sábado, 2 de setembro de 2006

Panda

No zôo de Pequim, por toda a tarde o panda bocejava por todos nós. Após um agosto de muitos desertos, vêm as chuvas inaugurar as necessárias primaveras.

terça-feira, 29 de agosto de 2006

Contra a liberdade de expressão

Sarney, dono da capitania do Amapá, não gosta de críticas, ainda que bem humoradas. Andou brincando de coroné em seu curral. O resultado vai abaixo:
Ao menos 80 blogs já aderiram ao "movimento" desde que a Justiça Eleitoral determinou, no último dia 25, que a jornalista Alcilene Cavalcante retirasse de seu blog a foto de um muro de Macapá no qual a expressão "Xô" é representada com uma caricatura do senador.
A foto está agora reproduzida na maioria desses blogs. O jornalista Marcelo Tas, em seu blog, disse que é preciso "varrer do mapa, aposentar de vez da vida pública brasileira, um dos maiores vermes da nossa história: o ex-maranhense e presidente Zé Sarney".Tas colocou no ar, inclusive, um santinho da principal adversária de Sarney ao Senado e escreveu: "Voto declarado".
É isso aí.

quarta-feira, 23 de agosto de 2006

Templo indiano

Templo em Déli. Não me recordo a qual ou quais deuses dedicado. Muitos deuses morreram no subcontinente indiano, e outros agonizam em silêncio no momento. Os crentes não são muito caridosos com seus protetores. Idiomas e deuses sucedem-se num vórtice acelerado chamado história.

terça-feira, 22 de agosto de 2006

Campanha eleitoral

O economista João Sayad sintetiza bem a experiência de assistir a uma campanha eleitoral, na Folha desta segunda (20 de agosto):
Brasileiros brancos, negros, evangélicos, ex-funcionários públicos, aposentados, políticos desde sempre, gordos e magros, com barba ou sem ela, caras comuns ou surpreendentes, surgem na televisão, falando as mesmas coisas. Sou o candidato do desenvolvimento, da saúde, da educação, do combate à corrupção, da mudança. Não esqueça, vote no 45, no 13, no 70. Vote no 2512, dia do Natal, fácil de lembrar.
Falam depressa, olhar fixo no "prompter", como artistas amadores, representando um personagem difícil e que não conhecem. Depois vêm os filmes -campos de soja com imensas colheitadeiras, fábricas modernas, favelados agradecidos, operários de uniforme, agricultores sorridentes, estradas bem pavimentadas, acompanhados por jingles em ritmo de samba ou de baião. (...)
No horário eleitoral, o Brasil em pessoa, sonhando com as mesmas coisas de sempre, entra na sala pela televisão como uma porta-bandeira rebolando ou um Jeca Tatu de camisa xadrez".

