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sábado, 31 de maio de 2008

Enamorar-se



Enamorar-se é criar uma religião cujo deus é falível.”¹

É o amor. Terei de me esconder ou fugir. (...)
Estar contigo ou não estar contigo é a medida do meu tempo.

É, eu sei, o amor: a ansiedade e o alívio de ouvir tua voz, a espera e a memória (...)

O nome de uma mulher me delata.
Dói-me uma mulher por todo o corpo.²
Para cada coração perfeito, há um amor que ele não pode sentir, um sentimento que ele não pode conhecer sem se perder. Isto é verdade, mas tento considerar que sou um invariável mentiroso.

Mesmo para um coração perfeito, há um amor que ele não pode sentir sem errar, sem se distrair. Isto é verdade, mas tento lembrar que eu sempre minto.

Para cada língua, há um verso que ela não pode escandir; uma história que ela não pode contar. Isto é verdade, mas só a cada dois mil anos.

O primeiro amor passou; o segundo também. Tentaste algumas viagens, nem sempre eficazes.

Agora te deleitas com o estar-só, às vezes confundido com solidão. Mataste o tempo, imitando o Chapeleiro Louco, e talvez por isso seja sempre 15 horas em teu reino, hora de cafezinho e trabalho.

Inútil lamentar ser um falso funcionário público. Muitos são falsos homens; outros, verdadeiros objetos de basiliscos. Anfisbenas nidificam no caminho.

O primeiro amor seria eterno; o segundo duraria tanto. Quanto durará o terceiro amor, que nem existe? Denunciarei, nos jornais, as insensatas oscilações do coração, os inevitáveis raptos a que está exposto?

É sem par o sofrimento do amor que se esvai. Frequentei a solidão por tempo demais, e estou exausto dessa austera extravagância.

Para cada amor, há um beijo que não pode ser dado, um abraço que se não estreita. Isto será verdade, se o leitor consentir.

                                                                                          Junho de 2004

¹ Borges, Nove Ensaios Dantescos, Obras Completas, tomo III.
² Idem, O Ouro dos Tigres, Obras Completas, tomo II, p. 519.


domingo, 4 de fevereiro de 2007

Sarcasmo e literatura

Jonathan Swift, em A Tale of a Tub, escreveu que determinadas peles de arminho e uma peruca, colocadas de certo modo, formam o que costumamos chamar de juiz, assim como uma justa combinação de cetim e cambraia chama-se bispo.

Essas definições, risonhas, atendem aos requisitos de simplicidade, graça e economia. Swift era padre anglicano, foi secretário pessoal de primeiro-ministro, amigo de políticos e juízes. O fato não impediu essas louvaminhas. Impaciente da morte, o irlandês Swift esperou-a durante trinta anos de sofrimento físico e mental. Quando morreu, exibia venerável loucura. Os amigos, alvos dos elogios, lembraram que essa qualidade sempre o honrou.

Mais que um singelo exercício da injúria, A História de um Tonel é uma brilhante demonstração de força do escárnio. Borges, gênio argentino, não ignorava a arte da mais fina, às vezes devastadora ironia. Descria da democracia, “esse curioso abuso da estatística”, mas lutou e sofreu pela liberdade de consciência, pelo direito de se opor a tiranias. Apresentou-nos esta página, feliz, em que descreve uma sociedade futura, borgesiana:

- O que aconteceu com os governos?
- Segundo a tradição, foram caindo gradualmente em desuso. Convocavam eleições, declaravam guerras, impunham taxas, confiscavam fortunas, ordenavam detenções e pretendiam impor a censura e ninguém no planeta as acatava. A imprensa deixou de publicar suas colaborações e suas efígies. Os políticos tiveram de procurar ofícios honestos; alguns foram bons cômicos ou bons curandeiros. A realidade, sem dúvida, deve ser sido mais complexa que este resumo. 

