sexta-feira, 8 de abril de 2005

Mais viagens

Após tantas viagens, pequenas ou grandes, não sei como mas estou em Brasília. Clima agradável, hotel bom, um verdadeiro refresco, perto da hospedagem recente. Fui a Bonito no final de semana, mas acho que somente a Keila (minha irmã) aproveitou. Sobre Bonito, uma pequena história: Certa vez fiz um passeio à gruta do Lago Azul. Dei carona para uma alemã que morou no Brasil alguns meses. Na chegada, o único local com sombra para o carro era frequentado por um animado grupo de vacas nelore, soltas. A alemã, com seu português cambaleante, alertou-me que as vacas iriam increspar com meu carro, vermelho. "Qual o quê. Bem se vê que você não sabe nada de vacas... Então você acredita mesmo nessa lenda urbana de vacas alucinadas com coisas vermelhas? Tranquila no más." O passeio tava demorando pra burro, e a alemã tinha sumido. Mais de 40 minutos, nada. Já tinha esquecido o assunto das vacas quando volta a alemã, esbaforida: "... as vacas ... lá no seu caro..." As vacas lambiam com gosto meu carrinho, deixando um grande babado na pintura. Um dos lambidos se extendia de fora a fora, e uma delas (a mais bandida) resolveu se coçar em meu retrovisor. Especialmente saborosa a frente arredondada do carro, a julgar pelos babados nessa região. Dei cabo desse despautério, retirando o carro dali, mas elas olhavam com volúpia por sobre a cerca do estacionamento. Que sirva de lição sobre as nossas bovinitudes... Voltando às viagens recentes, depois fui a Aquidauana (hei, é feio perguntar quem é Uana) e Anastácio, cada qual mais quente. Nenhum restaurante bom, nada a fazer. Agora, caí em Brasília. Bons restaurantes e uma ponte a fotografar. Agora que a fotografei, espero ter tempo para, algum dia, baixar os arquivos e remetê-los a um bocado de gente que a essa hora já deve estar impaciente. Grande abraço.

segunda-feira, 28 de março de 2005

Fernando de Noronha

Hello, people! Estou em Fernando de Noronha, aproveitando o feriado. Já fui a todas as praias, fiz um montão de passeios e amanhã vou ao Capim Açu (se tudo der certo). A ilha continua espetacular, o sol impressiona (e tosta) e as pessoas continuam gentis. Tirei (é claro que tirei) um montão de fotos com a câmera digital, e breve terei um arquivo de bom tamanho. A comida é ótima (principalmente frutos do mar e peixes, claro). XoXo... Vila dos Remédios, 28 de março de 2005.

domingo, 27 de fevereiro de 2005

As pessoas

1. O chinês Na excursão por Kakadu Park, um chinês se notabilizou por pequenas brincadeiras, inclusive com Esther (uma holandesa), que o espinafrou. Também chamava a atenção pela voracidade na hora dos lanches, e por tentar ser simpático. No grande barracão repleto de camas, que nos serviu de abrigo dentro do parque, por uma noite, Samy (ou seja lá o que for) lépido subiu para seu beliche. Se subiu lépido, desceu como um raio: – something wrong! – ele disse, só porque a cama estava suja e tomada de insetos. Mas de onde ele tirou a idéia de que poderia dispensar o saco de dormir?

