"Hidrovias ao redor de cada cultivo, por pequeno, para que patos selvagens, cisnes e outros jantares possam viajar com conforto. Num cruzamento dessas hidrovias julguei ver, de relance, um semáforo em funcionamento e uma família de patos esperando sua vez, enquanto os cisnes obedeciam, ordeiros, o sinal verde, mas o leitor deve considerar o vinho e a pressa do trem."
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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007
Volendã, Holanda
"Hidrovias ao redor de cada cultivo, por pequeno, para que patos selvagens, cisnes e outros jantares possam viajar com conforto. Num cruzamento dessas hidrovias julguei ver, de relance, um semáforo em funcionamento e uma família de patos esperando sua vez, enquanto os cisnes obedeciam, ordeiros, o sinal verde, mas o leitor deve considerar o vinho e a pressa do trem."
quarta-feira, 24 de janeiro de 2007
Vivências
Sabe lá o que é cruzar a Europa de trem-bala, o janelão escancarado para campos e cidadezinhas – ocasionalmente obliterado pelo relâmpago de um trem no sentido oposto – escutando Madredeus, Marcelo Loureiro, Janis Joplin?
Tem coisa que não adianta relatar.
No ipod, o Midnight Oil perguntava: Country Why? enquanto adentrávamos a Gare du Nord.
São Paulo chamava. Eu queria ir.
Tem que vivenciar.
Em casa & Holanda
Em casa!
Adorável casa de um só e pouco habitante. Resumi a Holanda, mais ou menos assim:
"Como se sabe, a Holanda é obra de ciclistas fundamentalistas, aborrecidos com montanhas e outras fraudes encontradiças em países menos planejados.
Suas ladeiras, que marcham desde diques, não ultrapassam o metro de desnível. Nada que não possa ser vencido com uma pedaladinha.
Essa planura, de inalterável perfeição, foi conquistada à força de enganar os oceanos, que gostavam daqueles mesmos lugares onde pastavam cavalos marinhos e ora festejam bicicletas e vacas leiteiras.
Caminhei por essas temeridades chamadas pôlderes – terras subliminares – como o discípulo sobre o mar: lívido ante o milagre de colheitas em campos de caprichosa geometria.
Hidrovias ao redor de cada cultivo, por pequeno, para que patos selvagens, cisnes e outros jantares possam viajar com conforto. Num cruzamento dessas hidrovias julguei ver, de relance, um semáforo em funcionamento e uma família de patos esperando sua vez, enquanto os cisnes obedeciam, ordeiros, o sinal verde, mas o leitor deve considerar o vinho e a pressa do trem.
O mar às vezes reclama seus antigos domínios. Na década de 1930 a nação descobriu, numa dessas justas, que milhares de holandeses haviam fugido às aulas de natação.
Mesmo o mar interior formado pelo imenso dique concluído naquela mesma década foi reformado, e hoje é conformado lago, de águas doces.
Amsterdã é uma prova de que a arquitetura não precisa ser banal certeza ou interminável imitação. Espalhando-se desde a estação central progridem losangos plenos de prédios e casarões, cada qual mais decoroso, todos de grande valor artístico e histórico.
Em meio a eles, inúmeros canais, freqüentados por barquinhos. Bondes deslizam em quase todas as ruas, com os mesmos direitos e deveres dos carros. Ciclistas pontificam em todas as ruas, e não é raro que uma seja bonita.
Uma bicicleta, que me acossava do fundo das eras, foi livrada no momento final, e pude atinar com a salvação da calçada.
As cidades européias abundam em igrejas, algumas tomadas do Islã, a maioria de uma suntuosidade incompatível com as doutrinas cristãs. Com Amsterdã ocorre o contrário, quase não as há. Não poderia mesmo ser diferente, na capital do ateísmo.
Consta que Schiller resumiu a Guerra dos Trinta Anos em um parágrafo. Concluo a Holanda – obra de milênios, a quem dediquei escassos dias – em alguns curtos parágrafos e umas fotos.
Não deixaram Schiller resumir a Guerra dos Cem Anos. Não vou me alongar sobre uma Holanda que o leitor deve descobrir por si mesmo.
Gare du Nord, Paris, 23 de janeiro de 2007."
segunda-feira, 22 de janeiro de 2007
Red Light
O bairro da luz vermelha desta cidade é pitoresco.
Turístico, "bem freqüentado", expõe moças em janelas, a maioria emoldurada com neon. Algumas chamam a atenção, não seriam de se jogar fora.
