domingo, 5 de outubro de 2008

O manejo do tempo

Fomos perdulários no manejo do calendário todos esses anos. A largura dos dias a altura dos meses a profundidade da vida, imprópria para o uso: somos malabaristas bêbados equilibrados sobre o fio do tempo. Há muito não me envio epístolas na faina desairosa do ócio. Procuro procuro procuro-me no espelho no retrato nos escritos. O que me acho é vago é vão é cego e vário, eu ordinário. A chance ilusória de deter o assalto do tempo, aprisioná-lo em nossa desapercebida mocidade. Os achados da maturidade, os vacilos ante o mortal: oscilamos humanos entre exigências de deuses. 19.10.2001

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Fernando de Noronha

Banhistas renunciam a toda miséria e ganham o azul.

Os sonhos

Alguns sonhos de nós se afastam mudos, desabridos seguem para outras internações. Outros seus frutos alienam sem direção e de nós nos vemos pobres. Entre os que ficam há os eternos, estelares, vão a ser. São esses que eu vim cantar-te.

domingo, 28 de setembro de 2008

Crise

Os congressistas norte-americanos passaram o fim de semana acampados no congresso. Nesse momento, é provável que estejam assinando o maior pacote econômico da história. Miriam Leitão, no Globo, traz algumas oinipões a respeito, neste domingo de fastio:
Frederic Mishkin, economista da Columbia, que foi membro do FED até o mês passado, lembrou que quando as coisas saem do controle, “o custo para consertá-las mais tarde sobe exponencialmente”. O problema é que, mesmo admitindo o risco, os economistas estão alertando que o caminho escolhido pode trazer também inúmeras distorções.
Luiz Zigale, da Universidade de Chicago, diz que o programa de Paulson “comprará ativos podres a preços inflados, criando uma instituição de caridade que provê assistência social para os ricos às custas dos contribuintes”. Ele fala que é também a violação do princípio capitalista de que “os ganhos devem garantir as perdas”. Na época das S&L, os depósitos estavam segurados e o governo teve que pagar o custo. Agora, como garantir o mesmo benefício para credores de bancos de investimento que nem estavam sob supervisão bancária?
Edward Leamer, da Universidade da Califórnia, toca no ponto nevrálgico: Henry Paulson não terá de responder na Justiça por seus atos. “Quando li isso pela primeira vez, pensei que era uma piada”.
É difícil encontrar algum economista, fora do mercado financeiro, que diga que o plano de Paulson resolverá a crise financeira.
Hank Paulson, um cara antenado, que já visitou várias vezes o pantanal, tem muitas horas extras pela frente. Não gostaria de estar no lugar dele.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Turbulência

Bush acaba de fazer na economia o que tinha feito em geopolítica ao coordenar o ataque às torres gêmeas, via omissão.
Na ocasião do ataque ao WTC, a CIA, os serviços secretos de Israel, Alemanha e até a ABIN sabia do ataque, quando, onde e que andar de cada prédio seria atingido (tudo bem, exagerei: é improvável que a ABIN saiba de algo a não ser fofoca do gabinete do Gilmar Mendes).
Menos Bush, a acreditarmos em iaras e sacis. De uma popularidade de última semana de governo para a quase unanimidade da nação. E não precisou pagar nada. O seguro das torres cobriu... Como é fácil a vida dos genocidas!
Agora, a mesma esperteza. Paul Krugman entregou o cara, mais uma vez, em artigo de hoje, na Folha de São Paulo. Josias complementa, com a percuciência de sempre:
Sim, porque os especuladores que aqui gorjeiam são os mesmos que gorjeiam lá. A platéia, aturdida, olha para o mercado de ações como quem observa um bebê. A Ásia dormiu bem? A Rússia soluçou? Nova York teve febre? A Bovespa fez cocô mole ou duro?

domingo, 21 de setembro de 2008

José

E agora, José? tenho visto o vão esforço, tua versão de luta pela vida, a tentativa de não sucumbir aos apelos sensuais do nada. Sou testemunha de que não descansas, de que trabalhas; és diligente, José, simples e de uma austeridade insondável. Mas, a vida... E agora? José, cancelaram tua vitória, desclassificaram teu mérito, indicaram outro para ocupar tua pessoa. Você, que dificilmente é você, sem nome e incoerente quanto és. Adoeceram tuas roseiras; no assalto ao banco de que recebias, levaram só os teus valores e, José, caçoaram dos versos que arriscaste no escuro. E agora, você? Se você navegasse pela internet espalhando botes suicidas; se simplificasse a solução dada a Fermat, se invertesse a polarização da Terra, achas que te amariam, José? José, lacra tua biblioteca. Está vazando, e contamina o mundo com emissões políticas, literaturas, metais volatizados. Engoma teu terno de vidro que todas as passadeiras quebraram e escondem de ti cacos por se juntar. José, não minta. Não adianta ajudar as pessoas em suas ferozes felicidades. Escreve aquilo mesmo que sentes, que sentistes a vida inteira. Não te comprometas com os amigos, eles firmaram contratos à parte. José, o que foi isso de tentar o suicídio? Não podes. Está tudo predeterminado, de modo que teus esforços de viver/morrer não se sustentam mais que rituais há muito desacreditados. Se você gemesse, denunciando o cego impacto da vida, talvez conquistasse a antipatia do síndico, a compreensão solidária do recém-nascido. Se você soltasse todos os gases que te inflacionam as entranhas, talvez conseguisse alívio e poderias contar uma vantagem. Se você dispensasse toda sua fortuna no amparo de pobres e necessitados, talvez subvertesse a marcha do desespero, e poderias descontar no ajuste anual do imposto de renda a dor alheia que mitigaste suportando a própria. Talvez um cálice de um bom vinho do Porto adoçasse a partida que ensaias sem entusiasmo. Uma nova utopia põe-se a caminho, como um iceberg, embrionária num mundo que periclita. Existem muitas chances, José. José, por que tanto problema? Por que não visitas um psiquiatra? Vá e veja o enorme esforço, a ciência desfazendo equívocos químicos em que o cérebro nem sabe que incorre. Sozinho na tarde da cidade, esperas a noite, que esfria. Cancelas um pensamento, sorves outro livro, protestas. Estais cansado, José, e tudo acabou, tudo mofou, tudo fugiu. Sozinho você marcha, José! José, o que é tudo isto? Sobre o poema José, um libelo contra a solidão do homem moderno, suas inconsistências e angústias. E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, você? Sozinho no escuro qual bicho-do-mato, sem teogonia, sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja a galope, você marcha, José! José, para onde?
José, C.D.A.

Chapada Diamantina

Pantanal

Pará

Peixe-Boi, em Belém.