terça-feira, 4 de setembro de 2007

Notinhas

1. Pilar da República, o STF aceitou processar 40 dos mais ilustres bandidos da nação. O comissário Josef Dirceu trabalhava uma "anistia" para si mesmo, que talvez colasse, num congresso que às vezes não se dá ao respeito. Assistimos ao milagre de um presidenciável se transformar em presidiável. Ainda que não cheguemos às condenações criminais, o comissário não estará na lista de elegíveis nas próximas eleições, o que não é pouca coisa.
2. Uma das pessoas mais tóxicas do mundo, Karl Rove deixou a canoinha de Bush. Logo seu chefe lhe fará companhia. Na América Central, um teatro infame: o latifúndio de Castro, com milhões de escravos, e o campo de concentração de Bush, separados por uma cerca. Fascismos possíveis pela indiferença com que o resto do mundo assiste ao exercício de tiranias assassinas.
3. Cortaram o benefício da mãe de Grazi. Acho injusto. Se todo o programa é destinado a criar dependência das esmolas do governo, por que cortar só a mãe de Grazi, uma mulher que dotou o mundo de todas aquelas alegrias?

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Crise

A crise aérea dura dez meses. O “governo” não mexeu um dedo, mas piscou recentemente, após aquela brincadeira envolvendo 200 almas. Detonaram a múmia da Defesa, que há tempos vem iludindo os coveiros. Nunca na estória destepaiz tivemos uma camarilha tão deslumbrada e obscena. Por inútil, chamamos “tudo isso que está aí” (e que ostenta uma estrelinha vermelha) de governo por mera cortesia. Agora, chega o reizinho mandão, a sacar o brigadeiro e enquadrar a Anarq. Efêmero, o “novo aeroporto” de São Paulo durou só dez dias, tempo suficiente para ganhar manchetes e comentários ingênuos (se alguém promete comprar um carro daqui a 15 anos, bem, desnecessário se ocupar da criatura). Vida longa ao Vergonhão Aéreo.
Lá lá lá.

terça-feira, 24 de julho de 2007

Hobby

Os adeptos de hobbies não medem esforços na hora de torrar fortunas em inutilidades. Ultimamente, venho investindo furiosamente em equipamentos fotográficos. Lentes? Compro como se o todo o estoque mundial fosse acabar amanhã. Já me ocorreu que não seria nada mal se, às vezes, eu aprendesse a fotografar. Nem que seja por engano. Alguém disse que, com filmes de 35 mm (o tamanho normal do fotograma), você precisa de uns 200 cliques para acertar uma foto. Sebastião Salgado revelou que precisa de uns 2.000. Com meus modestos e certeiros 1.000 cliques por foto, passei a olhar com desprezo para o pobre Salgado. Ainda é cedo para sair por aí frequentando cursos e quetais.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Penedo

De um lado, Neópolis. Do outro, Penedo, quatro séculos de história. No meio, o Velho Chico. Um casarão antigo me servirá de pousada, e amanhã saio para ver a foz desse observador privilegiado da saga e miséria do sertão. Pela manhã, registrei a escalada de mandacarus nos paredões que guarnecem as águas desse rio. Depois, do alto de Piranhas, vi a chuva encortinar o horizonte, cobrindo tudo de branco. O queijo de coalho, a carne seca e a mandioca esclareceram do que se trata. O sertão, as águas, a gente. É bom presenciar esse encontro.

Rio São Francisco

Canindé do São Francisco é uma cidadezinha às margens desse rio de grandes sofrimentos e muitas cicatrizes hidrelétricas. De minha janela vejo a mais recente delas, Xingó, muro insólito na garganta do rio. O vale abaixo abre-se majestoso. O rio segue apequenado, entre pedras. Acima da barragem, um lago de muitos braços, e canions areníticos graciosos. No sertão, à margem, a macambira ilustra agrestes tristeza e vigor. Águas verdes compõem o cenário dessa piscina espaçosa e índia. Encerro o passeio em Piranhas. Vou me mudar para a foz do rio.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Jalapão

Bomdiaêêê! Estou em Manaus, após uma semana no Jalapão. São rios e cachoeiras, dunas e chapadas a perder de vista. O cerrado em cópia vitoriosa. Eu quase não basto para tanta viagem...

sábado, 19 de maio de 2007

Inverno em Bonito

Novamente o inverno me pega em Bonito. Volto já a minha cidade. Abro os jornais. Vejam o que Josias aprontou desta vez:
Todo brasileiro em dia com suas obrigações fiscais deveria ter o direito de acompanhar o que é feito com o fruto do seu suor. Tomo por mim. Sempre que pago imposto, sou assaltado por dois sentimentos devastadores. O primeiro é a saudade. O outro é a incerteza. Dói-me não poder zelar pelo futuro do meu dinheirinho.
De minha parte, não penso no que o Governo faz com meu dinheiro (chega de passar raiva).
Prefiro ler os manuais de minhas máquinas fotográficas e lentes.

