terça-feira, 5 de junho de 2012

Monarquia

Hélio faz uma intervenção primorosa a respeito da monarquia. Como pode alguém chamar de "rei" um presunçoso que não aceitaria ter como amigo?

Terminam hoje as celebrações do jubileu adamantino da rainha Elizabeth 2ª. Os britânicos e os súditos das outras 15 nações das quais ela é o chefe de Estado já são bem grandinhos para decidir se querem ou não mantê-la no posto. E, ao menos no caso dos ingleses, tudo indica que querem.


A pergunta que não quer calar é: de onde vem tanto fascínio com a realeza? A resposta passa pelo essencialismo, a irresistível tendência dos seres humanos de enxergar uma natureza secreta por trás das coisas.


Monarcas souberam explorar isso bem, proclamando que se sentavam no trono por direito divino. Depois do Altíssimo, eram eles que mandavam. Para reforçar a obediência, desde Homero reis reservaram para si os melhores papéis ficcionais. Todos os heróis da "Ilíada" são soberanos ou herdeiros. O mesmo vale para Gilgamesh, os reis Saul, Davi e Salomão, o ciclo arturiano, Beowulf e até as histórias infantis, povoadas por príncipes e princesas. Não é exagero afirmar que, em nossas cabeças, as noções de herói e rei se misturam.

Após 3.000 anos de doutrinação política e literária, seria uma surpresa se não víssemos a realeza favoravelmente. O problema é que, com o progresso da civilização, o princípio mesmo da monarquia se tornou moralmente injustificável. Como defender que um ser humano tenha privilégios em virtude não de seu esforço (ou, se admitirmos o direito de herança, do de seus pais), mas apenas de seu nascimento? É difícil imaginar ideia mais antidemocrática que essa.

O mais incrível é que, em tempos nos quais apenas sugerir que possa haver diferenças naturais entre raças, gêneros e grupos sociais já aciona a patrulha do politicamente correto, milhões de pessoas ainda se encantem com a mais absurda das dicotomias jamais criadas pelo homem: a divisão do mundo em soberanos e súditos. Daí que, mesmo sendo inexpressivo, o movimento republicano inglês tem toda a minha simpatia.

domingo, 27 de maio de 2012

Augusto Nunes

O ex-presidente Lula vem erguendo desde o começo de abril o mais obsceno dos numerosos monumentos à cafajestagem forjados desde 2005 para impedir que os quadrilheiros do mensalão sejam castigados pela Justiça. Inquieto com a aproximação do julgamento, perturbado pela suspeita de que os bandidos de estimação correm perigo, o Padroeiro dos Pecadores jogou o que restava de vergonha numa lixeira do Sírio Libanês e resolveu pressionar pessoalmente os ministros do Supremo Tribunal Federal. De novo, como informou VEJA neste sábado, o colecionador de atrevimentos derrapou na autoconfiança delirante e bateu de frente com um interlocutor que não se intimida com bravatas.

A reportagem de Rodrigo Rangel e Otávio Cabral reproduz os momentos mais espantosos do encontro entre Lula e o ministro Gilmar Mendes ocorrido, há um mês, no escritório mantido em Brasília pelo amigo comum Nelson Jobim, ex-ministro do Supremo e ex-ministro da Defesa. A conversa fez escala em assuntos diversos até que o palanque ambulante interrompeu o minueto para dar início ao forró do mensalão. “Fiquei perplexo com o comportamento e as insinuações despropositadas do presidente Lula”, disse Gilmar a VEJA. Não é para menos.

“É inconveniente julgar o processo agora”, começou Lula, lembrando que, como 2012 é um ano eleitoral, o PT seria injustamente afetado pelo barulho em torno do escândalo. Depois de registrar que controla a CPI do Cachoeira, insinuou que o ministro, se fosse compreensivo, seria poupado de possíveis desconfortos. “E a viagem a Berlim?”, perguntou em seguida, encampando os boatos segundo os quais Gilmar Mendes e Demóstenes Torres teriam viajado para a cidade alemã num avião cedido por Carlinhos Cachoeira, e com todas as despesas pagas pelo meliante da moda.

