domingo, 22 de junho de 2008

Pará

Pará

O Egberto

Egberto, esse rapaz impreciso, descuidado dançava. Não era obeso. Tampouco se pode dizer que era magro. Passava pelas farmácias e pesava-se sem dor na consciência ou promessas de regime. Nem caluniava o órgão público de aferição das balanças. Nas minhas contas (e teremos de crê-las), Egberto era um rapazola nos idos dos 30 e alguns anos, sem neura nem psiquiatra. Também não consta fosse alcoólico, crente ou funcionário público. Era pacato, vivia de magro ordenado que não era tão magro assim, supria a feira, algum lazer, a escola dos filhos. Que tinha Egberto, para merecer algumas linhas? Egberto dançava. E não sabemos desde quando. Dançar não capitula crime, não ofende nem acende vinganças. Portanto não sabemos desde quando ele se encontrara com os requebros, que, no caso dele, não eram indecentes. Quase não atingiam a escala do sensual, tão madura e sem culpa era sua dança. O que impelia Egberto para o delito, já mais de uma vez condenado pela esposa? Num povo pândego e prazenteiro como o brasileiro, que mal haveria no gingado inocente e, por vezes, inconsciente, do Egberto? É preciso que se diga: em bailes e ocasiões propícias, com a amada esposa dançava Egberto, para o divertimento conjugal. Nada além de uma dança, a comum dança de salão sem exibicionismos. Não despertavam inveja a ninguém. E então, como é o negócio da dança? Bem, Egberto, ao sentir-se (ao sentir-se, sem os abomináveis complementos que nos condicionamos a acrescer, sem razão) dançava, e nessa dança sentia-se (complemento não precisa). Quando só, sem doença, dançava. Quando triste, sem motivo, dançava. Mesmo quando recolhia as compras à volta do supermercado, sem testemunho ou remorsos, dançava. Egberto, essa dança. Quando alegre, se as companhias permitiam, dançava. Egberto não era mulherengo. Os maledicentes afirmam que jamais conheceu outra mulher, após o casamento, o que eu não confirmo nem nego. Egberto, inocente, de tanto amor por sua mulher, dançava. Às escondidas. Egberto, como resolver-te? Espadanando surpreendia-se Egberto, sem querer, sem poder, chalaceando o duro andar. Oscilava músico interno entre os egbertos latentes, semi-assumidos, hemi-assimilados, em direção ao Egberto, conhecido cidadão de uma cidadania laica. Havia veneno no olhar da esposa? Não creio. Apenas que o eterno bailado adernando aquela massa de corretor imobiliário não era o normal ponto de união de um casamento quanto ao mais harmônico. Como detê-lo? E havia necessidade? Também Teresa não sabia de pronto responder. Certa noite, desce Egberto à razão, com estranha aura de espanto, maravilhamento, incredulidade: havia sonhado. Com música, um concerto nunca objeto de contrato. No palco desenvolvia-se um chou como que de um AC/DC em ponto de fusão com Pink Floyd e uma clássica orquestra, secundados por um Kiss-Queen, aparato sonoro vastíssimo, num palco em domínios de arrostado Zeppelin. A certa altura, a guitarra começou o terrível arranjo, longo, ravélico, que anuncia ventos de helicóptero. Ao longe ensaiavam, alçavam homens vietnâmicos ao céu escanhoado por luz estimulada. Súbito deu-se autorização e a aproximação tornou-se inevitável. Notas perdiam-se, ingressavam os demônios crocitando seus rotores. Iroquois seguidos por Black Hawks garroteando sob estrondo tribal a porta procênica. Soubemos que também não tocariam o palco. Desovaram seus rebentos a poucos metros da incrédula claque, havia perigo. Baby-guns acariciavam o solo, também ouviu-se, embora o tablado permanecesse firme ao som do melhor dia de nossas vidas. Estrias de arrepios coletivos varavam a platéia, conduzindo-se ionizada sobre as cabeças. Como começar o espetáculo? Não o presenciei do início (cavalarias aladas confirmavam o perigo). Talvez tenham principiado pela derrubada de mais um tijolo do muro, talvez um tanque tenha expulsado um violinista pelo nariz, e este tenha permanecido em longo solo de resistência até que o canhão o fez desaparecer sob o fogo de Dante (muitas coisas são possíveis). Veículos leves adentraram como cães ligeiros, perfumaram com ondas de rádio-ataque a espinhosa caixa cênica. Muitos se profissionalizaram. Uniformes eram verdes por todo lado, e havia demasiado munição anti-pessoal. Teriam minado todo o palco? Não me arrisco a dizer. Penso que houve correntes de generais cruzando os universos de palcos possíveis com essa granada nas mãos. O reconhecido sino do AC/DC compareceu numa versão maior, tomado em empréstimo à comuna de Sarajevo, com badaladas embicando troares lanhosos, e acho que foi rendido por um dos tanques retintos de pisar músicas. Guitarras começaram então solos muito além do princípio dissonante, evoluindo para uma competição férrea, estabelecida, entre seus vários distorcedores, cada qual com seu timbre maciço, brioso, escatológico. Discursos múltiplos, concorrentes, proferiram, sem que uma mensagem se definisse. Solos fremiam, urravam, fendido que estava o ar, militarizado. Egberto conduzido queria saber, queria ver, e ouvia a precipitação da platéia. Quem teria reunido tão formidável mó? Haveria guerra? Onde os planos, as partituras, os mapas? Pausas se quiseram no contemplar do nosso herói, enquanto baixos de alta tonelagem discursavam duros, intransigentes, a fala algo blues que as demais cordas a seu tempo arengavam: o que o estaria condenando a uma terra tão conflagrada? Como sobreviver, se ao par de tanto riscos, a multidão a cada momento dava provas de estar mais inclinada para a dança? Tinha certeza de que não poderia sair vivo daquele concerto. Até então não lhe ocorrera que algo como um hipnotismo coletivo poderia facilmente pôr a perder o que pensara em construir ou pelo menos manter: a própria vida. Por fim tomaram todo o palco. As últimas dúvidas dissiparam-se. O derradeiro número começou como os demais, aos poucos, não se sabe quem, por quê. Apenas começou, e logo estabeleceu-se uma aragem de som profundo que ascendia a escala decibélica sem modéstia. E já qualquer orquestra estava a somar esforços com os metais, a cordas de qualquer banda, e a percussão parou de brincadeira (até então abstivera-se de solapar os limites do ouvido humano). Agora as coisas caminhavam sem detença para uma explosão final e, enquanto esta não se dava, cordas de todo calibre e timbre se estavam reunindo em algum ponto do roteiro da guerra, violinos, craviolas, violões e guitarras de várias espacialidades; celos, baixos analógicos, e a percussão. A começar de pianos-fortes (que ninguém sabe quem trouxe), a percussão se prontificou a demolir o planeta de uma vez. Quantos ninhos de bateria havia no palco, tambores japoneses, pratos de todo raio, caixas chinesas, qualidades de toda monta de membranas fibrosas ou metálicas, ninguém sabia, e entraram a percutir solos alucinados, enlouquecidos. Por fim reunidos se fizeram tremendos, com falas gritadas, exasperadas, acordantes, dissonantes, replicantes, até atingirem a escala do inefável, maciços deslocamentos de ar, a força (proibida para a espécie humana) dos decibéis a arrancar elétrons de suas órbitas normais, os cérebros cozinhando em ressonância nas ondas encapeladas maremotantes (estava próximo o fim). Como o hipopótamo cor-de-rosa de Machado, exatamente em seu estertor, outorga o trabalho onírico a Egberto uma transmutação, e a banda, a multidão, moldam-se em lençóis, em penumbra, na voz da filha, que a essa hora sem dançar cantava.