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Aviso

Deixarei de atualizar este blog diariamente (como tento fazer, quando a preguiça deixa). Agora, só em cybercafés. Considero muito mais honesto o gesto de encostar o cano de uma arma em nossas cabeças, com a exigência de nossas carteiras, do que a conta apresentada pelas companhias telefônicas.
Mandei a minha ao inferno (espero que faças o mesmo, prudente leitor).
Seja como for, quem quiser falar comigo não tem com que se preocupar. O lava-jato da esquina tem um daqueles enormes orelhões. É só deixar o recado com um dos moleques que ocasionalmente atendem as chamadas, estridentes. A cada dois anos eu passo lá para checar as mensagens (é minha versão de telefone molecular).

terça-feira, 1 de maio de 2007

Tom Jones, de Henry Fielding

Clarice Lispector traduziu e adaptou para nós Tom Jones, de Henry Fielding. Anotei, em suas páginas finais: “Os personagens trocam loucamente de lugar e status. Num momento, serão enforcados com todo o peso do mundo em suas costas. Minutos depois renunciam às aflições e se dirigem ao paraíso terreno, no exíguo espaço de meia dúzia de parágrafos. O capítulo final é uma montanha-russa de vertiginosos caprichos. Ninguém está seguro de sua sorte.” Deve haver resumos que façam mais justiça ao autor e à tradutora. Ofereço este. Campo Grande, 10 de abril de 2007.

terça-feira, 24 de abril de 2007

Ceará

1. Tatajuba. Disparo de moto por praias e dunas. Pela tarde encomendada, dunas e estirões infindos. Na mesa posta dentro da lagoa de Tatajuba, lagostas antes das lagoas de mais tarde. O leitor pode ter consigo ser natural o direito à lagosta grelhada pela qual te pediram 45, e você mandou 20 reais. As moscas daqui filosofam de outra maneira. Para elas a propriedade, muitas vezes, é um roubo (infelizmente, é o caso de lagostas grelhadas). Você pode pensar que as moscas não são muito dadas a filosofias, e provavelmente estará certo com relação às moscas de quase todos os lugares que merecem uma visita. As destas lagoas são extremamente versadas nesta filosofia em particular. Outrora escrevi, sobre moscas de outra parte do mundo: "Chegada ao Outback.
Vocês pensaram que as moscas eram assunto superado, não é mesmo? Pois elas estão aqui. Todas elas. E não adianta abanar. Se elas gostarem de vocês (elas vão gostar), abanar poderia magoá-las. Deixem que fiquem.
São de um tipo pequeno, bem pequenininho, e tenazes." 2. Jijoca. Chego a Jijoca, essa Jijoca não muito grande, não muito importante, sobre a qual adejam nuvens de chuva. O nome não é muito sóbrio, e o nome completo – Jijoca de Jericoacoara – só é bem manejado por bêbados. No dia seguinte, de quadriciclo, cavalos-de-pau entre dunas e praias. Criança tardia, ataco as areias creme; deixo-me informar pelas fofocas do vento, brincalhão. Abordo dunas e desço de suas encostas, só para, irado, cair em cima de riachos sossegados, em busca do mar. Esquecida, a lente da máquina alimenta-se de muita areia, lodo e algas. Pelo caminho, vilarejos; crianças na janela saudando a arruaceira tropa de portugueses, franceses, fluminenses e baianos. À tarde, o Preá, praia e vila de pescadores onde os robalos resolveram ser saborosos. A padaria Santo Antônio expende pãezinhos às duas da madrugada, e todos ali batem o ponto. Horário ingrato, encomendei os meus para as sete. Além dos pães, o café é primoroso. Jeri sugere respostas a certas perguntas: “que farei de mim neste ano?” ou “haverá um país?”. 3. Fortaleza. Paguei vinte reais para ver um forró. Outro tanto pelo jantar. Não houve jeito de o show convencer. O jantar também não. “Moça, me dá meu vintão?", cheguei a cogitar. Arre égua. Já o carneiro do Ordoni (acho que é esse o nome) convence. No lugar não há turistas. Só carneiros assados, deliciosos. Well...

sábado, 14 de abril de 2007

Depuração nas instituições

Três desembargadores, um procurador regional da República, delegados federais, agentes e funcionários públicos detidos. Está se tornando rotina.
Os mandados de prisão levam a assinatura de ministro do STF, devido a suspeitas que recaem (ou recaíam) sobre um ministro do STJ. Não dá pra dizer que são arbitrárias. De minha parte, acho que as instituições estão deixando de ser ficção.
Espero que as prisões, esse insuspeitado recurso didático, continuem.

