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domingo, 17 de agosto de 2008

India

A Índia está mudando tão depressa que começa a se parecer com qualquer outro lugar. Os arranha-céus brotam. Cidades incham. Os jovens namoram, bebem, fumam livremente. Mas muitas das pessoas que estão tornando nova a nova Índia - dos corretores de ações às engalanadas socialites- são responsáveis pela preservação de um elemento de certa forma lúgubre do passado indiano: uma tendência a tratar os funcionários contratados como sua propriedade, insultá-los e humilhá-los e ser condescendente com eles, comportar-se como se alguns seres humanos tivessem nascido para servir e outros para serem servidos. "Os indianos são provavelmente as pessoas menos democráticas, morando na maior e mais plural democracia do mundo," como afirmam Sudir Katar e Katharina Kakar, dois conhecidos estudiosos da cultura indiana, em um livro publicado recentemente, "The Indians: Portrait of a People" ("Os Indianos: Retrato de um Povo").
O país tem [na opinião de um importante cineasta], um problema de "desumanização". Em uma entrevista, ele descreve os empregados e servos da Índia como se fossem "duas espécies diferentes". Anand Giridharadas, de Mumbai (Índia), no Jornal Herald Tribune de 11/08/2008. Os termos India e miséria continuam tão embaralhados que não se pode pensar um sem o outro, não importa o que digam os boçais. A Índia é um desastre permanente, esperando para recrudescer.

quarta-feira, 23 de agosto de 2006

Templo indiano

Templo em Déli. Não me recordo a qual ou quais deuses dedicado. Muitos deuses morreram no subcontinente indiano, e outros agonizam em silêncio no momento. Os crentes não são muito caridosos com seus protetores. Idiomas e deuses sucedem-se num vórtice acelerado chamado história.

sexta-feira, 11 de agosto de 2006

A China e o resto

A China já é a segunda economia do Planeta, quando se ajusta o valor do PIB pela paridade de poder de compra, metodologia que leva em conta os valores relativos internos dos preços da economia (um corte de cabelo na China pode custar 20 centavos de dólar, mas não é essa sua real contribuição na geração de riqueza). Com 1,3 bilhão de pessoas e crescimento explosivo, a China caminha para ditar os acontecimentos do século. Os EUA levaram 100 anos em sua corrida para a supremacia econômica e militar. A China começou a sua em 1978 e a completará em pouco mais de 20 anos. Em toda parte, os mesmos ciclos: depreciação forte da moeda e manutenção artificial desse preço, com investimento agressivo em direção às exportações, inicialmente de produtos baratos, com mão-de-obra intensiva e baixa tecnologia. Depois, os produtos se sofisticam e, por fim, exportam-se produtos de tecnologia intensiva, de altíssimo valor agregado. Europa, Japão, Coréia do Sul e, agora, China. Após enriquecer dessa forma, o país pode retornar a uma taxa natural de câmbio e os preços internos sobem. A economia integra-se plenamente ao resto do mundo, já rica. A China ainda está na fase do câmbio depreciado artificialmente. Mantém o yuan – moeda instituída pela dinastia de Kublai Khan (neto de Gengis Khan) em 1279 – a uma taxa de 8/1 dólar, para desespero do FMI e dos EUA. Os EUA tentam, mas não podem mostrar os dentes a um parceiro que detém 1 trilhão de dólares em reservas, a maior parte investida em títulos do Tesouro americano. Não há ganhos com esses títulos, que até recentemente apresentavam ridículas taxas negativas de juros mas, se o cliente não for financiado, não compra. A China inunda os EUA com artigos industriais baratos, acumula saldos em dólar e os reinveste em títulos da dívida americana, usados para equilibrar a balança de pagamentos, retro-alimentando o ciclo. O dia em que a China parar de comprar os micados papéis americanos não será um dia de muita lucidez no mercado mundial. Brasil x China x Índia em números: por que não me ufano (espero que nem você, raro leitor). 1. Valores correntes (taxa corrente de câmbio). PIB China: 2.224 bilhões – 4º no ranking mundial Brasil: 792 bilhões – 11º no ranking mundial Índia: 775 bilhões – 12º no ranking mundial PIB per capita Brasil: 4.315 – 74º no ranking mundial China: 1.702 – 110º no ranking mundial Índia: 713 – 134º no ranking mundial 2. Números ajustados pela Paridade de Poder de Compra. PIB China: 9,41 trilhões Índia: 3,63 trilhões Brasil: 1,57 trilhão PIB per capita Brasil: 8.584 – 68º no ranking mundial China: 7.204 – 84º no ranking mundial Índia: 3.344 – 122º no ranking mundial
Todos os valores em dólares americanos.

