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quinta-feira, 27 de outubro de 2005

Literatura

O (improvável) leitor pode se perguntar por que perder tempo com Chomsky. Quem se der o trabalho de inventariar as gôndolas de "lançamentos" e "mais vendidos" vai entender o porquê. Os livros agora deram para se chamar "quem comeu meu queijo", "quem tomou minha sopa", "quem comeu meu hambúrguer", quem comeu isso ou aquilo. Desaprovo toda essa comilança. Pior: existem loas a pessoas como Bush, Lula e Chavez. E também críticas (algumas ótimas, outras desnecessárias). Os bruxos, fadas, duendes, elfos, grifos, dragões da maldade e magos agora deram para frequentar academias. Desconfio que algumas pessoas deixaram de considerá-los mitos inofensivos e passaram a acreditar nesse entulho medieval. O soterramento do pensamento criterioso e estético é um risco que não podemos desprezar. Chomsky representa um enorme desafio, porque obriga a pensar, duvidar e analisar. Sigamos com Harry Potter.
P.S.: além dos ataques ideológicos ao pensamento evolucionista, Chomsky foi flagrado em elogios ao genocida Pol Pot. Se for verdade, esse fato, por si só, invalida tudo de útil que Chomsky possa ter produzido.

terça-feira, 25 de outubro de 2005

Lista de intelectuais

Li, dias atrás, que Noam Chomsky foi escolhido o mais importante intelectual vivo, e que Richard Dawkins ficou em terceiro, por um júri formado por intelectuais de todo o mundo. É difícil falar de Chomsky. Há dois deles. O primeiro é o maior lingüista que o mundo já produziu. Muitas galáxias além de qualquer coisa que eu e você, ótimo leitor, possamos entender. O pouco que penso entender de Chomsky me foi passado por Steven Pinker: ele defende a tese de que a linguagem não é inteiramente aprendida, sendo inata, em grande medida. As crianças, segundo Pinker, não são instruídas em todas as regras necessárias a uma lingagem, mas antes as intuem, mediante estruturas mentais inatas (herdadas). Esqueçamos as estruturas profundas e outras enormidades, e passemos ao ativista político. O segundo Chomsky faz ataques devastadores à política externa norte-americana (e à de seus satélites), absolutamente impiedosos. Veja-se o ataque à política australiana no Timor, ou à política ianque no Haiti, Iraque, África, Vietnã, etc... Seu particular ataque aos Kennedy é capaz de deixar o mais rancoroso anti-americano com pena do clã. Sua visão crítica oscila entre o sombrio e o ceticismo desenganado. No entanto, Chomsky parece necessário. Num mundo de Bush e Putin, Lula e Chavez e Mr. Risadinha (Tony Blair), ele obriga a pensar. Pena que este seja um passatempo tão aborrecido, para tantos. Estou orgulhoso de que Dawkins, decano de Oxford, esteja na relação. É meu mestre em biologia e seu entorno. Seus livros são de uma beleza maravilhosa; um alívio diante da tsunami de livros de auto-ajuda que arrasa o mercado e estiola o pensamento. O cientista, que ocupa a mesma cadeira já ocupada pelo gigante Isaac Newton, tem idéias que nos libertam. Penso que a lista é justa. Brasília, 25 de outubro de 2005.