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terça-feira, 2 de janeiro de 2007

Vietnã

Numa noite de 1978 - terão de perdoar eu não precisar a data - às 4 da manhã, centenas de tanques tomaram Lao Cai, cidade da fronteira Vietnã-China. A princípio, seus habitantes pensaram tratar-se de movimentação de seu exército, mas logo ficou claro que aqueles eram tanques chineses, em "visita" que duraria meses e custaria as pretensões vietnamitas no vizinho Camboja.
Os vietcongs (vietnamitas comunistas) haviam escorraçado as legiões americanas e davam um "calor" em Pol Pot, o supremo genocida de um século repleto deles. Os americanos descobriram, muitos séculos depois de Roma vergar sob o peso dos hunos e da China ser devastada pelos mongóis, que os bárbaros podem, sim, ganhar guerras.
De nada adiantou o apoio americano a Pol Pot, em troca da utilização do Camboja para atacar o Vietnã. Nem as reiteradas incinerações de Hanói e Hue.
Com o triunfo inesperado, Pol Pot recebia "atenção especial" do exército vietnamita e a China teve de intervir.
Deng Xiao-ping - vitorioso da perseguição que sofrera de Mao e da "guangue dos quatro", deflagrara naquele mesmo ano o processo de modernização econômica que resgataria a China de 500 anos de indolência, burrice e atraso (alguns anos antes de 1500, a gigantesta classe de burocratas controlada pelos eunucos sofreu um golpe palaciano, e a vasta frota chinesa foi desmantelada, junto com os estaleiros. A China se fechou para o mundo, ao contrário do que faz hoje, com seu superávit de 200 bilhões e comércio de 1 trilhão de dólares, anuais).
O Império do Meio não toleraria hegemonias locais em seu quintal.
Essa história me foi contada por um soldado que participou da guerra, e hoje é guia turistico em Hanói. Seu espanhol é passável.

sábado, 7 de janeiro de 2006

Camboja

O Camboja, na antiga Indochina, é um pequeno país com fronteiras com a Tailândia, Vietnã e Laos. Foi palco do maior genocídio do século XX, em proporção a sua população. Estima-se que até um quarto da população foi exterminada, por um demônio chamado Pol Pot. Esse demônio teve o suporte dos EUA, presumo que devido ao rotundo fracasso na guerra do Vietnã. Em vários museus da cidade, pilhas e pilhas de crânios, embranquecidos, descansam dos horrores que viveram. O taxista que nos levou por esses assombros teve pai e tio assassinados pelo sistema (chamado Khmer Vermelho). De modo algum ele é exceção. Abateu-me severamente a imagem de três meninas, fotografadas pouco antes de morrerem. Eram criancas, e nada suspeitavam da existência de demônios. Em seu rosto, e no dos demais, a expressão implorando clemência. Eles parecem pronunciar uma única frase, expressamente proibida para vítimas de demônios: "não me mate". No rosto de uma das meninas, uma expressão de raiva e perplexidade. Era uma menina. Provavelmente não sabia que era proibido viver, um crime político que não desdenha os requintes da tortura. Nunca me esquecerei dessa vítima, um ser humano, sem chances contra a insaciável necessidade de assassinar. Siem Riep, 7 de janeiro de 2006.

quinta-feira, 27 de outubro de 2005

Literatura

O (improvável) leitor pode se perguntar por que perder tempo com Chomsky. Quem se der o trabalho de inventariar as gôndolas de "lançamentos" e "mais vendidos" vai entender o porquê. Os livros agora deram para se chamar "quem comeu meu queijo", "quem tomou minha sopa", "quem comeu meu hambúrguer", quem comeu isso ou aquilo. Desaprovo toda essa comilança. Pior: existem loas a pessoas como Bush, Lula e Chavez. E também críticas (algumas ótimas, outras desnecessárias). Os bruxos, fadas, duendes, elfos, grifos, dragões da maldade e magos agora deram para frequentar academias. Desconfio que algumas pessoas deixaram de considerá-los mitos inofensivos e passaram a acreditar nesse entulho medieval. O soterramento do pensamento criterioso e estético é um risco que não podemos desprezar. Chomsky representa um enorme desafio, porque obriga a pensar, duvidar e analisar. Sigamos com Harry Potter.
P.S.: além dos ataques ideológicos ao pensamento evolucionista, Chomsky foi flagrado em elogios ao genocida Pol Pot. Se for verdade, esse fato, por si só, invalida tudo de útil que Chomsky possa ter produzido.