quinta-feira, 14 de abril de 2005

Três Lagoas

Existe uma regra informal de não falar de viagem de serviço. Não quebrarei essa regra. Ao contrário, direi apenas que estou em Três Lagoas, nas orelhas do rio Paraná. Os colegas de serviço são legais, mas muito brincalhões: de cara ofereceram sashimi de salmão acompanhado de um delicioso caldo de cana. Básico, quando se faz correição. Amanhã volto a Campão, e aí espero colocar as fotografias em ordem, e tratar da próxima viagem. Pretendo ir a Portugal e Espanha, se a Varig não falir até lá. Sou uma pessoa de muita fé. Eu realmente acredito que a Varig não vai falir até junho, e também que os juros vão cair. Também acredito em Saci Pererê e Mula-sem-cabeça. Só tenho um probleminha de aceitação com Papai Noel. Sempre tive isso comigo. Não é nada. É bem pouca coisa. A viagem a Fernando de Noronha, um sumário: Foi a terceira visita (obrigado, Vânia, pelas milhas...), então, já sabia o que iria encontrar. Procurei tirar proveito da nova máquina, digital, mas tivemos muitos dias nublados, e o mar de dentro revolto, levantando areia da praia e turvando as águas azul-turquesa da praia do Sancho. Abusei de fotos de pôr-do-sol, mas elas resultaram sem criatividade. Eu não conhecia os recursos de magnificação de cores, só os de sensibilidade, velocidade e abertura do diafragma. A lua na noite do Buraco da Raquel não empolgou, e todo o trabalho de montagem de tripé foi por água abaixo. Numa das vezes que fui ao forte da Vila dos Remédios, para o pôr-do-sol, enfiei o pé na jaca: na descida de um monte de pedras, o pé direito deslizou para uma saliência, travou e logo a perna passou a funcionar como uma alavanca, e me arrojou sobre pedras. O antebraço e o joelho direito foram leais, mas pagaram com sangue e dor. Eu poderia facilmente ter quebrado a ambos, além de triturar as duas câmeras, à mão. O pé aprisionado doeu muito, mas dali a minutos estava pronto para a próxima. De uma coisa posso me gabar: tenho dois pés respeitáveis e competentes. Não fiz mergulho na ilha, exceto com snorkel. Não vi tubarões e as tartarugas que cheguei a ver estavam na praia, loucas pra voltar pra água. Os restaurantes de Noronha fecham para o almoço, com exceção de 3, que furam o lockout da fome e recebem os famintos. O Tartarugão (à noite) espanca fomes violentas. Não falei, ainda, de Recife. Fui conhecê-la de táxi, pois só tinha umas 20 horas (fruto do atraso do vôo da TAM). Tirei fotos noturnas, que em breve publicarei. Fui ao Instituto Francisco Brennand, que estava fechado. O marco zero da cidade forneceu fotografia original. Também Olinda estava bonita, à noite. Agora, hora de ir. T. Lagoas, 14 de abril de 2005.

sexta-feira, 8 de abril de 2005

Mais viagens

Após tantas viagens, pequenas ou grandes, não sei como mas estou em Brasília. Clima agradável, hotel bom, um verdadeiro refresco, perto da hospedagem recente. Fui a Bonito no final de semana, mas acho que somente a Keila (minha irmã) aproveitou. Sobre Bonito, uma pequena história: Certa vez fiz um passeio à gruta do Lago Azul. Dei carona para uma alemã que morou no Brasil alguns meses. Na chegada, o único local com sombra para o carro era frequentado por um animado grupo de vacas nelore, soltas. A alemã, com seu português cambaleante, alertou-me que as vacas iriam increspar com meu carro, vermelho. "Qual o quê. Bem se vê que você não sabe nada de vacas... Então você acredita mesmo nessa lenda urbana de vacas alucinadas com coisas vermelhas? Tranquila no más." O passeio tava demorando pra burro, e a alemã tinha sumido. Mais de 40 minutos, nada. Já tinha esquecido o assunto das vacas quando volta a alemã, esbaforida: "... as vacas ... lá no seu caro..." As vacas lambiam com gosto meu carrinho, deixando um grande babado na pintura. Um dos lambidos se extendia de fora a fora, e uma delas (a mais bandida) resolveu se coçar em meu retrovisor. Especialmente saborosa a frente arredondada do carro, a julgar pelos babados nessa região. Dei cabo desse despautério, retirando o carro dali, mas elas olhavam com volúpia por sobre a cerca do estacionamento. Que sirva de lição sobre as nossas bovinitudes... Voltando às viagens recentes, depois fui a Aquidauana (hei, é feio perguntar quem é Uana) e Anastácio, cada qual mais quente. Nenhum restaurante bom, nada a fazer. Agora, caí em Brasília. Bons restaurantes e uma ponte a fotografar. Agora que a fotografei, espero ter tempo para, algum dia, baixar os arquivos e remetê-los a um bocado de gente que a essa hora já deve estar impaciente. Grande abraço.