Sua crítica a Hitler, e ao nazismo de seus contemporâneos, feita em 1940, ainda será leitura obrigatória quando meus genes estiverem dissolvidos na anarquia dos tempos. Sua coragem e previdência, sua disposição de nomear os bois assassinos, de não tergiversar, deixa-nos, brasileiros, constrangidos com o conforto ilícito dos escritores pátrios, sempre com desculpas perfeitas para não chegar a marreta nos crimes nossos de cada dia. Machado e Guimarães Rosa são gênios consumados. 

Mas me pergunto se, em algum momento, eles se preocuparam em aumentar nossa consciência social. Em Machado é possível encontrar finíssimas ironias contra o cinismo de nossa sociedade. Você só precisa ser sábio e erudito para achá-las. Quantos leitores as alcançam? Borges, intrépido – gênio – denunciou o argentino, em quem via um individualismo pouco edificante, denunciou o nazismo (eco tardio das iras de Carlyle e da improbidade de Fichte), o comunismo, a psicanálise e as feiúras pós-modernas.

Ganhou todas essas batalhas, foi senhor de uma literatura, mais do que de uma obra; não há uma única página sua que não encerre uma felicidade, como afirmou a respeito de De Quincey. A ninguém devo tantas horas de felicidade pessoal como a Borges, para tomar de empréstimo outra de suas frases luminosas.

Machado é todo um continente de ceticismo, mas, ao contrário de Borges, não ignorou o exercício da aristocracia; também desdenhou a República e, mulato, pode ser acusado de inalcançáveis ironias a respeito da exploração do homem pelo homem. A descrição do escravo recém-liberto que compra um escravo para nele fazer montaria abunda em acusações contra o gênero humano. E revela o gênio por trás da equívoca pose aristocrática. Apraz-me a crítica, seja irônica, seja sarcástica.

Gógol nos concede o riso, embora Almas Mortas seja um livro profundo, que não consente epílogo: continua funcionando em nós, silencioso; perdura em nossas mentes enquanto a morte não nos absolver de nossas escravidões. Vejamos a Rússia, suas ênfases: 
- É claro, ninguém é perfeito, mas, em compensação, o governador, que ótima pessoa!
- É o primeiro bandido do mundo!
- Como assim, o governador, um bandido? – disse Tchítchicov, sem conseguir compreender como o governador fora parar na categoria dos bandidos.
- A cara dele também é de bandido! É só pôr-lhe na mão uma faca e soltá-lo na estrada – vai esfaquear o primeiro que encontrar, por causa de um copeque! 
Louvando a arte da conversação, pródiga em momices, diz:
Discutia-se, gritava-se, falava-se de tudo: de política, até de assuntos militares; alguns externavam opiniões liberais, pelas quais em outra ocasião teriam surrado os próprios filhos. (p. 179).
Borges lançou algumas das maiores mordácias contra sociedades secretas. A nomeação para o cargo de inspetor de aves e coelhos teve seu efeito, mas não o aniquilou; não sofreu qualquer acidente nem foi calado à força de suborno. Outras intimidações não funcionaram. Nenhuma prostituta o fisgou; sua vida era um inferno administrável, a nos fiarmos em notas autobiográficas. Perón, seu versátil antagonista, só entrará na eternidade por ter tentado intimidar o gênio de Tlön e da Biblioteca de Babel. À semelhança do cão que morde o dono.