O incidente do estacionamento

Deixei meu pequeno carro no estacionamento do Shopping, para vadiar numa tarde de Sábado. Após um filme, e algum lanche, voltei. Ao acionar a abertura de portas, nenhuma resposta. Mais acionamento e nada. Cheguei bem perto, apontei o dispositivo para os sensores, e nada. Decidi resolver “no braço”: utilizando a chave, tentei abrir a porta. Nada. Mais esforço, revolvi a chave, e nada. - Essa é boa, o que faço agora? - Tentei outras vezes o sensor, depois revolver a chave. Nada, nada. Parti pra ignorância. Resolvido a abrir aquela porta a qualquer custo, soquei e puxei violentamente a maçaneta. Ela cedeu, mas não a porta. “Que demônios!”, pensei, com a maçaneta nas mãos, ao ver uma revista Ele & Ela no banco do carona. Devem ter aberto o carro e colocado essa revista pornográfica, só para me sacanear... Se é verdade que só compro Playboy (para ler as entrevistas), que diabos uma Ele & Ela estaria fazendo em meu carro? Perplexo, sem saber que fazer com os escombros da maçaneta, percebi que o carrinho vermelho, em tudo idêntico, não era o meu. Mais tranqüilo, fui em busca do meu carro, estacionado a poucos metros, dei partida e fui pra casa (toda essa história de arrombar o carro alheio me deixou cansado). Que sirva de lição sobre estacionamentos gigantescos... Campo Grande, 27 de fevereiro de 2005.

Uluru

Por do sol Uluru, originally uploaded by gerson noronha.

Ao amanhacer, o sol redescobre Uluru.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2005

Uma história carioca

Carlos e a filha subiram ao Corcovado, domingo de frio no Rio. Vinham do Jardim Botânico, insuficiente para o preenchimento de um domingo de Clara. Ela flutuava alegremente numa torrente de momices e garatujas. Enquanto o trem descia a encosta, quis saber se ali havia cavalos. "Florminha" disse o pai, amoroso "cavalos não gostam de montanhas e florestas, comprometidos com a grama, o campo aberto." Mas Clara não se deixou impressionar com essa demonstração de má-vontade. Queria cavalos ali, e ordenou que, dali em diante, todo bom cavalo que assim desejasse poderia habitar aquela floresta, acolhedora. E conferiu-lhes poderes para beberem das muitas bicas e se agasalharem nas nuvens que visitam aquela montanha, especialmente aos domingos. Muitos cavalos atenderam ao chamado, e foram, felizes, guarnecer as encostas, para o gáudio de menininhas que descem a montanha. Lá embaixo, no Cosme Velho, todas querem uma visita à casa de Cecília Meireles, e ao palacete do general onde o Bruxo se casou. Nota-se quanto esses cavalos estão mudados. Alguns vivem em galhos, e são amigos das flores e frutos; outros desenvolveram o vôo, e às vezes cantam, ao sabor das necessidades poéticas das clarisses e joanas. As marianas reformaram a altura e peso desses animais, risonhos; alguns não passam de alguns centímetros, enquanto outros mais e mais se aproximam das medidas de hipopótamos, seus parentes, conforme faz prova o nome. São muitos os encantos, se uma menininha se propõe suavizar o mundo. E toda a natureza lucra com esses aditamentos. Os animais, absolvidos de sua antiga servidão, se dedicam a visitar flores e entoar a primavera. Cavalos são ali facilmente passarinhos. Mas alguns ainda olham, com volúpia, para os verdejantes campos sediados na distância. Clara, uma delícia de criança, agora queria uma visitinha ao Pão de Açúcar. Rio, 13 de junho de 2004.