sábado, 19 de agosto de 2006

Stálin

Simon Sebag Montefiore, o jovem historiador britânico de quem tomo emprestadas as citações que seguem, nega o caráter enigmático de Stálin, embora reconheça sua “inescrutabilidade de esfinge e modéstia fleumática”. Passeando por suas páginas, não me escapou que há, sim, muito de enigma nesse nosso personagem. Haveremos de resolvê-lo? 1. Retratos. Loquaz, sociável e excelente cantor [gostava de entoar hinos religiosos, não sem fervor], esse homem solitário e infeliz arruinou todas as suas relações de amor e de amizade ao sacrificar a felicidade à necessidade política e à paranóia canibalesca. Marcado pela infância e de temperamento anormalmente frio, tentou ser um pai e marido amoroso, mas envenenou todos os poços emocionais. (...) Acreditava que a solução para todos os problemas humanos era a morte e foi obcecado por execuções. Esse ateu devia tudo aos padres [não por nada jesuítas] e via o mundo em termos de pecado e arrependimento. (...) Sob a calma lúgubre dessas águas insondáveis havia redemoinhos mortais de ambição, ódio e infelicidade. Dono de um humor de verdugo, disse a respeito da fracassada tentativa de suicídio de seu primogênito: “não conseguiu nem atirar direito”. Egotista exigente, nunca lhe ocorreu dar “felicidade” a quem quer que seja. Estafava as pessoas, que dele fugiam, com grande perigo para a manutenção de suas cabeças sobre os ombros. Era emocionalmente atrofiado e carecia de compaixão, mas suas antenas eram super-sensíveis. Era anormal, como todos os políticos. Stálin dialoga com sua mãe, Keké: “Por que você me batia tanto?” “Por isso você ficou tão bom”, respondeu ela, antes de perguntar: “Iossif, o que você é agora exatamente?” “Bom, lembra do czar? Pois é, sou uma espécie de czar.” “Você teria feito melhor se fosse padre”, disse ela, comentário que deleitou Stálin. Ignoro se o diálogo acima é verossímil. Impressiona o nível de ódio latente, apenas sugerido. Mas tudo isso é ninharia frente ao homem por inteiro. A grande dificuldade quando de lê sobre um monstro, ou mesmo sobre pessoas normais, é que, mesmo diante de evidências, as pessoas recuam e não concluem o que deve ser concluído. Ou só o fazem parcialmente, como se vê das citações. Uma grande perda de tempo. Do começo. Lênin tomou de assalto o estado russo, contando com a colaboração de conhecidos criminosos, muitos sonhadores e alguns idealistas. Difícil é explicar como aquela monarquia inepta, sem apetite nem vocação para governar, não ruiu antes. A “vanguarda” dos bolcheviques, composta de muitos jovens que estavam com as mãos sujas de sangue da brutalidade da luta, via-se como uma minoria isolada e combatida, que governava nervosamente um império vasto e arruinado, também cercado por um mundo hostil. Não tardou e Lênin descobriu que o desdém que devotava aos operários e camponeses era mútuo. Ele propôs órgão único para governar e supervisionar a “criação do socialismo”: o Partido. Então, improvisaram um sistema peculiar: O órgão soberano do Partido era o Comitê Central (CC), compostos por cerca de setenta membros, eleitos anualmente pelos congressos do Partido, que depois se tornariam menos freqüentes. O CC elegeria o pequeno Politburo, um supergabinete de guerra que decidia as diretrizes políticas, e um secretariado de cerca de três secretarias para governar o Partido. 2. O que foi a Revolução Russa? (...) uma mistura fervilhante e estimulante de intriga conspiratória, bizantinismo ideológico, educação acadêmica, disputas entre facções, casos amorosos entre revolucionários, infiltração da polícia e caos organizacional. Stálin – sete vezes exilado – era um revolucionário profissional. Os czares eram policiais ineptos. Inadvertidamente, ao parecer, patrocinavam férias de leitura em distantes aldeias siberianas, com apenas um gendarme de plantão em tempo parcial. Ali os exilados se conheciam, se correspondiam com seus camaradas em Petersburgo ou Viena e tinham casos com garotas locais. Quando