Ele ataca a Fênix, seita que é muitas, senão todas:
Disse que a história da seita não registra perseguições. Isso é verdade, mas como não há grupo humano em que não figurem partidários da Fênix, também é certo que não há perseguição ou rigor que estes não hajam padecido ou exercido. (...) A iniciação no mistério é tarefa dos indivíduos mais desprezíveis. Um escravo, um leproso ou um mendigo servem de mistagogos. (...) O segredo é sagrado mas não deixa de ser um pouco ridículo; seu exercício é furtivo e ainda clandestino e os adeptos não falam dele. Não há palavras decentes para denominá-lo, mas se entende que todas as palavras o denominam, ou antes, que inevitavelmente o aludem. (...) Tenho merecido em três continentes a amizade de muitos devotos da Fênix; consta-me que o Segredo, a princípio, pareceu-lhes frívolo, penoso, vulgar e (o que é mais estranho) inacreditável. Não concordavam em admitir que seus pais se houvessem rebaixado a tais práticas. O estranho é que o Segredo não se tenha perdido, há muito; a despeito das vicissitudes do orbe, a despeito das guerras e dos êxodos, chega, surpreendentemente, a todos os fiéis. 
Essas páginas, esses autores, sempre me arrasam e, de algum modo, me fazem muito bem.

