Mostrando postagens com marcador Varanasi. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Varanasi. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 21 de julho de 2006

O capataz

Logo após cruzar uma ponte nas cercanias de Varanasi (Benares), construída pelos ingleses (parece que a última vez que alguém se importou com infra-estrutura na Índia foi na época dos ingleses, finda em 1947), vê-se um enorme pátio em que trens carregados de carvão chegam e são descarregados por escravos hindus, como na foto.

Na ponte, milhares a pé, de ônibus, riquixá, bicicleta, caminhão. Em comum, a miséria. Lá embaixo, lânguidos búfalos recreiam às margens do Ganges.

O capataz achou mesmo que eu não teria coragem de fotograr seus escravos, mas eu mostrei que ele estava errado.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2006

Incidentes na Índia

1. O "pacote". Um sorrindente Zahir nos atendeu em sua agência de turismo. Demonstrando domínio do assunto, ofereceu-nos um pacote que incluia Jaipur, Agra, Khajuraho e Varanasi, perfazendo 10 dias e 500 dólares. Após pagarmos, e ao contrário do que vinha sustentando, ele informou que vouchers, passagens aéreas e de trem seriam entregues somente no dia seguinte, pelo motorista que nos conduziria a Jaipur e Agra. No dia seguinte esse motorista apareceu uma hora depois do combinado, e somente após um telefonema ameaçador disparado contra Zahir. Rumanos para a agência, em busca dos documentos prometidos, mas ignorados pelo motorista. Lá, recebemos vouchers dos hotéis e fomos informados de que as passagens aéreas e de trem nos aguardavam, impacientes, em Agra. No hotel em Jaipur ninguém suspeitava de nossa ida. De qualquer forma, o estabelecimento estava lotado. Levaram-nos a um pardieiro, sem energia elétrica. Preferimos ir ter ao birô de turismo, onde prontamente vimos brotar a vaga no hotel que anteriormente a desconhecia. Em Agra (foi difícil conter a emoção: "vi Agra! vi Agra!") o hotel aceitou-nos de primeira. Após conhecermos o Taj Mahal, rumamos, de trem, para a cidade que fica a meio caminho de Khajuharo. Após pagarmos um táxi, e visitarmos essa cidade de escassos encantos, desistimos da continuação, por trem, até Varanasi. Fomos de avião, pagando à parte e, com isso, o pacote ia se desfazendo, enquanto os custos subiam. Nessa cidade, o hotel era inqualificável, e pagamos por um bom hotel no centro, a 60 dólares a diária. De volta a Déli, pensamos em gratificar Zahir por esses sucessos. O Júlio se entusiasmara com a idéia de capá-lo ("o menino tinha boas intenções", ele insistia), mas eu lembrei-lhe que não seria honesto, além de pouco cristão, deixar de crucificar o patife. Irredutíveis, acordamos em capar e crucificar nosso amigo Zahir, simultaneamente. 2. Ovos fritos. O primeiro café da manhã na Índia foi no quarto. Nada a ver com um acesso de romantismo, incabível. O moquifo em que nos instalamos só servia comida no quarto. Pedimos café, torradas e ovos fritos, estes últimos bem passados, fritos de ambos os lados, firmes, entre outros adjetivos para ovos decentemente fritos. Pois vieram se derramando na bandeja, o garçom deliciado ante a contrafação. No segundo dia, idem, no mesmo hotel. Idem nos terceiro e quarto dias, embora se multiplicassem os adjetivos, em sonoro inglês, para ovos bem passados. Lá pelo quinto dia, diante de um garçom exultante, conduzindo uma inundação amarela numa bandeja rasa, o Júlio foi embora, aviar as malas. Eu fiquei e, com lhaneza, expliquei-lhe como gostaria que viessem os ovos. Funcionou, porque, segundos depois, vieram ovos verdadeiramente fritos, embora o garçom tenha necessitado de aconselhamento psicológico após o episódio. 3. O trânsito. Existe uma diferença entre o trânsito da Índia e o dos muitos países que já visitei. Aqui, os motoristas usam uma técnica similar à dos morcegos: guiam-se pelo som, mais que pela visão. O mais importante para os veículos é sair derramando-se num enfurecido buzinasso. Aos poucos, o rio de veículos descreve um pandemônio, que assalta os tímpanos e perturba as mentes. As ruas comportam tsunamis sonoros, transformando até o mais pacato transeunte num assassino em potencial. Carros, ônibus, caminhões, tuk-tuks, riquixás, bicicletas, pedestres, vacas, porcos, carneiros, búfalos e cachorros: uma alentada reunião de seres bem pouco afins. O trânsito rege-se por uma hierarquia em que os maiores estão no topo e um riquixá, por exemplo, não merece o menor respeito. Todos eles tiram finas dignas de videogame. Todos buzinam como se o mundo estivesse próximo do final e a buzina fosse a única hipótese de salvação. Todos sentem o perigo, mas a necessidade fala mais alto. Cansei de ver-me a milímetros de pesados caminhões na estrada, e de tirar fina, a cada instante, de camelos, pedestres, riquixás. As estradas não têm asfalto e proporcionam, a cada instante, um atentado contra nossas vidas. 4. O flautista No Hotel de Varanasi o flautista interrompia seu concerto para, ao celular, checar com o próprio compositor quais seriam as próximas notas. Por pouco não surramos o bandido.

India: um epílogo

Meus caros: encerro a Índia. Não me foi leve. Não me agrada a miséria, já denunciada. Inda mais a indigência exibicionista hindu. O ar poluído, alérgico, não ajuda, e tampouco a comida, vária ração de desafortunados pedaços de frango. Dos indianos? Não sei. Dada a experiência, resolvi poupá-los de um comentário que, de qualquer forma, revelaria preconceito. Talvez a Índia tenha um futuro, e ele até seja radioso e feliz. Sei que o povo que vi nas ruas não o tem. Varanasi (Benares), 4 de janeiro de 2006.

Varanasi

O excesso humano inviabiliza a cidade, postada nas orelhas do Ganges. O rio, que já chega sujo à cidade, é insultado por tremenda carga de esgoto, e também acolhe os fumegantes ossos dos mortos cremados às suas margens.

A cerimônia. O morto, envolto em tecidos, é confiado a uma pira e coberto com madeira. Logo o fogo inicia seu antigo ofício. Os mortos ardem sem reclamar, normalmente, entregando serenamente alvos ossos. Em alguns casos, porém, uma perna pode se apresentar e o morto, atendendo a estranha convocação, parece dar um passo à frente. O decoro manda que seja contida, restituindo-se a militar perna a sua posição de conformada honra. Pode acontecer de o crânio, privado de seu costumeiro adorno, exibir massa encefálica, que brota dos muitos buracos da face.

De minha posição, num terraço visitado pelos fumos da morte, vi um pé, caído, ser reconduzido às ciumentas chamas. Após um tempo - que eu não saberia precisar - vi um sadhu, considerado homem santo, ser reposicionado nas chamas, e um seu braço se apoiou brevemente numa haste em brasa, enquanto crânio e torso bebiam, com volúpia, vívidas chamas purificadoras.

Um pouco mais de lenha pode ser acrescentado se, porventura, o falecido acusar frio ou falta de luz. Se, acaso, ele reclamar, pés fujões podem ser recapturados. Mesmo um morto muito precavido pode, naquele ardor, perder a cabeça, já amiga das chamas, obrigando redobrada vigília.

Consumado, o corpo emite luz. Alcança equilíbrio em sua entropia final. Nova Déli, 5 de janeiro de 2006.