Antes da viagem, a prova. Nas dissertações solicitadas, mandei ver em termos pedantes e altissonantes, que deixaram tonta a professora. Infelizmente, o ter ficado tonta não a impediu de meter um "Zero, com louvor" no meu trabalho.
Hoje, até aula de fotografia já dei, em inglês.
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quinta-feira, 13 de dezembro de 2007
terça-feira, 2 de janeiro de 2007
Indonésia e idiomas
Quando a vasta Eurásia quer se
comunicar com a Grande
Austrália - que compreende as
hoje ilhas de Papua-Nova Guiné e Tasmânia, e a Austrália - utiliza
principalmente uma península (que ora se chama Tailândia, ora Mianmar, ora, ocasionalmente,
Malásia) e milhares de ilhas e ilhotas que às vezes aceitam o nome Indonésia.
Semelhante aos milhares de
ossículos que ligam a mandíbula ao crânio (e que se intrometem na orelha
interna), a Indonésia transmitiu os ruídos da Eurásia à Grande Austrália.
Há pelo menos 1 milhão de anos
(talvez 1,8) o homem habita Java, embora a atual civilização
tenha apenas 4.000 anos e seja originária de Taiwan. Há milhares de anos essa
civilização (chamada austronésia)
domina culturalmente o arquipélago indonésio, que também inclui parte de Bornéu, tomada à força na década
de 1960. A expansão austronésia está, de fato, entre os maiores deslocamentos
populacionais dos últimos 6.000 anos, comparável à substituição dos indígenas
americanos pelos europeus, a partir de 1492.
Bali, esse caldeirão de 140 por 95
km é uma ilha média, para os padrões indonésios. Tem vulcões bem comportados
(mas que às vezes protestam), muitas florestas, campos de arroz por toda parte
e uma superpopulação que fala uma das 374 línguas
da subfamília malaio-polinésia, que
a Indonésia divide com as Filipinas. Todas essas
línguas pertencem à familia austronésia, originária daquela província que se
rebelou sob Chiang Kai-chek em 1959, após o bandoleiro Mao ter tomado a China.
Indonésia, quarta nação mais
populosa do mundo, maior nação de maoria islâmica, é politicamente dominada
pela ilha de Java, e submete-se ao idioma Bahasa. Sobre idiomas, faço grandes
progressos. Bahasa? Aprendi "não vou comprar nada" e "tem ar
condicionado?". Os balineses falam língua própria (conforme já relatado),
que não me interessou. De qualquer forma, é no idioma
de Shakespeare as maiores conquistas.
I can speak english very well.
Pouco importa que eu seja a
única pessoa no mundo a pensar assim. Como se sabe, o Inglês (lingua germânica levada à
Inglaterra pelos ancestrais dos dinamarqueses, e que substituiu o celta em
alguns lugares), era uma língua de partículas auxiliares, quando colidiu com o
latim, língua franca e erudita à época: marcadores de caso, desinências et
cetera. E também não havia toda aquela patifaria de vogais com
problemas de identidade.
Hoje, cada vogal em inglês é
também todas as outras, o que me aborrece. Devo lembrar que são 18? Alguém
poderia argumentar que o Francês e o Português também têm seus probleminhas,
ambigüidades e caprichos, mas aqui estamos seriamente tentando falar mal do
Inglês, por ora. Se o leitor sente necessidade de falar mal de outras línguas,
diabos, quem te impede?
Seja como for, estou estudando
línguas antigas, particularmente da China e sudeste asiático (para situar o
leitor: é onde estou agora). Há uma família de línguas muito antiga, depois
subjugada pelo Mandarim, mas que
ainda conserva 6 milhões de falantes divididos em 5 línguas. Trata-se da familia Miao-yao.
Assim, temos os miaos vermelho, branco, preto, verde e azul. Quem fala miao
deve viver em pequenos enclaves, cercados por falantes de outras línguas, do
sul da China até a Tailândia, e alguém menos culto que o leitor pensaria que
essas populações foram jogadas por antigos e descuidados helicópteros aqui e
acolá, salpicando a paisagem asiática.