terça-feira, 4 de abril de 2006

Os relógios

Consultando minhas gavetas, constatei que quatro dos meus relógios de pulso são citizen. Não procurei essa marca, nem qualquer outra, e me resignei a essa desnecessária repetição. Um relógio foi comprado na 13 de Maio, em uma relojoaria, por ser do leve titânio, e recolher a energia luminosa para seu uso particular. Sua proposta é de economia; foi aceita. Noutra ocasião, uma vendedora fez-me ver que eu precisava de um relógio com medidor de temperatura. Estava de viagem para Ushuaia, último endereço antes do Pólo Sul. Na agenda também constava um deserto, ora gélido, ora tórrido. Temendo essa oscilação, comprei o relógio, que teimosamente aponta para um promédio entre minha temperatura corporal e a ambiente. Foi comprado na 14 de Julho. O terceiro comprei num mall center em New Jersey, próximo ao aeroporto de Newark. Era uma tarde cinza e gélida, adequada à devoção consumista. O mall era daqueles labirintos infindos, repletos de mercadorias mascadas pela indústria asiática. Pareceu-me que eu precisava de mais aquele relógio, talvez por suas placas pretas em cerâmica, talvez por seu preço. Comprei-o e ele povoa com destemor minhas gavetas de guardados. Não me lembro por que (diabos!) comprei o quarto citizen, se ele não passa de um relógio pesado, com calendário manual (detesto calendários em que todos os meses têm iguais 31 dias). Talvez a explicação para tantos citizen esteja no meu primeiro citizen, pintado de amarelo, adquirido por minha mãe numa loja de departamentos num Shopping Center de Salvador, nos começos de fevereiro de 1986. Calendário digital, mostradores analógico e digital, alarma, despertador e cronômetro, o reloginho me acompanhou por mais de quinze anos, até sumir. Era confiável, leve, discreto, elegante e, mais ainda, leal: tudo que se aprecia, em relógios ou pessoas. Nunca me roubou horas; não me sonegou dia algum, nem tentou a emenda do século findo. Enfrentou com galhardia a assombrosa aproximação do novo milênio, de maus presságios, para as pessoas inclinadas aos maus presságios. Mais do que o excesso de citizen, horrorizou-me a constatação de que diferentes relógios de mesma marca ajustaram entre si a astúcia, e cada qual testemunha horário diverso dos outros três, sem régua possível de correspondência que me indique horário neutro, isento da superstição dessas agulhas rebeladas. Assim, se um me indica o nascer do sol, outro diz que o café da manhã é passado, que até cabe um almoço. Um terceiro sugere um mundo autônomo, feito de tarde ida, e café contra o sono. O quarto, se alcançado, mira exemplos de horários nunca pesquisados, pouco estáveis, de difícil apreensão. Horários de Marte; horas talvez lunares. A fiscalização desses fragmentos horários é tarefa aborrecida. O tempo, em distintas partidas, solapa a noção de causa e efeito, destruindo qualquer possibilidade de encontro, de convergência. Essa assincronia me trouxe agravos, e pensei dar cabo dessa leviandade perdendo os relógios sob o peso de uma montanha. O tempo escapando entre os dedos não é sensação confortante. A desnecessária repetição de atos que outros presidem com alegria; a petição de quereres embargada no desautorizado discurso das setas horárias: tudo transcorre incerto, sem governo ou probidade. O pôr-do-sol abjurado por mecanismos viciados, cingidos internamente por códigos de falecimento. O que esses relógios querem de mim? Terão percebido a proximidade do horizonte de eventos, a capturar luz e matéria? Estariam tentando retardar, com essa concertada anarquia, a marcha do espaço-tempo para a aniquilação? Não sinto o tempo nem mais nem menos que qualquer outro condômino do planeta. Não uso desmedidas porções de tempo, não o desperdiço, não o desprezo nem o venero. O tempo é apenas insumo frágil, perecível, para a indústria nossa do dia. Não tenho, como Drummond, vastas reservas de tempo, futuros, pós-futuros, esperando que meu desejo e miopia as tornem manhãs. Nem consigo postar-me fora do tempo, no conduto de algum túnel einsteniano. O tempo é pauta mínima para a consumação da vida. Considero-me realista, sei que a segunda lei da termodinâmica jamais será vulnerada. Físico algum sequer pensaria nisso. Então a desordem, o caos, seguirão rindo de nossos esforços de ordenar o mundo, mesmo que apenas mentalmente. No vasto campo em que o mundo se experimenta e se permite um soluço, grassa o escandaloso desequilíbrio termodinâmico chamado vida. Se os espelhos de Borges súbito se punham a divergir da realidade espelhada, muito pior a conduta desses marcadores do tempo. Sem qualquer instrumento de calibração que me permita pô-los de acordo, resta aquiescer ao desmantelo na medição de meus dias. Se tento triangular as medidas, calculando a posição da dimensão temporal pela relação entre os relógios, já me vejo impedido pelo malicioso empenamento, pela expansão, contração e tremor do tecido temporal. Vigiar o tempo é empresa do orgulho, mais difícil e improvável que a amizade do vento. Os infaustos relógios de Dalí, sua notável tendência para o derretimento, não atentam contra a realidade como meus quatro relógios citizen. Para meu grande azar, sem eles não saberia as estrelas, não teria acesso ao sol, vegetaria numa bruma transorária em que a ambigüidade do passado se confundiria com a impraticabilidade do presente e do futuro. A vida se tornaria fatigante exercício da postulação de tempos, cada vez mais arbitrários. A rigor, meus relógios não me sonegam o tempo: apenas deslocam-se em interna fantasia, fazendo do mundo um suflê de incerteza e caprichos. É perigoso não observar o tempo; devemos ainda tolerar sua platitude. Poderíamos investir contra a primazia do tempo, mas incorrendo em sua ira, com graves conseqüências para a estipulação de causa e efeito; antes e depois se tornariam atributos irrecuperáveis, empobrecendo qualquer possibilidade de ação. Reúno meus quatro relógios sobre a mesa. Meço o tempo. Não há acordo possível, e tempos distintos arruínam a função de onda com que os físicos descrevem o comportamento da matéria. Incerto, inauguro tempo interno, invariável, e absolvo-me de um mundo amotinado, em benefício de uma proposta de sonho. Em 2003. P.S.: O relógio de titânio, dos quatro o mais forte, foi o primeiro a ruir, superado por forças cortantes da confusa noite de Brasília. Previno-o quanto àquela cidade, leitor, sua tendência para o insólito.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