sábado, 21 de junho de 2008

Jalapão

Foz do Iguaçu

Uma sátira

I. Divulgo agora, talvez na esperança de compartilhar com pessoas de conformação moral e espiritual mais elevadas que eu, essa experiência profundamente perturbadora. Divulgo, talvez, para livrar-me desse peso; para tentar ficar em paz com minha consciência. Durante muito tempo não consegui dormir, após tomar conhecimento dessas contundentes anotações. Hesitei ao longo de alguns anos, talvez à espera de vir a compreender seu significado. Conheci Winston na faculdade. Era um cara comum, se o termo não for ofensivo, conquanto ostentasse orgulhosa inteligência. Aos poucos, Winston se revelou uma pessoa amistosa, afável, de intelecto irrequieto. Eu diria que nos tornamos amigos. Não sei se ele consentiria essa afirmação, algo pretensiosa. Se mais não digo, é porque nada de notável havia nessa amizade, exceto a visível superioridade de Winston. Ele dirigia as conversas, brincava com idéias, doutrinas. Ciências aplicadas, fundamentos de filosofia, matemática, astronomia. Discursava, defendia e atacava posições. Apaixonava-se por idéias e, quando finalmente eu supunha compreendê-las, elas já tinham caído em desgraça, ou estavam esquecidas. Eram monólogos, às vezes áridos, às vezes acalorados, e acontecia de eu estar por perto, ocasionalmente. Eu ouvia, tentando aprender, esforçando por esconder minha ignorância. Faço aqui a divulgação desse libelo contra o cristianismo, e as religiões em geral. Trata-se de uma sátira, escrita sem pretensões literárias, para divertimento de seu redator, suponho. Agora que se passaram tantos anos do desaparecimento de Winston, e como é voz corrente que ele está morto, faço a divulgação da única e discutível herança dessa esfuziante mente. De minha parte, não acredito na morte de Winston. As circunstâncias de seu desaparecimento, na ilha sul da Nova Zelândia, a extensa viagem à Ásia, tudo leva a crer que Winston planejou mais uma patranha, e esteja alocado nalgum ponto da orla desse oceano que ocupa metade do globo. Seu corpo nunca foi encontrado. Seus bens (por volta de duzentos mil dólares) foram liquidados meses antes da viagem e convertidos em moeda americana. Após ingressar regularmente na Índia, fez uso de passaportes falsos, como se descobriu numa extensa investigação. Passou ao Paquistão, depois Java, Bali, Sumatra, e outras ilhas da Indonésia, Timor Leste, Nova Guiné, Austrália e Nova Zelândia. Não é impossível que esteja, neste momento, num barco de pescador, a caminho de sua milésima ilha nesse largo oceano. Desapareceu no dia 6 de maio de 2002, nas montanhas que vigiam Queenstown. Foi avistado pela última vez se dirigindo para Milford Sound, de carro. Para mim, que encontrei guarida na fé cristã, é penoso percorrer as linhas desse relato ímpio. Alguns poderiam enxergá-lo como uma pequena diabrura, produto de uma alma sequiosa de encontrar algo em que acreditar. Às vezes penso sentir pena de seu pobre autor, mas quem sou eu para julgar o imprevisível vulcão de idéias que assolava, a intervalos, aquela mente? Tremi ao pensar no destino dessa infeliz alma. Se Deus, a quem ele despreza, não se cansa de demonstrar misericórdia, também é um Deus de retidão e justiça. Nem me tranqüiliza pensar que Deus tem um plano para Winston: temi pela força necessária para demovê-lo de sua incredulidade zombeteira. Não espero compreender a mínima fração da mente de Deus, mas sei que tudo que Ele faz é incensurável e bom para nós, que estamos a sua mercê, saibamos ou não. Tampouco tentarei esboçar uma resposta aos injustos ataques desferidos contra o sentimento religioso, e a fé cristã. Por várias razões: a primeira é que a sátira foi construída de forma despreocupada, sem qualquer apoio científico ou filosófico. Logo, não requer resposta; a segunda é que a sátira é inexpressiva literariamente, como o próprio autor admite, o que dispensa qualquer réplica; a terceira (e verdadeira), é que não me acho capacitado a debater o que foi escrito, seja qual for sua real envergadura e significado. De Winston, nascido e criado em lar piedoso, filho de praticantes do protestantismo, talvez possa ser dito: “O que é curioso é que, divorciado da teologia calvinista, ficou sendo um calvinista sem teologia, isto é, um homem com todos os prejuízos dos sectários dessa fé, tormentos e escrúpulos de consciência, aversão ao catolicismo, intolerância, repugnância pelos judeus, apesar de parecer mais um profeta do Antigo Testamento do que um adepto cristão”, duras palavras aplicadas a Carlyle. Daí, paradoxalmente, emerge a necessidade de publicar essa sandice: para que pessoas mais bem aquinhoadas possam entender e refutar quanto foi dito, se entenderem necessário. Não digo isso em demérito ao autor, não. Passei muitas noites em vigília, invocando Deus, rogando a sua inesgotável benevolência para com os homens carecedores do dom da fé. Então percebi que devia publicar a sátira, como forma de alertar as pessoas, nesse iludido início de século, de que o discurso científico ou filosófico não são panacéia para todos os males do homem. Existe um espírito, sustentáculo do livre-arbítrio, insuflado por Deus, insuscetível de apropriação pelo cálculo. Ele se alimenta da virtude que emana de Deus, de sua luz. O amor de Deus, seja qual for o nome Lhe for dado, flui generosamente para a humanidade, salvando-a de si mesma. Fórmulas matemáticas são boas aproximações descritivas do mundo extensível; teorias científicas são ferramentas importantes para se pensar a matéria, sua constituição e comportamento, mas nada disso provê o homem da matéria-prima da vida: o amor divino. Jamais alcancei a natureza e os fundamentos das idéias que davam entrevista naquela mente. Mesmo agora, é com assombro que corro os olhos pelo manuscrito que ora apresento. “Ensaio. Concebo a idéia. Não consigo saber como um portento desses me ocorreu, mas o sólido fato é que estou prestes a declarar uma nova utopia aos homens. Bilhões de seres humanos darão a vida defendendo essa minha idéia, enquanto outros bilhões se lançarão como demônios sobre quem a professar, e rios de sangue correrão na batalha pela verdade. Não sei como expor isto que é mais que um conceito, um sistema filosófico. É uma nova forma de encarar a vida e a morte; uma alternativa a diversas ordens de -ismos; às crenças humanas em geral. Seu enunciado ainda não formulei; sua mensagem central luta por abrir caminho em minha equívoca consciência. Suas mensagens auxiliares também estão em gestação, e receio que nunca serão apresentadas ao mundo. Entanto adivinho quão essencial é essa fortuna, e já vejo bilhões de crânios pulverizados por defenderem pequenas heresias, versões ligeiramente amaneiradas dessa fecunda idéia, por outros bilhões de seres ofendidos em sua pureza e ortodoxia. Vou apresentar uma idéia, revolucionária como algumas outras, radical como poucas. Uma idéia seminal, violenta: um insight fundamental. É provável que alguma divindade entre como ingrediente, e a teodicéia exija antagonistas rubros, sagazes e falcatos. Apraz-me que o pólo divino seja ambíguo, e que o demoníaco seja desenhado com algum grau de definição moral. Não sei se adoto deus único, formado por quatro partes indissociáveis, ou deuses múltiplos, funcionando em regime de plantão. Um deus único é conceitualmente viável, mas veja-se a tragédia do judaísmo-cristianismo: começou com Jeová “Eu Sou o que Sou”, depois foi incorporando Jesus, e o Espírito Santo, numa confusa povoação do estado divino. Um deus formado por duas pessoas é arranjo logicamente possível, mas isto é bem pouco para os nossos propósitos. Quem acreditaria em um deus dual? Um deus formado por duas partes, ainda que indissociáveis, levantaria suspeitas de impasse, e suscitaria a noção do duplo, que tanto horror traz à limitada mente humana. Já um deus ternário apresenta diversas vantagens. Não seria facilmente reduzido a dois pólos, nem teria contra si a maldição do número par, uma classe de número insuficientemente mágica, como se sabe. Também contaria, o seu resultado, com os favores de uma dízima periódica, irracional e infinita, esses últimos atributos encontradiços em deuses, arcanos ou modernos. Por outro lado, se é vantajoso ser trino, quando se é Deus, surpreendem-se inúmeras virtudes em ser quaternário. Conheço deuses do Oriente e do Ocidente. Aqueles tendem a ser numerosos, ao custo de uma sensível diluição de seus poderes sobre os hospedeiros. Estes conhecem arianismos, austeridades e paternalismos, no sentido que um urso polar emprestaria ao termo. São muito inclinados a sentir ciúmes. Todos eles mandam matar com facilidade; presidem guerras com alegria, enforcam crianças e queimam as colheitas dos ímpios, em nome do amor, da bondade, da edificação humana. Sobretudo do amor. Com quatro seres informando nosso deus, poder-se-ia designar um como guardião de cada dimensão conhecida: as três espaciais e a temporal, atendendo-se às exigências das relatividades especial e geral. Quatro também são os pontos cardeais, e o crente saberia que Deus é onipresente. Quatro, ainda, são as categorias apriorísticas de Kant: quantidade, qualidade, relação e modalidade. Isso deveria bastar para revelar a insondável profundidade do número escolhido, sua feliz adequação à composição divina. Com quatro entidades na Unidade, a eventual crucificação de um deles – e deuses são especialmente suscetíveis a assassinatos conspícuos e a extinções provocadas pelo ingrato esquecimento – não desfalcaria de forma comprometedora a divindade, que três remanesceriam, compondo um verossímil colégio de desígnios a governar, com alguma plausibilidade, o mundo. Deuses são sinceros nos assassinatos, posto que barrocos: às vezes como algozes, às vezes como vítimas. Não há deus que não se jacte de perpetrar ou sofrer periódicos massacres. Que culto coletivo estaria completo sem um revigorante banho de sangue, um implacável pogrom contra uma minoria (os portadores de sardas, os leitores de Playboy, por exemplo)? Com Tolstói, dir-se-ia que todos os agnósticos são muito parecidos entre si. Já os crentes, cada qual tenta ser o mais parecido com as idéias a que nomeia Deus. Os cínicos argumentariam que os crentes são preocupantemente parecidos com o oposto das qualidades divinas em que fingem acreditar. Este não é um tema fácil. Enfim, quis acreditar um deus que, ao contrário dos deuses em uso, públicos ou secretos, pudesse ser intuído de forma não-contraditória. Também não me decidi se prestigio a igualdade, a caridade, ou a supremacia do mais forte, como áreas de concentração dessa minha teoria. Se Wittgenstein (II) elegeu a inconsistência da linguagem; Schopenhauer (aos 31 anos) a vontade e sua representação; e Nietzsche (não sem antes detonar a “vontade” em Schopenhauer) a vontade de potência como contribuições filosóficas fundamentais, não vejo por que não possa apresentar essa minha idéia, a um tempo religião, sistema de poder e princípio de sólidas bases científicas. A primeira, reivindicada pelo socialismo e suas atrozes variantes, pugnava que os seres humanos são sobretudo iguais, querendo nos fazer acreditar que disso derivaria um sistema econômico viável. Os regimes políticos daí advindos provaram ad nauseam a falácia da igualdade, da maneira mais inimaginável. Erigiram-se, invariavelmente, regimes brutais, em que as pessoas não passavam de insumos baratos e irrelevantes. O estado comunista usou, moeu e descartou seus súditos, enquanto o tirano de plantão vivia de expurgos cada vez mais surreais. A história desse delírio coletivo ainda está por ser detalhada. Pretenderam