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sábado, 13 de maio de 2006

Taj Mahal

Após todas as interdições caprichosamente impostas à nossa entrada no Taj, pensei em convocar uma rave para esse excelente monumento. Os convidados entrariam montados em elefantes balançantes no recinto, e uma bateria de DJs fariam o edifício dançar. Há uma suntuosidade definitiva no Taj Mahal, um transporte conduzindo-nos até sua origem, momentosa.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2006

Incidentes na Índia

1. O "pacote". Um sorrindente Zahir nos atendeu em sua agência de turismo. Demonstrando domínio do assunto, ofereceu-nos um pacote que incluia Jaipur, Agra, Khajuraho e Varanasi, perfazendo 10 dias e 500 dólares. Após pagarmos, e ao contrário do que vinha sustentando, ele informou que vouchers, passagens aéreas e de trem seriam entregues somente no dia seguinte, pelo motorista que nos conduziria a Jaipur e Agra. No dia seguinte esse motorista apareceu uma hora depois do combinado, e somente após um telefonema ameaçador disparado contra Zahir. Rumanos para a agência, em busca dos documentos prometidos, mas ignorados pelo motorista. Lá, recebemos vouchers dos hotéis e fomos informados de que as passagens aéreas e de trem nos aguardavam, impacientes, em Agra. No hotel em Jaipur ninguém suspeitava de nossa ida. De qualquer forma, o estabelecimento estava lotado. Levaram-nos a um pardieiro, sem energia elétrica. Preferimos ir ter ao birô de turismo, onde prontamente vimos brotar a vaga no hotel que anteriormente a desconhecia. Em Agra (foi difícil conter a emoção: "vi Agra! vi Agra!") o hotel aceitou-nos de primeira. Após conhecermos o Taj Mahal, rumamos, de trem, para a cidade que fica a meio caminho de Khajuharo. Após pagarmos um táxi, e visitarmos essa cidade de escassos encantos, desistimos da continuação, por trem, até Varanasi. Fomos de avião, pagando à parte e, com isso, o pacote ia se desfazendo, enquanto os custos subiam. Nessa cidade, o hotel era inqualificável, e pagamos por um bom hotel no centro, a 60 dólares a diária. De volta a Déli, pensamos em gratificar Zahir por esses sucessos. O Júlio se entusiasmara com a idéia de capá-lo ("o menino tinha boas intenções", ele insistia), mas eu lembrei-lhe que não seria honesto, além de pouco cristão, deixar de crucificar o patife. Irredutíveis, acordamos em capar e crucificar nosso amigo Zahir, simultaneamente. 2. Ovos fritos. O primeiro café da manhã na Índia foi no quarto. Nada a ver com um acesso de romantismo, incabível. O moquifo em que nos instalamos só servia comida no quarto. Pedimos café, torradas e ovos fritos, estes últimos bem passados, fritos de ambos os lados, firmes, entre outros adjetivos para ovos decentemente fritos. Pois vieram se derramando na bandeja, o garçom deliciado ante a contrafação. No segundo dia, idem, no mesmo hotel. Idem nos terceiro e quarto dias, embora se multiplicassem os adjetivos, em sonoro inglês, para ovos bem passados. Lá pelo quinto dia, diante de um garçom exultante, conduzindo uma inundação amarela numa bandeja rasa, o Júlio foi embora, aviar as malas. Eu fiquei e, com lhaneza, expliquei-lhe como gostaria que viessem os ovos. Funcionou, porque, segundos depois, vieram ovos verdadeiramente fritos, embora o garçom tenha necessitado de aconselhamento psicológico após o episódio. 3. O trânsito. Existe uma diferença entre o trânsito da Índia e o dos muitos países que já visitei. Aqui, os motoristas usam uma técnica similar à dos morcegos: guiam-se pelo som, mais que pela visão. O mais importante para os veículos é sair derramando-se num enfurecido buzinasso. Aos poucos, o rio de veículos descreve um pandemônio, que assalta os tímpanos e perturba as mentes. As ruas comportam tsunamis sonoros, transformando até o mais pacato transeunte num assassino em potencial. Carros, ônibus, caminhões, tuk-tuks, riquixás, bicicletas, pedestres, vacas, porcos, carneiros, búfalos e cachorros: uma alentada reunião de seres bem pouco afins. O trânsito rege-se por uma hierarquia em que os maiores estão no topo e um riquixá, por exemplo, não merece o menor respeito. Todos eles tiram finas dignas de videogame. Todos buzinam como se o mundo estivesse próximo do final e a buzina fosse a única hipótese de salvação. Todos sentem o perigo, mas a necessidade fala mais alto. Cansei de ver-me a milímetros de pesados caminhões na estrada, e de tirar fina, a cada instante, de camelos, pedestres, riquixás. As estradas não têm asfalto e proporcionam, a cada instante, um atentado contra nossas vidas. 4. O flautista No Hotel de Varanasi o flautista interrompia seu concerto para, ao celular, checar com o próprio compositor quais seriam as próximas notas. Por pouco não surramos o bandido.

