domingo, 27 de novembro de 2005
Blackbird
sábado, 26 de novembro de 2005
Sábado
Síndrome do intestino instável, sons e movimentos estranhos podem ser sinais desta doença.
E a pergunta: "Por que você está rindo?"
Ele ainda se lembra (e eu também) de quando Cid Moreira (sim, o Cid) anunciava, a intervalos previsíveis, a cura do câncer. Depois essas curas passaram a ser feitas com plantas da amazônia. Não é bacana, leitor?
Marcelo reclama, ainda, do inefável Dr. Fritz. Putz! Não suporto quem fala mal do Fritz.
Em suas reiteradas encarnações, Fritz cura muita gente, que costuma retribuir com a ingratidão de algumas facadas. Até aquele sotaque, tirante a novela da Globo, me encantava. Wanessa Camargo foi curada numa dessas "cirurgias espirituais", alardeia outro magazine, o que mais e mais prova que os céticos são mesmo uns chatos mal-informados.
Dizia eu, em algum despacho (foi o Josias que inventou essa de despacho. De onde ele tirou essa maluquice?) que acredito em mula-sem-cabeça. É verdade.
Em realidade as mulas, da espécie sem cabeça, são uma forte presença em nossa ricamente ilustrada nação. E não passa um dia sem que eu me convença, cada vez com mais fervor, da inocência do Dirceu.
Espero que tanta inocência sirva de reflexão para o STF.
domingo, 20 de novembro de 2005
O presidente e o vidente
Todos nós, que vivemos a Era Paulo Coelho, acreditamos em videntes. E também em elfos, duendes, fadas e anões de jardim. Declaro acreditar, não sem fervor, em mula-sem-cabeça.
Mesmo assim alguns insensatos, por vezes, não acreditam no COPOM (órgão extraconstitucional com destacada atuação extralegal), o que é deplorável. Desacatam os inefáveis monges do Comitê de Política Econômica, que mensalmente se reúnem numa missa negra e transmitem os sinais da representação divina pelo gesto da igualmente divina elevação do cálice dos juros.
Nas palavras do herege Paulo Rebello de Castro “quando a missa do Copom aponta uma alta de meio ponto percentual no já elevado cálice dos juros básicos, os fiéis suspiram resignados enquanto entoam, baixinho [bem baixinho], miserere nobis”.¹
Após almoçar com a diretoria do Banco Central (inteiramente composta de duendes), o presidente vai ao amigo vidente e pergunta o que ele vê em seu futuro. O vidente se concentra (ele realmente se concentra, leitor), fecha os olhos (que abrifecham, tremurados, cheios de temor e reverência), e fala:
– Vejo o senhor passando no Eixo Monumental, em carro aberto, e uma multidão agitada, acenando. O presidente sorri e pergunta, ansioso:
– Essa multidão que você vê, ela está feliz, não é mesmo?
– Se ela está feliz! Ela chora de felicidade! Nem é lícito tentar descrever tamanho estoque de felicidade num só lugar. O presidente se entusiasma e, estreitando-se ao amigo, pergunta:
– Eles estão correndo atrás do carro?
– Ora quanta modéstia! Eles correm feito possessos atrás do carro, e ficam à sua volta. Os batedores estão tendo dificuldades em abrir caminho e, por trás dos óculos escuros e do semblante marcial a que são obrigados, também choram de felicidade cívica.
– Eles carregam bandeiras? – Se carregam bandeiras! Ele quer saber se eles carregam bandeiras! Eles praticamente esgotaram o estoque de bandeiras do País e faixas com palavras de esperança e de um futuro muito em breve melhor.
– E eles gritam, cantam, os dessa multidão? – Se eles gritam e cantam! Essa é muito boa! Eles irrompem em ondas espontâneas de euforia e entusiasmo, com erupções como "Agora sim!! Agora vai melhorar!!! Sem medo de ser feliz!!!"
– E eu estou acenando de volta para eles?
– Não.
– Mas como, não?
– O caixão está lacrado, oras bolas!
Como o leitor já percebeu, essa historinha não é minha. Recolhi-a na rede e, por mais encantadora que seja, sinto que não sou responsável por ela. ¹ [Folha de São Paulo, 27.10.2004, p. B-2)
domingo, 6 de novembro de 2005
Labirintos e espelhos
sexta-feira, 4 de novembro de 2005
Impressões avulsas (quase diário)
quinta-feira, 3 de novembro de 2005
Os mascateiros
quarta-feira, 2 de novembro de 2005
Palavras
terça-feira, 1 de novembro de 2005
Crítica a "Napoleão", de Paul Johnson
Aos 28 anos, ele se tornara o homem mais poderoso da República. O Diretório (sob Barras) fez o gracejo de pedir a Napoleão que invadisse a Inglaterra. Esperto, ele recusou esse passaporte para uma tumba no oceano, preferindo ir farrear no Egito, onde perdeu tudo e voltou “avec ses culottes pleins de merde”. Pelo menos o Egito era longe, o que agradava o ciumento e receoso Diretório.