Gilmar confirmou que se encontrou com o senador em Berlim. Mas esclareceu que foi e voltou em avião de carreira, bancou todas as despesas e tem como provar o que diz. “Vou a Berlim como você vai a São Bernardo. Minha filha mora lá”, informou, antes da recomendação final: “Vá fundo na CPI”. Lula preferiu ir fundo no palavrório arrogante. Com o desembaraço dos autoritários inimputáveis, o ex-presidente que não desencarnou do Planalto e dá ordens ao Congresso disse o suficiente para concluir-se que, enquanto escolhe candidatos a prefeito e dá conselhos ao mundo, pretende usar o caso do mensalão para deixar claro quem manda no STF.

Alguns dos piores momentos da conversa envolveram quatro dos seis ministros que Lula nomeou:


CARMEM LÚCIA
“Vou falar com o Pertence para cuidar dela”. (Sepúlveda Pertence, ex-ministro do STF e hoje presidente da Comissão de Ética Pública, é tratado por Carmen Lúcia como “guru”).


DIAS TOFFOLI
“Ele tem que participar do julgamento”. (O ministro foi advogado do PT e chefe da Advocacia Geral da União. Sua mulher defendeu três mensaleiros. Mas ainda não descobriu que tem o dever de declarar-se sob suspeição).


RICARDO LEWANDOWSKI
“Ele só iria apresentar o relatório no semestre que vem, mas está sofrendo muita pressão”. (Só falta o parecer do revisor do processo para que o julgamento comece. Lewandowski ainda não fixou um prazo para terminar o serviço que está pronto desde que ganhou uma toga).

Os outros dois ministros nomeados por Lula são Joaquim Barbosa (considerado “um traidor”) e Ayres Britto, a quem Gilmar relatou na quarta-feira o encontro em Brasília. O atual presidente do STF soube pelo colega que Lula pretende seduzi-lo com a ajuda do jurista Celso Antonio Bandeira de Mello, amigo de ambos e um dos patrocinadores da sua indicação. Imediatamente, Ayres Britto associou o que acabara de escutar ao que ouviu de Lula num recente almoço no Palácio da Alvorada. “O ex-presidente me perguntou se eu tinha notícias do Bandeirinha e disse: ‘Qualquer dia a gente toma um vinho’”, contou o ministro a VEJA.

Na mesma quarta-feira, a chegada ao STF de um documento assinado por dez advogados de mensaleiros comprovou que Lula age em parceria com a tropa comandada pelo inevitável Márcio Thomaz Bastos. “Embora nós saibamos disso, é preciso dar mostras a todos de que o Supremo Tribunal Federal não se curva a pressões e não decide ‘com a faca no pescoço’”, diz um trecho desse inverossímil hino à insolência. A expressão foi pinçada da frase dita em 2007 pelo ministro Ricardo Lewandowski, num restaurante em Brasília, depois da sessão que aprovou a abertura do processo do mensalão. Faltou completar a frase do revisor sem pressa: “Todo mundo votou com a faca no pescoço. A tendência era amaciar pro Dirceu”.

O escândalo descoberto há sete anos se arrasta no STF há cinco, mas os dez doutores criticaram “a correria para o julgamento, atiçada pela grita”. Eles resolveram dar lições ao tribunal por estarem “preocupados com a inaudita onda de pressões deflagradas contra a mais alta corte brasileira”. O Brasil decente faz o que pode para manifestar seu inconformismo com o tratamento gentil dispensado pela Justiça a pecadores que dispõem de padrinhos poderosos e advogados que cobram por minuto. São pressões legítimas. Preocupante é o cerco movido a um Poder independente por um ex-chefe do Executivo. Isso não é uma operação política, muito menos uma ação jurídica. É um genuíno caso de polícia.
Se os bacharéis do mensalão efetivamente se preocupam com pressões ilegais, devem redigir outro documento exigindo que Lula aprenda a comportar-se como ex-presidente e pare de agir como um fora-da-lei.

sábado, 26 de maio de 2012

Lula e Hitler

Lula delira. Recuperando-se de uma doença, voltou com tudo para perpetrar mais crimes. No dia 26 de abril passado tentou intimidar Gilmar Mendes (ministro do Supremo), provavelmente uma das pessoas mais intimoratas da face da Terra:

- É inconveniente julgar esse processo agora - disse Lula a Gilmar a propósito do processo do mensalão. São 36 réus - entre eles o ex-ministro José Dirceu, que segundo Lula contou a Gilmar, "está desesperado".

Em seguida, Lula comentou que tinha o controle político da CPI do Cachoeira. E ofereceu proteção a Gilmar. Garantiu que ele não teria motivo para preocupação.