lhes era conveniente, atravessavam a taiga até o trem mais próximo e “fugiam”. Foi assim que Koba (Stálin) evadiu-se seis vezes. Ali seus dentes começaram uma didática trajetória rumo à deterioração. É notório que ele fazia jogo duplo, delatando seus colegas para a Okhrana, polícia secreta czarista. Com isto, comprava favores (que incluía penas marotamente leves e fugas incrivelmente facilitadas), livrava-se de alguns rivais e aprendia a manipular suas vítimas - “companheiros”. Em 1922 Lênin teve uma idéia não muito iluminada. Manobrou para nomear Stálin secretário-geral do CC para dirigir o Partido. O secretariado de Stálin era a casa de máquinas do novo Estado, dando-lhe os poderes imensos que ele exerceu no “caso georgiano”, quando ele e Sergo anexaram a Geórgia. Somente Lênin podia ver que Stálin estava emergindo como seu mais provável sucessor e então ditou secretamente um testamento em que exigia sua demissão. Sua agonia final – providenciada por Stálin, a não sermos ingênuos – abriu a este o caminho para o alto. O testamento foi ignorado. Sendo o mais feroz, Stálin não teve dificuldades para afastar os demais pretendentes, principalmente Trótkski, intelectual judeu fundador do Exército Vermelho. O lance de “genialidade” veio quando, ao perceber que a trajetória de Hitler na Alemanha, a partir de 1933, era um caminho que levava, em linha reta, toda a Europa para a incineração, ele começou um expurgo em escala inimaginável. Em resumo, matou todo mundo que poderia, remotamente, constituir uma ameaça a seu poder, quase total (não nos ocuparemos da farsa brancaleônica de colegiado representada pelo CC e pelo Politburo, com membros agrilhoados por dossiês e outras patuscadas). Era fácil demais para ele aterrorizar todo mundo, já que heróis até o meio dia, à uma da tarde evoluíam a espiões, traidores e sabotadores. Fácil assim. De repente, um marechal herói de guerra era delatado por algum subalterno, preso e torturado até confessar crimes só imagináveis por mentes doentias ou pueris. A seguir Stálin sacava outra autoridade, depois outra e assim matou os mais valorosos e também muitos bandidos e alguns genocidas, como ele. Ele sempre escolhia um carreirista sedento de poder para dirigir esses massacres intermináveis. Ao cabo de alguns anos esse torturador era sacado – caía como dente de tubarão – sendo imediatamente substituído por outro açougueiro na chefia da polícia secreta e ramificações. O terror de intensificou inacreditavelmente em 1937 e anos seguintes, o que coincide com a iminência da mais devastadora guerra européia. Isto é um desafio. Como divertimento inicial, na noite de 8 de novembro de 1932 Stálin provocou ciúmes maníacos em Nádia, sua segunda esposa, revolucionária que ambicionava carreira própria. Após uma discussão acalorada na frente dos príncipes comunistas, Nádia subiu para o quarto. Tinha histórico depressivo, mas o que se passou na madrugada foi que Stálin a matou com a minipistola alemã que o irmão presenteara a ela. Os hematomas no rosto do cadáver atestam que Stálin não conseguiu induzi-la ao suicídio, tendo dado uma mãozinha ao destino. Para quê? Tirar uma mulher de gênio forte do caminho não era tarefa que um revolucionário genocida negligenciasse impunemente. Brevemente, os convidados daquela noite iriam começar a liqüidar uns aos outros. 3. Stálin freqüentemente é visto como uma vítima indefesa frente ao gênio de Hitler. Não é assim. A julgar pelos resultados, o grande jogador era Stálin. Hitler era o histérico indutor de loucuras que necessariamente terminariam em tragédias, como o Estado-Maior do exército alemão sempre soube. Mas as sobrenaturais vitórias iniciais de Hitler destruiu a salutar resistência a ele no interior do Estado alemão. Seja dito que o miraculoso rearmamento alemão, e as vitórias iniciais foram incentivadas reservadamente pelas potências vencedoras da 1ª Guerra Mundial - EUA, França e Inglaterra - obcecadas pela idéia de conter a maré vermelha, cujo