quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Samuel Pessoa

Toda ação de uma pessoa produz para ela um retorno econômico (isto é, a renda deduzida dos custos), chamado de retorno privado, que não necessariamente é igual ao retorno para a sociedade dessa mesma ação.

Instituições ótimas são aquelas que induzem que os retornos privados, que resultam das ações dos indivíduos, aproximem-se dos retornos sociais. Um marco institucional que não promova esse alinhamento dificulta o crescimento econômico.

Toda vez que as instituições permitem diversas maneiras de gerar renda a indivíduos, sem que esta seja a contrapartida da criação de alguma produção para a sociedade, a economia apresenta problemas de desempenho.

Por exemplo, se, para uma empresa, for mais rentável criar um escritório em Brasília, para brigar por uma isenção de imposto ou por uma alíquota maior de importação, do que investir em inovação tecnológica, a economia sofrerá por causa disso.

A atividade de inovação tecnológica aumenta a renda da economia como um todo, enquanto a atividade de criar uma isenção tributária ou uma alíquota maior de tarifa de importação somente transfere renda dos contribuintes ou dos consumidores ao fabricante.

Toda vez que algum grupo da sociedade consegue pressionar o Congresso Nacional para criar uma isenção de algum tributo ou uma transferência de renda para si, gera-se um retorno privado sem que haja um retorno equivalente para a sociedade. Nessa situação, a eficiência econômica se reduz.

Há inúmeras situações nas quais critérios de equidade social justificam uma redução da eficiência econômica. Esse é o caso, por exemplo, dos benefícios da Loas (Lei Orgânica da Assistência Social), que instituiu a aposentadoria rural não contributiva.

Grand Canyon

Viajamos o dia inteiro para ver essa formação. Chegamos no final do dia. Com luz temperada, pudemos registrar a profundidade desse drama telúrico. 


Vi do alto essa licença poética do rio Colorado, e quase não acreditei. Amarelos e vermelhos em todos os tons permitidos. Bilhões de anos de trabalho escultor, eis o resultado: terraços espantosos assinalam eras e documentam parcelas da eternidade. 


Cirque du Soleil

Quando cheguei o teatro pegava fogo. Labaredas fumavam e voltavam a sua conformada posição, enquanto as pessoas se acomodavam. 

Ka foi um espetáculo movimentado e belo. O palco, um retângulo tridimensional, assume todas as configurações possíveis no espaço da arte do Soleil.

O se desenvolve num palco líquido, e a arte obedece às preferências da água. Os artistas voam dentro e fora da piscina. Ginastas de precisão olímpica desenhando belezas sincronizadas.

Meu show preferido, Love, é livremente baseado nos Beatles.

Performances aconteciam a meio metro da minha poltrona, e sobre nossas cabeças, o tempo todo. Sinestésico. 

Um cidadão lia um jornal que incendiava. Todo ele pegava fogo, aferrado às notícias, tal como usa acontecer comigo. Considero um maravilhamento essas pequenas intervenções do impossível no palco, como se tivéssemos adentrado uma capa do Pink Floyd, sem mais aquela. 

One (Michael Jackson) foi um espetáculo so so, todas as músicas em remix, muito altas. 

Emendei Zumanity no New York, New York, sem outro proveito que apressar a última noite em Vegas. 

Uma funcionária do Cirque lamentava o fim de Alegria no Brasil. Parece que está em cartaz na Europa. Quem sabe?

Baleias

Não sei por onde começar. Minhas primeiras baleias foram jubarte, ao largo de Abrolhos. Elas saltavam contagiando turistas extasiados. 

Encontrei algumas dessas baleias na Antártica, tempos depois, mas não sei se fui reconhecido. 

Vi baleias na Islândia, e também comi inadvertidamente algumas delas na Noruega, sanduba pra lá de incorreto.

Ano passado, na Argentina, acompanhei a beleza da maternidade num berçário chamado Península Valdés. Baleias franca. Mães esforçadas.

Nesta temporada, comecei com baleias cinza em Puerto Escondido, Oaxaca. O piloteiro disse que era azul, mas só as vi ao largo da costa de Loreto, mar de Cortés. Uma longínqua e solitária baleia azul na tarde ensolarada cheia de leões marinhos gritonhos e golfinhos festivos.

Depois, iniciei a presente orgia de baleias cinza. Primeiro, na laguna Ojo de Liebre, Guerrero Negro. Depois, na laguna San Ignacio, com apresentações formidáveis. A certa altura você tem baleias te chamando por todos os lados, e não sabe aonde apontar a lente.

Hoje, aqui em Lopes Mateos, baía Magdalena, assisti ao nascimento de um lindo bebezinho baleia, a poucos metros de minha metranca fumegante. Nascido, prontamente a mãe o iniciou na arte de respirar, amparando-o com seu corpanzil monstruoso. Outro be (parece que toda baleia nessa laguna tem ou terá seu bebê, para sorte da humanidade), mais experiente, se interessou pelo nosso barco, no que era repreendido pela mãe zelosa. Toquei de leve a cauda dessa mãe, no afã de proteger seu rebento, e não me contive.