inúmeros cristianismos, a maioria sediada em alguma versão de textos alegadamente sagrados, que a caridade é, entre as medidas humanas, a mais excelente. A partir do original caridade, erigiu-se o amor em pedra de cantaria desse sistema religioso. Caridade (ou amor) é apenas iuma ideia utilitária, aposta excessivamente óbvia para qualquer profeta sequioso de arrebanhar asseclas. Cristão seria aquele que ama o semelhante, que doa desinteressadamente, não revida agressões, despreza a riqueza e não pretende o poder, entre outras angelicais normas de conduta (ou, então, o Novo Testamento é um vasto sistema de sarcasmo e duplilinguagem). Desnecessário dizer, não tenho visto ser assim. Mas, diriam, se não temos flagrado muitos cristãos amando, ou, pelo menos, não assassinando descaradamente o amigo, o irmão, em troca de algumas moedas, isso não invalida o contributo de Cristo, que sofreu na cruz para nos salvar. Não me sinto inteiramente salvo, e não consigo invejar os remidos. Diariamente eles cometem alguns crimes contra o próximo, antecipadamente perdoados por um Deus de conveniente misericórdia. Está bem estabelecido que Deus é sempre bondoso conosco e nossa família, mas será que devia demonstrar tanta tolerância para com os ímpios? Jorge Santayanna, poeta e filósofo, acreditava que o cristianismo é má interpretação literal de metáforas judias. Ele deplorou sua fé perdida, “esse esplêndido erro tão afim com os impulsos e ambições da alma”. Eu diria que os impulsos e ambições da alma nada têm com as covardias e farsas cristãs, conforme o pressuroso Nietzsche. Vejamos como a classe média brasileira está sendo instruída no tema. A citação é de uma revista semanal: 'A doutrina que se foi cimentando nos primeiros séculos da Igreja ensina que Cristo tem uma dupla natureza: é integralmente divino e integralmente humano. É divino porque é uma das três formas de Deus (...) e, como tal, existe desde antes da Criação.’ Mais à frente, reproduz-se esta notícia: ‘Os seguidores de Maomé não acreditam que Jesus seja o Filho de Deus, já que o Corão diz que Alá não gerou nem foi gerado, e repudiam a Santíssima Trindade, que violaria o conceito da unicidade de Deus. Mas consideram Jesus um dos grandes profetas e admitem a concepção imaculada – Maria teria engravidado de Cristo, ainda virgem, por intercessão divina.’ Com exceção dessa última parte, acho que os muçulmanos estão com a razão. Os gulosos cristãos, não se contentando com ter em Cristo um dos mais destacados procuradores de Deus, aventuraram-se a decretá-lo seu filho único, membro pleno do board que aporta sarjetas ou bilhões de dólares ao destino humano, num gigantesco bingo. Reservo-me o direito de não endossar a concepção virginal e a volta de Jesus, temas assaz tormentosos, áridos e de difícil comprovação, após vinte séculos mentirosos. Outro ponto de contato entre as minhas convicções e as dos maometanos envolve um pequeno detalhe do cristianismo, uma coisinha de nada: a crucificação. Sabe-se quanto Jesus sofreu na cruz para tornar-nos novamente aceito aos olhos de Deus. Suspeito, contudo, que a crucificação não foi dolorosa o bastante para expiar, verbi gratia, meus pecados, horrendos. Tivesse o redentor experimentado um câncer fulminante num filho; tivesse mergulhado num Alzheimer profundo; incorrido no destino inexorável de milhões que dependem da saúde e previdência públicas brasileiras, aí se poderia falar num resgate completo das nossas ofensas. De molde que, como muitos não-cristãos, acredito que o episódio da cruz foi um grande mal-entendido. Parece que aos judeus também repugna a idéia de Deus sacrificando o próprio filho, ou que um inocente deva morrer pela conduta alheia. Se bem que as objeções hebréias são inconsistentes, tivermos em mente o simulacro do sacrifício de Isaque por Abrãao. A religião foi a mais forte das paixões de Kierkegaard, e preocupou-o singularmente esse sacrifício. Sem conhecer detalhes dessa preocupação, arrisco dizer que o episódio, puramente literário, é outra das teratologias bíblicas, compradas sem critério no supermercado de idéias religiosas de então. Tudo que Jesus disse, e está na Bíblia, disse-o quase cem anos depois de morto, o que apenas prova a excepcional indústria de seus diligentes médiuns. Se eu deixar para registrar observações sobre um artista, um político ou uma idéia qualquer na semana que vem, ou, melhor ainda, no ano que vem, é provável que um ataque fulminante venha a se parecer com um pequeno panegírico, ou que loas incondicionais e sinceras soem como agressões coléricas. Mas eu não sou divino, deve ser isso. O fato notável é que, contemporâneos a Jesus, existiam milhares de profetas pregando nos desertos estéreis do oriente médio, Índia, China, Golfo do México, Califórnia, Peru, e na Mongólia. É possível supor um profeta pataxó fazendo peregrinações ao Monte Pascoal, bradando contra o cinismo oportunista de pajés bem estabelecidos no sistema político da tribo, e anunciando boas-novas, alimentos para os pobres e carregamentos confiáveis de finas ervas. Uma abordagem estocástica da história é suficiente para mostrar que, entre milhares de profetas, todos filhos de Deus ou seus bastante procuradores, qualquer deles tinha chance de passar à história como proprietários de verdades eternas. Aconteceu ser um tal Jesus. Poderia ter sido João Batista, ou um egípcio qualquer, um persa, um txucarramãe, um maia. Bastaria posicionar-se na orla de um grande império decadente, e ter um bocado de sorte. O lado excitante disso é que não sabemos se, no futuro, centenas de bilhões de pessoas estarão dando a vida por algum mendigo que hoje perambula pelas ruas de São Paulo, pregando uma nova doutrina, que só será compilada, compreendida e purificada muitos anos após sua morte, conquistada num hospital conveniado ao Sistema Único de Saúde. Tudo sopesado, fico com a firme impressão que Jesus encarrapitou-se num madeiro, adivinhando uma vaga no Olimpo, só para sacanear a nós, ateus de boa vontade do Século XXI. Winston.” Esse manuscrito foi mostrado para o padre Júlio. Padre Júlio deixou a batina há muito, para se casar, mas mantém vida piedosa. É uma das pessoas mais inteligentes que conheço, e dava aula de teologia na faculdade em que eu e Winston estudáramos. Tem, portanto, credenciais para opinar sobre o relato. Um pouco constrangido pelo que leu, padre Júlio, judeu e católico, entregou-me a seguinte anotação, que utilizo para finalizar estas linhas: “Chocante. Winston desfere golpes contra tudo em que as pessoas sensatas acreditam. Apesar disso, sustento a inocência do autor ou, pelo menos, a inocuidade de seus ataques. Vejamos a superficialidade, a ligeireza desses desatinos: ‘Todos eles mandam matar com facilidade; presidem guerras com alegria, enforcam crianças e queimam as colheitas dos ímpios, em nome do amor, da caridade, da edificação humana. Sobretudo do amor.’ Com ênfase doentia, Winston afirma, mas não prova. Não lhe ocorreu que a imputação de semelhantes crimes não pode ser assacada contra Deus? Outro parágrafo: ‘Deuses são sinceros nos assassinatos, posto que barrocos: às vezes como algozes, às vezes como vítimas. Não há deus que não se jacte de perpetrar ou sofrer periódicos massacres. Que culto coletivo estaria completo sem um revigorante banho de sangue, um implacável pogrom contra uma minoria (os portadores de sardas, os leitores de playboy, por exemplo)?’ Está provado que Winston sequer pretendeu criticar as religiões. Parece que o propósito foi mesmo o de provocar o leitor, mediante chocarrices. Trata-se de mais uma emulação intelectual desse aventureiro do pensamento. Uma aventura incômoda, é verdade, mas que sequer merece reprimendas, se pensarmos na irrisoriedade dos argumentos. Sua ferocidade, fingida, não deve causar senão sorrisos indulgentes. É assim que vejo o manuscrito do Winston”. Creio ser justa a crítica; algo condescendente, mas sincera. Eis tudo. II. Um segundo texto me chegou às mãos, e ele é difícil. Não tive oportunidade de mostrá-lo ao padre Júlio. Pretende-se um breve comentário à obra de Sören Kierkegaard. É perturbador. “O cristão Sören Kierkegaard apresenta interessantes contribuições filosóficas ao cristianismo. Ou muito me engano ou seu pensamento, compendiado por Borges, é um consistente programa para o agnosticismo: Evangélico luterano, negou os argumentos que provam a existência de Deus e a encarnação de Jesus, que julgou absurdos do ponto de vista racional, e propôs para cada crente um ato de fé individual. Não aceitou a autoridade da Igreja e escreveu que cada pessoa tem o dever de optar. Para ele, não há argumentos que provem a existência de Deus; não há arrimo racional para a encarnação de Jesus. Vamos admitir: o homem é honesto. Essas ‘provas’ vinham definhando desde Kant, Hume e Locke, já um tanto livres da tutela clerical. Proponho, em face das documentadas imposturas das religiões em geral, e da cristã em particular, um ato individual de repúdio à fé. Proponho a opção de cada um por nenhum deus, que todos se mostraram ociosos solecismos. Quem se der ao trabalho de Edward Gibbon constatará a mutação de idiomas e ídolos a que chamamos história. Quem puder aceitar que os fatos da história são perecíveis não há de se importar com a superação da Trindade. A quem não puder renunciar ao suborno do céu, apresento esse deus ora aprimorado: quatro entes integrados na fraternidade. Ele dispensa a fé, por conformar sua natureza e verdades aos fatos empolgados pelo conhecimento científico, sem perder sua haura de glória, sua autoridade. Não haverá fé. Não se concederá o benefício da dúvida a entidades perjuras. Se esse deus disser, por exemplo, que a densidade do universo é maior que o valor necessário para a contração gravitacional, a prova científica de um universo aberto será suficiente para sua incineração e eterna desonra. Se, por outro lado, suas verdades, mesmo concordantes com a colheita empírica de fatos, tenderem a doutrina, qualquer que seja seu teor de humanismo, esse só fato o fará merecedor de todo repúdio, de toda traição humana. Não haverá doutrina. Não se permitirá que humanos terceirizem pensamentos e afetos. Cada qual deve sentir por si mesmo, e ninguém terá permissão para colonizar a mente alheia, mesmo que para livrá-la de suposta ignorância. Ficam expressamente abolidos, enquanto perdurar a humanidade, o pecado e sua horrenda expiação; as oferendas, e seu comércio; a intermediação de espertos e santos; a anuência a toda forma de violência, mormente as praticadas em nome do amor. Não haverá guerras. A democracia não mais será imposta pelo genocídio. A filantropos como Hitler e Bush não se concederão sociedades flácidas, crédulas e ingênuas. Convida-se a todos para gentilmente refletir sobre as riquezas humanas: tolerância e edificação solidária do homem, sem ilusões. Não haverá proselitismo. Inexistem boas novas que não sejam patrimônio prévio de cada homem. Esses alguns pensamentos a propósito da crítica de Sören Kierkegaard ao cristianismo.” O texto, digitado em tipos verdana tamanho 14, contém as linhas gerais do pensamento de Winston acerca da religião anunciada (com sarcasmo) no primeiro texto. Não está assinado, mas entranha-se logicamente com a sátira, embora a negue e por ela seja negado parcialmente, como todo texto complexo. A noção de texto definitivo não pertence senão à religião e ao cansaço, diz Borges, acho que com essas mesmas palavras. Kipling observou que ao escritor é permitido urdir fábulas, mas que lhe é vedado saber a moral da história. Winston, creio, não desmente essa tradição. Carlos. 2.5.2006.