- Fiquei perplexo com o comportamento e as insinuações despropositadas do presidente Lula - comentou Gilmar com a VEJA.
Lula foi adiante em sua conversa com Gilmar:

- E a viagem a Berlim?

Nos bastidores da CPI corre a história de que Gilmar e o senador Demóstenes Torres teriam viajado juntos a Berlim com despesas pagas por Cachoeira.

Gilmar confirmou o encontro com Demóstenes em Berlim. Mas respondeu que tinha como provar que pagou as próprias despesas,

- Vou a Berlim como você vai a São Bernardo do Campo - afirmou Gilmar se dirigindfo a Lula. Uma filha de Gilmar mora em Berlim.

Constrangido, Gilmar aconselhou Lula:

- Vá fundo na CPI.

Na cozinha do escritório, onde Lula comeu frutas, Gilmar ainda ouviu ele dizer outras coisas. Por exemplo: que encarregaria Sepúlveda Pertence, ex-ministro do STF, de convencer a ministra Carmem Lúcia a deixar o julgamento do mensalão para 2013.

Pertence foi o principal padrinho da indicação de Carmem Lúcia para o STF.

- Vou falar com Pertence para cuidar dela - antecipou Lula.
  
Parafraseio o que disse abaixo:

Esperamos que o Supremo rechace essa manobra, digna de Hitler, e ponha na cadeia boa parte dos criminosos do PT.     

Saco de merda quase a rebentar, Lula mandou instalar uma CPI esperando intimidar o PGR, empastelar a revista Veja e, sobretudo, adiar o julgamento da camorra, para obter a prescrição dos crimes.

Vai quebrar a cara como nunca antes. Gilmar deveria ter dado voz prisão a esse bandido. 

terça-feira, 22 de maio de 2012

Lula e Goebbels


Hoje deparei com a seguinte frase de Lula: "O PT era mais atacado do que hoje por grande parte dos políticos da oposição e por uma parte da imprensa brasileira. Na verdade, era um momento em que tentaram dar um golpe neste país".

Será mesmo? Vamos ver.

Antonio Fernando de Souza, o Procurador Geral que denunciou o Mensalão, na Veja:

O PT tem se dedicado a difundir a versão de que o mensalão não passa de uma farsa... Chamar esse episódio de farsa é acusar o procurador-geral e os ministros do Supremo de farsantes. Dizer que aqueles fatos não existiram é brigar com a realidade, é querer apagar a história. Esse discurso não produzirá nenhum efeito no STF. Os ministros vão julgar o processo com base nos autos. E há inúmeras provas de tudoo o que foi afirmado na denúncia. Depoimentos, extratos bancários, pessoas que foram retirar dinheiro e deixaram sua assinatura.

O senhor se sente incomodado com isso? Na democracia, todas as pessoas estão sujeitas à fiscalização, ao controle, à responsabilização, e há órgãos dispostos a isso. Não serão os partidos políticos nem seus dirigentes que vão dizer o que é crime e o que não é crime. Quando eles querem transmitir um ar de que não aconteceu nada, estão indo para o reino da fantasia. Negar a existência do mensalão é uma afronta à democracia.

Está comprovado que o PT utilizou dinheiro público no mensalão? Quem vai fazer esse juízo é o Supremo. Da perspectiva de quem fez a denúncia e acompanhou o processo até 2009, digo que existe prova pericial mostrando que dinheiro público foi utilizado. Repito: há prova pericial disso. E o supremo, quando recebeu a denúncia, considerou que esses fatos têm consistência.

O que o senhor achou da iniciativa de alguns parlamentares de tentar usar uma CPI para investigar a imprensa? A imprensa não faz processo penal, a imprensa dá a notícia, dá a informação. Parece mais um meio de desviar a atenção do inquérito fundamental.

Os acusados tentam reduzir o caso a um crime eleitoral. É uma boa estratégia? A referência que fazem é que a movimentação de dinheiro tinha origem em caixa dois de campanha. Do ponto de vista ético e jurídico, isso não altera nada. Quando há apropriação do dinheiro público, não é a sua finalidade que vai descaracterizar o crime. No processo do mensalão, temos imputação de crimes de lavagem de dinheiro, corrupção passiva, ativa, peculato, evasão de divisas, quadrilha, falsidade ideológica. Crimes assumidamente confessados. Eles não podem deixar de admitir.