O respirar da baleia batendo na lente encontrou olhos molhados. 

Antes, nas águas que envolvem La Paz, voltei a mergulhar com tubarões-baleia. Água gélida; tubarões acolhedores. Parece que eles sentem minha necessidade, e compreendem.

Também nadei com ágeis bolas de fofura chamadas leões marinhos da Califórnia, em tudo cachorros carinhosos: dão gostosas mordidinhas, fazem cambalhotas, mordem a nossa nadadeira e depois sobem para um beijo. 

A gritonice dos leões marinhos, o splash das baleias no rosto, a maternidade no azul abissal: devem existir formas melhores de passar as férias. Gosto desta. 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Vegas

Chamam isso cidade do pecado? Eu diria do mau gosto, ou da vulgaridade.

Foi uma das cidades mais difíceis, para mim, dada sua semelhança com Brasília, o que não é nenhum elogio. A mesma ferocidade dos carros, a falta de escala humana, o kitsch levado às últimas consequências. 

Velhos balofos sozinhos na madrugada plugados numa máquina que lentamente vai cobrando-lhe vitalidade e dinheiro. Garçonetes bonitas, em roupas provocantes, abasteciam seus copos sem cessar. 

Vi casais chegando às 6 horas da manhã para o jogo, como quem vai a uma consulta médica urgente.

A que ponto um ser humano consegue se rebaixar...

Travei conhecimento com dezenas de mendigos e sem-tetos. Um dizia que mendiga para comprar cerveja. Não me convenceu esse arroubo de sinceridade. Outro gritava com os funcionários do restaurante. "Tem alguém por trás disso", ele dizia, com a autoridade de um magnata do petróleo.

Cada um se diverte como pode. Dirigi ferraris e outros venenos pelo deserto. A Lamborghini é toda nervosinha. Dona de fazer o que você não pediu, nem autorizou, mas curtiu de montão, foi a que mais incendiou o deserto azul.

A Ferrari, quem diria, é dócil, educada - e intensa. Faz curvas em alta como um suave tapete voador. Você a tem na mão, todo o tempo, não importa as loucuras do velocímetro.

O Jaguar é um carro de luxo capaz de brutalidades, se você consentir.

Fúrias pelo deserto e lago Mead. Será pecado ser feliz em iras?

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Casamento

Não sei se caso ou compro um cachorro.

"Mira que bonito el perrito", dizem os amigos.

Em Vegas deu-me ganas de casar, como todo turista respeitoso e cumpridor de seus deveres. 

Me alertaram para a inteira conveniência de ter uma noiva, nesse caso.

Well, será que as altas religiões constituídas de Nevada admitem casamentos mistos, por exemplo com coisas?

"Mira que bonito el perrito", dizem os amigos, com uma sutileza que levantou suspeitas.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Poetas de Muro

Quanto tempo segues comigo?
Preparo café ou minha vida?

Ação Poética de León, México.

Isla Janitzio

O casal de alemães volta da escalada ao monumento comendo um pastelzinho.

"Como se chama isso?", perguntaram ao guia. "Gordita", disse ele. 

"Deus do céu, eu comi isso?", exclamou a moça, ao consultar no guia de viagem o significado. 

Mais modesto, comi carnitas na praça de Quiroga, a caminho de Pazcuaro.  Carne de porco assada, com toucinho, na tortilla. Não é pra frescos. Tudo manual...

Isso de tortillas, eu pensava que conhecia, até provar uma no La Biznaga, aventura já relatada. Bem, se você não foi ao Biznaga, não sabe o que e uma tortilla no estado de arte.

No mesmo dia, passamos por Tzintzuntzan, nome que vale por um solfejo prosódico.

Agora, voltamos das mariposas monarca. Elas forravam o chão, e também algumas árvores, mas não alcançamos voassem.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Guanajuato

Casa Valadez. Iniciei com o melhor gaspacho que já sonhei e não sabia possível.

Depois, espuma de queijo. Isso mesmo: espuma, na taça. Ao fundo, vegetais quentes prelibavam o momento.

Acaso o leitor sabe o que acontece quando jamon serrano, azeite e figos, primícias mediterrâneas, se juntam? Bem...

Atum perfeito, selado, desmanchava na boca. Na boa.

Enquanto isso, uma trupe medieval liderava uma mobilização. Iniciada por um contrabaixo-caixão empunhado e tocado heroicamente na horizontal. Canções que nascem da alma, coracionalmente. Música e lira, numa callejoneada seguida por uma horda de turistas.

Ao ensejo da mob entregaram um assado e me repito: perfeito.

A sobremesa me encontrou exaurido em fruição.