Uma viagem ao Rio

Consta que os motoristas do Rio voam para a morte; que tentam seus anjos. Glória, Catete, Botafogo, Ipanema. Daqui pra lá, de lá pra cá, acesas carreiras. O carioca não se importa com o trajeto do ônibus, desde que o número pareça familiar. A moça do hotel sugeriu o 409. Sei lá pra onde ia o 409, um montão deles apresentava os mais aleatórios números, com os mesmos destinos: Leblon, Ipanema, Lagoa, Jardim Botânico. Por um tempo fiquei tentado a ir à Usina. Depois veio o desejo incontrolável de ir ter à Barra. Mantive os planos. Após o terceiro ou quarto 409, resolvi mudar de ponto. Aquele ponto no Aterro do Flamengo nunca me pareceu respeitável. Mas após o quinto 409 que passou chutado no novo ponto, percebi que estava diante da linha-dura, o intransigente núcleo de resistência aos campo-grandenses no Rio. Voltei ao hotel, decidido a combater o inimigo. A moça disse que nunca tinha visto; o camelô na calçada aconselhou que eu agüentasse firme; que após alguns dias, de pé, no ponto, os motoristas finalmente cederiam. Esquecia-me dizer que a moça da concierge tinha olhos divagadores, doces e precisos em conhecer-me os destinos. Meti-me num táxi, que voou até as beiradas da Lagoa. Lá, fiquei de emboscada, esperando o atrabiliário 409, que não tardou a apontar na avenida, gingando ameaças e provocações. No momento aprazado, num movimento preciso, ao fingir que estava apenas passeando, pulei para a avenida gritando e gesticulando, enquanto os passantes e as pessoas do ponto, contaminadas por minha ânsia, se punham a exortar o motorista a parar, nem que fosse para impedir meu atropelamento. E o insondável 409, “gostoso de ruim de dentro do fundo das espécies”, se deteve, ante o clamor público. O 409 nem sempre foi assim. Mesmo porque essa linha já freqüentou outras freguesias, como todo carioca sabe. É que, volta e meia, as autoridades municipais trocam os números, mudam os destinos. As pessoas inclinadas a lamúrias dizem que isso provoca o caos, que atormenta o pobre carioca. Mas as autoridades sabem o que é melhor para o carioca; e o melhor é que se cale. Algumas mudanças são realmente questionáveis. Houve uma que consistiu em anunciar massivamente as alterações, martelando na mente do carioca seus novos rumos, sem que uma única linha, um único número fosse alterado. O taxista me informou que, comparado ao 179, até que é fácil apanhar o 409. No 179, parece, reúnem-se todos os demônios dessa cidade, presididos pelo primeiro demônio do mundo, o mais furioso deles, ao volante. De tão diabólico, ele é capaz até de parar pra você, leitor. Um sufoco; uma linha que simplesmente Deus me livre. O contínuo do hotel gabou conhecer alguém que já conseguiu pegar o 179, mas a zombaria de seus amigos sugere se ouça com reservas esse sucesso. A probabilidade é a mesma de acertar na loteria, ainda que não no prêmio principal. Sorte sua, leitor, nunca ter precisado tomar esse ônibus. O carioca vive numa bonita cidade, mas dirige como se nada mais lhe restasse senão fugas suicidas. Já o campo-grandense parece eternamente indo socorrer a sogra. Prefiro a correria carioca. Inquiriram, quiseram saber de minha cidade. Respondi Campo Grande, com a convicção que me foi possível. Tirante os ipês coloridos, e principalmente os brancos, que ordenei nascessem no Parque das Nações Indígenas, não tenho provas da existência dessa cidade, de esquiva entrega geográfica. O mesmo sucedia a Pessoa, em relação a sua Lisboa. Esse fato, embora previsto, me aborrece. 12 de maio de 2004.

sábado, 19 de fevereiro de 2005

YHA em Queenstown

O quarto de hostel No YHA de Queenstown, situado à beira do lago Wakatipu, tinha mochileiro saindo pelo ladrão. Um americano (morador do Alasca, não apurei seu nome) exasperou-se com a poluição do quarto, lotado. Certa manhã, vi-o passar sonora descompostura nos dois irmãos japoneses responsáveis por metade dessa poluição, segundo a todos parecia. Toda noite tinha lugar um concerto de roncos, silvos, chiados e outros barulhos inclassificáveis, secundados por um ocasional e malsão ruído culpado (um sujeito alternava roncos, em tons de tenor, com outros estribilhos, em baixos mais fundos, numa sinfonia entristecedora). O americano determinou que dali em diante as janelas ficariam abertas, noite inteira, não importava quantos carros liquidassem suas baterias em apitos; quantas chuvas tivessem vontade de chover. Ele solicitou o apoio do Brasil, cuja diplomacia acedeu de imediato. Mesmo as duras medidas contra os asiáticos (também ocorriam chineses no quarto, prontamente inculpados de envenenar o ar) foram ratificadas, o que colocou em movimento a diplomacia francesa. Quando saí, para Milford Sound, uns e outros se mandavam acaloradamente ao inferno. Numa coisa o americano tinha razão: a continuar aquele nível de emissão de gases, já já o planeta estaria debaixo d’água. Não sei como as coisas evoluíram depois dessa profilaxia. Sentindo o pulso do mundo, evadi-me, antes que o quarto explodisse. Queenstown, janeiro de 2005.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2005