Osmar Serraglio, relator da CPI dos Correios, em entrevista a Veja:

Seis anos após o término dos trabalhos, o deputado guarda vivas na memória as artimanhas que precisou driblar para que a investigação não terminasse em pizza. E seu calmo semblante endurece à simples menção sobre as negativas da existência do mensalão: “As provas estão todas lá. Não inventamos nada”, afirma. Confira a seguir a entrevista concedida pelo parlamentar ao site de VEJA, em seu gabinete em Brasília.

O que pensa quando ouve que o mensalão não existiu? Não admito que se diga isso. Em matéria de provas, nossa CPI foi muito consistente. Relatamos as evidências que colhemos - não inventamos nada.

Acredita que o trabalho da CPI vai contribuir para uma eventual condenação dos mensaleiros no STF? Claro que sim. Tanto é que a Procuradoria-Geral da República baseou-se em muitos dados que colhemos para apresentar sua denúncia ao Supremo. Falar a uma CPI tem o mesmo efeito que falar em juízo. Além disso, há muitas apurações que foram feitas pela Polícia Federal a nosso pedido. Todas as provas estão com os ministros do STF.

E o que o senhor espera desse julgamento? Espero Justiça e o reconhecimento de que nosso trabalho não foi uma banalidade. A comissão não foi feita para o deleite dos parlamentares, assim como o relatório não foi uma produção apenas minha, mas de todos os colegas que participaram da investigação. O relatório de uma CPI é, em matéria de prova, algo muito consistente. Por isso, se nada for feito, estaríamos diante de um incentivo à impunidade, do reconhecimento de que vale a pena ser malandro. A condenação dos mensaleiros seria o coroamento da ideia de que, no Brasil, não é tão simples sair com sacolas de dinheiro para cima e para baixo.


Delirando, Lula afirmou que a oposição foi forçada a recuar diante do apoio que recebeu dos movimentos sociais. Ele também citou artistas populares como o apresentador de TV Raul Gil e o cantor e vereador Agnaldo Timóteo (SIC).

"Eu disse: 'Não vou me matar como Getúlio [Vargas] e não vou fugir obrigado como o João Goulart. Só tem um jeito de eles me pegarem aqui. É eles enfrentarem o povo nas ruas deste país.'"

Nunca antes na história deste país houve um criminoso como Lula. Após comandar o maior esquema de corrupção da história, foi salvo por um "erro de estratégia" da oposição, que recusou-se a explorar a crise, esperando democraticamente que os eleitores enxotassem a camorra do PT. Tragicamente, o inacreditável ciclo econômico trouxe uma maré de riqueza sem precedentes, que o povo fingiu acreditar ser devida a Lula e os mensaleiros. O resultado todos conhecem.

Agora, esperamos que o Supremo rechace essa manobra, digna de Goebbels, e ponha na cadeia boa parte do PT criminoso (desculpem o pleonasmo).     

Saco de merda quase a rebentar, Lula mandou instalar uma CPI esperando intimidar o PGR, empastelar a revista Veja, adiar ou jogar uma cortina de fumaça sobre o julgamento da camorra.

Vai quebrar a cara como nunca antes. Alguém precisa deter esse bandido. 

segunda-feira, 14 de maio de 2012

H.Stern

Sempre que passo em frente, entro. Não é nada, é só um cacoete. Os vendedores, temerosos, perguntam, entre nervosos e maravilhados ante a visão de um pobre:

- Ppppois não?

Meu procedimento é simples: inspeciono os relógios, dos mais simpáticos aos mais caros. Naturalmente os vendedores tentam sonegar a linha safira, com seus azuis cobalto e ouros ditosos. Exijo vê-los.

Aproveitando a receptividade, e ao ensejo de um exame rigoroso, me ponho a funcionar:

- Quero água quero água quero água.    

Água depressa se providencia, para abafar o escândalo. Relógios descem ao parecer mais judicioso.

- Chocolates, café, chocolate, café, belgium chocolate, biscoitos...

Enquanto águas, chocolates, chás e biscoitinhos vão deliciando, fiscalizo os relógios, sua relativa eficácia em registrar as proezas do tempo. 

Sobre não ser linear, o tempo é trêmulo, torto e propenso a cantorias, ébrio elementar; roliço e namorador, dá cambalhotas, estatela nas imediações da realidade, e dança. Não gostaria de denunciar todas as iniquidades do tempo, nem acredito seja esse o propósito do leitor mais sóbrio. Basta dizer, com Drummond, que o tempo é o mais cruel dos escultores, e trabalha no barro.