Os jornais

Em Free thought and official propaganda, Bertrand Russel propõe que a escola primária ensine a arte de ler com incredulidade os jornais. Entendo que essa disciplina socrática não seria inútil. Das pessoas que conheço, pouquíssimas sequer a soletram. Deixam-se lograr por artifícios tipográficos ou sintáticos; pensam que um fato aconteceu só porque está impresso em grandes letras pretas; confundem a verdade com o corpo doze; negam-se a entender que a afirmação: ‘Todas as tentativas do agressor para avançar além de B fracassaram de maneira sangrenta’ é mero eufemismo para admitir a perda de B. Pior ainda: exercem uma sorte de magia, pensam que formular um temor é colaborar com o inimigo... Russel propõe que o Estado tente imunizar os homens contra essas superstições e esses sofismas. Por exemplo, sugere que os alunos estudem as últimas derrotas de Napoleão nos boletins do Moniteur, ostensivamente triunfais. Planeja tarefas como esta: depois de estudar a história da guerra com a França em textos ingleses, reescrever essa história do ponto de vista francês. Ponho-me de acordo com Borges, autor desse comentário. Condescendente e sonolento, fatigo os jornais. Não careço de fatos: contenta-me sua imagem invertida ou, quem sabe, torturados fragmentos; verdades suspicazes, constructos marotos, sobre os quais brincar de engenharia reversa. Talvez eu já queira uma mentira risonha, mas os jornais desta província observam mentiras burocráticas e enfadonhas, em ciclos intermináveis. Lembro-me de que noticiam, a intervalos conhecidos, certos investimentos, certas escolas ou hospícios ou anfiteatros. São notícias tão auspiciosas quanto o advento de uma sorveteria, uma barbearia ou, quem sabe, uma fábrica de trins. Nesta república, onde o tempo é da mais imprudente circulação, os jornais ventilam algo, parece que uma historinha de corrupção. Falam de um presidente, seu vice, um presidente de Câmara, muita gente, enfim. Já vimos isso tudo, antes. Onde será que foi? Ora se não foi aqui mesmo! Os grandes governadores, vestidos de púrpura com fasces e insígnia, são governados por seus criados, pelos amuos de suas mulheres e filhos; ou, em países constitucionais, pelos parágrafos dos seus jornalistas hábeis. Carlyle, que incensava monarquias, sem explicar-nos onde, no que elas funcionariam, apresenta-nos essa nota em sua História da Revolução Francesa. Folguei por dois meses. O País segue o mesmo. Os jornais não se deram o trabalho de estampar qualquer novidade, talvez por conservadorismo. Tanta falta de imaginação me aborrece. Campo Grande, 16 de fevereiro de 2006.

domingo, 6 de novembro de 2005

Labirintos e espelhos

A Borges horrorizavam os labirintos e a falaz multiplicação dos espelhos, “seu infalível e contínuo funcionamento, sua perseguição de meus atos (...) Sei que os vigiava com inquietude. Algumas vezes temi que começassem a divergir da realidade; outras, ver neles meu rosto desfigurado por adversidades estranhas.” Advogo que Borges deveria ser declarado o mais sábio entre os que experimentaram o século que alegremente desperdiçamos, e que ora evanesce em nossas lânguidas memórias. Eu o elegeria também o mais venturoso, não soubesse de certas suas tristezas: “O mundo, infelizmente, é real; eu, infelizmente, sou Borges”. Cego na maturidade, a outros legou seu encargo de vigiar os espelhos, aparelhos de fatigar a realidade. A cada um de nós, que herdamos esse encargo, e também suas páginas e felicidades, ele atinge com esta verdade: “Tu és invulnerável”. Domingo, 6 de novembro de 2005.

sexta-feira, 4 de novembro de 2005

Impressões avulsas (quase diário)

