Caminhar em torno a esse maciço rochoso compensa qualquer sacrifício da viagem (aí incluídos vôos pela Virgin e ônibus quebrado no meio do deserto).
Circundam-se 6 km de surpresas ininterruptas. Borges registrou, sobre uma caminhada igualmente heróica: “em vão esgotei meus passos; o negro embasamento não registrava a menor irregularidade, os muros invariáveis não pareciam consentir uma única porta.”
Certas coisas, como a laje em forma de onda, as várias cavernas e saliências, e os indefectíveis paredões com 200, 250 metros de altura calaram-me, despertando a fúria fotográfica. São grandiosos os dispêndios da natureza.
Subi a uma pedra para uma foto. Parecia a mais simpática e foi a primeira a me derrubar. A certa altura, parece que o paredão foi penteado por um cabeleireiro delirante.
Próximo a esse monólito, outro tumulto lítico: Kata Tjuta.
São rochas dispostas como um bolo não isento de loucura, vasto, obrigando a vista a contorcionismos verticais. Fatigamos suas veredas, e soubemos da intenção desse aparelho.
"É impossível existir pedras tão soberbas", pensei. Olhei para os fios de água enferrujada dessas profundas redes de pedra e corrigi: "não só existem como dispensam almas líquidas".
De Uluru (Ayers Rock) segue-se até Little Puta Puta. Perdão, mas é isso mesmo. Pouco mais à frente, a própria, a virtuosa Puta Puta. Um nome que, não fossem outras objeções, ainda teria contra si um pleonasmo.
Mesmo isso é ninharia, perto do nome de um local sagrado encravado em Uluru: Mala Puta. Como foi que eles chegaram a um nome desses, nem o bom Deus sabe. Conheci, ainda, um interessante local chamado Putaruru, numa região, já viram, de nomes realmente originais.
No Red Centre, as pessoas falam como texanos, com voz largadona e tirando a Pato Donald (uma americana, do estado de Washington, com quem repercuti essa impressão, limitou-se a exclamar, apiedada: so funny!).
Os cabelos devem ser conservados rigorosamente desgrenhados; a roupa, amassada (estilo guardei numa garrafa), a camisa precisa estar aberta e os cadarços, soltos. A barba, sempre por fazer, e garrafas d’água na cintura, à guisa de revólveres.
Não tive problemas para incorporar o figurino, menos a fala, é claro (conservo a fala campo-grandense, com portas e corguinhos rascantes).
O aspecto geral, tipo “que me leve o diabo” é assimilado com grande facilidade pelos mochileiros, que já chegam aclimatados, de tão previdentes.
Chapéus são bem vindos. Se você não tem um, bem, você vai precisar de um.
Alice Springs, dezembro de 2004.
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domingo, 30 de janeiro de 2005
Chegada à Austrália
Após um vôo de vinte e tantas horas, com escalas em Santiago e Auckland, chega-se a Sydney. Um Jumbo nos acompanhou na aproximação final, pousando simultaneamente, quase ao nosso lado, numa pista paralela. Um 747 voando a alguns metros de sua janela, em atitude de pouso, é algo grandioso e perturbador. Ao fundo, a ponte que reivindica Sydney e a Austrália. Um Boeing 777 da Royal Brunei novinho em folha ajudou a compor o quadro.
A primeira impressão, na saída do aeroporto: o calor, as moscas e o aspecto geral de país desenvolvido. No caminho para o hostel, em companhia de moças alemãs, a impressão se acentuou.
No albergue, várias pessoas simpáticas, mas nenhuma amizade (é preciso mais investimento, concluí).
De certa forma, Sydney realiza o que outras cidades apenas sonham. Parques por toda parte; a arquitetura pode não ser original, mas tem sempre algo que agrada. A Casa da Ópera talvez seja a obra mais importante da arquitetura do século 20, me disseram, e estou propenso a acreditar.
O formato, em conchas, o tratamento genial dado às formas, seus detalhes generosos: como invejo um gênio que se realiza.
Atravessar à pé a ponte foi como inserir-se numa fotografia dos anos 30. Suas colunas, negras, evocam catedrais esguias. Na luz esbatida do sol em retirada, conta-nos o metal uma história de desafio e glória.
Tendo o sol deslizado em busca da América, me ponho à espera da noite. Ela pode ser fria em Sydney.
Sydney, dezembro de 2004
II.
Chegada ao outback.
Vocês pensaram que as moscas eram assunto superado, não é mesmo? Pois elas estão aqui. Todas elas. E não adianta abanar. Se elas gostarem de você (elas vão gostar), abanar poderia magoá-las. Deixa que fiquem.
São de um tipo pequeno, bem pequenininho, e tenazes. Hoje, ao amanhecer, subi a uma colina de onde se avista Alice Springs. É uma pequena coleção de prédios pequenos, acossada por morros de pedra ocre. Tomamos café e partimos para o deserto.