sexta-feira, 21 de julho de 2006

O capataz

Logo após cruzar uma ponte nas cercanias de Varanasi (Benares), construída pelos ingleses (parece que a última vez que alguém se importou com infra-estrutura na Índia foi na época dos ingleses, finda em 1947), vê-se um enorme pátio em que trens carregados de carvão chegam e são descarregados por escravos hindus, como na foto.

Na ponte, milhares a pé, de ônibus, riquixá, bicicleta, caminhão. Em comum, a miséria. Lá embaixo, lânguidos búfalos recreiam às margens do Ganges.

O capataz achou mesmo que eu não teria coragem de fotograr seus escravos, mas eu mostrei que ele estava errado.

sábado, 13 de maio de 2006

Taj Mahal

Após todas as interdições caprichosamente impostas à nossa entrada no Taj, pensei em convocar uma rave para esse excelente monumento. Os convidados entrariam montados em elefantes balançantes no recinto, e uma bateria de DJs fariam o edifício dançar. Há uma suntuosidade definitiva no Taj Mahal, um transporte conduzindo-nos até sua origem, momentosa.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

A Verdadeira India

Tendo percorrido muitos países, quero voltar a falar um pouco sobre a India. 1. Antes de ir, suspeitava que a India tinha sérios problemas de superpopulação, infraestrutura etc. Mas nada me preparou para o que vi. Em todo lugar, em cada rua, em qualquer direção que olhasse, milhares de mendigos, maltrapilhos, correndo de um lado para o outro, ou simplesmente parados, provendo o nada. Casas, lojas, escritórios e oficinas formam uma continuidade apavorante de escombros, carcomidos pela indiferença. Não há um centro da cidade e uma periferia: é tudo cinza e corroído, desgastado, de algum modo corrompido. Da mesma maneira os bancos, repartições públicas, escolas. Nada se salva na India real, exceto, talvez, as ruínas de civilizações pretéritas, com templos e monumentos que tentam desmentir a realidade com uma suntuosidade ilícita. Nada é moderno, nem clássico, nem ousado nem grandioso; nem mesmo kitsch: tudo é lixo, escombro e degredo, numa escalada insuportável, que cassa a alegria. 2. O homem. Nada é mais catastrófico, na India, que seu elemento humano. Não estamos falando de pobreza, apenas. Trata-se de um oceano de pessoas uniformemente baixas, e magras. Uma magreza de fome e ausência de proteínas. Pedem esmolas, cobram gorjetas, vendem porcarias, negam o contrato que acabaram de firmar: nenhuma indignidade lhes é estranha. Andam dependuradas em ônibus, ou dentro de carros, riquixás, de bicicleta ou à pé: transformam cada rua num pesadelo, que suplanta e destrói a India das paisagens e monumentos. No fog de Déli, ou qualquer outra cidade, milhões correm fantasmagoricamente atrás de alguma esmola, uma propina. Descrevem um lúgubre espetáculo de fome e miséria, sem apelo. Aos poucos, vê-se que as pessoas formam uma continuidade com as ruínas e escombros; unem-se num lastimável rio de nojo e desespero. "Esta miséria", pensei, "é tão horrível que sua mera existência e perduração, embora no seio do subcontinente indiano, contamina o passado e o futuro e, de algum modo, compromete os astros. Enquanto perdurar, ninguém no mundo poderá ser valoroso ou feliz". A paráfrase remete a Borges. Peço perdão por mais esta apropriação indébita. Gerson Noronha Mota