Muitas histórias

I.
Conheci centenas de pessoas em minhas viagens. A maioria se tornou amiga, embora só em alguns casos eu tenha anotado o endereço. Passados tantos anos, ofereço estes relatos. Ignoro que partes são verdadeiras, quais exigiram mais da imaginação.
Vou começar por Yvonne, moça mal saída da adolescência. Yvonne tem o mais doce muxoxo já visto. Seus olhos são azul-turquesa, adolescentes, maravilhosos. A missão daqueles olhos é obrigar nossos corações. Dormimos juntos. Isto é, eu no meu saco de dormir, ela no dela e, ao lado, todo o distinto grupo que me acompanhou pelo Red Centre (o interior da Austrália, seus desertos). Nunca havia dormido assim, com estrelas por teto e limite. E que estrelas! Pareciam tagarelar momentosas notícias, e o que uma confidenciava, as outras logo refutavam, favorecendo suas próprias versões de um universo ilimitado. Não acredito em estrelas, com a possível exceção do sol, que é sempre correto em seus pronunciamentos. Com serem dúbias e oscilantes, elas costumam não concordar entre si, o que mais evidencia os males da multiplicação desarrazoada. Em vão esgotei meus números em busca de uma cifra: as estrelas não se economizam. O leitor deve se lembrar que eu só sei contar até 12 (embora seja capaz de intuir o 20), como relatado alhures. É pouco provável que conseguisse sindicar o céu, suas estrelas bastantes. Dormi, com Yvonne ao meu lado, e isso me basta. As noites no deserto podem ser frias, alertou Borges. Aquela foi um fogo (o que atribuo à conjunção de astros), e me desesperei de meu saco de dormir. Naquela noite, Yvonne me defendeu do brilho intolerável das estrelas. Alcancei dormir, e em meu sonho Yvonne narrava para mim a poderosa fabricação de estrelas azul-turquesa. A alemã careca. Não sei seu nome. Era do mesmo país da doce Yvonne, de vasta cabeleira em vivas chamas avermelhadas. Não quero mais lembrar de Yvonne, que me custou muitas noites e alguns delírios. Pois essa alemã era careca, sem qualquer bom motivo. Sua enorme presença impôs um dilema: uma mulher pode ser careca e boa, simultaneamente? (Sim, porque a bondade das pessoas também me ocupa). Receio que não. Arriscaria dizer que, sendo meio careca, será no máximo meio boa, não muito mais que isso. Indiferente a esses cálculos, a alemã me distinguia com olhares que não é honesto pormenorizar. O motorista do deserto. Também não sei seu nome. Neste relato, será prudente omiti-lo, de qualquer forma. Era um sujeito branco, orgulhoso do aspecto “que me leve o diabo”: cabelos desgrenhados, roupa amassada, camisa aberta, barba por fazer, fala de Pato Donald. Não quero me ocupar dessa criatura, que não está à altura da Austrália. Basta dizer que quebrou o ônibus no meio do deserto e lá ficou, aparentemente esperando uma intervenção divina, sem qualquer resultado. Turistas menos dóceis o teriam emparedado na primeira meia hora de imposturas. De outra feita ele desligou o ar condicionado do veículo, seguindo ordens de origem viciada, e apropriou-se de uma garrafa de vinho alheia. O tipinho não vai longe, já se vê. Melhor deixá-lo esvair-se em sua insignificância. Harvest Harvest desmente o lugar-comum de que não pode haver americana linda e simpática. Ou é linda, ou é simpática, of course. Claro que é proibido que seja linda, simpática e inteligente. Harvest nasceu no Maine, extremo norte da América, filha de um farmacêutico. Nos encontramos num ônibus que ia para o parque nacional Torres del Paine. Por seu jeitinho, pensei fosse argentina, ou chilena. A impressão inicial foi reforçada, quando reuni coragem para puxar conversa. Ela fala espanhol, morou alguns meses em Antofagasta, norte do Chile, onde lecionava inglês. Harvest cativou-me e naturalmente subimos à base das Torres del Paine. Relatei, alhures, essa aventura, que ora complemento. Ela subia com uns 30 kg de mochila, eu, com vergonhosos 10. Iniciada a subida, vi que teria chance de conhecer aquela menina, de tantos sorrisos. Ela me presenteou com uma conversa encantadora, riu de minhas piadas e perdoou meu portunhol. Eu não tinha nada a oferecer, então sorri. Após o encontro inicial, voltei a Natales, ela continuou no parque. Voltei no dia seguinte, direto para o refúgio Grey (não, não omita o r, leitor). Eu escalava uma encosta, quando súbito apareceu-me Harvest, descendo para o refúgio. Foi espanto e alegria mútua, e creio ter visto algumas lágrimas desafiarem o vento cortante. Harvest veio ao Brasil, mas não me visitou. Em minhas recordações da viagem, a melhor colheita são seus sorrisos. Fevereiro de 2005. Jacqueline Conheci-a na excursão entre Melbourne e Adelaide. Fui o último a ser apanhado pelo micro-ônibus, e lá estava ela, e também Christy, e a motorista loura e cheinha, e seu ajudante (não descobri para que diabos servia aquele ajudante, além de rir de todas as piadas). Ela fala espanhol, mas acabamos por nos falar em inglês, não sei por que (o fato se repetiu na Nova Zelândia, e isso me rendeu uma descompostura de Vitória, a mexicana “e por que não me disse antes?”). Jacqueline é suíça, tem um amigo que fala português. Tiramos muitas fotos, nos Doze Apóstolos, mas ela não voou conosco no helicóptero. O jantar. No meio do passeio de três dias pelo Great Ocean Road, entre Melbourne e Adelaide, ficamos em um hostel perto de uma reserva florestal. Lá chegamos no final da tarde, e subimos a um morro. Chovia muito, e emprestei meu impermeável azul para Jacqueline. Não vimos nada de mais nesse morro, além de um horizonte uniformemente cinza. Na volta, as moças (e Juddy, a motorista) prepararam o jantar. A salada foi construída com tomates, palmitos, muitíssimas folhas verdes e cogumelos secos. Outra salada possivelmente incluía atum e pimentões. Ao todo, eram quatro os tipos de salada. Jacqueline se ocupou de uma delas, enquanto Juddy preparava pratos quentes, incluindo arroz. O ajudante (agora lembro de sua serventia) assava o aussie barbecue numa chapa a gás. Ultimados os pratos, reuniram-se os viajantes, numa bonita mesa que principiava pela Suíça, seguia pelo Brasil e finalmente abarcava oito nações e vastos continentes. O vinho correu de boca em boca. Fartei-me com o vinho suíço, e fui convidado para outras vinícolas. Uma alemã baixinha, farmacêutica, forneceu metade do vinho da noite, cujos negócios avançaram inconclusos pela madrugada. Cedinho, Michelle oportunizou-nos um pequeno escândalo. O namorado de Christy apressou-se a vir reiterar o recato da namorada. Michelle é um encanto, e sua calcinha aparente, e seu sorriso coquete eram motivo de alegria (para uns), e aborrecimento (para outras). Michelle é uma inglesinha farta. Naquela madrugada, ninguém em sã consciência deixou de sonhar com aqueles seios. A moça da ópera. Fiz uma visita guiada à ópera de Sydney, que me rendeu uma foto. Uma mocinha linda, com um vestido clássico, longo, levou-nos por seus encantos. Tinha um sorriso em que me permiti ver Nicole Kidman: dentes alvos, pequenos e femininos, ainda que não arredondados. Ela tolerou meu gesto de fotografar a ópera, por dentro, mas a seguir passou sonora descompostura nos demais turistas, por idêntico delito. Depois da visita ela se deteve à saída. Contentei-me com uma troca de olhares. Linda australiana. Esther Esther de Graaf é uma holandesa atlética, farta. Ela trocou-se na nossa frente, tendo antes a prudência de mandar que todos os marmanjos olhassem “para o outro lado”. Surpreendentemente, esses marmanjos não olhamos para o outro lado. Quanto a mim, sinto-me justificado, já que ela falou em inglês, idioma que, desafortunadamente, não domino. Tampouco os gestos que ela usou foram claros, para mim (e pelo visto, também para os outros caras). Que delícia de holandesa. O chinês Na excursão por Kakadu Park, um chinês se notabilizou por pequenas brincadeiras, inclusive com Esther, que o espinafrou. Também chamava a atenção pela voracidade na hora dos lanches, e por tentar ser simpático. No grande barracão repleto de camas, que nos serviu de abrigo dentro do parque, por uma noite, Samy (ou seja lá o que for) lépido subiu para seu beliche. Se subiu lépido, desceu feito um raio: – something wrong! – ele disse, só porque a cama estava tomada de insetos e terra. Mas de onde ele tirou a idéia de que poderia dispensar um saco de dormir? O dormitório, coletivo, era dominado por ferozes ares-condicionados, que passaram a noite telefonando para a Sibéria. Naquela noite, dormi com Esther, cada um num extremo do recinto.
II. Conclusão. De que mais gostei? Das pessoas (das presentes e das ausentes, sua lembrança). De que menos gostei? Da comida na Austrália. Não confundir com a comida australiana. A segunda coisa de que mais gostei? Um punhado de água colhida a um regato na subida às Torres del Paine, e também do cordeiro patagônico, assado à moda crioula em espetos junto a um fogo de chão, servido no refúgio Grey após 6 horas de trekking montanha acima; e também da caminhada na chuva, às 6 da manhã no 1º do ano, do outro lado do mundo. A chuva fina, o clima agradável, a pacata cidade de Nelson (ilha sul da Nova Zelândia), o café da manhã compartido com cinco nações, a certeza de ser personagem total de minha própria história. Há certos encantos em Paine que não sei a que atribuir. Não são só torres de dois mil metros de granito matizado. Nem é o lago verde em sua base, onde grassam todas as patifarias e incontinências do vento. São muitas as felicidades da Patagônia, chilena e argentina, que não se reduzem a montanhas de alturas vertiginosas ou a gelos azuis de 700 anos que fazem amantes de uísque de todo o mundo suspirar. Passando os olhos nesses relatos, constato certas aventuras que originalmente não constavam da memória, e emergiram após um investimento em formas mais propícias. “O copioso estilo da realidade não é o único: há o da memória também”, ensinou Borges, estremando memória e realidade. Sou menos criterioso. Contenta-me o testemunho da memória, enriquecido pela imaginação. O programa forte do deserto australiano prodigaliza estrelas de brilhos desusados, e constrói noites febris, povoadas de amores poderosos.