O incidente do queijo

Hello, everybody! Cheguei a Adelaide, cidadezinha do sul da Austrália. Está chovendo um pouco, e breve sairei para conhecê-la melhor. Passei três dias em excursão entre Melbourne e aqui. Melbourne é a cidade mais interessante da Austrália, até agora. É simplesmente fantástica. Vou reproduzir, abaixo, um pequeno relato da excursão. Numa pequena cidade, entre Melbourne e Adelaide, tive a discutível idéia de comprar um queijo. Como o ônibus não tinha geladeira, acomodei-o no último banco. Se outros predicados não tinha (nunca saberei), o queijo cheirava com razoável intensidade, que só aumentava com o passar do tempo. Não tardou e uma onda de insatisfação percorreu o ônibus, vinda lá de trás. Sem refrigério, o queijo desgraçou tudo num crescendo de mau-cheiro e desagrado, tendo por epicentro o banco onde o havia depositado. Sem outra saída, denunciei a sórdida circunstância de o japonês Shuichi ter comprado aquele maldito queijo, fato pessoalmente testemunhado. O pobre Shuichi, iniciante nos mistérios do inglês, nada pôde contra minha larga experiência no idioma de Shakespeare. Uma japonesa (cujo nome nenhum ocidental consegue pronunciar sem danos ao centro da fala) tentou assumir a defesa do conterrâneo, sem sucesso. Assim que o infausto cheiro tocou as delicadas narinas da motorista, uma australiana loura e cheinha, Jesus, foi o caos: - Animal! De onde você tirou esse queijo? - Que bandido! Eu mesmo vou denunciá-lo à polícia - completei, com justa indignação. Foi assim que tudo se passou, conforme posso lembrar. Adelaide, dezembro de 2004.

sábado, 5 de fevereiro de 2005

Comidinhas

Há quem tenha ressalvas à comida australiana. Uns ignorantes (não fala com eles não, leitor). Me proponho comentá-la.

Comecemos pelo aussie barbecue, de grande apelo popular. Lingüiças industriais e cebolas. Um acompanhamento luxuoso, e excepcional, é um bocadinho de carne. Não é fácil identificar qual corte, nem o tipo de animal (supondo que o seja). De qualquer forma, é raro.

Esse “churrasco” explica parte dos 4,5 kg perdidos em vinte dias na Austrália. Mas o que mais me agradou foi o modo de preparo das carnes. Chega-se ao delírio com o doce de frango que eles servem, geladinho, e com a carne de canguru mal passada, adoçada com o puro açúcar de Fiji.

Uma vez, não me lembra onde, deparei com costeletas de porco impiedosamente adoçadas, num molho vermelho, acompanhadas de farta guarnição de pepinos. Em outra, quiseram me convencer das qualidades de um docinho de carneiro. Argumentei com a possibilidade do sal. “Seria atroz”, indignaram-se os cozinheiros. Não alcancei entendessem que em alguns países se usa essa substância nas carnes, e que a prática está registrada em textos consagrados, como a Ilíada. Essa última informação os exasperou.