O paraíso em seis passos. Seis apresentações, seis estações de bondade.

A estudiantina deu a volta na praça e se concentrou no fosso em frente à igreja. Performance festiva, despretensiosa, com muito lirismo medieval, como a gente pensa que existe em castelos europeus, mas só existe aqui, no México.

De colores...

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Oaxaca

Não sei por que escolhi uma cerveza bufadora. Isso nunca tinha me ocorrido antes.

"Hei, por que essa cerveja se chama bufadora?", indaguei.

O resto da tarde, quando concluía Oaxaca - bem, já sabem.

San Cristobal de Las Casas

Ao acordar o ônibus escalava a montanha na intenção de Las Casas.

Descobri um bebezinho sonhando em segredo no meu colo, a mãe invadida em sono.

O sol franqueava nívea manhã, e a névoa queria vales e montes.

Indinha e mãe dormiam em plena paz.

Com as mãos a lindinha comunicou-me pequenos mistérios. 

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Oaxaca

Já sai do hotel com más intenções. Fui a um museu com tesouros pré-hispânicos. Deleitei-me com a expressividade de certas esculturas. Umas irmãs gêmeas pareciam ter vida própria.

Depois, Maria Bonita. Um queijo oaxaquenho  acompanhou a limonada. A melhor bebida de Oaxaca é a limonada com soda, julgo.

Isso foi só distração. Quando o La Biznaga abriu, adivinhem quem estava lá, junto com franceses, suecos, e todos os famintos?

Eu.

Isso mesmo. E fui de ceviche de atum (regular), e carne assada a moda oaxaquenha. Aí sim, a experiência se deu.

Uma carne em tiras de felicidade, douradas. Junto com o queijo de cabra em amêndoas, foi estabelecendo riquezas e quereres.

Depois, o chocolate local, em torta, um verdadeiro desacato.

Após um giro pela cidade, com fotografia na luz temperada do fim de tarde, voltei ao Biznaga, para uns negócios inconclusos: a salada de jamon Pata Negra. Com melões (o que sói acontecer na Itália) e peras, fechou Oaxaca, provisoriamente.

Vivenciei gusanos, mezcal com laranja e chapolins puxados no tempero. Tudo diz com um México indígena,  exuberante, exagerado.

Que bom voltar!

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Oaxaca recôndita

Após experimentar gusanos (coros) e chapolins (gafanhotos), junto com mezcal, hoje fui ao Maria Bonita sentir a cozinha oaxaquenha de raízes.

Não me arrependi, não.

Sopa típica (num primeiro momento, a gente fica chateado com tanta sopa num pais tão quente, mas depois acostuma) de abobrinhas e otras cositas, preparando o prato principal: pimenta recheada com coisas deliciosas.

Depois, um café de altitude, para desbastar o sono.

Após o museu (belíssimo), e a siesta, o jantar, com cordeiro e perdiz.

Como se fosse pouco, na volta ao hostel teve um chope encorpado. O leitor fica muito chateado se eu confessar que foi com amendoins?

domingo, 29 de dezembro de 2013

Oaxaca

Não disse que o México e uma festa?

Fui a Taxco, capital da prata no México, com um soberbo conjunto arquitetônico. Por qualquer motivo, que ora me escapa, lembrou a pequena cidade Bósnia que visitei ainda neste ano.

Agora, curto esta Oaxaca indígena e maravilhosa. Ruas lotadas, restaurantes impecáveis, construções coloniais.

No passeio de ontem, comida em buffet turístico, novamente. Perguntei ao um mexicano se aquela panelada negra que me dizia frijoles era mesmo de confiáveis feijões. Confirmado, coroei o arroz com o brilhante creme negro.

Era chocolate (na verdade, mole negro, picante), e passei as três horas seguintes comendo arroz com chocolate apimentado.

Pela noite, o restaurante La Biznaga me enganou. Pedi uma entrada, veio o mais delicioso taco que já provei na vida, em porção pantagruélica. O queijo de cabra, dialogando com o abacate, fez-me sentir coisas.

Depois, um mahi mahi, que venho cuidando desde o Tahiti, trouxe convicção e encantamento ao passeio pelo coração do México. Na folha da bananeira, o Dorado se estabeleceu em minha memória de glutão.

Sabem, nem sempre sou assim, pantagruélico.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Cidade do México

Após alguns meses, estou de volta, a cidade e ao Tacuba Bar, de onde redijo estas notas.

A cidade está mais calma, sem os baderneiros de agosto; mais bonita, agradável, e fresca

Após o giro por seus monumentos, jantar degustação no Tacuba, claro que si. Tivemos camarão no abacate e sopa de aspargos, no lucro. Agora, creio que um bacalhau se prepara na cozinha.

Quem me conhece sabe da minha fissura por bacalhau.

No caso, um bacalhau desfiado, com molho adocicado. Não chega a empolgar, mas vale a experiência.