond, que o tempo é o mais cruel dos escultores, e trabalha no barro.
As múltiplas
dimensões espaciais, posto franquearem a existência de mundos paralelos, não são nada, comparado à quase inadmissível idéia de multiplicidade temporal. Com
apenas uma dimensão, posso me deslocar para o futuro ou para o passado;
devagar, ao longo do presente - que é maneira mais econômica de viajar - ou aos
saltos. Com duas ou mais possibilidades simultâneas de deslocamento ao longo do
tempo posso dar saltos pra frente, pra trás, para os lados e também para fora
do tempo, subtraindo-me à sua passagem e reaparecendo em qualquer ponto que me
agrade.
É uma idéia
poderosa, convenhamos, negociar os poderes do tempo, ponderar-lhe as
incidências.
Os vendedores, que
renunciaram à pobreza na admissão de suas funções, saciam a curiosidade: é um
pobre, diga o que disser a propaganda, ainda temos pobres no Brasil!
sábado, 28 de abril de 2012
Samanta Schweblin
Escrita simples e direta. Contos curtos e eficazes, embora ambientados numa hiperrealidade
perturbadora. A quasirrealidade das histórias remete a Casares, de quem foi nomeada sucessora.
Pássaros
na Boca é uma reunião desses contos, o primeiro da autora no
país. Agradável, sem arroubos lingüísticos nem vanguardismos indevidos.
quarta-feira, 25 de abril de 2012
Café da manhã em Copán Ruínas
Tortilhas ao molho
picante, ovos e panquecas. No jardim, sorvi o café das encostas vulcânicas e transes
telúricos. Turistas ouviam músicas natalinas.
Ao lado, um russo entoava, entusiasmado: tuuuuc tuc tuc, acompanhando o refrão da
musiquinha.
E caprichava no tuuuuuc,
aumentando a temeridade da cantoria, que envolvia a manhã, o passeio.
A cantata tocou os ouvidos sensíveis do delegado, à
mesa dentro do salão. Infelizmente ele atribuiu a mim o delito, único brasileiro
em léguas:
- Vossa Excelência acaso sabe o constrangimento da
minha família, com esse corinho natalino?
- Lo sinto,
mas não sou eu. É o tentilhão russo, ao lado. - O pimpalhão russo tinha fechado
o bico e entrado na tortilha.
- O patrão certamente não ignora a necessidade de
decoro num ambiente familiar, como este, não é mesmo? Vou dizer só mais uma
vez: procure manter a boca fechada.
- Se é o pimpim russo!
- Está bem, está bem. Não vou prendê-lo agora, que é
dia de todos os santos, mas tem de prometer que não vai mais fazer isso, hein?
Nunca mais.
Promessa feita, café tomado, saí pelas ruas da pequena Copán,
inaugurando 2012. Arrecadei alguns ídolos de jade, que agora vigiam os passos de meus moais, na sala.
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Mergulho em Rangiroa
Fui o último a saltar do barco. Emergi numa esteira fluida que me embalava do mar aberto à laguna. O envelope de voo incluía abismos pacificados e entidades marinhas. Era simples: bastava conduzir o olhar, varrendo o pass, sem nenhum esforço.
O grupo seguia à frente, e alguns arriscavam mergulhos. O guia foi em busca de um peixe e, no regresso, voou como um astronauta abaixo de nós, num momento surfista prateado. No fim, o barco acolhe os turistas, impedindo que se extraviem laguna adentro, como muitos desejavam.
Após, almoçamos peixes frescos. Os tubarões, não. Caímos na água, para trocar impressões com eles. A certa altura, tendo todos os turistas recuado a bordo, eu fiquei, para mais fotos. Num dado momento, convulsão na água: dezenas de torpedos partiram contra mim, e só desviaram no último milímetro. Eram tubarões famintos, convocados pelo barco às minhas costas, para o almoço. Tão rápido que a câmera só pode lamentar a bateria fraca.
Manihi
Na manhã, pescaria. Os tubarões morderam minha isca (na verdade, eles a comeram). Duas vezes. Um deles foi convocado a bordo, para se explicar. Minhas iscas continuaram a sumir, vez ou outra, e nenhum peixe, entre tantos meros e garoupas pintadas, se apresentou.
Depois o almoço. Os nativos grelharam o produto da pescaria, mais frango e o polvo colhido nos recifes. Junto com vinhos, cervejas e água, foi o mais delicioso lanche nos motus do Tahiti.
sexta-feira, 6 de abril de 2012
Bufaleão
Passado século e meio desde que
Darwin lançou suas idéias, corre o dissenso. As pessoas exigem provas menos
acadêmicas desse evento difícil, a evolução.