Consta que os blogs são diários virtuais. Se for verdade, ofereço as notas que seguem, sem outra intenção que submeter a esforços a amizade do leitor. Impressões avulsas (do longínquo ano de 2001): a) Notícia literária. 1. Bons livros chegaram-me às mãos. Para citar alguns: duas versões da obra máxima de D. H. Lawrence: O Amante de Lady Chatterley, um incursão memorável ao erotismo do início do século XX; diversos contos mágicos do gênio Guimarães Rosa, entre os quais, A Terceira Margem do Rio e A Menina de Lá. Poesia Pura. Ainda, O Vermelho e o Negro, de Stendhal; Um Conto de Duas Cidades, de Charles Dickens (magnífico). Leituras e releituras intensas de Machado de Assis e Jorge Luís Borges. 2. Borges é de uma loucura preciosa e risonha. Quanto ao Bruxo do Cosme Velho, impossível estimar nossa dívida para com esse mago das eternações. Teve ainda a continuidade do Ulisses, de Joyce, para sempre intérmino, e a impagável trinca Mark Twain, G. K. Chesterton, e Ítalo Calvino, cômicos irresponsáveis, maravilhosos e imprescindíveis. 3. Inúmeros contos de Franz Kafka, o gênio literário máximo do século passado, li e reli, entre os quais: Na Colônia Penal, o hilário A Sentença (hilário num sentido kafkiano, em que o cômico está contido no trágico), e Antes da Lei, o texto que abre o filme O Processo, versão Orson Welles, filme total. 4. Que dizer de Faulkner? O Som e a Fúria, e Santuário foram lidos em conjunto, para melhor apreciar a estranha prosa desse escritor. Foi também o ano da leitura do Werther, essa explosão de amor romântico do mestre Goethe. A extrema má impressão deixada pelo Fausto foi superada com essa obra. Penso que a tradução deve ter feito muito mal ao pobre Fausto. 5. Tem uma pá de outros livros lidos, mas já não me lembro, e não vou torturar minha biblioteca em busca de uma confissão. 6. Convém anotar (para satisfazer as almas inclinadas a contabilidades) alguns títulos e autores: Daniel C. Dennett (A Perigosa Idéia de Darwin e Tipos de Mentes), obras filosóficas no bom sentido da expressão. Devo-lhes muito. John R. Searle (Mente, Linguagem e Sociedade, outro filósofo da atualidade); Ana Arendt (As Origens do Totalitarismo, leitura intérmina, infelizmente); Clemente Nóbrega (Glorioso Acidente, repositório das grandes idéias contemporâneas); Robert Gilmore (Alice no País do Quantum, fábula bem-humorada sobre os paradoxos e perplexidades a que nos conduz a Mecânica Quântica); Michio Maku (Hiperespaço, uma prosa instigante sobre a natureza hiperdimensional do mundo. Desafia a imaginar um mundo com mais de quatro dimensões, a partir de um mundo igualmente fantástico, de apenas três dimensões); George Smoot e Keay Davidson (Dobras no Tempo); Brian Greene (O Universo Elegante); Geoffrey F. Miller (A Mente Seletiva, que apresenta a outra teoria de Darwin, conhecida como seleção sexual); John Maddox (O Que Falta Descobrir). Maddox é editor emérito da prestigiosa Nature. 7. Li, ainda, todos os volumes de S. Jay Gould que consegui derrubar de velhas prateleiras, talvez pra me livrar logo desse mala. São livros fragmentários, mas que apresentam conceitos interessantes, como o da neotenia humana, e nos dá uma aula sobre as médias de rebatidas no Baseball americano). Vou ser franco: depois de ler todos os livros de R. Dawkins, é até covardia ler outro autor sobre os mesmos assuntos. Dawkins aguarda releitura. 