sexta-feira, 20 de janeiro de 2006

A cerimônia de cremação

Após algum tempo vendo os cadáveres se congratularem na voragem das chamas, ocorreu-me reparar no entorno da morte. Teriam todos eles merecido sua morte? Não haveria, entre tantos que ardiam, um fraudador, alguém que solertemente se introduzira entre os mortos, só para merecer os favores do fogo, que sabia ilícitos? Jorge Luis Borges nos conta de múltiplos templos de ruínas circulares, em que medra um personagem que era muitos, porém sonhados. Entre tantos elementos, somente o fogo era seu amigo, e o sabia irreal. Na unânime noite, ninguém viu a canoa de bambu sumindo-se no lodo sagrado, mas em poucos dias ninguém ignorava que o homem taciturno vinha do Sul. Esse homem sabia que sua obrigação imediata era o sonho. Sonhou uma nuvem de alunos taciturnos, que esgotavam os degraus de um anfiteatro circular: os rostos dos últimos pendiam a muitos séculos de distância e a uma altura estelar, mas eram absolutamente precisos. Insatisfeito com aceitarem passivamente sua doutrina, o mago diplomou para sempre esse vasto colégio, em prol de um único aluno, mas também este ruiu, como ruem os sonhos excessivamente rebuscados. Industriado pelo Fogo, que lhe ministrou magias, ele finalmente concebeu o filho. Sonhado em todas suas minúcias e instruído nos ritos, foi enviado rio abaixo, para oficiar em outro templo. Tempos depois, já tendo ouvido falar das artes do filho, nas ruínas de um templo circular a jusante, o mago se viu cingido pelas chamas. Por um instante, pensou refugiar-se nas águas, mas depois compreendeu que a morte vinha coroar sua velhice e absolvê-lo de seus trabalhos. Caminhou contra as línguas de fogo. Estas não morderam sua carne, estas o acariciaram e o inundaram sem calor e sem combustão. Com alívio, com humilhação, com terror, compreendeu que ele também era uma aparência, que outro o estava sonhando. Em meio a essa digressão chega, de barco, uma turba, juntamente com a família, conduzindo um sadhu, havido por santo. Do morto, seguramente boa pessoa, bom chefe de família, marido amantíssimo e pai extremoso, nada apurei, porque os da multidão se desmanchavam aos brados de Osho! Osho! Osho! Ooooooooooosssssssshooooooooooooooooooooooo!!! Do momento em que aportaram, até a deposição do morto numa confortável e espaçosa pira, bem acima das outras, menos respeitáveis e mais próximas da água desse rio que todas as nações resolveram chamar Ganges e que, na Índia, se chama Ganga, um enorme grito se construía: Osho. Depois da pausa para breves preces, alguns passes mágicos - que não excluíram algumas voltas ao cadáver - e mais oshos, muitos oshos! Não passou despercebida uma figura, um tipinho vestindo alaranjado berrante, que gritava, a mais não poder, o nome de seu preferido. Toda vez que sentia um arrefecimento nos ânimos cultuais ele tomava a si a tarefa de informar ao mundo a quem se devia veneração. Não apenas berrava. Erguia as mãozinhas, gesticulava e parecia incorporar o próprio Osho, tamanha a fé, o entusiasmo. Não se contentava em gritar: esmurrava os ouvidos dos pobres turistas. Sustentava o brado saboreando cada silaba de tão propício nome: Osho!!! A certa altura, vi que a ele se juntara outra pessoa, e ambos seguiam rumo ao nirvana (no caso, conquistado a duras penas e muitos berros). Era um ocidental, segundo me pareceu e, por segundos, divisei o que pensei ser a figura do Júlio. "Essa não! Júlio, um místico!", pensei. Felizmente, tudo não passou de um golpe de vista desastrado, e o Júlio navegava com segurança rumo a algum passeio turístico. Pelo menos, foi isso que ele me disse, na volta. Phuket, 20 de janeiro de 2006.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2006

India: um epílogo

Meus caros: encerro a Índia. Não me foi leve. Não me agrada a miséria, já denunciada. Inda mais a indigência exibicionista hindu. O ar poluído, alérgico, não ajuda, e tampouco a comida, vária ração de desafortunados pedaços de frango. Dos indianos? Não sei. Dada a experiência, resolvi poupá-los de um comentário que, de qualquer forma, revelaria preconceito. Talvez a Índia tenha um futuro, e ele até seja radioso e feliz. Sei que o povo que vi nas ruas não o tem. Varanasi (Benares), 4 de janeiro de 2006.

Varanasi

O excesso humano inviabiliza a cidade, postada nas orelhas do Ganges. O rio, que já chega sujo à cidade, é insultado por tremenda carga de esgoto, e também acolhe os fumegantes ossos dos mortos cremados às suas margens.