epicentro era o império de Stálin. Apenas uma atitude a tal ponto maníaca explica por que Hitler tornou-se mágico, santo, estrategista miraculoso, invencível. Seus desejos mais temerários se transformaram em imperativos categóricos, mesmo para o Alto Comando alemão. Até 1942. Não tenho elementos para demonstrar que o verdadeiro estratega era Stálin, não Hitler. Algumas coisas: Stálin sabia do maciço ataque alemão, anos antes que ocorresse (o "pacto de não-agressão" Molotov-Ribbentrop - depois renegado com sarcasmo por Stálin "hein, Molotov, lembra daquele seu pacto?" - foi uma brilhante estratégia de adiamento do ataque, encetada por Stálin). Ele foi avisado por inúmeras fontes, mas tinha enxergado no ataque um meio de conseguir todo o poder. Conseguiu. Deixou Hitler carbonizar o império vermelho, para garantir o poder absoluto (ele deve ter calculado que os alemães acabariam massacrados). Deve, ainda, ter antecipado a entrada do jogador principal (EUA), as fanfarronices militares de Hitler e a impossibilidade da Alemanha resistir em duas frentes superpoderosas. Mas, e se os EUA não tivessem apoiado violentamente o esforço de guerra soviético? Sobre os escombros do império vermelho, Stálin teria sido fuzilado por seus camaradas, com grande entusiasmo. Como, no fundo, ele não era um gênio, é obrigatório que tivesse informação valiosíssima sobre os movimentos dos EUA. Teria sido, Stálin, uma “criação de si mesmo”? Pouco importa. 4. A morte de um demônio. Doze horas após o derrame, Stálin ainda roncava num sofá, úmido de sua própria urina. Apesar de seus cuidados paranóicos quanto a ser envenenado, Béria havia “batizado” seu vinho (georgiano) com warfarina, substância da moda na época, com a interessante propriedade de diluir o sangue da vítima. Mais uma vez, Montefiore: Béria “vomitava seu ódio a Stalin”, mas sempre que as pálpebras do generalíssimo tremiam ou seus olhos abriam, Béria, aterrorizado com a hipótese de que ele se recuperasse, “ajoelhava-se e beijava sua mão”. (...) Quando Stálin mergulhou de novo no sono, Béria praticamente cuspiu nele, revelando sua ambição irresponsável e falto de tato e prudência.
Béria era o último dente de tubarão da engrenagem. Já estava desgastado, em fase de desgraça oficial, e seu público destino era ser substituído por outro gentil genocida, mas dessa vez a vítima sacou primeiro (guardadas as diferenças, eu teria feito o mesmo, só que muito antes).
Enquanto os melhores médicos soviéticos estavam na prisão, os incompetentes chamados para acudir Stálin não tinham coragem de operá-lo. Béria exigia uma “garantia de vida” para o enfermo. Um respirador artificial foi trazido – após iniciar-se o padrão moribundo de respiração – e jamais usado, o que ornava com o surrealismo daquele “tratamento médico”. Após cinco dias habitando um sofá rodeado por seus camaradas, Stálin empalidece subitamente, sacode a cabeça e vomita sangue, efeito da warfarina no estômago.
Lábios azulados, já praticamente sem pulso, ele começou a se afogar nos próprios fluidos. É de sua filha o relato do mergulho final: “Seu rosto estava pálido”, escreveu Svetlana, “seus traços ficaram irreconhecíveis [...]. Ele literalmente se sufocou até morrer enquanto observávamos. A agonia da morte foi terrível [...]. No último minuto, abriu os olhos. Foi um olhar terrível, louco e irado e cheio de medo da morte.” De repente, o ritmo de sua respiração mudou. Sua mão esquerda se ergueu. Uma enfermeira achou que era “como uma saudação”. Ele “parecia estar apontando para algum lugar acima ou nos ameaçando a todos”, observou Svetlana. O mais provável é que estivesse simplesmente agarrando o ar em busca de oxigênio. Váletchka, criada pessoal de Stálin há 18 anos - mais provável instrumento de Béria no envenenamento - caiu pesadamente de joelhos sobre o corpo. Até sua morte, sustentou que “nunca houve homem melhor na Terra”.
A História é amoral, muito amiga de farsas e repetições ociosas. Ora não temos o companheiro Fidel?