India: evite, se puder

Nova Déli, Jaipur, Agra, Khajuraho e Varanasi. Para minha saúde física e mental, é o bastante. A civilização hindi não convence. Suas cidades parecem ter recém-saído de uma guerra e um terremoto, simultâneos e arrazadores. Em toda parte, ruínas, devastação e miséria. Nada se salva. Nada pode ser feliz num país que cambaleia no limiar da fome e da morte. O hinduísmo reivindica muitos achados religiosos, mas ajudou a guiar a India a uma permanente hecatombe. (Alguém disse - acho que foi o Júlio - que o filme Mad Max poderia ser filmado na India, sem o artificialismo de cenários. Discordo. A India precisaria melhorar substancialmente para poder retratar, sem sustos, um mundo pós-hecatombe nuclear). 1.000.000.000 de famintos, morrendo entre vacas, porcos e macacos nutridos, mas intocáveis. Jurado de morte, o hindu existe, copioso. Para quê? No caminho entre Déli e Jaipur vi silhuetas de prédios corporativos em construção. O fog e a miséria do entorno conspiravam para fazer-me ver fantasmas bruxuleantes, que ardiam por entre esqueletos de futuras sedes de negócios. Não entendo os hindus. Após alguns dias em sua companhia, talvez não queira. Sua horrenda escalada no subcontinente não os favorece. A densa trama de pessoas desarvoradas compõe um quadro de repulsiva repetição. Na India, não há chance para o homem. Viver com menos de um dolar por dia. Há um sofisma irredutível nessa frase, que remete diretamente às mansões da morte. Alguns vêm à India para confirmar suas fantasias místicas. Plenos de fervor prévio, não enxergam o impossivel show de horrores que a Índia prodigaliza. Vacas disputando o lixo com mendigos; pessoas que fedem a urina e suor de meses; astutos porcos e patos esperando mendigos defecar para comer-lhes os excrementos. A civilização se contorce e produz sub-humanos. Não parece afetada pela dor que, impropriamente, sinto. Comerciantes, hotéis e empresas de turismo, todos respeitáveis, praticam respeitabilíssimos golpes contra seus clientes. Vendedores de qualquer coisa espreitam em cada esquina. Nuvens de indigentes se aglomeram a sua volta, varejam sua alma e dela extraem uma percentagem. Cada sagrada vaca injeta na atmosfera 600 litros/dia de metano, por meio de sagrados puns. Os indianos têm milhões de indolentes vacas, cheias de bernes, carrapatos e vermes. Após errarem pelas cidades, terminam carneadas por cachorros. Sua cozinha, um interminável desfile de migalhas de frango abusadas por pimentas ilícitas, completa o dissoluto quadro dessa civilização, que já foi mais bem representada. "Esta miséria", pensei, "é tão horrível que sua mera existência e perduração, embora no seio de uma civilização remota, contamina o passado e o futuro e, de algum modo, compromete os astros. Enquanto perdurar, ninguém no mundo poderá ser valoroso ou feliz". Déli, 5 de janeiro de 2006.