8. Dois outros livros precisam ser destacados: O Bico do Tentilhão, de Jonathan Weiner, descreve a evolução de tentilhões acontecendo, ao vivo e em cores, matematicamente mensurada, no arquipélago de Galápagos; trata-se de uma devastadora demonstração de como funciona a Teoria da Evolução. Uma grande injúria a certos dogmas religiosos. b) Filmes. Assisti a um caminhão de filmes em 2001. Mas o que importa mencionar são alguns diretores. Ingmar Bergman (Morangos Silvestres, Mary e Alexandre e outros); Woody Allen (O Testa de Ferro, Celebridades, Todos Dizem Eu Te Amo e outros); Orson Welles (autor das duas obras máximas do cinema: Cidadão Kane e O Processo); Akira Kurosawa (Dersu Uzala, Rapsódia em Agosto e outros); Stanley Kubrick (Laranja Mecânica, 2001, Nascido Para Matar e outros); Luis Buñel, Pedro Almodóvar, Robert Altman, e vários outros. Sim, o cinema nacional. c) Viagens. 1. Inaugurei o ano no balneário de Camboriú. Logo depois parti para a África do Sul, para uma visita de 15 dias. Nunca tinha posto os pés em hotéis tão luxuosos. Mas a viagem, como um todo, desapontou. A Cidade do Cabo é muito bonita, e guarda qualquer coisa de Rio de Janeiro (talvez o tema da montanha e do mar); tem uma vida cultural interessante (pelo menos aos olhos de um turista em primeira visita); inúmeras atrações, como a subida à Montanha da Mesa e o Cabo da Boa Esperança. Tudo bem bonito. A rota dos jardins também agrada, com suas cidadezinhas ao estilo inglês. As gargantas e vales que se vêem depois bem valem a viagem. Mas o Kruger Park e a Cidade Perdida, definitivamente, não impressionam. The Lost City (leia-se hotel Sun City) não passa de uma Las Vegas em miniatura e, no Kruger, o turista se farta de ver pequenos antílopes (dik diks, kudus), zebras de todas as estampas, muitas girafas, elefantes, alguns rinocerontes, mas nada de leões, leopardos, e mesmo búfalos. Minha idéia de África envolvia savanas selvagens, habitadas por felinos, manadas intermináveis de antílopes, paquidermes e outros pequenos animais, todos em feroz interação na luta pela vida. O que cheguei a ver foi um entediante desfile de animais, alguns aparecendo mais que outros. Ao chegar a São Paulo, tive ganas de sair em comitiva até o Simba Safári, a ver os big five, provisoriamente indisponíveis na África. 2. Jericoaquara. Chegamos a Jeri num pau-de-arara, como perfeitos retirantes. Pau-de-arara, no caso, era um caminhão de dois eixos, sem portas na cabina, com uma carroçaria de inesgotável altura, sem escadas para subir, repleta de bancos de madeira. Chegamos pela madrugada, lá pela uma da manhã, e embarcamos no caminhão, da maneira mais desconfortável possível. 3. Quando o caminhão ligou o motor, minha ilusão de cochilar mais um pouco se desfez: mesmo hoje, seu barulho ainda atormenta. Parece que o horrível veículo deixava os gases escapar diretamente do motor, sem um único estágio de escapamento, de modo que o barulho era nauseante. 4. Quando a estrada começou a colear na caatinga costeira sobre dunas cada vez mais altas, entrei a sentir a emoção da chegada a esse lugar. A escuridão era profunda, e o céu alardeava suas mais brilhantes estrelas. 5. Submetido aos feitiços da Alva, o sertão estava ali: o derramamento de estrelas, a relva contorcida, cabanas paupérrimas, e o pau-de-arara levando retirantes de todo o mundo, insensatos em seus projetos de paraíso. 6. Quando chegamos, alguns foram direto para a padaria; outros, como eu, derivaram vagarosamente para a cama, calma. Depois me disseram que o quente é a padaria, à uma e meia da manhã. No maior mico da viagem, perguntei a dois portugueses se, porventura, eles prestigiaram a padaria... 7. Jeri me pareceu a meca do pôr-do-sol. Num dos lados do vilarejo de pescadores, ergue-se majestosa duna de areias brancas, do alto da qual dá-se o espetáculo da união do astro com o mar, também afogueado no consumir de vasta tarde. Não me esqueço do esplendor agreste de Jeri, de suas glórias feitas de sol, mar, céu, e doces, absolutamente maravilhosos, de coco. 8. São Paulo. Finalmente a cidade me impressionou positivamente, após longo tempo de estranhamento. Eu, que a conhecia de passagem, sempre correndo de Guarulhos até o centro e vice-versa, fui conhecer facetas mais favoráveis desse aglomerado brasileiro. Tomei um ônibus para turistas na Barra Funda e fui conhecer – de graça! – os principais museus da cidade. 