quinta-feira, 17 de agosto de 2006

Lula sabia

Todo mundo que compra Playboy diz à esposa que é "por causa das entrevistas". Compro por causa das entrevistas, está claro, mas raramente me ocorre lê-las. Neste agosto mesquinho, deparei com a seguinte entrevista: Playboy: o Senhor acha que o presidente Lula sabia do mensalão? FHC: impossível não saber. Acho que ninguém acredita que ele não sabia. Ainda me lembra uma foto de FHC e Lula, na porta de uma fábrica em São Bernardo, distribuindo panfletos aos operários. Iniciavam os vacilantes anos 80, se não me engano. Ali, fazendo apologia a greves e outras infantilidades sindicais, dois futuros presidentes, prováveis 16 anos de mandato (a acreditarmos nas pesquisas), quase o mesmo tempo de ditadura... A história é mesmo estranha, e às vezes capricha. Enquanto isso Fidel (quase meio século de escabrosa ditadura) se prepara para um encontro com a mãe de todos os déspotas.

sexta-feira, 11 de agosto de 2006

A China e o resto

A China já é a segunda economia do Planeta, quando se ajusta o valor do PIB pela paridade de poder de compra, metodologia que leva em conta os valores relativos internos dos preços da economia (um corte de cabelo na China pode custar 20 centavos de dólar, mas não é essa sua real contribuição na geração de riqueza). Com 1,3 bilhão de pessoas e crescimento explosivo, a China caminha para ditar os acontecimentos do século. Os EUA levaram 100 anos em sua corrida para a supremacia econômica e militar. A China começou a sua em 1978 e a completará em pouco mais de 20 anos. Em toda parte, os mesmos ciclos: depreciação forte da moeda e manutenção artificial desse preço, com investimento agressivo em direção às exportações, inicialmente de produtos baratos, com mão-de-obra intensiva e baixa tecnologia. Depois, os produtos se sofisticam e, por fim, exportam-se produtos de tecnologia intensiva, de altíssimo valor agregado. Europa, Japão, Coréia do Sul e, agora, China. Após enriquecer dessa forma, o país pode retornar a uma taxa natural de câmbio e os preços internos sobem. A economia integra-se plenamente ao resto do mundo, já rica. A China ainda está na fase do câmbio depreciado artificialmente. Mantém o yuan – moeda instituída pela dinastia de Kublai Khan (neto de Gengis Khan) em 1279 – a uma taxa de 8/1 dólar, para desespero do FMI e dos EUA. Os EUA tentam, mas não podem mostrar os dentes a um parceiro que detém 1 trilhão de dólares em reservas, a maior parte investida em títulos do Tesouro americano. Não há ganhos com esses títulos, que até recentemente apresentavam ridículas taxas negativas de juros mas, se o cliente não for financiado, não compra. A China inunda os EUA com artigos industriais baratos, acumula saldos em dólar e os reinveste em títulos da dívida americana, usados para equilibrar a balança de pagamentos, retro-alimentando o ciclo. O dia em que a China parar de comprar os micados papéis americanos não será um dia de muita lucidez no mercado mundial. Brasil x China x Índia em números: por que não me ufano (espero que nem você, raro leitor). 1. Valores correntes (taxa corrente de câmbio). PIB China: 2.224 bilhões – 4º no ranking mundial Brasil: 792 bilhões – 11º no ranking mundial Índia: 775 bilhões – 12º no ranking mundial PIB per capita Brasil: 4.315 – 74º no ranking mundial China: 1.702 – 110º no ranking mundial Índia: 713 – 134º no ranking mundial 2. Números ajustados pela Paridade de Poder de Compra. PIB China: 9,41 trilhões Índia: 3,63 trilhões Brasil: 1,57 trilhão PIB per capita Brasil: 8.584 – 68º no ranking mundial China: 7.204 – 84º no ranking mundial Índia: 3.344 – 122º no ranking mundial
Todos os valores em dólares americanos.

quinta-feira, 10 de agosto de 2006

Tartaruga amazônica

Amiga das águas calmas do espelho d'água do hotel, a tartaruguinha tá com uma cara que denuncia preguiças.

domingo, 6 de agosto de 2006

Pesquisas qualitativas

Josias de Souza arrombou a festa, de novo. Fez um comentário tão incisivo e inteligente que terei de reproduzi-lo, quase na íntegra:

Começa daqui a dez dias a campanha eletrônica. Candidatos vão ao rádio e á TV para seduzir você. Será o teatro de praxe. (...)

