Consultando minhas gavetas, constatei que quatro dos meus relógios de pulso são citizen. Não procurei essa marca, nem qualquer outra, e me resignei a essa desnecessária repetição.
Um relógio foi comprado na 13 de Maio, em uma relojoaria, por ser do leve titânio, e recolher a energia luminosa para seu uso particular. Sua proposta é de economia; foi aceita.
Noutra ocasião, uma vendedora fez-me ver que eu precisava de um relógio com medidor de temperatura. Estava de viagem para Ushuaia, último endereço antes do Pólo Sul. Na agenda também constava um deserto, ora gélido, ora tórrido. Temendo essa oscilação, comprei o relógio, que teimosamente aponta para um promédio entre minha temperatura corporal e a ambiente. Foi comprado na 14 de Julho.
O terceiro comprei num mall center em New Jersey, próximo ao aeroporto de Newark. Era uma tarde cinza e gélida, adequada à devoção consumista. O mall era daqueles labirintos infindos, repletos de mercadorias mascadas pela indústria asiática. Pareceu-me que eu precisava de mais aquele relógio, talvez por suas placas pretas em cerâmica, talvez por seu preço. Comprei-o e ele povoa com destemor minhas gavetas de guardados.
Não me lembro por que (diabos!) comprei o quarto citizen, se ele não passa de um relógio pesado, com calendário manual (detesto calendários em que todos os meses têm iguais 31 dias).
Talvez a explicação para tantos citizen esteja no meu primeiro citizen, pintado de amarelo, adquirido por minha mãe numa loja de departamentos num Shopping Center de Salvador, nos começos de fevereiro de 1986.
Calendário digital, mostradores analógico e digital, alarma, despertador e cronômetro, o reloginho me acompanhou por mais de quinze anos, até sumir. Era confiável, leve, discreto, elegante e, mais ainda, leal: tudo que se aprecia, em relógios ou pessoas. Nunca me roubou horas; não me sonegou dia algum, nem tentou a emenda do século findo. Enfrentou com galhardia a assombrosa aproximação do novo milênio, de maus presságios, para as pessoas inclinadas aos maus presságios.
Mais do que o excesso de citizen, horrorizou-me a constatação de que diferentes relógios de mesma marca ajustaram entre si a astúcia, e cada qual testemunha horário diverso dos outros três, sem régua possível de correspondência que me indique horário neutro, isento da superstição dessas agulhas rebeladas.
Assim, se um me indica o nascer do sol, outro diz que o café da manhã é passado, que até cabe um almoço.
Um terceiro sugere um mundo autônomo, feito de tarde ida, e café contra o sono. O quarto, se alcançado, mira exemplos de horários nunca pesquisados, pouco estáveis, de difícil apreensão. Horários de Marte; horas talvez lunares.
A fiscalização desses fragmentos horários é tarefa aborrecida. O tempo, em distintas partidas, solapa a noção de causa e efeito, destruindo qualquer possibilidade de encontro, de convergência.
Essa assincronia me trouxe agravos, e pensei dar cabo dessa leviandade perdendo os relógios sob o peso de uma montanha.
O tempo escapando entre os dedos não é sensação confortante. A desnecessária repetição de atos que outros presidem com alegria; a petição de quereres embargada no desautorizado discurso das setas horárias: tudo transcorre incerto, sem governo ou probidade. O pôr-do-sol abjurado por mecanismos viciados, cingidos internamente por códigos de falecimento.
O que esses relógios querem de mim? Terão percebido a proximidade do horizonte de eventos, a capturar luz e matéria? Estariam tentando retardar, com essa concertada anarquia, a marcha do espaço-tempo para a aniquilação?
Não sinto o tempo nem mais nem menos que qualquer outro condômino do planeta. Não uso desmedidas porções de tempo, não o desperdiço, não o desprezo nem o venero. O tempo é apenas insumo frágil, perecível, para a indústria nossa do dia.
Não tenho, como Drummond, vastas reservas de tempo, futuros, pós-futuros, esperando que meu desejo e miopia as tornem manhãs. Nem consigo postar-me fora do tempo, no conduto de algum túnel einsteniano.
O tempo é pauta mínima para a consumação da vida. Considero-me realista, sei que a segunda lei da termodinâmica jamais será vulnerada. Físico algum sequer pensaria nisso. Então a desordem, o caos, seguirão rindo de nossos esforços de ordenar o mundo, mesmo que apenas mentalmente. No vasto campo em que o mundo se experimenta e se permite um soluço, grassa o escandaloso desequilíbrio termodinâmico chamado vida.
Se os espelhos de Borges súbito se punham a divergir da realidade espelhada, muito pior a conduta desses marcadores do tempo. Sem qualquer instrumento de calibração que me permita pô-los de acordo, resta aquiescer ao desmantelo na medição de meus dias. Se tento triangular as medidas, calculando a posição da dimensão temporal pela relação entre os relógios, já me vejo impedido pelo malicioso empenamento, pela expansão, contração e tremor do tecido temporal.
Vigiar o tempo é empresa do orgulho, mais difícil e improvável que a amizade do vento.
Os infaustos relógios de Dalí, sua notável tendência para o derretimento, não atentam contra a realidade como meus quatro relógios citizen. Para meu grande azar, sem eles não saberia as estrelas, não teria acesso ao sol, vegetaria numa bruma transorária em que a ambigüidade do passado se confundiria com a impraticabilidade do presente e do futuro.
A vida se tornaria fatigante exercício da postulação de tempos, cada vez mais arbitrários.