Brasil (agora vai?)

NO SEGUNDO semestre de 1993, quem quer que apresentasse um cheque de US$ 80 bilhões teria comprado todas as empresas listadas na Bovespa, incluindo Petrobras, Telebrás e Vale. Todas.
Quinze anos depois, este mesmo cheque teria de ser quase vinte vezes maior, de US$ 1,6 trilhão.¹
Esses números, eloquentes, bastam para ilustrar o inédito e salutar momento por que passamos. Esse brutal salto na criação de riqueza, se ainda não invalida a máxima segundo a qual o Brasil é um suave fracasso, ao menos lança luz sobre o que realmente podemos fazer.
Podemos: eleger pessoas sensatas, e não os cretinos que, a intervalos, saqueiam a nação.
¹Gustavo Franco, in Folha de São Paulo de 21.6.2008.

sábado, 14 de junho de 2008

Buda

Buda sentado, Tailândia, 2007.

Crítica ao cristianismo

“Propagam-se as palavras onipotente, onipresente, onisciente, que fazem de Deus um respeitável caos de superlativos inimagináveis.” J. L. Borges. Até os dezessete fui uma pessoa religiosa. E minha religião (eu considerava) consistia, essencialmente, na improvável “relação com Deus”, não em liturgias ou mágicas. Eu jamais consentiria na compra e venda de vaga no céu, nem nos negócios altamente monetizados da culpa e do perdão. Procurava ser merecedor dos cuidados divinos, quiçá de um seu pronunciamento. Mas Deus, sempre alheio, foi ficando cada vez mais difícil, mais quimérico. A cada dia mais refratário a minhas indagações; foi se fechando em dogmas que eu não pude aceitar (por ser homem; por viver em um mundo natural, governado por leis naturais); foi se encastelando em um solipsismo catatônico. Não pude com esse funcionamento silencioso de Deus. Mas compreendo os sentimentos dos religiosos (dos verdadeiros). As pessoas que têm necessidade do suborno do céu, de um apoio externo ao reino da natureza, com suas regras rígidas de causa e efeito. Sei quanto é difícil desgarrar-se da auto-sugestão de conforto e asilo que as religiões prometem (e nem sempre entregam); renunciar à posse de um paraíso post mortem. Repetindo, fui religioso, até onde suportei desautorizar leis naturais em nome de revelações divinas, cuja autenticidade não se pode assegurar. Respeito a religião alheia. Principalmente quando não tentam usá-la como arma contra mim. Vou transcrever algumas observações de Jorge Luis Borges a respeito, por serem de Borges, o que quer dizer definitivas. Explicando o Budismo, diz-nos: “As outras religiões exigem muito de nossa credulidade. Se somos cristãos, devemos acreditar que uma das três pessoas da Divindade condescendeu a ser homem e foi crucificado na Judéia. Se somos muçulmanos, temos de acreditar que não há outro deus além de Deus e que Maomé é seu apóstolo. Podemos ser bons budistas e negar que Buda existiu.” Tenzin Gyatso, o 14° Dalai-Lama, escreveu: Se a ciência provar que algumas crenças do budismo são erradas, então o budismo vai ter de mudar. (OESP, A29, 20.11.05). Bom budista, nego que Buda tenha existido, ou que alguém em seu nome tenha inventado as doutrinas que ora chamamos budismo. “O budismo, além de ser uma religião, é uma mitologia, uma cosmologia, um sistema metafísico, ou melhor, uma série de sistemas metafísicos, que não se entendem e que discutem entre si.” Salutar essa discussão no interior mesmo do budismo, inédita em outros sistemas religiosos. Quem não é capaz de duvidar de si mesmo não merece ser ouvido. “O budismo nega o eu. Uma das ilusões capitais é a do eu. Nisso o budismo coincide com Hume, com Schopenhauer e com nosso Macedonio Fernández. Não existe sujeito, o que existe é uma série de estados mentais.” Para ele, o importante não é viver o budismo como um jogo de lendas, mas sim como uma disciplina; o budismo seria “um caminho de salvação. Não para mim, para milhões de homens.” II. Um único personagem mal inventado pode contaminar de irrealidade os que o cercam, diz o autor, comentando Hawthorne. No caso da Bíblia, três personagens se propõem contaminar de irrealidade todo o Universo: Deus, Jesus Cristo e o Espírito Santo. Vejamos a consistência desses personagens. Harold Bloom: “A essa altura, cabe registrar, embora com certo acanhamento, que Deus e os deuses são, necessariamente, personagens literários. (...) O Jesus do Novo Testamento é um personagem literário, tanto quanto o Javé da Bíblia Hebraica e o Alá do Alcorão. (...) Aquilo que ouvimos, ou tentamos ouvir, foi mediado por discípulos. O autor do Evangelho de Marcos, escritor contundente, em termos pragmáticos, criou a figura que maioria das pessoas, crentes e descrentes, tem de Jesus. Do mesmo modo, o mais antigo autor bíblico, o Javista, criou o personagem literário Javé, adorado como Deus por judeus, cristãos e muçulmanos.” (Gênio, p. 161). O Javista (segundo Bloom), teve a infeliz idéia de inventar Javé, corrompido para Jeová, que depois reivindicou o poderoso nome Deus. Javé era um deus rural, tosco, rude mesmo. Precário, feito à imagem e semelhança do chefe de tribo nômade, ainda assim era aceitável, enquanto se manteve longe de atrocidades como a existência e imortalidade da alma. Desejava apenas que sua tribo se tornasse nação, e o adorasse em regime de monopólio. Objetivos modestos, para um deus. Na época, ele não se lembrava de ter gerado um filho, e desconhecia as soberbas do Espírito Santo. O insensato Jesus apareceu não sei de onde, com aquela apavorante mania suicida. Se lhe agradava morrer, ao menos não nos entediasse com sua discretíssima ressurreição. Se, em todo caso, ele não se agüentasse sem ressuscitar, ao menos não nos ameaçasse com sua aborrecida volta triunfal. É mérito do cristianismo velar uma dificuldade, que exponho: morrendo Jesus, e após concluir seus negócios no inferno, por que diabos não dispensou o exibicionismo da ressurreição? Das regiões espirituais, para onde a Bíblia diz que ele foi, poderia perfeitamente ir dar ao céu. Mas não, ele tinha de voltar! De nada adianta os doze apóstolos parecerem reais. Judas Iscariotes me parece o mais fácil de encontrar na padaria, o mais digno de nossa fé e afeição. Eu também teria vendido o Cristo, fosse bom o prêmio. Paulo, apóstolo retardatário, é o mais inadmissível deles. Pretensioso, contumaz avistador de avatares, inventou inacreditáveis, impossíveis verdades religiosas. Arrependido dos rigores que exercera contra os cristãos, passou a atormentá-los com sermões e epístolas. Reformou a incipiente doutrina, erigiu dogmas, carregou na culpa dos judeus no episódio da crucificação, abrindo caminho para a festeira tradição ocidental de pogroms. A trindade é irreal, falha irreparável da literatura ocidental. “O Verbo é engendrado pelo Pai, o Espírito Santo é gerado pelo Pai e pelo Verbo, os gnósticos costumavam inferir dessas inegáveis operações que o Pai era anterior ao Verbo, e os dois ao Espírito. Essa inferência dissolvia a Trindade. Ireneu explicou que o duplo processo – geração do Filho pelo Pai, emissão do Espírito pelos dois – não aconteceu no tempo, mas que esgota de uma só vez o passado, o presente e o futuro. A explicação prevaleceu e agora é dogma. Assim foi promulgada a eternidade, antes apenas tolerada na sombra de algum desautorizado texto platônico.” (Borges, p. 394 Tomo I). Essa “emissão do Espírito pelos dois” me preocupa. Expelir um deus, presume-se, é tarefa muito arriscada, mesmo para deuses, e a Bíblia nada nos diz dessa operação. Imperdoável terem promulgado a eternidade, demonstrando tão pouco respeito pelo tempo. Ignorá-lo só adicionará dificuldades ao problema. Ao situar a emergência da trindade fora do tempo, estaríamos às voltas com uma entidade estritamente espacial, num claro empobrecimento do mito. “Impossível definir o Espírito e silenciar a horrenda sociedade trinitária e una da qual faz parte. Os católicos laicos a consideram um corpo colegiado infinitamente correto, mas também infinitamente entediado; os liberais, um vão Cérbero teológico, uma superstição que os muitos avanços do século vão se encarregar de abolir. A trindade, é claro, excede essas fórmulas. Imaginada precipitadamente, sua concepção de um pai, um filho e um espectro, articulados num único organismo, parece um caso de teratologia intelectual, uma deformação que só o horror de um pesadelo pode ter parido. É o que penso, mas tento considerar que todo objeto cujo fim ignoramos é provisoriamente monstruoso.” Até hoje não atinamos