Ao votar em Collor, o eleitor imaginou ter escolhido um salvador da pátria. Descobriu depois que escolhera o absurdo levado longe demais. Ao optar por FHC, pensou ter votado na tese. Elegera, na verdade, a antítese. Ao escolher Lula, presumiu ter restaurado os bons costumes. Viu-se diante de um bordel partidário. É provável que você se identifique com várias propostas dos candidatos. Desgraçadamente, isso não quer dizer nada. As modernas técnicas do marketing político põem ao alcance dos comitês de campanha ferramentas sofisticadas. Uma delas, chamada no jargão publicitário de “pesquisa qualitativa”, permite aos candidatos instalar uma sonda na cabeça do eleitor. As campanhas, antes intuitivas, evoluíram para um esquema baseado em estatísticas. Encontrou-se uma forma de captar as vontades e as angústias da sociedade. Dá-se o seguinte: atraídos por salgadinhos, refrigerantes e brindes, grupos de eleitores são reunidos em salas fechadas. Ali, avaliam vídeos de campanha, discutem propostas de governo, condenam e aprovam candidatos. Há nessas salas um vidro semelhante àquele que a polícia instala em cabines dedicadas à identificação de criminosos. A vítima vê o bandido, mas não pode ser enxergada por ele. Nos ambientes preparados para a realização de pesquisas qualitativas, o eleitor é observado, do outro lado do vidro, por magos da publicidade eleitoral. Eles passam horas ouvindo e anotando as discussões travadas nos grupos. O método permite aos candidatos afinar suas campanhas com a vontade do eleitorado. Na prática, as opiniões do eleitor são recolhidas, embrulhadas para presente e, depois, devolvidas ao dono na forma de comerciais de rádio e de TV. A mesma tática é utilizada por grandes empresas. Antes de jogar um produto novo no mercado, elas testam o gosto do consumidor por meio dessas pesquisas qualitativas. A diferença é que, adquirindo um sabonete de má qualidade, você sempre poderá substituir por outro sabonete produzido pelo concorrente. Se escolher um presidente defeituoso, terá de consumi-lo por quatro anos. Portanto, atenção. Muita atenção. (Escrito por Josias de Souza às 19h40)
Infelizmente, é verdade. Pesquisa qualitativa é o meio pelo qual o promotor de um produto qualquer (um político, por exemplo) se informa sobre o exato desejo do público-alvo. Não erra nunca.
Isto só empobrece a política, em crise.

sexta-feira, 4 de agosto de 2006

Os federais

1. Nos últimos dias a PF mostrou por que ainda é respeitada, apesar de tudo. Primeiro, prendeu vários de seus delegados, dois deles ex-superintendentes. Todos aplicados criminosos. Agora, na operação de maior envergadura de sua história, prende dois presidentes de poderes: o do Tribunal de Justiça e o da Assembléia Legislativa de Rondônia. Tudo no mesmo dia. Aplausos vigoros para os federais, e para a ministra Eliana Calmon, que teve a ousadia de romper com o corporativismo que se transformaria em cumplicidade.
Estadão on line:
"Em mais de 30 anos de atividade policial, nunca tinha visto esquema de corrupção tão extenso e tão ramificado nas instituições da máquina pública", observou o diretor-executivo da PF, delegado Zulmar Pimentel, que costuma dar o nome às operações. Pimentel acompanhou os trabalhos e a remoção para Brasília dos magistrados e membros do Ministério Público com prerrogativa de foro no Superior Tribunal de Justiça (STJ) - nove no total. As prisões e os mandados de busca foram expedidos pela ministra Eliana Calmon, do STJ.
Estadão impresso:
A prisão mais dramática foi a do presidente do TJ. Os policiais chegaram a sua casa pouco depois das 6 horas, quando o desembargador, de calção e tênis, se preparava para sua caminhada matinal. Os policiais se identificaram com educação e informaram que cumpriam mandado de busca. Pensando ter o controle da situação, Sebastião Chaves relutou por alguns minutos, mas acabou cedendo. Só depois de recolherem tudo que buscavam, os policiais lhe deram voz de prisão. A mulher e dois filhos que assistiam a tudo caíram no choro. No momento em que as buscas eram realizadas, outros juízes, promotores e amigos começaram a ligar para o desembargador, a fim de avisar que estavam sendo presos e pedir socorro. Chaves informava, desolado, que também era alvo da operação. Se operações desse tipo se tornarem rotina - e ao contrário do que sustentou o sempre lúcido Josias de Souza - o País vai mudar, sim. Pra melhor. De presidente da República até gari milionário, quem deve tem de pagar. Chega de deuses intocáveis. Chega de vacas sagradas e profundamente corruptas.
Aplausos também para o Procurador-Geral da República, que recomendou a colheita de provas contra os amamentados da Planam (gostaria que todos os "lactantes" pagassem).
As instituições respiram. Ainda bem.
2. Cuba. Cansei dos cubanos. 50 anos de tolerância com aquele bandido "revolucionário". Alguém quer, por favor, enterrar a múmia assassina? Basta.