As múltiplas dimensões espaciais, posto franquearem a existência de mundos paralelos, não são nada, comparado à quase inadmissível idéia de multiplicidade temporal. Com apenas uma dimensão, posso me deslocar para o futuro ou para o passado; devagar, ao longo do presente - que é maneira mais econômica de viajar - ou aos saltos. Com duas ou mais possibilidades simultâneas de deslocamento ao longo do tempo posso dar saltos pra frente, pra trás, para os lados e também para fora do tempo, subtraindo-me à sua passagem e reaparecendo em qualquer ponto que me agrade.

É uma idéia poderosa, convenhamos, negociar os poderes do tempo, ponderar-lhe as incidências.         

Os vendedores, que renunciaram à pobreza na admissão de suas funções, saciam a curiosidade: é um pobre, diga o que disser a propaganda, ainda temos pobres no Brasil!

Refeito, amoedo algum tempo comigo - para o caso - e me vou, nem triste nem alegre, apenas mais roliço. 

sábado, 28 de abril de 2012

Samanta Schweblin

Escrita simples e direta. Contos curtos e eficazes, embora ambientados numa hiperrealidade perturbadora. A quasirrealidade das histórias remete a Casares, de quem foi nomeada sucessora.

Pássaros na Boca é uma reunião desses contos, o primeiro da autora no país. Agradável, sem arroubos lingüísticos nem vanguardismos indevidos.   

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Café da manhã em Copán Ruínas


Tortilhas ao molho picante, ovos e panquecas. No jardim, sorvi o café das encostas vulcânicas e transes telúricos. Turistas ouviam músicas natalinas.

Ao lado, um russo entoava, entusiasmado: tuuuuc tuc tuc, acompanhando o refrão da musiquinha.

E caprichava no tuuuuuc, aumentando a temeridade da cantoria, que envolvia a manhã, o passeio.

A cantata tocou os ouvidos sensíveis do delegado, à mesa dentro do salão. Infelizmente ele atribuiu a mim o delito, único brasileiro em léguas:

- Vossa Excelência acaso sabe o constrangimento da minha família, com esse corinho natalino?

- Lo sinto, mas não sou eu. É o tentilhão russo, ao lado. - O pimpalhão russo tinha fechado o bico e entrado na tortilha.   

- O patrão certamente não ignora a necessidade de decoro num ambiente familiar, como este, não é mesmo? Vou dizer só mais uma vez: procure manter a boca fechada.

- Se é o pimpim russo!

- Está bem, está bem. Não vou prendê-lo agora, que é dia de todos os santos, mas tem de prometer que não vai mais fazer isso, hein? Nunca mais.

Promessa feita, café tomado, saí pelas ruas da pequena Copán, inaugurando 2012. Arrecadei alguns ídolos de jade, que agora vigiam os passos de meus moais, na sala.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Mergulho em Rangiroa

Fui o último a saltar do barco. Emergi numa esteira fluida que me embalava do mar aberto à laguna. O envelope de voo incluía abismos pacificados e entidades marinhas. Era simples: bastava conduzir o olhar, varrendo o pass, sem nenhum esforço.

O grupo seguia à frente, e alguns arriscavam mergulhos. O guia foi em busca de um peixe e, no regresso, voou como um astronauta abaixo de nós, num momento surfista prateadoNo fim, o barco acolhe os turistas, impedindo que se extraviem laguna adentro, como muitos desejavam.

Após, almoçamos peixes frescos. Os tubarões, não. Caímos na água, para trocar impressões com eles. A certa altura, tendo todos os turistas recuado a bordo, eu fiquei, para mais fotos. Num dado momento, convulsão na água: dezenas de torpedos partiram contra mim, e só desviaram no último milímetro. Eram tubarões famintos, convocados pelo barco às minhas costas, para o almoço. Tão rápido que a câmera só pode lamentar a bateria fraca.   

Manihi
Na manhã, pescaria. Os tubarões morderam minha isca (na verdade, eles a comeram). Duas vezes. Um deles foi convocado a bordo, para se explicar. Minhas iscas continuaram a sumir, vez ou outra, e nenhum peixe, entre tantos meros e garoupas pintadas, se apresentou.