um funcionamento adequado para a trindade, um estatuto exeqüível, daí a perene perplexidade. Pensou-se, outrora, que ela sustentaria a vida, e todo o universo. Depois, que teria ao menos dado início a eles. Mas a trindade foi flagrada patrocinando abobrinhas sobre a fundação e manutenção do universo. David Hume, em História natural da religião, assacou o seguinte: “(...) toda a teologia popular, sobretudo a escolástica, sente uma espécie de propensão para o absurdo e para a contradição. Se essa teologia não ultrapassasse a razão e o senso comum, suas doutrinas pareceriam demasiado simples e familiares. É preciso inevitavelmente suscitar o assombro, aparentar mistério, procurar as trevas e a obscuridade, bem como fornecer um fundamento para o mérito dos adeptos fiéis que desejam uma oportunidade para subjugar sua razão rebelde por meio da crença nos mais ininteligíveis sofismas.” (p. 87, ed. Unesp). Estão vendo por que Hume é tão perigoso? “O inferno é mera violência física, mas as três inextricáveis pessoas implicam um horror intelectual, uma infinitude sufocada, especiosa, como a de espelhos contrários.” (Borges, p. 395, Tomo I.) Transcrevo, em torrentes, o texto de Borges, por navegar em sua órbita literária. De tudo podem me acusar; não de citar sem ter lido. Não é que eu desconfie que o leitor não consultará as obras. A transcrição atende a várias ambições: textos alentados e decorados com aspas respeitáveis; aparência de erudição e desoneração de devassar o dicionário em busca de imperdoáveis sinônimos. O citado se sentirá na obrigação de apoiar as idéias do citador, ainda que pela só vizinhança de página. Quem entesoura textos reproduz ou esconde o que é conveniente, safando-se de refutações e contrafatos embaraçosos. Editar o pensamento alheio é confortável meio de evitar que suas sutilezas arruínem nossas super-simplificações, nossos esquemas. Veja-se a refutação do eu, exposta acima. Permita o leitor a indiscrição de revelar que fui eu o descobridor dessa platitude. Sub-repticiamente, introduzi-a por meio de um texto de Borges, casualmente sobre o budismo. Releio a citação: “O budismo nega o eu. Uma das ilusões capitais é a do eu. Nisso o budismo coincide com Hume, com Schopenhauer e com nosso Macedonio Fernández. Não existe sujeito, o que existe é uma série de estados mentais.” Como o leitor pode ter concluído, apenas uma incomum modéstia fez-me deixar de creditar a seu verdadeiro autor essa descoberta. Mas consinto que Buda, Hume, Schopenhauer e Macedonio Fernández sejam meus precursores, e que Borges os tenha louvado. Se é para citar, façamo-lo com gosto. “É glória imarcescível do cristianismo atrair para si todas as verdades que estavam disseminadas entre as falsas religiões”. “Tudo começou com a suspeita (talvez exagerada) de que os Deuses não sabiam falar. Séculos de vida fugitiva e feral haviam atrofiado neles o humano: a lua do islã e a cruz de Roma tinham sido implacáveis com esses prófugos. (...) Sacamos os pesados revólveres (de repente houve revólveres no sonho) e alegremente demos morte aos Deuses.” (Borges Tomo II, p. 203-4). Foi justamente essa suspeita que me perdeu, confesso agora. Deus vinha evitando as conversas, sempre ali, caladão. Precisamos dele para revelar a densidade do Universo; para dizer por que crianças morrem de fome, frio e indiferença. Solicitamos que ao menos explicasse por que apoiou, por tanto tempo e tão entusiasticamente, Hitler, Stalin, Roosevelt. A suspeita (talvez exagerada), acabou gerando um inquérito contra Deus, mas revelou-se infundada. O fato não impediu que o indiciado fosse enviado aos porões da Física e da Biologia, onde o auxiliamos a cometer suicídio. Vejamos a história. Gibbon: “As várias formas de culto que vigoravam no mundo romano eram todas consideradas pelo povo como igualmente verdadeiras, pelo filósofo como igualmente falsas e pelo magistrado como igualmente úteis.” Eis, em poucas linhas, uma exposição do fenômeno religioso. O vulgo é sequioso de artigos de fé: animais, ermitões, trogloditas, matronas, mendigos, heróis; madeira, ferro, astros, montanhas, rios, lagos e mares: desde que cobertos pelo chanttilly do sagrado. O vulgo exige milagres, deuses e demônios significativos, conquanto patéticos. Cada qual alegremente monta um cardápio com as crenças que melhor lhe apetecem nos self services dos mitos religiosos. Segue Gibbon: “A superstição popular não era acirrada por nenhuma mescla de rancor teológico nem acorrentada tampouco pelas cadeias de qualquer sistema especulativo.” “O medo, a gratidão e a curiosidade, um sonho ou um augúrio, uma perturbação singular ou uma longa viagem perpetuamente o predispunham a multiplicar os artigos de sua crença ou ampliar a lista de seus protetores.” “Tão logo se permitiu a sábios e heróis que tinham vivido ou morrido para o bem de seu país serem exaltados a uma posição de poder e imortalidade, universalmente se lhes reconheceu o direito senão à adoração, pelo menos à reverência de todos os homens.” “(...) o romano que procurava aplacar a ira do Tibre podia zombar do egípcio que fazia a sua oferenda ao gênio benfazejo do Nilo. (...) Os invisíveis governantes do mundo moral foram inevitavelmente vazados num molde fictício e alegórico semelhante. Cada virtude e cada vício adquiria seu representante divino (...).” Perdão, pela ênfase. “Um república de deuses de temperamentos e interesses que tais exigia, em qualquer sistema, a mão moderadora de um magistrado supremo, o qual, por via do progresso do saber e da lisonja, foi gradualmente investido das sublimes perfeições de um Pai Eterno e de um Monarca Onipotente. (...) O grego, o romano e o bárbaro, ao se encontrar diante de seus respectivos altares, facilmente se persuadiram de que, sob diferentes nomes e com diversas cerimônias, adoravam as mesmas deidades. A elegante mitologia de Homero deu uma forma bela e quase regular ao politeísmo do mundo antigo” Após um ou dois séculos, os gauleses aplicaram aos seus deuses os nomes de Mercúrio, Marte, Apolo, etc. Por conta desse trecho – na prosa de Borges – Gibbon teria acreditado que os deuses são os mesmos, embora com nomes perecíveis. A realidade, sem dúvida, é mais complexa que este resumo. “Os filósofos da Grécia deduziram sua moral antes da natureza do homem que da de Deus. (...) os estóicos e os platônicos forcejavam por reconciliar os interesses conflitantes da razão e da piedade.” “De fato, como seria possível a um filósofo aceitar como verdades divinas as ociosas fábulas dos poetas e as incoerentes tradições da Antigüidade ou então adorar como deuses aqueles seres imperfeitos que ele deveria ter desprezado como homens!” “Podemos estar certos de que um escritor versado nas coisas do mundo jamais se aventuraria a expor os deuses de seus pais ao ridículo público caso já não o fossem eles objeto de desprezo entre as classes esclarecidas e refinadas da sociedade. Não obstante a irreligião de bom-tom que vigorava na época dos Antoninos, tantos os interesses dos sacerdotes quanto a credulidade do povo eram suficientemente respeitados.” “(...) os filósofos da Antigüidade afirmavam a dignidade e a independência da razão, porém conformavam-se, em seus atos, aos ditames da lei e do costume. Encarando com um sorriso de piedade e indulgência os variados erros do vulgo, praticavam diligentemente as cerimônias de seus maiores, freqüentavam devotamente os templos dos deuses e, condescendendo por vezes em assumir um papel no teatro da superstição, ocultavam os sentimentos de um ateu por sob as vestes sacerdotais. (...) Era-lhes indiferente a forma que a insensatez da turba escolhesse assumir, e com o mesmo desprezo íntimo e a mesma reverência exterior aproximavam-se dos altares do Júpiter líbio, olímpico ou capitolino.” “Os pontífices eram escolhidos entre os senadores mais ilustres, sendo o posto de supremo pontífice constantemente exercido pelos próprios imperadores. Eles estavam cônscios do valor e das vantagens da religião coligada ao governo civil. (...) Manejavam as artes divinatórias como um cômodo instrumento político e respeitavam como o mais firme dos vínculos a útil convicção de que nesta ou numa vida futura o crime de perjúrio será inevitavelmente punido pelos deuses vingadores” “(...) o Senado romano, (...) intervinha por vezes a fim de deter tal inundação de ritos estrangeiros. As