A cerimônia. O morto, envolto em tecidos, é confiado a uma pira e coberto com madeira. Logo o fogo inicia seu antigo ofício. Os mortos ardem sem reclamar, normalmente, entregando serenamente alvos ossos. Em alguns casos, porém, uma perna pode se apresentar e o morto, atendendo a estranha convocação, parece dar um passo à frente. O decoro manda que seja contida, restituindo-se a militar perna a sua posição de conformada honra. Pode acontecer de o crânio, privado de seu costumeiro adorno, exibir massa encefálica, que brota dos muitos buracos da face.

De minha posição, num terraço visitado pelos fumos da morte, vi um pé, caído, ser reconduzido às ciumentas chamas. Após um tempo - que eu não saberia precisar - vi um sadhu, considerado homem santo, ser reposicionado nas chamas, e um seu braço se apoiou brevemente numa haste em brasa, enquanto crânio e torso bebiam, com volúpia, vívidas chamas purificadoras.

Um pouco mais de lenha pode ser acrescentado se, porventura, o falecido acusar frio ou falta de luz. Se, acaso, ele reclamar, pés fujões podem ser recapturados. Mesmo um morto muito precavido pode, naquele ardor, perder a cabeça, já amiga das chamas, obrigando redobrada vigília.

Consumado, o corpo emite luz. Alcança equilíbrio em sua entropia final. Nova Déli, 5 de janeiro de 2006.

India: evite, se puder

Nova Déli, Jaipur, Agra, Khajuraho e Varanasi. Para minha saúde física e mental, é o bastante. A civilização hindi não convence. Suas cidades parecem ter recém-saído de uma guerra e um terremoto, simultâneos e arrazadores. Em toda parte, ruínas, devastação e miséria. Nada se salva. Nada pode ser feliz num país que cambaleia no limiar da fome e da morte. O hinduísmo reivindica muitos achados religiosos, mas ajudou a guiar a India a uma permanente hecatombe. (Alguém disse - acho que foi o Júlio - que o filme Mad Max poderia ser filmado na India, sem o artificialismo de cenários. Discordo. A India precisaria melhorar substancialmente para poder retratar, sem sustos, um mundo pós-hecatombe nuclear). 1.000.000.000 de famintos, morrendo entre vacas, porcos e macacos nutridos, mas intocáveis. Jurado de morte, o hindu existe, copioso. Para quê? No caminho entre Déli e Jaipur vi silhuetas de prédios corporativos em construção. O fog e a miséria do entorno conspiravam para fazer-me ver fantasmas bruxuleantes, que ardiam por entre esqueletos de futuras sedes de negócios. Não entendo os hindus. Após alguns dias em sua companhia, talvez não queira. Sua horrenda escalada no subcontinente não os favorece. A densa trama de pessoas desarvoradas compõe um quadro de repulsiva repetição. Na India, não há chance para o homem. Viver com menos de um dolar por dia. Há um sofisma irredutível nessa frase, que remete diretamente às mansões da morte. Alguns vêm à India para confirmar suas fantasias místicas. Plenos de fervor prévio, não enxergam o impossivel show de horrores que a Índia prodigaliza. Vacas disputando o lixo com mendigos; pessoas que fedem a urina e suor de meses; astutos porcos e patos esperando mendigos defecar para comer-lhes os excrementos. A civilização se contorce e produz sub-humanos. Não parece afetada pela dor que, impropriamente, sinto. Comerciantes, hotéis e empresas de turismo, todos respeitáveis, praticam respeitabilíssimos golpes contra seus clientes. Vendedores de qualquer coisa espreitam em cada esquina. Nuvens de indigentes se aglomeram a sua volta, varejam sua alma e dela extraem uma percentagem. Cada sagrada vaca injeta na atmosfera 600 litros/dia de metano, por meio de sagrados puns. Os indianos têm milhões de indolentes vacas, cheias de bernes, carrapatos e vermes. Após errarem pelas cidades, terminam carneadas por cachorros. Sua cozinha, um interminável desfile de migalhas de frango abusadas por pimentas ilícitas, completa o dissoluto quadro dessa civilização, que já foi mais bem representada. "Esta miséria", pensei, "é tão horrível que sua mera existência e perduração, embora no seio de uma civilização remota, contamina o passado e o futuro e, de algum modo, compromete os astros. Enquanto perdurar, ninguém no mundo poderá ser valoroso ou feliz". Déli, 5 de janeiro de 2006.