Depois o almoço. Os nativos grelharam o produto da pescaria, mais frango e o polvo colhido nos recifes. Junto com vinhos, cervejas e água, foi o mais delicioso lanche nos motus do Tahiti.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Bufaleão

Passado século e meio desde que Darwin lançou suas idéias, corre o dissenso. As pessoas exigem provas menos acadêmicas desse evento difícil, a evolução.

Temos tantos fósseis, tantas demonstrações, não sei o que poderia encerrar essa cizânia, célebre. Parece que alguns se dariam por satisfeitos com criaturas híbridas, a meio caminho entre um e outro organismo conhecido.

No afã de contribuir, quis um mundo com o tipo de coisa que traria conforto a esses indecisos. Ignoro o grau de verossimilhança desses seres, e não quero adicionar-lhes detalhes que não estes:

Elefanzé: intermediário entre o elefante e o chimpanzé, é difícil não se comover com a ingente missão desse extraordinário animal. Sem conseguir saber se trepa numa árvore, com seus braços de mais de cinco metros, ou se a derruba com suas presas, um elefanzé imaturo traz não pouca perplexidade a seus pais.


Crocopato: simpático animalzinho, abandonou as imposturas dos crocodilianos e explicitou, finalmente, o parentesco entre aves, dinos e seus primos, os crocs

Rãcaco: misto de rã e macaco, é excelente saltador, sem falar que, uma vez no galho de uma árvore, navega aereamente a floresta, em franco desacato à categoria das cobras. Rivaliza com os exibidos colugos.  

Cãopótamo: amigo das piscinas, essa dócil criatura admite cavagaldura de crianças. Sua bocarra poderia abarcar o mundo, se este fosse só um pouquinho menor. 

Cangurata
 (canguru e barata): é injustamente odiado, só porque, às vezes, acontece de os armários em que sobe desmontar. Destrata imparcialmente cães e gatos. 

Polvardo
 (polvo e leopardo): passa metade das temporadas nos oceanos, metade nas savanas. Muito articulado, é todo agilidade. Capaz de passar dos 100 km/h, solta uma tinta confundindo predadores, em falhando outras táticas. Na água, aprendeu a zombar dos tubarões, com seus “dentinhos de leite”.   

Cãobuti (cão e jabuti): desanimadoramente lento, embora aplicado, desaconselha-se seu emprego como guarda ou guia. Não é infreqüente sua ida à caçarola.

Canguceronte
 (canguru e rinoceronte): bom jabeador. Ótimo empalador.

Morangotango. Descoberto por uma criança, não pode ser pensado, senão após investimento em sonhos e licenças. Precariamente equilibrado entre dois reinos, admite mordidinhas, mas também vive a amizade de galhos e da brisa fresca. Um morangotango maduro traz não pouca alegria, sendo o preferido das crianças, e também o nosso. É ademais sonoro.

Elerus. Também atende pelo nome vifante: estarrecedora mistura de elefante com vírus, essa criatura é o exercício do temerário levado às últimas conseqüências. Tão virulento quanto seus primos menores, it´s massive! Pensa numa infecção com esse cara, irmãozinho. E a vacina? Pensou na vacina?

Cangulesma. Infeliz reunião de canguru e o invertebrado, o animal vive dilemas entristecedores. Sua galhardia em saltar e vencer distâncias é frustrada pela gosma paralisante, mãe da interdição e do asco.   

Insensata junção do narval com o pernilongo, o narlongo dispõe de um vazado dente de marfim, com cerca de 3 metros, e o apetite próprio dos pernilongos. A simples menção desse nome basta para instalar o pânico entre os marinheiros e mergulhadores que prezam o próprio sangue, ainda que se saiba de sua preferência pelo sangue azul das baleias.

Em uma escola pública certa vez deparei com as seguintes colaborações, originais e válidas: vacamelo, baleão, leonça, ovelhótamo e cabaleia. Vacamelo eu compreendo. É quase impossível evitá-lo. Pergunto "como pode o baleão, amplamente difícil?" As crianças não explicam. 

Seja como for eu não poderia terminar esta lista sem o inacreditável, o impensavelmente maldoso, mil vezes bandido – o tristemente feroz e culpado bufaleão

Conquanto ridículo postular animal tão gratuitamente grotesco e perverso, o bufaleão habita meus pesadelos, incapaz de decidir se é presa ou predador, búfalo ou leão. Não tenho como descrever todas as deslealdades desse animal, fonte de todo constrangimento para os pobres zoólogos. 