segunda-feira, 28 de março de 2005

Fernando de Noronha

Hello, people! Estou em Fernando de Noronha, aproveitando o feriado. Já fui a todas as praias, fiz um montão de passeios e amanhã vou ao Capim Açu (se tudo der certo). A ilha continua espetacular, o sol impressiona (e tosta) e as pessoas continuam gentis. Tirei (é claro que tirei) um montão de fotos com a câmera digital, e breve terei um arquivo de bom tamanho. A comida é ótima (principalmente frutos do mar e peixes, claro). XoXo... Vila dos Remédios, 28 de março de 2005.

domingo, 27 de fevereiro de 2005

As pessoas

1. O chinês Na excursão por Kakadu Park, um chinês se notabilizou por pequenas brincadeiras, inclusive com Esther (uma holandesa), que o espinafrou. Também chamava a atenção pela voracidade na hora dos lanches, e por tentar ser simpático. No grande barracão repleto de camas, que nos serviu de abrigo dentro do parque, por uma noite, Samy (ou seja lá o que for) lépido subiu para seu beliche. Se subiu lépido, desceu como um raio: – something wrong! – ele disse, só porque a cama estava suja e tomada de insetos. Mas de onde ele tirou a idéia de que poderia dispensar o saco de dormir?

O incidente do estacionamento

Deixei meu pequeno carro no estacionamento do Shopping, para vadiar numa tarde de Sábado. Após um filme, e algum lanche, voltei. Ao acionar a abertura de portas, nenhuma resposta. Mais acionamento e nada. Cheguei bem perto, apontei o dispositivo para os sensores, e nada. Decidi resolver “no braço”: utilizando a chave, tentei abrir a porta. Nada. Mais esforço, revolvi a chave, e nada. - Essa é boa, o que faço agora? - Tentei outras vezes o sensor, depois revolver a chave. Nada, nada. Parti pra ignorância. Resolvido a abrir aquela porta a qualquer custo, soquei e puxei violentamente a maçaneta. Ela cedeu, mas não a porta. “Que demônios!”, pensei, com a maçaneta nas mãos, ao ver uma revista Ele & Ela no banco do carona. Devem ter aberto o carro e colocado essa revista pornográfica, só para me sacanear... Se é verdade que só compro Playboy (para ler as entrevistas), que diabos uma Ele & Ela estaria fazendo em meu carro? Perplexo, sem saber que fazer com os escombros da maçaneta, percebi que o carrinho vermelho, em tudo idêntico, não era o meu. Mais tranqüilo, fui em busca do meu carro, estacionado a poucos metros, dei partida e fui pra casa (toda essa história de arrombar o carro alheio me deixou cansado). Que sirva de lição sobre estacionamentos gigantescos... Campo Grande, 27 de fevereiro de 2005.

Uluru

Por do sol Uluru, originally uploaded by gerson noronha.

Ao amanhacer, o sol redescobre Uluru.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2005