Sem embargo, penso não ser proibido comer, uma ou duas vezes por ano (na falta de opção num raio de mil km) em casas de fast food. No meu caso, após perder uns cinco quilinhos, fui a uma dessas encantadoras lojas. Escolhi um sanduíche com apelo australiano. Trouxeram-no com pompa. O que eles chamam de carne processada é em verdade um aglomerado de plástico, com um leve toque de açúcar. Os simpáticos talos de alface, apelidados “salada”, estavam crocantes, e combinavam, de alguma forma, com a geléia de morango que empolgava o pepino. As batatas da liberdade, geladas, e o refrigerante de cola, morno, estavam saborosos. Tudo considerado, tinha-se a impressão geral de estar comendo a tábua de passar roupas, com geléia de morango.

Ignoro o valor nutricional das tábuas de passar roupa, e dos móveis em geral, mas acredito em baixos teores de colesterol, ao contrário do sanduíche. Não me oponho à ingestão de aglomerados de plástico. Acho até que esse é o futuro da gastronomia, a considerarmos que hoje muitos se orgulham de seus “cereais matinais”: sabugos de milho moídos, com sabor tutti frutti.

Aquele aglomerado parecia vencido, e como que esgotado seu potencial de reciclagens. Mas visitei outras cozinhas na Austrália. A mais impressionante delas, a indiana. Sentei-me à mesa, sozinho, enquanto à volta as pessoas comiam e conversavam. Antes do cardápio, o garçom, um indiano que antecipou gostar de música brasileira, confiou-me a guarda de uma enorme garrafa d’água. Inicialmente ofendido pelo despropósito de uma garrafa tão grande "O que esse sujeito está pensando?", olhei em volta e vi iguais caixas d'água em cada mesa, e pude mesmo ver que as pessoas delas se serviam.

Superada essa crise, baixou o cardápio, com nomes exóticos. Vi que poderia dar um basta na cozinha australiana, escolhendo bem o prato. Ao cabo de uns minutinhos, como houvesse disputa entre os peixes, as carnes e os frangos, sem falar dos arrozes e vegetais, folguei em pedir um prato que fosse a somatória de tudo isso e um pouco mais. Um prato que reunisse o melhor da cozinha indiana, um resumo. Entrementes, ordenei que da cozinha subisse uma autêntica cerveja australiana, e lembro que me trouxeram a VB. Não sabia o que fazer com o garrafão de água, e tive ganas de que fosse adjudicado à cozinha. Deixou-o ficar.

A comida chegou, em menos de meia hora, em sincronia quase perfeita com o final da VB. O prato era uma bandeja média, com nichos de vários tamanhos. Os maiores acomodavam arrozes e vegetais. Havia uma bateria de pequenas cavidades, onde se aninhavam as várias carnes, seus molhos e guarnições. Havia peixes, crustáceos, carnes bovinas (ou assim espero) em várias apresentações e estilos, e frango. Abundavam também as comidas não identificadas e a sobremesa, sabida a batata doce.

Fui às carnes, já que de um arroz não se espera muito, fora do Brasil. Primeira mordida, primeira fisgada. “Deve ser só impressão”, pensei comigo. Segundo prato, nova fisgada, que se somou à primeira, no ardor. “Ora ora, que malandro!” À medida que outros pratos foram sondados, mamãe! Era como se incêndios estivessem sendo ampliados paulatinamente na boca. O peixe, esse adorável e pacato prato, atiçava labaredas por toda a língua, toda a boca. Era difícil acreditar que um inocente frango fosse capaz de tamanha devastação nas papilas gustativas. O incêndio ganhava o corpo, e cabia abrandá-lo, do jeito que desse. A cada porção, um vigoroso jato d’água, para evitar o alastramento das labaredas. Os vegetais, tão macios e amigos, se resolviam em chamas vermelhas e vivazes, gostosas de queimar neurônios. Pensei nos extintores à base de carbono, mas vi que poderia ser mal interpretado pelos convivas, que suportavam pacientemente suas provações.