Melhor renunciar a ele, leitor.

sábado, 31 de março de 2012

Talim








Talim

Cidadela medieva, patrimônio da Unesco, com igrejas e castelos encerrados num paredão de pedra. Saí de Segway, o patinete elétrico, para experimentar iras. Subi rampas, venci a Toompea e vistoriei os fundamentos dos castelos e jardins. Ao rodopiar por sua torre, compreendi essa grande muralha.

Depois de um chope encorpado, ao estilo europeu, com um assado típico, travei conhecimento com um sujeito que beneficia a madeira achada ao golfo da Finlândia, incorporando sentimentos.
Nisso, um animado carnaval atravessou a cidade histórica, com fanfarras, malabares e dançarinas. A percussão se concentrou na praça em frente, e para lá fomos.
Voar de patinete pelas ruelas de Talim foi como soltar feras lúdicas por entre jardins medievais.

Ascensão e queda do comunismo

Concluo Ascensão e Queda do Comunismo, de Archie Brown.

Ele tenta abarcar todo o fenômeno, desde a ideologia fabricada por K. Marx até a queda fulminante e inesperada do império soviético.

Entendo que o comunismo, mesmo em teoria, é indefensável, na linha de K. Popper. Se você coloca uma canga num ser humano e o manda trabalhar até morrer, não é preciso ser cientista pra saber que não vai dar certo.

Se a propriedade é pública, não será de ninguém, e ninguém fará nada de produtivo com ela. É simples assim, mas muitos se recusavam a enxergar.

Na prática, o comunismo tornou-se o biombo conveniente para que bandidos sedentos de poder inaugurassem as mais brutais ditaduras. E uma religião política que cegou boa parte dos intelectuais no século 20.

O comunismo, nascido de uma crítica merecida de Marx aos excessos do capitalismo, tornou-se talvez o pior pesadelo político da humanidade, considerando-se seus grandes próceres: Pol Pot, Stalin, Mao, Ceausescu, Castro, e suas obras: a captura e encarceramento de povos por até 70 anos, sem direito a um único gesto humanitário.

Mas deixando essas ninharias de lado, o autor apresenta uma tese preocupante: o comunismo não caiu por qualquer atitude, qualquer pressão do Ocidente.

Ao contrário do que diz o partido Republicano dos EUA, e  repetimos acriticamente, não foi o bizarro orçamento militar americano, e suas armas inúteis, que derrubaram a "cortina de ferro".

Sustenta ele, de forma consistente, que o império soviético não suportou as reformas introduzidas por Gorbatchev, no afã de melhorá-lo. A estrutura, rígida demais, simplesmente não podia conviver com um pouquinho de democracia, um pouquinho de respeito ao ser humano, e colapsou sob demandas como liberdade de opinião e direito de voto - além, é claro, de algo mais simples e mais básico: o direito de cada um de escolher os rumos da própria vida.          

Isto, e não bombardeiros de 1 bilhão de dólares, acabou com a dieta Soviética. Após o fracasso do golpe militar contra Gorbatchev, os estados satélites perderam o medo que tinham do urso feroz. Um a um, todos sacudiram o jugo soviético, começando pelas três repúblicas bálticas e Alemanha "Democrática".  

A prova do argumento está bem diante de nós: Cuba e China continuam comunistas, totalitários e brutais com seus cidadãos, e não há orçamento do Pentágono (por mais que tenha subido sob Bush) que os vá convencer do caminho democrático, das liberdades e respeito ao ser humano.   

Aí está. Da próxima vez que ouvir alguém dizer que o obsceno orçamento militar americano derrubou "o comunismo", pergunte por que não derrubou todos os regimes comunistas, e por que alguns estão agora mais fortes, ricos e arrogantes.  

quinta-feira, 8 de março de 2012

Um querer



Um querer inédito
revigorado
compreende nossa sorte.

Um sorriso inédito
glorificado
é nosso presente e norte.

Concernências azuis

Ushuaia. Estada de uma noite.

No dia da partida, almoço no Tia Elvira, após o glaciar Martial. Fui de centolla e merluza negra, o que se tornou regra nesse porto. No dia anterior, cordeiro patagônico no almoço, de lei.

Antártica. [Não sei de onde tiraram Antártida. Temos o Ártico, não temos? Por que não teríamos a Antártica, oposta àquele? Talvez enxerguem um parentesco com a Atlândida. Confusione?]