9. O que mais me agradou, de longe, foi a Pinacoteca do Estado. Pequeno, aconchegante, repleto de belas obras: um museu para quem gosta de arte. Não é um daqueles supermuseus europeus ou americanos: inimigos dos pés e muito inclinados a zombar de pobres turistas, como eu, com escasso tempo. A Pinacoteca, com sua despretensão e estilo, é o grande programa cultural de São Paulo. 10. Outra coisa chama a atenção em São Paulo: as pessoas. Impressiona a maneira de ser paulistana, parece que sempre profissional, freqüentemente cordial, sem dever nada a ninguém. E tem a fala. Rápida, concisa, uma urgência pouco contida de comunicar, elaborando a tendência de inserir um i no meio das palavras, logo depois de alguma vogal desavisada: um falar de quem incorporou a Itália à matriz luso-africana. Tá entendeindo? Ãrrãim. 11. O paulista, parece, é dono de sua cidade, de seu tempo: acostumou-se ao fenômeno da densidade humana, incorporou-o à sua personalidade e jeito. A grande “curtição” em São Paulo são as pessoas, a pizzaria, o shopping: elementos de uma cultura discutível mas existente. 12. Freqüentei teatros e shows todas as noites de minha estada, de uma semana. Assisti a Marisa Monte, Les Miserables, algumas comédias e outras tragédias. A peça de Victor Hugo me pareceu interessante, falada e cantada em português. Já a havia assistido em Nova Iorque, e a produção local não deixou a desejar à da Broadway. Os efeitos especiais eram diferentes, e as músicas soaram estranhas, como todo musical em português. 13. Quanto ao show de Marisa, a casa de espetáculo era tão grande, mas tão grande, que eu devo ter escutado as músicas com alguns minutos de atraso, exageros à parte. Mas juro que consegui enxergar que era ela mesma que estava no palco, e não sua irmã, por exemplo. Pelo menos me pareceu. 14. Natal e Fernando de Noronha: Natal foi um caso de amor para com uma cidade: seu calor vigoroso encontra temperos na brisa marítima. Conheci Natal na adolescência. Desde então me encanta essa cidade costeira, suas praias, suas dunas móveis, sua areia alva, o sol num trabalho sempre sério e competente. Na época eu era aficionado por aviões. Um apego a jatos militares, caças, aeronaves de espionagem, modelos aeronavais: uns mundos adolescentes, repletos de armas voadoras. Minha tentativa de ingressar na Academia da Força Aérea foi rechaçada, para grande contentamento da nação. 15. Natal era o mar, o imenso, silente e misterioso mar, com sua túnica profunda, cingida por navios intrépidos, e a areia do entorno costeiro, alegre. Quando vi pela primeira vez a praia de Ponta Negra, em 1986, foi um transporte de êxtase. Nunca havia visto semelhante concerto entre terra e mar, céu e terra, gente e natureza. Desde então tenho visto muita praia, muita montanha, inúmeros rios e mares. Mas aquela emoção, autêntica em um adolescente, permaneceu. 16. O sol de Natal é recomendado para pessoas melancólicas, por sua generosa alegria. O ar dessa cidade deve ser sorvido a bons haustos, acompanhando uma água de coco, numa tarde preguiçosa de domingo, enquanto o mar é singrado por navios ciganos. 17. Quanto à Esmeralda do Atlântico, alcunha de Fernando de Noronha, era sonho antigo conhecê-la. E a realidade não ficou devendo ao sonho. 18. Cheguei num turboélice barulhento. Do alto, um choque de beleza. Noronha não é qualquer lugar. Se parece com a sucursal do paraíso na terra, lugar para se testar os limites dos sonhos, exultar. Só isso. 06.01.2002