Cangurata (canguru e barata): é injustamente odiado, só porque, às vezes, acontece de os armários em que sobe desmontar. Destrata imparcialmente cães e gatos.
Polvardo (polvo e leopardo): passa metade das temporadas nos oceanos, metade nas savanas. Muito articulado, é todo agilidade. Capaz de passar dos 100 km/h, solta uma tinta confundindo predadores, em falhando outras táticas. Na água, aprendeu a zombar dos tubarões, com seus “dentinhos de leite”.
Canguceronte (canguru e rinoceronte): bom jabeador. Ótimo empalador.
Morangotango. Descoberto por uma criança, não pode ser pensado, senão após investimento em sonhos e licenças. Precariamente equilibrado entre dois reinos, admite mordidinhas, mas também vive a amizade de galhos e da brisa fresca. Um morangotango maduro traz não pouca alegria, sendo o preferido das crianças, e também o nosso. É ademais sonoro.
Temos tantos fósseis, tantas
demonstrações, não sei o que poderia encerrar essa cizânia, célebre. Parece que
alguns se dariam por satisfeitos com criaturas híbridas, a meio caminho entre
um e outro organismo conhecido.
No afã de contribuir, quis um
mundo com o tipo de coisa que traria conforto a esses indecisos. Ignoro o grau
de verossimilhança desses seres, e não quero adicionar-lhes detalhes que não
estes:
Elefanzé:
intermediário entre o elefante e o chimpanzé, é difícil não se comover com a
ingente missão desse extraordinário animal. Sem conseguir saber se trepa numa
árvore, com seus braços de mais de cinco metros, ou se a derruba com suas
presas, um elefanzé imaturo traz não pouca perplexidade a seus pais.
Crocopato:
simpático animalzinho, abandonou as imposturas dos crocodilianos e explicitou,
finalmente, o parentesco entre aves, dinos e seus primos, os crocs.
Rãcaco: misto
de rã e macaco, é excelente saltador, sem falar que, uma vez no galho de uma
árvore, navega aereamente a floresta, em franco desacato à categoria das
cobras. Rivaliza com os exibidos colugos.
Cãopótamo: amigo
das piscinas, essa dócil criatura admite cavagaldura de crianças. Sua bocarra
poderia abarcar o mundo, se este fosse só um pouquinho menor.
Cangurata (canguru e barata): é injustamente odiado, só porque, às vezes, acontece de os armários em que sobe desmontar. Destrata imparcialmente cães e gatos.
Polvardo (polvo e leopardo): passa metade das temporadas nos oceanos, metade nas savanas. Muito articulado, é todo agilidade. Capaz de passar dos 100 km/h, solta uma tinta confundindo predadores, em falhando outras táticas. Na água, aprendeu a zombar dos tubarões, com seus “dentinhos de leite”.
Cãobuti (cão e jabuti): desanimadoramente lento,
embora aplicado, desaconselha-se seu emprego como guarda ou guia. Não é
infreqüente sua ida à caçarola.
Canguceronte (canguru e rinoceronte): bom jabeador. Ótimo empalador.
Morangotango. Descoberto por uma criança, não pode ser pensado, senão após investimento em sonhos e licenças. Precariamente equilibrado entre dois reinos, admite mordidinhas, mas também vive a amizade de galhos e da brisa fresca. Um morangotango maduro traz não pouca alegria, sendo o preferido das crianças, e também o nosso. É ademais sonoro.
Elerus. Também atende pelo nome vifante: estarrecedora mistura
de elefante com vírus, essa criatura é o exercício do temerário levado às
últimas conseqüências. Tão virulento quanto seus primos menores, it´s massive! Pensa numa infecção com esse cara,
irmãozinho. E a vacina? Pensou na vacina?
Cangulesma.
Infeliz reunião de canguru e o invertebrado, o animal vive dilemas
entristecedores. Sua galhardia em saltar e vencer distâncias é frustrada pela
gosma paralisante, mãe da interdição e do asco.
Insensata junção do narval com
o pernilongo, o narlongo dispõe de um vazado dente de marfim,
com cerca de 3 metros, e o apetite próprio dos pernilongos. A simples menção
desse nome basta para instalar o pânico entre os marinheiros e mergulhadores
que prezam o próprio sangue, ainda que se saiba de sua preferência pelo sangue
azul das baleias.
Em uma escola
pública certa vez deparei com as seguintes colaborações, originais e válidas:
vacamelo, baleão, leonça, ovelhótamo e cabaleia. Vacamelo eu compreendo. É quase impossível evitá-lo. Pergunto "como
pode o baleão, amplamente difícil?" As crianças
não explicam.