Primeiro foram os blocos de gelo flutuando na tarde, como se sempre houvessem estado ali. Depois avistamos a tina vulcânica, escalavrada. Chegamos à Deception na presença da noite. Uma noite formal, cheia de sol e descobertas. Importante pólo baleeiro, ostenta as cicatrizes da insanidade e impenitência ecológica.

O vulcão reivindicou a ilha, na década de 60, pondo os militares pra correr e, agora, focas e pingüins disputam a propriedade das praias, com a ocasional intervenção de algum turista. Investigamos o mecanismo do por do sol naqueles domínios, e conhecemos concernências fantasmais.   

Botes. Zarpamos para as escarpas, habitadas por seals e pássaros. Enveredados entre as ilhas, assistimos a um animado baile de icebergs tinindo seus neons. Uma galera ia logo à frente, e a víamos alternadamente: no fundo do encapelar, ou no alto de uma montanha de água. Sempre sabendo que seríamos os próximos.  

Uma onda ganhou energia e nos surpreendeu, num banho glacial. "Lá se vai mais uma câmera", pensei, sem razão.

Hoje tivemos o continente. Os pingüins vêm bicar-nos, cuidando que comida de qualidade inferior se oferece.       

Subi a duna branca e, logo, a montanha de neve. Vento oportunista, neve endurecida, entrando a gelo.

Pensei: "uma beleza desesperada, azul". Flutuamos por entre ilhas, montanhas, seals brincantes, neons e baleias. Na praia, esqueletos quilométricos descansavam, cálcio que o tempo vai gostando de lamber.

"Beleza desolada", corrigi-me. É fácil contrair depressão, aqui: a alma sofre uma carga dramática. Igualmente certo adquirir compreensão heróica e superior do estar no mundo.

Diamantes brutos oscilam em azuis, e às vezes dão carona a focas. Trouxe minhas fraquezas para experimentar. Tenho medos - certas insuficiências - que me seguem, e resultam em fugas da alma. A Antártica não resolve esses pânicos, mas sugere outras conformações de vida, tanto suaves quanto heróicas. 

As pessoas vêem a luta e concluem: que criança mais insatisfatória! 

Impressões. Pessoal legal. Vencemos Drake e, em pouco tempo, ninguém mais ignorava que venho do Paraguai, que professo um confuso pídgin e me nutro de panetones. 

Subi na balança, após minutos de hesitação na improvisada academia. Anunciava 60 kg, nada mais. "Ora, o garoto! converteu em beleza todo aquele panetone, e aquelas toneladas de chocolate", pensei. Nova olhada, vi que tinha oscilado para 90 kg. "Você, meu velho, sei lá! Está com a formosura de uma morsa!"

Isso foi no inicio da viagem. Após quatro religiosas refeições por dia, mais os lanches piedosos a toda hora, a balança começou a oscilar entre 100 e 140 kg.  

De volta ao lar. Esse simples e suficiente asilo, onde costumo presidir o nascimento dos dias e celebrar a consumação das noites. Nesses inícios dubitativos de ano sempre digo a mim mesmo: ao trabalho! Mas reconsidero a tempo, antes que algo de muito ruim aconteça.

A Antártica (perdoem o lugar-comum) volveu fundas perplexidades, que subjazem a essas empresas ingênuas que povoam nosso dia-a-dia. Trouxe alegrias e pesares, dores de renascimento; resultou mais profunda do que imaginara, com uma luz primal. E seus êxtases perduram. Inquietações, felicidades me afligem; necessidade de inaugurar nova vida.

A viagem inteira exigiu, mas declaro que os dias 15 e 16 trouxeram aventuras, e uma luz que mal pude tolerar. Diversas jubartes e minkes vieram conversar conosco, trocar confidências.

Jimmy sugeriu, em suas palestras não solicitadas mas muito apreciadas, que as baleias são capazes de reconhecê-lo e, com sorte, aos outros pilotos. Sorrimos polidamente, por amizade. Numa das voltinhas de bote, esperávamos todos, quando uma jubarte ficou de pé entre os botes, e alguns de nós (os mais incrédulos) ouvimos:

"Canta pra mim, Jimmy!" e sorriu, na métrica dos flashes. Jimmy Z angariou fama quando filmou uma leopardo descascar e comer um pingüim, assombrando a expedição.

Na antártica funciona assim: a cada voltinha de bote se interage, quando nada, com jubartes risonhas.