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sábado, 2 de setembro de 2006

Camboja

Ninguém diz adeus às armas. Os guardas desse museu, em Siem Riep, decidiram que eu e o Júlio tínhamos de ser russos, para combinar com a nacionalidade das armas em exposição.
Fala sério, leitor. Você compraria um carro desse cara, o do lencinho no pescoço?

terça-feira, 18 de julho de 2006

Me

Na primeira foto, conceda um Indiana Jones, bom leitor, ainda que após algumas crises de malária. Ao fundo, o rio Negro, passando por Manaus.

Na segunda, um rambo de escassa bravura e mirrada musculatura faz o que pode para aparecer. Em tempos meu índice de gordura corporal era 23 por cento. O resto era só músculos e revigorados ossos. Agora as proporções se inverteram... Estou num museu militar em Siem Riep, norte do Camboja.

Ofereço estas fotos para os dois leitores que me visitam, religiosamente, a cada ano.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

O delito

Num acesso - pouco edificante - de insensibilidade ecológica, comprei presas de elefantes no Camboja. Eram duas enormes peças, pesando uns 18 quilos, de um marfim ricamente matizado em tons de amarelo. Sem me importar com a ameaça de extinção do elefante asiático, e tampouco com a suspeita de ilegalidade da aquisição, comprei-as a módica quantia, e estava feliz com a façanha. Parecia que eu triunfara sobre a fera na indevassável selva cambojana. Depois desse dia, um sonho, recorrente: um rio de gárrulos elefantes dava voltas e mais voltas em torno a uma pedra que podia ser os restos de uma estrela, mas também era meu túmulo, e ardia. Eram elefantes negros, ferais e banguelas. A horrenda ciranda seqüestrava os sonhos, multiplicando recriminações e remorso. Hoje, no aeroporto de Chiang Mai, oportunos guardas vieram me absolver de meu crime, confiscando as presas, espero que para sempre. O comprovado fato de serem presas falsas não me socorreu, porquanto as feras seguiam crescentemente destroçando minhas noites. Com júbilo, com alívio passei adiante esse pesadelo, e espero que ninguém mais dele se aposse. Com o tempo, possa eu esquecer o delito, e os sonhos retomem seu curso mais pacífico. Chiang Mai, 16 de janeiro de 2006.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

Templos na Selva

O Camboja, antigo Reino do Khmer, abunda em templos na selva, bucólicos e desistidos. Inacreditáveis construções remetem a mil anos, e registram com fidelidade todos os sectarismos que a floresta, as monções e as guerras impõem. Turistas lotam seus recintos, de uma maneira que eu não supunha possível, e a impressão geral é de um imenso parque de diversões votado ao budismo. Em toda parte, intermináveis hordas de turistas que não cansam de ser japoneses, em contínua expansão. Templos saqueados, há muito desertos de seus criadores, marcham plenos de caos rumo à eternidade. Cansados de sua antiga anarquia, concertam secretamente a posse de um novo povo, no regresso a uma remota e velhíssima economia da alma. Não há uma só pedra, por modesta, que não tenha fatigado um artista, naquele instante delegado ocasional da eternidade. Ao pôr-do-sol esses monolitos acendem, vibram e consentem a passagem para outros atavismos. O sol é inclemente, mas felizmente não chove nessa época do ano. Com um pouco de boa vontade é possível se sentir feliz nessa pétrea cidadela religiosa. Phnom Penh, 11 de janeiro de 2006.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

Angkor Wat

Assombrosos solecismos de pedra. Um superparque, com centenas de templos, a maioria com mil anos de idade, dispostos em jardins que descrevem retângulos, às vezes quadrados, circundados por água. Todos exibem as marcas do tempo, das guerras, dos movimentos políticos e das pilhagens, comerciais ou ideológicas. A maioria das estátuas jaz decapitada, e os templos são, muita vez, amontoados de pedras lavradas. Enormes blocos de pedra emulam pirâmides e, de fato, são pirâmides, com escadas íngremes, cada degrau com altura e largura diferentes. Errei por esses labirintos, a princípio fascinado, depois indiferente e, por fim, desesperado ante o interminável, a atroz sequência de áridos recintos, visitados por monges budistas lamaístas. Na maioria deles, infindáveis salas dispostas em sequências transversais. No cruzamento dessas sequências, a ilusão de estar diante de um espelho, tão perfeita a simetria. Em muitos desses templos, árvores gigantes. Figueiras assaltam a pedra, subordinando-a a suas ambições. A floresta cobra o terreno que um dia lhe pertenceu por inteiro. Angkor Wat é o nome genérico desses monumentos, testemunhas da avançada civilização que um dia frutificou no sudeste asiático e que em sua glória edificou esses espantos. O Camboja tem uma grandiosa herança do Khmer, e a desastrosa herança do Khmer Vermelho, pesadelo que só recentemente abondonou o País. Siem Riep, 9 de janeiro de 2006.

sábado, 7 de janeiro de 2006

Camboja

O Camboja, na antiga Indochina, é um pequeno país com fronteiras com a Tailândia, Vietnã e Laos. Foi palco do maior genocídio do século XX, em proporção a sua população. Estima-se que até um quarto da população foi exterminada, por um demônio chamado Pol Pot. Esse demônio teve o suporte dos EUA, presumo que devido ao rotundo fracasso na guerra do Vietnã. Em vários museus da cidade, pilhas e pilhas de crânios, embranquecidos, descansam dos horrores que viveram. O taxista que nos levou por esses assombros teve pai e tio assassinados pelo sistema (chamado Khmer Vermelho). De modo algum ele é exceção. Abateu-me severamente a imagem de três meninas, fotografadas pouco antes de morrerem. Eram criancas, e nada suspeitavam da existência de demônios. Em seu rosto, e no dos demais, a expressão implorando clemência. Eles parecem pronunciar uma única frase, expressamente proibida para vítimas de demônios: "não me mate". No rosto de uma das meninas, uma expressão de raiva e perplexidade. Era uma menina. Provavelmente não sabia que era proibido viver, um crime político que não desdenha os requintes da tortura. Nunca me esquecerei dessa vítima, um ser humano, sem chances contra a insaciável necessidade de assassinar. Siem Riep, 7 de janeiro de 2006.