crendices egípcias, de todas as mais desprezíveis e abjetas, eram freqüentemente proibidas. (...) Mas o ardor e fanatismo triunfou dos débeis e frios esforços repressivos. Os exilados regressavam, os prosélitos se multiplicavam, os templos foram restaurados com esplendor ainda maior, e Ísis e Serápis assumiram finalmente seu lugar entre as deidades romanas.” Declínio e Queda, pág. 46 e seguintes. Em passagens mais áridas, Gibbon expõe: “O teólogo pode bem se comprazer na deleitosa tarefa de descrever a Religião descendo do Céu revestida de sua pureza natural. Ao historiador compete um encargo mais melancólico. Cumpre-lhe descobrir a inevitável mistura de erro e corrupção por ela contraída numa longa residência sobre a terra, em meio a uma raça de seres débeis e degenerados. (...)" “Passando dos partidários da lei a esta propriamente dita, afirmavam ser impossível que uma religião consistente tão-só de sacrifícios sangrentos e cerimônias triviais, e cujas recompensas e castigos eram todos de natureza carnal e temporal, pudesse inspirar o amor da virtude ou conter a impetuosidade da paixão. O relato mosaico da criação e da queda do Homem era tratado como profana derrisão pelos gnósticos, que não suportavam ouvir falar do repouso da Deidade após seis dias de trabalho, da costela de Adão, do jardim do Éden, das árvores da vida e do conhecimento, da serpente falante, do fruto proibido e da condenação proferida contra o gênero humano pelo pecado venial de seus pais primeiros. O Deus de Israel era impiamente representado pelos gnósticos como um ser sujeito à paixão e ao erro, caprichoso na sua mercê, implacável no seu ressentimento, mesquinhamente cioso de adoração supersticiosa, e confinando sua facciosa providência a um único povo e a esta vida transitória. Numa figura que tal não conseguiam discernir nenhuma das feições do sábio e onipotente Pai do universo. Admitiam ser a religião dos judeus algo menos criminosa que a idolatria dos gentios; sua doutrina fundamental era, porém, a de que o Cristo a quem adoravam como a primeira e mais luminosa emanação da Divindade aparecera na terra para redimir a humanidade de seus pecados e para revelar um novo sistema de verdade e perfeição. Os mais doutos dos pais da Igreja, por uma condescendência assaz estranha, imprudentemente admitiram os sofismas dos gnósticos. Reconhecendo que o sentido literal é incompatível com todos os princípios da fé, tanto quanto da razão, acreditaram-se seguros e invulneráveis atrás do amplo véu da alegoria, que cuidadosamente estenderam por sobre todas as partes frágeis da dispensação mosaica.” “O filósofo que considerava o sistema do politeísmo como uma combinação de fraude e erro humanos, podia ocultar um sorriso de desprezo por sob a máscara da devoção, sem temer que a zombaria ou a submissão o expusesse ao ressentimento de quaisquer poderes invisíveis, ou, tal como os concebia, imaginários. Mas as religiões pagãs estabelecidas eram vistas, pelos cristãos primitivos, sob luz muito mais odiosa e temível. (...) os demônios eram os autores, os patronos e os objetos da idolatria." “(...) Estamos familiarizados o bastante com os vultos eminentes que floresceram na época de Cícero e dos primeiros Césares, com os seus atos, seus caracteres e seus motivos, para saber com segurança que sua conduta nesta vida jamais se regulou por qualquer convicção séria das recompensas ou castigos de uma existência futura. No tribunal e no Senado de Roma, os oradores mais capazes não temiam ofender seus ouvintes expondo tal doutrina como uma opinião extravagante e ociosa, rejeitada com desprezo por qualquer homem de educação e entendimento liberal." Gibbon, discorrendo sobre como o judaísmo descobriu a até então insuspeitada imortalidade da alma, diz: “(...) membros das camadas mais opulentas e mais importantes da sociedade, (...) rejeitava[m] a imortalidade da alma como uma opinião sem nenhum respaldo no livro divino, que reverenciavam como a única norma de sua fé. (...)" “À autoridade das Escrituras, os fariseus acrescentavam a da tradição, aceitando, sob o nome de tradições, diversas doutrinas especulativas da filosofia ou da religião de nações orientais. As doutrinas do destino ou predestinação, dos anjos e espíritos, e de uma existência futura de recompensas e castigos, figuravam entre esses novos artigos de fé; e como os fariseus, pela austeridade de suas maneiras, tinham atraído para o seu partido a maioria do povo judeu, a imortalidade da alma tornou-se o sentimento dominante da sinagoga durante o reinado dos príncipes e pontífices asmoneus [ou macabeus]." “O temperamento dos judeus não era de molde a contentar-se com uma fria e lânguida aquiescência como a que poderia satisfazer o espírito de um politeísta; tão logo admitiram a idéia de uma existência futura, abraçaram-na com o ardor que sempre foi característico de sua nação. Tal ardor nada acrescentava, porém, à evidência ou mesmo à probabilidade da idéia; impunha-se que a doutrina da vida e da imortalidade, ditada pela natureza, aprovada pela razão, e acolhida pela superstição, recebesse sanção de verdade divina pela autoridade e pelo exemplo de Cristo.” Inúmeras “verdades religiosas”, reveladas por profetas pagãos, foram redescobertas e comunicadas por Javé, lamentavelmente sem citar as fontes. Jesus (por meio de alguns médiuns) as retificou, limou excessos, corrigiu asperezas, acrescentou mitos ora suaves, ora severos. Gabou o amor; exerceu a ira contra o comércio nos templos; aprendeu a lavrar o madeiro, no qual morreria. Na formulação de suas verdades, esteve – estiveram, por ele – atento às inclinações da platéia. Gibbon teria acreditado, segundo Borges, que os deuses são os mesmos, seus nomes sendo perecíveis. Acreditaremos que Palas Atena, Afrodite e outras deusas se contentariam com papéis menores, como os de Virgem Maria e Maria Madalena? A lenta migração de nomes e personas da cultura grega para a romana até que foi tranqüila, comparada ao tumulto de deuses inservíveis, barrados na festa cristã. Desconfio que os números não batem. Não podem. Os deuses gregos constituíam copioso panteão. Todo esse tempo, todos aqueles deuses (mil vezes ilustres) sem nenhum uso, nenhuma veneração, me parece impiedade. Não sejas citador, mas, se o fores, por Deus, seja-o inteiramente: “Chego à parte mais inverossímil de minha tarefa: as razões elaboradas pela humanidade a favor da eternidade do inferno. Vou resumi-las em ordem crescente de significação. A primeira é de índole disciplinar: postula que a temibilidade do castigo está precisamente em sua eternidade e que colocá-la em dúvida é invalidar a eficácia do dogma e fazer o jogo do Diabo. É argumento de ordem policial, e não creio que mereça refutação. O segundo prescreve: “A pena deve ser infinita porque a culpa o é, por atentar contra a majestade do Senhor, que é Ser infinito”. Observou-se que esta demonstração é tão probatória que podemos inferir que não prova nada: prova que não há culpa venial, que todas as culpas são imperdoáveis. Eu acrescentaria que é um caso perfeito de frivolidade escolástica e que seu equívoco é a pluralidade de sentidos do termo infinito, que aplicado ao Senhor quer dizer incondicionado, e a pena quer dizer incessante, e a culpa, nada que eu possa entender. Além do mais, argumentar que uma falta é infinita por atentar contra Deus, que é Ser infinito, é como argumentar que é santa porque Deus o é, ou como pensar que as injúrias dirigidas a um tigre devem ser rajadas.” “O inferno de Bernard Shaw (Man and Superman, págs. 86-137) (...) distrai inutilmente sua eternidade com os artifícios do luxo, da arte, da erótica e do renome.” “Para quase todos os homens, os conceitos de Céu e de felicidade são inseparáveis. (...) Butler projetou, no entanto, um Céu no qual todas as coisas se frustrassem ligeiramente (pois ninguém pode tolerar uma felicidade total) e um inferno correlativo, no qual faltasse todo estímulo desagradável, salvo os que proíbem o sonho. Bernard Shaw, por volta de 1902, instalou no inferno as ilusões da erótica, da abnegação, da glória e do puro amor imorredouro.” É tudo Borges. O inferno de Shaw é infernal demais, mas pode ser pensado, ao contrário da fantasia bíblica. Podemos objetar que as castidades da erótica, por exemplo, atentariam contra o decoro do inferno. Outro ponto preocupante é