Apagão aéreo

Crise agora se chama “apagão”: aéreo, logístico, da educação. Somos pródigos em apagões. A partir da crise do fornecimento de energia elétrica, no governo FHC, a imprensa não percebe o intolerável dessa palavra. Um caso de “apagão” estilístico, ora pois. Agora, os próprios controladores aéreos reconhecem o motim que, inadvertidamente, vêm impingindo aos pobres brasileiros (os pilotos dizem que os controladores mentem para eles, e inauguraram o gênero suicida de aproximação das pistas). Lembro-me de uma vez ter ficado quarenta minutos dentro de um avião em Campo Grande, sob a alegação de uma tempestade em Brasília, nosso destino. Quando chegamos, nem sinal de tempestade. Após muitos sobrevôos, pousamos. Da cabeceira da pista até o pátio, mais de meia hora, a passo de lesma. Os controladores nos fizeram perder mais de uma hora, ambos os aeroportos desertos (corria a sonolenta tarde de um domingo). Inicialmente, pensei que o motim era uma impostura dos controladores, sequiosos de se livrarem do bafejar dos milicos em suas nucas. Vou contar uma lenda. Era uma vez um país com economia e sistema político mal-resolvidos (nada a ver com o querido Brasil, o leitor fica advertido). Naquele infausto país, instituiu-se um ministério da Defesa, tal como em todas as democracias ocidentais. Os chefes das três Armas não gostaram. Daí, viram uma chance de ouro de desequilibrar o ministro da vez, e deixaram a indisciplina correr frouxa entre os controladores aéreos (em parte civil, em parte militar). O motim foi encorajado, pela via da omissão. A classe média, dormindo em aeroportos, rangeu os dentes. O chefe da Aeronáutica mandou prender os amotinados. Espertos, eles colocaram esposas e mães entre eles e as tropas. O presidente desautorizou o comandante da arma aérea, que ameaçou pedir demissão. A noite é má companheira de presidentes que demitem chefes militares, reza a lenda. Dias depois, os três comandantes militares “se convidaram” para falar com seu chefe teórico, que dera a contra-ordem. Quem eles querem para a Defesa? Ninguém? Nessa nossa lenda, os grandes negócios evoluem, numa conjuntura internacional que, por excelente, é inédita. Os players ganham dinheiro com uma intensidade indecente. Por outro lado, a mão “amiga” não empalma o poder civil em nenhum país relevante, nem mesmo em regimes políticos totais, como a China. Daí que ninguém sai ferido e as companhias aéreas faturam um dinheirinho a mais, com vendas “criativas” de assentos inexistentes. Não autorizo o leitor a extrapolar a lenda, menos ainda aplicá-la a países varonis, como o amado Brasil.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

STF e o direito de greve, continues

Os ministros Eros Grau, Gilmar Mendes, Celso de Mello, Sepúlveda Pertence, Carlos Ayres Britto, Carmem Lúcia e Cezar Peluzo votaram pela procedência dos mandados de injunção que atacavam a omissão do legislativo em regulamentar (mediante uma lei) o direito de greve do funcionalismo público. Joaquim Barbosa pediu vista dos processos.
Anotou Josias de Souza:
Foram proferidos durante a sessão do Supremo duríssimos ataques ao Congresso, que foi tachado de omisso. Gilmar Mendes chegou mesmo a dizer que a ausência de regulamentação da greve no setor público fez com que imperasse a “lei da selva.” Celso de Mello estendeu a crítica ao Planalto: “Revela-se uma típica situação de desrespeito à Constituição, por inércia imputável ao Congresso e ao presidente da Republica, pois que, decorridos quase 19 anos, não houve regulamentação, frustrando-se, mediante arbitrária omissão, o exercício do direito de greve”.
O mandato de injunção é um tipo de ação previsto na Constituição. Permite requerer ao STF que assegure o exercício de direitos constitucionais que, por falta de regulamentação do Congresso, não podem ser exercidos em sua plenitude. Como no caso da greve dos servidores públicos.
Agora, o Executivo finge que se mexe.