segunda-feira, 31 de julho de 2006

O processo político

Elio Gaspari, que já incursionou pela história recente do Brasil, escreveu, na Folha de São Paulo deste domingo: O Congresso Nacional já foi fechado sete vezes (1823, 1889, 1930, 1937, 1966, 1968 e 1977). Às vezes, foi-se embora numa ventania que mudou o regime (1889, 1930 e 1937), mas houve casos em que o pretexto foi uma votação na qual o governo saiu derrotado (1968 e 1977). O Congresso não produz crises institucionais, mas é sempre seu estuário. Chega uma hora em que o seu recesso parece solução de um problema, quando é apenas um truque do Executivo para impor sua vontade. Em 1968 o problema não esteve na negativa da licença para se processar o deputado Márcio Moreira Alves. A crise estava na anarquia militar. Em 1977, o congelamento de uma reforma do Judiciário foi, documentadamente, puro pretexto. O que o governo queria era garantir eleições indiretas nos Estados e fabricar uma maioria no Senado. Gaspari parece temer que um autocrata, recém-eleito, use algum pretexto para instituir nova farsa republicana. Não acredito nisso. O problema é que o processo político já não medeia soluções, exigidas pela sociedade. Ver a China crescer onze por cento ao ano, por décadas a fio, sem qualquer justificativa razoável, produz muita ansiedade e perguntas. Que diabos o Brasil está fazendo? Por que até a Índia, a Geni entre os países pobres, cresce mais que nós? A China não tem um Judiciário digno desse nome, não garante os investimentos de ninguém e está pouco se lixando para direitos autorais ou lealdade no comércio com outros povos. Seu sistema bancário acumula créditos podres impagáveis. A montanha de dólares oriunda das exportações (1 trilhão de dólares) são investidos em papéis do tesouro americano, e assim retroalimenta o delírio consumista norte-americano. No entanto...
A conclusão é que o processo político brasileiro está falido e não há perspectivas. Pelo menos, não temos aventureiros à vista. E o Congresso pode gazetear à vontade...

segunda-feira, 24 de julho de 2006

Questão preconceitual

Ricardo Noblat, citando Lula:
(A oposição) não tem medo de Lula. É questão preconceitual. Porque neste país não existe a cultura de aceitar as pessoas de outras camadas ocupando espaços importante.
O comício, em Brasília, foi prestigiado por uns 1500 simpatizantes.
Fernando Rodrigues, que o presenciou:
E a animação? Fala sério. Fiquei no fundo da platéia. Nada. A galera presente ficava olhando, não cantava, não se mexia. É claro que os 200 na frente do palanque pulavam como nunca –mas é sempre assim, até em programas de TV, certo?
Lula teria dito, nesse mesmo discurso, que teve de cortar no sangue.
Talvez seja mesmo uma questão "preconceitual".