Tâmil, Malaio, Lao, Birmane,
Cambojano, Bahasa?
Nada disso. Agora, para se
dirigir a mim a leitora terá de valer-se de um tipo de miao.
Colorido.
sábado, 25 de dezembro de 2004
Kakadu Park
Uma coisa aprendi na Austrália: não falar mal dos ingleses. Em cada ônibus, avião ou bar, metade dos circunstantes será inglesa. Melhor não se meter com eles, leitor.
Não é que na minha excursão havia um inglês? O Parque Nacional Kakadu é o maior da Austrália. Um lugar tão grande... tinha um inglês por lá, of course. Quem contempla-lhe o rosto tem a nítida impressão de que, inadvertidamente, entrou no desenho The King of the Hill, com todos aqueles personagens anódinos e inverossímeis. Um rosto gigante, mal decorado por uma boca pequena, de onde saiam palavras bem pequenininhas.
Não se compreende a produção de um rosto com tão poucos e desusados traços. Censuraremos a natureza por tanta avareza? É possível um rosto com tanta economia de linhas? Essa mesquinhez me pareceu excessiva.
Se Nicolai Gógol precisasse descrevê-lo, é quase certo que diria:
“É de conhecimento geral que no mundo existem muitas dessas faces, na feitura das quais a natureza não quis dar-se muito trabalho, não usou nenhum dos instrumentos finos, tais como lixas, brocas e quejandos, mas simplesmente desceu a machadinha com toda a força: uma machadada, e saiu o nariz, outra, e resultaram os lábios; com dois movimentos de verruma grossa, fez os olhos, e soltou o resultado sem lixá-lo, para o mundo, dizendo: ‘vive!’” ¹
Não tenho a autoridade de Gógol, e jamais empregaria essas palavras, que poderiam ser mal recebidas pelos ingleses, um povo distinto.
Contudo antipatizei logo de cara com aquele inglês, de várias máquinas fotográficas (uma delas igual à minha), no que fui logo correspondido.
Vejam suas peripécias. À falta de cadeiras, ele puxou uma mesa, para sentar-se junto à fogueirinha após o jantar. Ali equilibrou primeiro uns 90, depois vigorosos 120 e, finalmente, todos os 190 mimosos quilinhos que Deus lhe deu. Como uma simples mesa suportou, não sei dizer. Sentados em cadeiras ou em mesas, ouvimos todos o guia tocar uma espécie de berrante do Território Norte: um cilindro que já deve ter sido de madeira e hoje é de fibra, de onde sai um som grave e enjoado. O sujeito passa horas entoando esse som, ininterruptamente, o que exige paciência.
No dia seguinte, subimos a uma cachoeira, coisa de uns 80 m de queda livre. O tal inglês ficou conversando com Esther (a holandesa) lá em cima; o sol nos presenteava com plasma ardente. Ligeiramente preocupado com os 60° C, que cozinhavam os miolos, fugi, para uma fonte d´àgua, para refrigerar as idéias. E foi lá que presenciei a seguinte cena:
vinha o econômico inglês, na fresca, sem camisa, quando engoliu uma mosca. Isso mesmo, uma mosca (não existe falta delas por lá). Após estremunhar e correr pra fonte d´água, ouvi esta fórmula, lacônica:
- Like a suicide!
Como um robusto inseto daqueles foi parar na pança do inglês, não posso dizer. Houve boatos de que todos aqueles galantes quilos premeditaram o acidente. Uma das versões dava conta que a defunta se aproximou imprudentemente da boca do inglês, sendo apanhada numa corrente de ar que a adentrava justamente naquele momento.
Não acredito nessa versão, e o que eu não faria para punir seu autor.
Solidarizei-me com o inglês, claro, tão logo pude controlar o riso, horas depois.
Ele aprontou outras, mas não seria justo com os súditos de Sua Majestade ficar detalhando essas histórias.
Darwin, dezembro de 2004.
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