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sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Borges e a realidade

Folheio o primeiro tomo das obras completas de Borges. Leio: (...)
"uma mula tordilha que anda pela chácara de Palermo, no limite desta cidade". Posso vê-la absurdamente clara e pequenina, no fundo do tempo, e não quero somar-lhe pormenores. Que nos baste vê-la sozinha: o confuso estilo incessante da realidade, pontuado de ironias, de surpresas, de previsões estranhas como as surpresas, só recuperável pelo romance, intempestivo aqui. Felizmente, o copioso estilo da realidade não é o único: há o da memória também, cuja essência não é a ramificação dos fatos, mas a perduração de traços isolados. Essa poesia é a natural de nossa ignorância e não procurarei outra.
Em outra passagem ele revela que: O mundo é um par de ternas imprecisões e:
confessei a estranheza do mundo.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Borges e os tigres

Adormecido, distrai-me um sonho qualquer, e de repente percebo que é um sonho. Costumo pensar, então: Isto é um sonho, pura diversão de minha vontade, e, já que tenho um poder ilimitado, vou produzir um tigre.
Oh! incompetência! Nunca meus sonhos sabem engendrar a almejada fera. O tigre aparece, sim, mas dissecado ou fraco, ou com impuras variações de forma, ou de um tamanho inadmissível, ou muito fugaz, ou tirante a cão ou pássaro.
Jorge Luis Borges, O Fazedor, Cia. Letras, pag. 14.

domingo, 20 de julho de 2008

A quem ler

"Se as páginas deste livro consentem algum verso feliz, perdoe-me o leitor a descortesia de tê-lo usurpado eu, previamente. Nossos nadas pouco diferem; é trivial e fortuita a circunstância de que sejas tu o leitor destes exercícios, e eu seu redator.”¹ Os poemas, agora publicados. Suas formas, nunca definitivas, adquirem um pouco de estabilidade. Não muita. O bastante para iludir o Google. Acaso impressos, podem resultar uma alegre fogueirinha. Na tela, luz e calor, elementais. Entrego-os à rede e ao público. Já não basto para lidar com eles. Há muito não me permitem leitura, o que reforça a suspeita de que são ilegíveis. Espero sinceramente que o leitor tenha mais sorte que eu. ¹Jorge Luis Borges, Obras Completas, tomo I, editora Globo.

quarta-feira, 1 de março de 2006

Templos e o fogo

Jorge Luis Borges nos conta de múltiplos templos de ruínas circulares, em que medra um personagem que era muitos, porém sonhado. Entre tantos elementos, somente o fogo era seu amigo, e o sabia irreal. “Na unânime noite, ninguém viu a canoa de bambu sumindo-se no lodo sagrado, mas em poucos dias ninguém ignorava que o homem taciturno vinha do Sul”. Esse homem sabia “que sua obrigação imediata era o sonho.” Sonhou uma nuvem de alunos taciturnos, que esgotavam os degraus de um anfiteatro circular: “os rostos dos últimos pendiam a muitos séculos de distância e a uma altura estelar, mas eram absolutamente precisos”. Insatisfeito com aceitarem passivamente sua doutrina, o mago diplomou para sempre esse vasto colégio, em prol de um único aluno, mas também este ruiu, como ruem os sonhos excessivamente rebuscados. Industriado pelo Fogo, que lhe ministrou magias, ele finalmente concebeu o filho. Sonhado em todas suas minúcias e instruído nos ritos, foi enviado rio abaixo, para oficiar em outro templo. Tempos depois, já tendo ouvido falar das artes do filho, nas ruínas de um templo circular rio abaixo, o mago se viu cingido pelas chamas. “Por um instante, pensou refugiar-se nas águas, mas depois compreendeu que a morte vinha coroar sua velhice e absolvê-lo de seus trabalhos. Caminhou contra as línguas de fogo. Estas não morderam sua carne, estas o acariciaram e o inundaram sem calor e sem combustão. Com alívio, com humilhação, com terror, compreendeu que ele também era uma aparência, que outro o estava sonhando.”