a abnegação e o amor imorredouro. Me oponho a esses atributos, intranqüilos. Mas é do céu e do inferno de Butler que quero falar. O céu de Butler faz algumas concessões à realidade e à sensatez. As frustrações experimentadas por seus inquilinos mostram-no um mito aprimorado – difícil, mas possível – mitigados alguns rigores da Física. Ajudaria acrescentar algumas frustrações profundas, rusgas e insatisfação com a condução dos negócios divinos. Um céu violentamente feliz seria rapidamente abandonado, por não acomodar a condição humana, só exercitável em doses mais ou menos equilibradas de prazer e desprazer. Seria como um mundo sem gravidade, em que nenhum esforço fosse exigido dos músculos: a atrofia, além do tédio, da abulia, tornariam ínvios, ou pelo menos vazios, todos os cursos da felicidade. A Bíblia leiloa um céu com a trindade bem instalada num trono, e um carnaval barroco de ouro, prata e refugos então considerados indispensáveis à decoração de um paraíso. Tudo opressivo à vista, tudo contaminado por soberbas que oneram sobremodo a economia da crença. Sonho com um céu mais modesto, que não se dê ao luxo de três deuses simultâneos, nem nos estafe com eternidades desnecessárias. Suponha que os anjos não se sentissem seguros de suas funções; que buscassem uma interação menos servil com Deus e os habitantes do céu; suponha que os homens, cansados de contemplar a inalterável perfeição de Deus, quisessem exercer antigas liberdades: a dor, a discórdia, a disputa pelo poder, a guerra. Essas paixões imporiam duras provas à paciência de Deus, e talvez sejam inevitáveis, onde houver humanos, se eles forem humanos (Deus deveria saber disso, pois os tem submetidos a injunções extremamente simples, mas inafastáveis). A feroz felicidade imposta aos moradores do céu me parece excessiva e inaceitável. Nisso o céu avança rapidamente sobre o conceito de distopia, competindo com o inferno pela alma humana, cada qual mais abafado. Mais que um céu de infelicidade residual, advogo um céu completamente infeliz, ao menos em potência, para que cada um tenha a liberdade de consultar sua consciência, decidindo quanta felicidade, quanta tristeza é necessária para seus projetos, sua folgas, suas ambições, seus fracassos. O inferno de Butler é mais feliz que seu céu, do ponto de vista da economia da fé. Declaro minha crença – provisória – nesta hipótese: um inferno onde falte todo estímulo desagradável, exceto a proibição de dormir. Promissor um inferno dessas proporções; parece um adequado, piedoso projeto de tormentos. Mas me pergunto se a proibição do sono não geraria desconforto e estímulos desnecessários. Mais sensata seria a construção de um inferno com irrestritos bosques, repletos de ipês e cachoeiras, que induzam desmedidos e soltos sonhos, em que Deus pudesse mostrar todas as maravilhas e fadigas de empreender um universo. Como se já não tivéssemos o bastante, David Hume, em História natural da religião, saiu-se com essa: “Podemos observar que, apesar do caráter dogmático e imperioso de toda superstição, a convicção dos homens religiosos é, em todas as épocas, mais fingida que real, e apenas raramente e em certa medida se aproxima a firme crença e a firme convicção que nos governa nos assuntos comuns da vida. Os homens não ousam confessar, nem mesmo no seu íntimo, as dúvidas que os assaltam sobre essas questões: ostentam uma fé sem reservas e dissimulam ante si mesmos sua real incredulidade, por meio das mais categóricas afirmações e do mais absoluto fanatismo. Mas a natureza é mais forte que seus esforços e não permite que a luz obscura e pálida, surgida nessas sombrias regiões, iguale-se às impressões vívidas produzidas pelo senso comum e pela experiência. A habitual conduta dos homens contradiz suas próprias palavras e mostra que seu assentimento nessas questões é uma operação inexplicável da mente, situada entre a incredulidade e a convicção, mas que está muito mais próxima da primeira que da segunda.” (p. 98, ed. Unesp). Weatherhead “(...) intui que a direta perseguição de uma pura e perpétua felicidade não será menos irrisória do outro lado da morte do que deste.” Escreveu, ainda, estes assombros: “A dor do Céu é intensa” e “a vida de Deus é dolorosa. (...) Enquanto houver um único pecador no universo, não haverá felicidade no Céu”. Caro leitor, você está seguindo o raciocínio? Então deve ser o único, porque eu não estou. Borges fere: “Era muito religioso; acreditava ter com o senhor um pacto secreto, que o eximia de agir bem a troco de orações e devoções.” (Pág. 630, tomo I). “Os católicos (leia-se os católicos argentinos) acreditam num mundo ultraterreno, mas notei que não se interessam por ele. Comigo ocorre o contrário; me interessa e não acredito.” Prosseguindo, em outro contexto: “Ser imortal é insignificante; com exceção do homem, todas as criaturas o são, pois ignoram a morte; o divino, o terrível, o incompreensível é saber-se imortal. Tenho notado que, apesar das religiões, essa convicção é raríssima. Israelitas, cristãos e muçulmanos professam a imortalidade, mas a veneração que tributam ao primeiro século prova que só crêem nele, já que destinam todos os demais, em número infinito, a premiá-lo ou a castigá-lo.” “(...) todos os Imortais eram capazes de perfeita quietude; lembro-me de um que jamais vi de pé: um pássaro se aninhava em seu peito.” Final. Eu poderia chegar à última instância, quando o assunto é cristianismo: Nietzsche. Mas Nietzsche não consente um churrasco decente com o tema. Com ele, incendeia-se o recinto; toda a cidade. Não vou citá-lo, para não perder de vez a amizade do leitor. Mas, pensando bem, por que não? “Todas as religiões são, no seu nível mais profundo, sistemas de crueldades.” Sören Kierkegaard angustiou-se sobremodo com a dificuldade de se tornar cristão. Para ele a ocorrência é tão ou mais rara que a genialidade (a genialidade anda escassa). Nessa definição, haveria bem poucos, difíceis cristãos, a salvo de qualquer estatística. Nietzsche completou – não sem júbilo – que em verdade só existiu um cristão, e ele morreu na cruz. Observo que a história não registra a ocorrência de um único cristão, exceto, talvez, por pouco tempo (perdoem a sinceridade), Gerson Noronha Mota. Kierkegaard, o candidato óbvio à discutível glória, é angustiado ou feliz demais para o cargo. Inverossímil um cristão que rejeite a autoridade da Igreja, ou refute as provas da existência de Deus; seria imprudência apoiar um cristão bissexto e dubitativo. Kafka, o único que eu indicaria sem receio, honra-nos sendo gênio. Ele dispensaria essa adulação. Desgraçadamente Jesus não conseguiu se tornar cristão, nem mesmo no divertimento judaico-romano da Crucificação. Foi líder de onze comensais, parece que fatigou alguns desertos, atravessou um lago, era amigo de um morto. Seus pensamentos, seus sentimentos, seus milagres, foram inventados muito após sua morte, por marqueteiros e políticos habilidosos, um deles sendo Saulo, vulgo São Paulo. É pouco provável que Jesus reconhecesse uma única idéia, uma única parábola das que lhe são atribuídas; que consentisse na bufonaria dos milagres, ridículos. Carlyle diz, em uma carta de 1847, que a fé de Cristo degenerou “em uma miserável e melosa religião de covardes.” Não creio tenha havido degeneração. “Tácito não reparou na Crucificação, embora seu livro a registre.” (Pág. 146, Tomo II). Tácito, se vê, era um rapaz de medíocre percepção (desdenhou o dono do universo e da vida, em sua fugaz e, até agora, única passagem por este mundo). Talvez seja o caso de consultar Josefo, judeu, historiador de memória seletiva, mas aguçada. Ele participou da revolta contra o domínio romano, mas, quando o Império flaviano a estimulou, crucificando todos os revoltosos que conseguiu encontrar, Josefo fugiu e passou a glorificar os césares, tendo adotado seus nomes. Muito do que se “sabe” sobre o cristianismo reside em Josefo, o que submete a esforço excessivo nossa boa vontade. Ao cabo desse passeio, de excessivas citações, cedo a voz a Sir John Falstaff, um dos melhores inventores de Shakespeare: “Fazes sempre citações execráveis; és capaz de corromper um santo. Tu me tens prejudicado muitíssimo, Hal; Deus te perdoe. Antes de conhecer-te, Hal, ignorava tudo; e agora, para dizer toda a verdade, valho pouco mais que um pecador.” (Gênio, H. Bloom). Maio de 2004.