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domingo, 4 de fevereiro de 2007

Sarcasmo e literatura

Jonathan Swift, em A Tale of a Tub, escreveu que determinadas peles de arminho e uma peruca, colocadas de certo modo, formam o que costumamos chamar de juiz, assim como uma justa combinação de cetim e cambraia chama-se bispo.

Essas definições, risonhas, atendem aos requisitos de simplicidade, graça e economia. Swift era padre anglicano, foi secretário pessoal de primeiro-ministro, amigo de políticos e juízes. O fato não impediu essas louvaminhas. Impaciente da morte, o irlandês Swift esperou-a durante trinta anos de sofrimento físico e mental. Quando morreu, exibia venerável loucura. Os amigos, alvos dos elogios, lembraram que essa qualidade sempre o honrou.

Mais que um singelo exercício da injúria, A História de um Tonel é uma brilhante demonstração de força do escárnio. Borges, gênio argentino, não ignorava a arte da mais fina, às vezes devastadora ironia. Descria da democracia, “esse curioso abuso da estatística”, mas lutou e sofreu pela liberdade de consciência, pelo direito de se opor a tiranias. Apresentou-nos esta página, feliz, em que descreve uma sociedade futura, borgesiana:

- O que aconteceu com os governos?
- Segundo a tradição, foram caindo gradualmente em desuso. Convocavam eleições, declaravam guerras, impunham taxas, confiscavam fortunas, ordenavam detenções e pretendiam impor a censura e ninguém no planeta as acatava. A imprensa deixou de publicar suas colaborações e suas efígies. Os políticos tiveram de procurar ofícios honestos; alguns foram bons cômicos ou bons curandeiros. A realidade, sem dúvida, deve ser sido mais complexa que este resumo. 

Sua crítica a Hitler, e ao nazismo de seus contemporâneos, feita em 1940, ainda será leitura obrigatória quando meus genes estiverem dissolvidos na anarquia dos tempos. Sua coragem e previdência, sua disposição de nomear os bois assassinos, de não tergiversar, deixa-nos, brasileiros, constrangidos com o conforto ilícito dos escritores pátrios, sempre com desculpas perfeitas para não chegar a marreta nos crimes nossos de cada dia. Machado e Guimarães Rosa são gênios consumados. 

Mas me pergunto se, em algum momento, eles se preocuparam em aumentar nossa consciência social. Em Machado é possível encontrar finíssimas ironias contra o cinismo de nossa sociedade. Você só precisa ser sábio e erudito para achá-las. Quantos leitores as alcançam? Borges, intrépido – gênio – denunciou o argentino, em quem via um individualismo pouco edificante, denunciou o nazismo (eco tardio das iras de Carlyle e da improbidade de Fichte), o comunismo, a psicanálise e as feiúras pós-modernas.

Ganhou todas essas batalhas, foi senhor de uma literatura, mais do que de uma obra; não há uma única página sua que não encerre uma felicidade, como afirmou a respeito de De Quincey. A ninguém devo tantas horas de felicidade pessoal como a Borges, para tomar de empréstimo outra de suas frases luminosas.

Machado é todo um continente de ceticismo, mas, ao contrário de Borges, não ignorou o exercício da aristocracia; também desdenhou a República e, mulato, pode ser acusado de inalcançáveis ironias a respeito da exploração do homem pelo homem. A descrição do escravo recém-liberto que compra um escravo para nele fazer montaria abunda em acusações contra o gênero humano. E revela o gênio por trás da equívoca pose aristocrática. Apraz-me a crítica, seja irônica, seja sarcástica.

Gógol nos concede o riso, embora Almas Mortas seja um livro profundo, que não consente epílogo: continua funcionando em nós, silencioso; perdura em nossas mentes enquanto a morte não nos absolver de nossas escravidões. Vejamos a Rússia, suas ênfases: 
- É claro, ninguém é perfeito, mas, em compensação, o governador, que ótima pessoa!
- É o primeiro bandido do mundo!
- Como assim, o governador, um bandido? – disse Tchítchicov, sem conseguir compreender como o governador fora parar na categoria dos bandidos.
- A cara dele também é de bandido! É só pôr-lhe na mão uma faca e soltá-lo na estrada – vai esfaquear o primeiro que encontrar, por causa de um copeque! 
Louvando a arte da conversação, pródiga em momices, diz:
Discutia-se, gritava-se, falava-se de tudo: de política, até de assuntos militares; alguns externavam opiniões liberais, pelas quais em outra ocasião teriam surrado os próprios filhos. (p. 179).
Borges lançou algumas das maiores mordácias contra sociedades secretas. A nomeação para o cargo de inspetor de aves e coelhos teve seu efeito, mas não o aniquilou; não sofreu qualquer acidente nem foi calado à força de suborno. Outras intimidações não funcionaram. Nenhuma prostituta o fisgou; sua vida era um inferno administrável, a nos fiarmos em notas autobiográficas. Perón, seu versátil antagonista, só entrará na eternidade por ter tentado intimidar o gênio de Tlön e da Biblioteca de Babel. À semelhança do cão que morde o dono.

Ele ataca a Fênix, seita que é muitas, senão todas:
Disse que a história da seita não registra perseguições. Isso é verdade, mas como não há grupo humano em que não figurem partidários da Fênix, também é certo que não há perseguição ou rigor que estes não hajam padecido ou exercido. (...) A iniciação no mistério é tarefa dos indivíduos mais desprezíveis. Um escravo, um leproso ou um mendigo servem de mistagogos. (...) O segredo é sagrado mas não deixa de ser um pouco ridículo; seu exercício é furtivo e ainda clandestino e os adeptos não falam dele. Não há palavras decentes para denominá-lo, mas se entende que todas as palavras o denominam, ou antes, que inevitavelmente o aludem. (...) Tenho merecido em três continentes a amizade de muitos devotos da Fênix; consta-me que o Segredo, a princípio, pareceu-lhes frívolo, penoso, vulgar e (o que é mais estranho) inacreditável. Não concordavam em admitir que seus pais se houvessem rebaixado a tais práticas. O estranho é que o Segredo não se tenha perdido, há muito; a despeito das vicissitudes do orbe, a despeito das guerras e dos êxodos, chega, surpreendentemente, a todos os fiéis. 
Essas páginas, esses autores, sempre me arrasam e, de algum modo, me fazem muito bem.

quinta-feira, 27 de outubro de 2005

Literatura

O (improvável) leitor pode se perguntar por que perder tempo com Chomsky. Quem se der o trabalho de inventariar as gôndolas de "lançamentos" e "mais vendidos" vai entender o porquê. Os livros agora deram para se chamar "quem comeu meu queijo", "quem tomou minha sopa", "quem comeu meu hambúrguer", quem comeu isso ou aquilo. Desaprovo toda essa comilança. Pior: existem loas a pessoas como Bush, Lula e Chavez. E também críticas (algumas ótimas, outras desnecessárias). Os bruxos, fadas, duendes, elfos, grifos, dragões da maldade e magos agora deram para frequentar academias. Desconfio que algumas pessoas deixaram de considerá-los mitos inofensivos e passaram a acreditar nesse entulho medieval. O soterramento do pensamento criterioso e estético é um risco que não podemos desprezar. Chomsky representa um enorme desafio, porque obriga a pensar, duvidar e analisar. Sigamos com Harry Potter.
P.S.: além dos ataques ideológicos ao pensamento evolucionista, Chomsky foi flagrado em elogios ao genocida Pol Pot. Se for verdade, esse fato, por si só, invalida tudo de útil que Chomsky possa ter produzido.