No caminho, paramos para catar lenha para o jantar (na Austrália, é normal). Depois paramos, por quebra do ônibus. Foi estranho ter de esperar no meio do deserto, por muitas horas, sem que nada fosse feito.
Nesse tempo, conversei com uma americana e duas alemãs (que pensei fossem irmãs). Yvonne é uma doce criatura. No sorriso, a chave da candura. Esses imprevistos é que nos dão lucro.
Alice Springs, dezembro de 2004.
terça-feira, 14 de dezembro de 2004
Darwin
Olá, gente.
Agora, um pequeno relato da viagem. Acordei às 2:30 da madrugada para o vôo de balão. O balão não voou, claro que não (por causa do vento. Mas como diabos uma coisa dessas foi acontecer - ventar?), e fui ajudar uma moça suíça que perdera o namorado num bar. Tava bebendo, conversando com os amigos. Não voltou.
Lá fui eu, e ela, atrás do vi... cara. Encontramo-lo sentado a uma mesa, o bar já fechado, luzes apagadas, o último funcionário p. da vida, indo embora. Após uma conversa, ele se deixou estar, e nós voltamos. Pelo menos a suíça ficou mais aliviada.
Depois fui dormir, coisa que não fazia, de forma decente, havia umas três noites. A última noite foi assim: em sacos de dormir, no meio do deserto, com o nariz apontando para as estrelas. E que estrelas. Vocês não vão acreditar no poderio das estrelas daqui. São as mesmas do Brasil, mas o ar seco e limpo do deserto faz com que seu brilho seja ensurdecedor. Parece um insensato concurso de holofotes.
Daí acordamos e fomos ver o nascer do sol na rocha Uluru. É de enlouquecer. Depois, café e estrada. Duas horas depois, King Canyon, lugar belíssimo, que exigiu 4 horas de vigorosa caminhada. Gastei uns 3 filmes nesse canyon, de larga beleza. À tarde, estrada, num calor sufocante (o patife do motorista, alegando economia, desligou o ar condicionado. Para meu pasmo, os demais turistas não reclamaram dessa esperteza).
Daí, de volta a Alice Springs, a tempo de um jantar numa boate da cidade, com direito a brincadeiras de locutores e DJs.
Depois, vôo para Darwin, território localizado no extremo norte da Austrália, um lugar parecido, no clima torridamente tropical, com Manaus e Belém. O ar é tão denso que pode ser fatiado, em fatias quentes.
Haja garrafas d'água.
Depois eu conto mais.
sexta-feira, 10 de dezembro de 2004
Austrália
Troquei a chuva torrencial e ininterrupta de Adelaide pelo calor abrasador de Alice Springs. Vocês me viram reclamar do sol de Sydney? Esqueçam. O sol de Alice é como se o próprio demônio estivesse pururucando sua pele.
Sobre Adelaide, resta apenas dizer que parei com os restaurantes indianos, tailandeses e similares, por ora. Toda aquela pimenta estava me deixando muito emotivo.
O vôo foi ótimo: 2 horas sobre o deserto, inclusive Woomera, área usada para testes nucleares, segundo consta. Você tem de pagar pelo lanche, durante o vôo. Os comissários parecem mascates disputando a comissão de uma cerveja. Conclusão: não confiem em Virgin. Prefiram Qantas.
Chegada a Alice:
Aeroporto pequeno, sol arrazador. Após acertar o vôo de balão para a terça-feira, fui a um deserto em miniatura perto da cidade. É uma espécie de zoológico, só com animais do deserto. É bem completo, e tem enormes cangurus e emus (não confundir com as emas sul-americanas, nem com o casuar, restrito a extremo norte. Todas essas aves se parecem, no geral).
O deserto é de um vermelho vivo; o sol demonstra singular competência e a temperatura fica acima dos 35° C, à sombra. Assisti, ainda, a uma demonstração de falcoaria, com aves bem adestradas. Bacana, mas algo artificial.
Agora a cidade: é pequena, com ar de interior, mas tem todo o conforto de cidade média. existem enormes blocos de pedra ocre entre as casas, e o deserto espreita.
Segundo os mapas, ela é cortada por um rio, mas dele só existe a areia e as pontes. Desolador. A cidade não tem o charme de El Calafate, nem o excessivo rigor agreste de San Pedro de Atacama. É uma típica cidade australiana: limpa e urbanizada, mas povoada de aborígines que perambulam feito fantasmas-mendigos, andrajosos, pelas ruas e shoppings. Amanhã acordo às cinco e seguirei para Uluru. Não é fácil a vida de turista.
Depois eu conto mais, que o tempo tá se acabando.
Beijos (para as meninas) e abraços,
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