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segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

Van Gogh

Alguns dizem que, em sua breve vida, Van Gogh não vendeu um único quadro. Outros, que teria vendido um. Afirmam, ainda, que um de seus quadros teria decorado um galinheiro.
Um quadro do mesmo pintor, hoje, custaria inimaginável cifra, caso alguém aceitasse vender.
Inúmeros artistas que participam da eternidade morreram sem o menor reconhecimento, a exemplo de Kafka. Ele cuidou que sua obra não lhe sobrevivesse, mas foi traído pelo amigo Max Brod, encarregado de entregá-la ao fogo. Borges observou, sagazmente, que o amigo apenas atendeu a intenção mais secreta do autor.
Harry Potter parece querer esgotar o estoque mundial de páginas em branco.
Esses fatos, creio, ilustram o aspecto aberrante de certas unanimidades.
Arles, 17.01.2007.

quinta-feira, 25 de maio de 2006

A velha Praha

A igreja do castelo onde Kafka viveu, em toda a sua imponência. O cômodo destinado a Kafka mais bem seria uma casa de bonecas.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

Praga, um comentário

Alguns querem ver Paris em Praga; outros, Viena. Enganam-se. Praha, com suas mil torres, passeia por muitos estilos, está acima dessas simplificações. Em Praga Einstein teria se encontrado com Kafka. Einstein formulou a Relatividade Especial em 1905, no casa dos vinte anos, e a Relatividade Geral em 1915, dentro, portanto, da temporada passada nessa cidade, entre 1911 e 1912. Praga também abrigou Mendel, o obeso monge que cultivava ervilhas e morreu sem ver-lhe reconhecida a paternidade de uma abordagem estatística da hereditariedade que depois veio a dar na genética. A cidade viu florescer o gênio de Tycho Brahe, bem antes, numa sólida demonstração de tradição cultural. Quer a tradição turística que Einstein juntava-se a Kafka num café no centro dessa cidade, na época mais fecunda do escritor tcheco, de A Colonia Penal, O Castelo, e O Processo, entre outros delírios severos. A Relatividade, com sua descrição essencialmente geométrica do universo, postula que a gravidade é uma deformação no tecido espacial causada pela presença de corpos maciços. Previa que a luz vinda de estrelas atrás do sol, por exemplo, seria empenada nas bordas do mesmo e chegaria à Terra - consta que essa previsão foi confirmada, em Sobral, num eclipse solar em 1918 -. Assumia que a luz tem peso e não caminha em linha reta. Desnecessário perquirirmos se a teoria está certa. Newton, com seu sistema mecânico quase perfeito, descreve o mundo com precisão de uma parte por mil. A Relatividade é precisa em uma parte por milhão, e a Mecânica Quântica, grosso modo, faz previsões válidas em uma parte por bilhão de unidades. O problema é que, virtualmente, nenhum postulado quântico faz sentido. Todos parecem ter sido inventados por um ficcionista licencioso e demasiado imodesto. Kafka postula mundos insuportáveis, em que as pessoas são peças de uma burocracia total, sórdida e assassina. Os personagens, agindo com estranha naturalidade, prodigalizam torturas uns aos outros, tudo à sombra de uma autoridade invisível, intolerável e malvada. Josef K., executado sem ter acesso ao processo, nem saber qual teria sido o delito ou a acusação, é móvel da mais devastadora acusação contra o gênero humano (Machado de Assis também o faz, sem a mesma monumentalidade, quando retrata a escravidão). A mim, o cerne dessa culpa foi formulado por Anna Arendt: a banalidade do mal. Pouco importaria Josef K., ou Samsa, ou outro torturado personagem do brutal mundo de Kafka. Pouco importaria seu sofrimento, não fosse o ruinoso incômodo de nos identificarmos com esses fiapos humanos. O pobre ratinho, apaixonado pela diva ratazana, também a denuncia como uma lamentável fraude musical, e por isso sofre, e com ele sofremos. São muitas as aflições em Kafka, uma escrita poderosa, de precisão e impiedade militares. Às vezes penso esquecê-lo (mas não o Khmer Vermelho). Quem sabe consiga, e os sonhos voltem a ser só sonhos.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2005

Inverno em Praga

Praha, capital da Tchecoslováquia, agora República Tcheca, é uma cidade do Leste Europeu cheia de encantos. Sua arquitetura medieval, rica em torres, capitéis e campanários, evoca talvez Florença, a sermos amigos de comparações.


A catedral Tyn, o torreão isolado no meio da rua, o Castelo de Praga: há um toque naturalmente sinistro nessas massas arquitetônicas que, se não vem de Kafka, o evocam ou, no mínimo, não o refutam.

Tampouco o que sobrou dos guetos negam o profundo escritor, autor de O Processo, A Colônia Penal e A Metamorfose, artífice dos mais sombrios pesadelos que já deram expediente no espírito humano.

A família do escritor foi assassinada nos campos de concentração, na década de 1940. Kafka morreu de tuberculose, aos 42 anos, apos intuir metaforicamente todos os terrores do Século XX, chefiá-lo literariamente e debelar nossas últimas ilusões. Foi o esteta superior daquele século, de uma desumanidade manifesta.

Praga está tomada de gratificados turistas. E cheia de música.

Volto agora das Quatro Estações, de Vivaldi.

Amanhã, o ossário de Sedlic e, quem sabe, jazz, à noite. 

Praga, 22 de dezembro de 2005.