Seja como for eu não poderia terminar esta lista sem o inacreditável, o impensavelmente maldoso, mil vezes bandido – o tristemente feroz e culpado bufaleão.
Conquanto ridículo postular animal tão gratuitamente grotesco e perverso, o bufaleão habita meus pesadelos, incapaz de decidir se é presa ou predador, búfalo ou leão. Não tenho como descrever todas as deslealdades desse animal, fonte de todo constrangimento para os pobres zoólogos.
Melhor renunciar a ele, leitor.
Seja como for eu não poderia terminar esta lista sem o inacreditável, o impensavelmente maldoso, mil vezes bandido – o tristemente feroz e culpado bufaleão.
Conquanto ridículo postular animal tão gratuitamente grotesco e perverso, o bufaleão habita meus pesadelos, incapaz de decidir se é presa ou predador, búfalo ou leão. Não tenho como descrever todas as deslealdades desse animal, fonte de todo constrangimento para os pobres zoólogos.
Melhor renunciar a ele, leitor.
sábado, 31 de março de 2012
Talim
Cidadela medieva, patrimônio da Unesco, com igrejas e castelos encerrados num paredão de pedra. Saí de Segway, o patinete elétrico, para experimentar iras. Subi rampas, venci a Toompea e vistoriei os fundamentos dos castelos e jardins. Ao rodopiar por sua torre, compreendi essa grande muralha.
Depois de um chope encorpado, ao estilo europeu, com um assado típico, travei conhecimento com um sujeito que beneficia a madeira achada ao golfo da Finlândia, incorporando sentimentos.
Nisso, um animado carnaval atravessou a cidade histórica, com fanfarras, malabares e dançarinas. A percussão se concentrou na praça em frente, e para lá fomos.
Voar de patinete pelas ruelas de Talim foi como soltar feras lúdicas por entre jardins medievais.
Ascensão e queda do comunismo
Concluo Ascensão e Queda do Comunismo, de Archie Brown.
Ele tenta abarcar todo o fenômeno, desde a ideologia fabricada por K. Marx até a queda fulminante e inesperada do império soviético.
Entendo que o comunismo, mesmo em teoria, é indefensável, na linha de K. Popper. Se você coloca uma canga num ser humano e o manda trabalhar até morrer, não é preciso ser cientista pra saber que não vai dar certo.
Se a propriedade é pública, não será de ninguém, e ninguém fará nada de produtivo com ela. É simples assim, mas muitos se recusavam a enxergar.
Na prática, o comunismo tornou-se o biombo conveniente para que bandidos sedentos de poder inaugurassem as mais brutais ditaduras. E uma religião política que cegou boa parte dos intelectuais no século 20.
O comunismo, nascido de uma crítica merecida de Marx aos excessos do capitalismo, tornou-se talvez o pior pesadelo político da humanidade, considerando-se seus grandes próceres: Pol Pot, Stalin, Mao, Ceausescu, Castro, e suas obras: a captura e encarceramento de povos por até 70 anos, sem direito a um único gesto humanitário.
Mas deixando essas ninharias de lado, o autor apresenta uma tese preocupante: o comunismo não caiu por qualquer atitude, qualquer pressão do Ocidente.
Ao contrário do que diz o partido Republicano dos EUA, e repetimos acriticamente, não foi o bizarro orçamento militar americano, e suas armas inúteis, que derrubaram a "cortina de ferro".
Sustenta ele, de forma consistente, que o império soviético não suportou as reformas introduzidas por Gorbatchev, no afã de melhorá-lo. A estrutura, rígida demais, simplesmente não podia conviver com um pouquinho de democracia, um pouquinho de respeito ao ser humano, e colapsou sob demandas como liberdade de opinião e direito de voto - além, é claro, de algo mais simples e mais básico: o direito de cada um de escolher os rumos da própria vida.
Isto, e não bombardeiros de 1 bilhão de dólares, acabou com a dieta Soviética. Após o fracasso do golpe militar contra Gorbatchev, os estados satélites perderam o medo que tinham do urso feroz. Um a um, todos sacudiram o jugo soviético, começando pelas três repúblicas bálticas e Alemanha "Democrática".
A prova do argumento está bem diante de nós: Cuba e China continuam comunistas, totalitários e brutais com seus cidadãos, e não há orçamento do Pentágono (por mais que tenha subido sob Bush) que os vá convencer do caminho democrático, das liberdades e respeito ao ser humano.
Aí está. Da próxima vez que ouvir alguém dizer que o obsceno orçamento militar americano derrubou "o comunismo", pergunte por que não derrubou todos os regimes comunistas, e por que alguns estão agora mais fortes, ricos e arrogantes.
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