Olhando com mais atenção, pude ver que de cada rosto emanava uma expressão de sofrimento, como se uma grande luta estivesse sendo travada, e perdida. A água, os lenços, o apressado abanar-se: os sintomas eram da comida, ligeiramente picante. Os garçons se entreolhavam com orgulho. A qualidade de cada prato é aferida pela quantidade e aspecto das lágrimas. Lágrimas mornas e abundantes escorrendo pelo rosto eram sinal de boa comida, e não é nada educado deixar de verter pelo menos alguns cristalinos pingos. Um religioso à minha frente rezava baixinho, e eu quase podia ouvir a prece: “Oh Deus, se pelo menos não houvesse tantos bandidos na cozinha indiana... Abrandai-lhes, Glorioso, as necessidades de incendiar o mundo”. Aos prantos, comecei a pensar em tudo que me ocorrera até ali, as muitas viagens, os amigos que deixei em cada lugar e no Brasil, e enquanto pensava, um camarãozinho atiçava-me labaredas, que já iam altas. 

A carne vermelha requereu meio litro de água, as chamas lavrando no trato digestivo. Não sei quem disse que a cozinha baiana é apimentada. Pois ela parece papinha de nenê, perto da indiana. Lentamente, o salão foi se elevando espiritualmente, com pensamentos piedosos aflorando, testemunhados por lágrimas sinceras e comoventes. Foi nesse clima que deixei o restaurante, após duas garrafas d’água, arrependido de todos os pecados cometidos ou a cometer. Levei comigo algumas pedras de gelo, com que pretendia entreter as labaredas. Depois dessa experiência, ocorrida em Adelaide, só em Queenstown, um mês depois, reuni coragem de adentrar um desses restaurantes, tremendos.

Não falei, ainda, da cozinha vietnamita. Na George Street, não longe do Paddy's Market, em Sydney, concentram-se diversos restaurantes asiáticos, tailandeses, chineses, japoneses. Entrei no que me pareceu o mais simpático. A moça que me atendeu era bonita e vietnamita. Pedi uma sopa que incluía frutos do mar, carnes, vegetais e macarrão. Antes da sopa, eles serviram uma salada. Era vasta, com vegetais incomumente viçosos. O jasmim interagia de maneiras totalmente insanas com as papilas. Ignoro se foi o jasmim vietname, ou outro vegetal ainda mais exótico: alguma coisa subiu ao cérebro e começou a inventar delícias proibidas.

Incorri, com Withman, numa sobrenatural capacidade de emitir uma alvorada de mim mesmo, segundo sonhos. Jamais voltei a experimentar semelhante câmbio dos móveis mentais. Não por falta de diligência, mas é que, nas duas vezes que lá retornei (uma delas após dar a volta à Austrália), não me serviram a abençoada salada. Num restaurante no mercado municipal de Adelaide, chegou-me ao conhecimento a comida tailandesa, de muitas sopas e carnes de vaca ou frango. Do restaurante 'Star of Siam', lembro vagamente de alguns pratos, sem contudo distinguir seus sabores. Não cheguei a provar a alta cozinha australiana, e tampouco a neozelandesa. Imagino que devem ser maravilhosas, e de uma próxima vez prometo ser menos avaro. Um amigo aconselhou-me escalopes de um molusco gigante, só encontrado na Austrália. Não o localizei no cardápio do restaurante da Ópera de Sydney.

Abateu-me a saudade de meu restaurante vegetariano, e do arroz com feijão, que são a marca do brasileiro, sua mais cativante invenção. Ignoro se todos os exemplos de comidas e suas impressões aqui relatadas são literais ou consentem alguma criatividade. o episódio da salada vietamita é rigorosamente verdadeiro, como o é que perdi quase 5 quilos em 25 dias na Austrália. Talvez eu devesse comemorar. Campo Grande, fevereiro de 2005.