Uma história carioca

Carlos e a filha subiram ao Corcovado, domingo de frio no Rio. Vinham do Jardim Botânico, insuficiente para o preenchimento de um domingo de Clara. Ela flutuava alegremente numa torrente de momices e garatujas. Enquanto o trem descia a encosta, quis saber se ali havia cavalos. "Florminha" disse o pai, amoroso "cavalos não gostam de montanhas e florestas, comprometidos com a grama, o campo aberto." Mas Clara não se deixou impressionar com essa demonstração de má-vontade. Queria cavalos ali, e ordenou que, dali em diante, todo bom cavalo que assim desejasse poderia habitar aquela floresta, acolhedora. E conferiu-lhes poderes para beberem das muitas bicas e se agasalharem nas nuvens que visitam aquela montanha, especialmente aos domingos. Muitos cavalos atenderam ao chamado, e foram, felizes, guarnecer as encostas, para o gáudio de menininhas que descem a montanha. Lá embaixo, no Cosme Velho, todas querem uma visita à casa de Cecília Meireles, e ao palacete do general onde o Bruxo se casou. Nota-se quanto esses cavalos estão mudados. Alguns vivem em galhos, e são amigos das flores e frutos; outros desenvolveram o vôo, e às vezes cantam, ao sabor das necessidades poéticas das clarisses e joanas. As marianas reformaram a altura e peso desses animais, risonhos; alguns não passam de alguns centímetros, enquanto outros mais e mais se aproximam das medidas de hipopótamos, seus parentes, conforme faz prova o nome. São muitos os encantos, se uma menininha se propõe suavizar o mundo. E toda a natureza lucra com esses aditamentos. Os animais, absolvidos de sua antiga servidão, se dedicam a visitar flores e entoar a primavera. Cavalos são ali facilmente passarinhos. Mas alguns ainda olham, com volúpia, para os verdejantes campos sediados na distância. Clara, uma delícia de criança, agora queria uma visitinha ao Pão de Açúcar. Rio, 13 de junho de 2004.

Uma viagem ao Rio

Consta que os motoristas do Rio voam para a morte; que tentam seus anjos. Glória, Catete, Botafogo, Ipanema. Daqui pra lá, de lá pra cá, acesas carreiras. O carioca não se importa com o trajeto do ônibus, desde que o número pareça familiar. A moça do hotel sugeriu o 409. Sei lá pra onde ia o 409, um montão deles apresentava os mais aleatórios números, com os mesmos destinos: Leblon, Ipanema, Lagoa, Jardim Botânico. Por um tempo fiquei tentado a ir à Usina. Depois veio o desejo incontrolável de ir ter à Barra. Mantive os planos. Após o terceiro ou quarto 409, resolvi mudar de ponto. Aquele ponto no Aterro do Flamengo nunca me pareceu respeitável. Mas após o quinto 409 que passou chutado no novo ponto, percebi que estava diante da linha-dura, o intransigente núcleo de resistência aos campo-grandenses no Rio. Voltei ao hotel, decidido a combater o inimigo. A moça disse que nunca tinha visto; o camelô na calçada aconselhou que eu agüentasse firme; que após alguns dias, de pé, no ponto, os motoristas finalmente cederiam. Esquecia-me dizer que a moça da concierge tinha olhos divagadores, doces e precisos em conhecer-me os destinos. Meti-me num táxi, que voou até as beiradas da Lagoa. Lá, fiquei de emboscada, esperando o atrabiliário 409, que não tardou a apontar na avenida, gingando ameaças e provocações. No momento aprazado, num movimento preciso, ao fingir que estava apenas passeando, pulei para a avenida gritando e gesticulando, enquanto os passantes e as pessoas do ponto, contaminadas por minha ânsia, se punham a exortar o motorista a parar, nem que fosse para impedir meu atropelamento. E o insondável 409, “gostoso de ruim de dentro do fundo das espécies”, se deteve, ante o clamor público. O 409 nem sempre foi assim. Mesmo porque essa linha já freqüentou outras freguesias, como todo carioca sabe. É que, volta e meia, as autoridades municipais trocam os números, mudam os destinos. As pessoas inclinadas a lamúrias dizem que isso provoca o caos, que atormenta o pobre carioca. Mas as autoridades sabem o que é melhor para o carioca; e o melhor é que se cale. Algumas mudanças são realmente questionáveis. Houve uma que consistiu em anunciar massivamente as alterações, martelando na mente do carioca seus novos rumos, sem que uma única linha, um único número fosse alterado. O taxista me informou que, comparado ao 179, até que é fácil apanhar o 409. No 179, parece, reúnem-se todos os demônios dessa cidade, presididos pelo primeiro demônio do mundo, o mais furioso deles, ao volante. De tão diabólico, ele é capaz até de parar pra você, leitor. Um sufoco; uma linha que simplesmente Deus me livre. O contínuo do hotel gabou conhecer alguém que já conseguiu pegar o 179, mas a zombaria de seus amigos sugere se ouça com reservas esse sucesso. A probabilidade é a mesma de acertar na loteria, ainda que não no prêmio principal. Sorte sua, leitor, nunca ter precisado tomar esse ônibus. O carioca vive numa bonita cidade, mas dirige como se nada mais lhe restasse senão fugas suicidas. Já o campo-grandense parece eternamente indo socorrer a sogra. Prefiro a correria carioca. Inquiriram, quiseram saber de minha cidade. Respondi Campo Grande, com a convicção que me foi possível. Tirante os ipês coloridos, e principalmente os brancos, que ordenei nascessem no Parque das Nações Indígenas, não tenho provas da existência dessa cidade, de esquiva entrega geográfica. O mesmo sucedia a Pessoa, em relação a sua Lisboa. Esse fato, embora previsto, me aborrece. 12 de maio de 2004.