A rigor, meus relógios não me sonegam o tempo: apenas deslocam-se em interna fantasia, fazendo do mundo um suflê de incerteza e caprichos. É perigoso não observar o tempo; devemos ainda tolerar sua platitude. Poderíamos investir contra a primazia do tempo, mas incorrendo em sua ira, com graves conseqüências para a estipulação de causa e efeito; antes e depois se tornariam atributos irrecuperáveis, empobrecendo qualquer possibilidade de ação.
Reúno meus quatro relógios sobre a mesa. Meço o tempo. Não há acordo possível, e tempos distintos arruínam a função de onda com que os físicos descrevem o comportamento da matéria. Incerto, inauguro tempo interno, invariável, e absolvo-me de um mundo amotinado, em benefício de uma proposta de sonho.
Em 2003.
P.S.: O relógio de titânio, dos quatro o mais forte, foi o primeiro a ruir, superado por forças cortantes da confusa noite de Brasília. Previno-o quanto àquela cidade, leitor, sua tendência para o insólito.
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terça-feira, 4 de abril de 2006
quarta-feira, 18 de janeiro de 2006
Praga, um comentário
Alguns querem ver Paris em Praga; outros, Viena.
Enganam-se.
Praha, com suas mil torres, passeia por muitos estilos, está acima dessas simplificações.
Em Praga Einstein teria se encontrado com Kafka. Einstein formulou a Relatividade Especial em 1905, no casa dos vinte anos, e a Relatividade Geral em 1915, dentro, portanto, da temporada passada nessa cidade, entre 1911 e 1912. Praga também abrigou Mendel, o obeso monge que cultivava ervilhas e morreu sem ver-lhe reconhecida a paternidade de uma abordagem estatística da hereditariedade que depois veio a dar na genética. A cidade viu florescer o gênio de Tycho Brahe, bem antes, numa sólida demonstração de tradição cultural.
Quer a tradição turística que Einstein juntava-se a Kafka num café no centro dessa cidade, na época mais fecunda do escritor tcheco, de A Colonia Penal, O Castelo, e O Processo, entre outros delírios severos.
A Relatividade, com sua descrição essencialmente geométrica do universo, postula que a gravidade é uma deformação no tecido espacial causada pela presença de corpos maciços. Previa que a luz vinda de estrelas atrás do sol, por exemplo, seria empenada nas bordas do mesmo e chegaria à Terra - consta que essa previsão foi confirmada, em Sobral, num eclipse solar em 1918 -.
Assumia que a luz tem peso e não caminha em linha reta.
Desnecessário perquirirmos se a teoria está certa. Newton, com seu sistema mecânico quase perfeito, descreve o mundo com precisão de uma parte por mil. A Relatividade é precisa em uma parte por milhão, e a Mecânica Quântica, grosso modo, faz previsões válidas em uma parte por bilhão de unidades. O problema é que, virtualmente, nenhum postulado quântico faz sentido. Todos parecem ter sido inventados por um ficcionista licencioso e demasiado imodesto.
Kafka postula mundos insuportáveis, em que as pessoas são peças de uma burocracia total, sórdida e assassina. Os personagens, agindo com estranha naturalidade, prodigalizam torturas uns aos outros, tudo à sombra de uma autoridade invisível, intolerável e malvada.
Josef K., executado sem ter acesso ao processo, nem saber qual teria sido o delito ou a acusação, é móvel da mais devastadora acusação contra o gênero humano (Machado de Assis também o faz, sem a mesma monumentalidade, quando retrata a escravidão).
A mim, o cerne dessa culpa foi formulado por Anna Arendt: a banalidade do mal.
Pouco importaria Josef K., ou Samsa, ou outro torturado personagem do brutal mundo de Kafka. Pouco importaria seu sofrimento, não fosse o ruinoso incômodo de nos identificarmos com esses fiapos humanos.
O pobre ratinho, apaixonado pela diva ratazana, também a denuncia como uma lamentável fraude musical, e por isso sofre, e com ele sofremos.
São muitas as aflições em Kafka, uma escrita poderosa, de precisão e impiedade militares. Às vezes penso esquecê-lo (mas não o Khmer Vermelho). Quem sabe consiga, e os sonhos voltem a ser só sonhos.
sexta-feira, 23 de dezembro de 2005
Inverno em Praga
Praha, capital da Tchecoslováquia, agora República Tcheca, é uma cidade do Leste Europeu cheia de encantos. Sua arquitetura medieval, rica em torres, capitéis e campanários, evoca talvez Florença, a sermos amigos de comparações. A catedral Tyn, o torreão isolado no meio da rua, o Castelo de Praga: há um toque naturalmente sinistro nessas massas arquitetônicas que, se não vem de Kafka, o evocam ou, no mínimo, não o refutam.
Tampouco o que sobrou dos guetos negam o profundo escritor, autor de O Processo, A Colônia Penal e A Metamorfose, artífice dos mais sombrios pesadelos que já deram expediente no espírito humano.
A família do escritor foi assassinada nos campos de concentração, na década de 1940. Kafka morreu de tuberculose, aos 42 anos, apos intuir metaforicamente todos os terrores do Século XX, chefiá-lo literariamente e debelar nossas últimas ilusões. Foi o esteta superior daquele século, de uma desumanidade manifesta.
Praga está tomada de gratificados turistas. E cheia de música.
Volto agora das Quatro Estações, de Vivaldi.
Amanhã, o ossário de Sedlic e, quem sabe, jazz, à noite.
Praga, 22 de dezembro de 2005.
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