A maioria passou do peso, para uma exibição de corpo inteiro, e não cativa o olhar dos turistas. Muitas casas anunciam shows de sexo explícito. Meu voyerismo não chega a tanto.
As ruas são apinhadas de gente, meros curiosos. Os compradores das mercadorias estão lá, certamente, ou o aluguel das vitrinas não seria pago.
Há semelhanças e diferenças com o bairro congênere de Bangcoc. E com a rua Augusta de cada cidade brasileira, menos a proteção da polícia.
Volendam & Marken
Chego de um tour por essas cidadezinhas graciosas da Holanda.
Primeira parada, fábrica de sapatos típicos, de madeira. Um cidadão pegava gritos no recinto, num idioma que tem de ser holandês, porque não entendi nada. O amável gritão prosseguiu em outros idiomas, enquanto eu registrava a fabricação desses sapatos, de questionável índice de conforto.
O Júlio confiou-me a tarefa de degustar um bacalhau fresco em Volendã. Ele disse que tinha sido o melhor que já provara.
Fui direto ao restaurante indicado, e pedi logo o prato sonhado todos esses dias.
Junto com o chope artesanal, o kabeljauw provocou maravilhas. Estava perturbadoramente delicioso. Eu poderia acrescentar alguns elogios, mas não creio que seja necessário.
A loirona holandesa apresentou-me uma conta, que tive de rejeitar, por ridícula. Pedi o apoio de copos do restaurante, moda inaugurada pelo mesmo Júlio, em Praga.
Merkem é cidadezinha das mais pitorescas. Fotografei sem parar, embora o guia estivesse em ritmo de maratona. Os espanhóis mencionaram "conhecer a América em um dia", com aquele ritmo.
Na volta, piadas, espanholas e holandesas.
sábado, 13 de janeiro de 2007
Lyon
Hoje termino esta cidade.
Foram dois dias ultradensos, e verbalizá-los não vai ajudar muito. Talvez mais tarde, com calma. Agora só quero aproveitar essas delícias.
terça-feira, 9 de janeiro de 2007
Sobre viagens aéreas
A viagem a Paris, de amanhã, me lembra outra, para Bima.
Caminhando pela pista do aeroporto de Bali - modesto, para sua clientela de gigantes intercontinentais - vi um aparelho singularmente velho e cansado. Suas asas, curtas como as de uma ave fujona, e seus motores, rotos e cobertos de fuligem, inspiravam cuidados, senão piedade.
O conjunto sugeria milhares de ciclos além do recomendado pela Fokker (que, de qualquer modo, falira há muitos anos). Não que seus aviões fossem ruins, não. Apenas não se agüentavam voando, o que, quase sempre, resultava em momentos inesquecíveis, para passageiros ou familiares.
Nessa caminhada fiquei sabendo da intenção daquele improvável avião de me levar a Bima, ilha de onde se navega até Komodo.
Em condições normais eu declinaria o privilégio, mas não quis ofender a equipe de bordo, que me sorria do alto da escada de alumínio.
Um dos que mais sorriam era o piloto. Sobrevivente de heróicos acidentes (ao contrário de seus passageiros), era um homem de coragem, uma pessoa extraordinária, via-se logo.
Entramos. Eles bem que trancariam a porta do habitáculo de comando, se existisse uma. De sorte que tínhamos a cabine de comando à nossa disposição. Os assentos da classe que meu salário autoriza costumam ser apertados. Aqueles eram dignos de pigmeus.
Reparando no trabalho do nosso excepcional piloto, vi que se impacientava com o motor da direita. Após uma acalorada troca de insultos com o pessoal de terra, pela janelinha caída, o motor dá sinal de vida, num gemido profundo e sentido.
O outro exigiria mais.
Um breve e justificável espancamento do painel, uma torrente de impropérios, e nada. Então, o piloto torna pública sua ira e toma a si a tarefa de fazer o engenho funcionar. Eu, que observava com certo interesse, posso dizer que uma intensa energia fluiu daquele manche diretamente para a turbina, que finalmente entrou em erupção, tamanhos ruído e vibração.
Em meio às brumas alçamos vôo aos céus, pouco antes da pista ceder a vez para o mar, inseguros acerca de nossa sorte entre as nuvens ou lugar no paraíso.
Não sei se devido à tesourada nas asas, ao peso dos 40 anos, às muitas avarias ou às navalhadas do piloto, mas aquela foi uma viagem de suspiros e preces.
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