sábado, 19 de fevereiro de 2005

YHA em Queenstown

O quarto de hostel No YHA de Queenstown, situado à beira do lago Wakatipu, tinha mochileiro saindo pelo ladrão. Um americano (morador do Alasca, não apurei seu nome) exasperou-se com a poluição do quarto, lotado. Certa manhã, vi-o passar sonora descompostura nos dois irmãos japoneses responsáveis por metade dessa poluição, segundo a todos parecia. Toda noite tinha lugar um concerto de roncos, silvos, chiados e outros barulhos inclassificáveis, secundados por um ocasional e malsão ruído culpado (um sujeito alternava roncos, em tons de tenor, com outros estribilhos, em baixos mais fundos, numa sinfonia entristecedora). O americano determinou que dali em diante as janelas ficariam abertas, noite inteira, não importava quantos carros liquidassem suas baterias em apitos; quantas chuvas tivessem vontade de chover. Ele solicitou o apoio do Brasil, cuja diplomacia acedeu de imediato. Mesmo as duras medidas contra os asiáticos (também ocorriam chineses no quarto, prontamente inculpados de envenenar o ar) foram ratificadas, o que colocou em movimento a diplomacia francesa. Quando saí, para Milford Sound, uns e outros se mandavam acaloradamente ao inferno. Numa coisa o americano tinha razão: a continuar aquele nível de emissão de gases, já já o planeta estaria debaixo d’água. Não sei como as coisas evoluíram depois dessa profilaxia. Sentindo o pulso do mundo, evadi-me, antes que o quarto explodisse. Queenstown, janeiro de 2005.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2005

O incidente do queijo

Hello, everybody! Cheguei a Adelaide, cidadezinha do sul da Austrália. Está chovendo um pouco, e breve sairei para conhecê-la melhor. Passei três dias em excursão entre Melbourne e aqui. Melbourne é a cidade mais interessante da Austrália, até agora. É simplesmente fantástica. Vou reproduzir, abaixo, um pequeno relato da excursão. Numa pequena cidade, entre Melbourne e Adelaide, tive a discutível idéia de comprar um queijo. Como o ônibus não tinha geladeira, acomodei-o no último banco. Se outros predicados não tinha (nunca saberei), o queijo cheirava com razoável intensidade, que só aumentava com o passar do tempo. Não tardou e uma onda de insatisfação percorreu o ônibus, vinda lá de trás. Sem refrigério, o queijo desgraçou tudo num crescendo de mau-cheiro e desagrado, tendo por epicentro o banco onde o havia depositado. Sem outra saída, denunciei a sórdida circunstância de o japonês Shuichi ter comprado aquele maldito queijo, fato pessoalmente testemunhado. O pobre Shuichi, iniciante nos mistérios do inglês, nada pôde contra minha larga experiência no idioma de Shakespeare. Uma japonesa (cujo nome nenhum ocidental consegue pronunciar sem danos ao centro da fala) tentou assumir a defesa do conterrâneo, sem sucesso. Assim que o infausto cheiro tocou as delicadas narinas da motorista, uma australiana loura e cheinha, Jesus, foi o caos: - Animal! De onde você tirou esse queijo? - Que bandido! Eu mesmo vou denunciá-lo à polícia - completei, com justa indignação. Foi assim que tudo se passou, conforme posso lembrar. Adelaide, dezembro de 2004.