Então, três personagens sinistros: Sieyès, Talleyrand e Fouché, arquitetaram o golpe do 18 Brumário, que “foi uma coisa vil, pois todos os envolvidos estavam prontos a trair todos os demais, e nenhum deles cumpriu o que havia jurado fazer. Se Bonaparte se transformou em governante de excepcional deslealdade e falsidade, devemos recordar que ele provinha de um ambiente político no qual a palavra dada nada significava, onde não existia honra e o assassinato era rotineiro”.
Daí impôs-se cônsul vitalício (1802) e finalmente imperador (1804). Sieyès escorregou para debaixo do tapete da história e hoje é lembrado por seu panfleto sobre o Terceiro Estado. Fouché, sacerdote corrupto e terrorista com Robespierre, transformou-se no chefe da primeira polícia secreta do mundo. Nunca demonstrou lealdade a qualquer pessoa ou a coisa alguma, mas contou com vasto orçamento e incontáveis informantes. Talleyrand seguiu chanceler de Napoleão, conquanto tenha estabelecido contato com as cortes inimigas da Áustria e Rússia e com alguns principados, funcionando na prática como agente duplo e recebendo as gratificações correspondentes. Até por essas traições, foi indicado negociador francês dos tratados pós-guerras napoleônicas.
Pretextando Napoleão, reproduzo este sumário da ambição humana (p. 87-8):
“É melancólico que os potentados da terra se vejam obrigados a recorrer às medidas mais mesquinhas dos débeis: tomar contra um amigo o partido do inimigo; juntar-se a acusações contra ele, ditadas por este último; não ter crédito em qualquer dos lados; voltar ao amigo ou afastar-se dele, conforme as peripécias da guerra; desejar secretamente que o amigo o desculpe pela necessidade, o pretexto dos mendigos; não conseguir jamais fornecer justificativa para sua conduta além de ‘misteriosas disposições da Providência’, que são o último refúgio dos indigentes morais... Foi isso o que os aliados da Inglaterra acostumaram-se a fazer durante toda a guerra desta contra a França. Quando a Inglaterra conseguia formar uma coalizão contra Napoleão, eles o denunciavam por sua ambição e entravam em guerra contra ele. Quando a coalizão era desfeita por seus exércitos, mudavam de idéia por ordens dele, denunciavam a Inglaterra e se juntavam a ele para lutar contra a aliada. Isso foi a ronda de suas histórias: alternância de coalizão e tergiversação; ora um discurso e uma guerra contra Bonaparte, que os derrotava; em seguida, um discurso e uma guerra contra a Inglaterra, que os comprava; novamente um discurso e uma guerra contra Bonaparte, que os derrotava outra vez; e então, como antes, um discurso e uma guerra contra a Inglaterra, que novamente os comprava. Enquanto isso, aceitavam tudo o que podiam obter, tanto do inimigo quando do amigo, tomando com avidez os pedaços de terra que Bonaparte lhes atirava por sua mesquinhez e, em seguida, embolsando os milhões de Pitt, pelos quais ainda pagamos até hoje.”
Napoleão, ao contrário de Hitler, tinha alguns méritos: era capaz de construir mentalmente o teatro da guerra a partir de uns toscos mapas; dono de uma visão tática superior e conhecedor intuitivo dos meandros da política, afetava-se administrador, ostentando certo verniz de estadista. Suas raivinhas, premeditadas, iludem alguns até hoje; “seu” código civil ainda é citado.
Sem embargo de algum dote de administrador, Napoleão presenteou aos EUA toda a “Louisiana”, um território tão vasto e estratégico que teria desequilibrado o jogo entre potências em favor da França, obstando, no nascedouro, a emergência dos EUA. Ela abarcava 828 mil milhas quadradas e em seguida se transformou em 13 estados norte-americanos. Bonaparte a vendeu por 15 milhões de dólares, ou dez centavos por hectare. Ele estava ocupado demais incendiando a Europa para se dedicar ao fardo de administrar essa riqueza geopolítica (da mesma forma como se recusou a administrar a segunda metade da ilha Hispaniola, conhecida como Haiti, com os resultados que se sabe).
Segundo Johnson, os Estados Unidos foram a potência que mais se beneficiou, de forma permanente, da era bonapartista. O que explica Napoleão é a singularidade monstruosa da Revolução Francesa ou, melhor, do Terror. O Terror devorou uma a uma todas as pessoas politicamente importantes da França. Mirabeau tombou vítima de doença; Danton e Lavousier foram as maiores perdas; Robespierre, o melhor descarte. Produziu uma corrente de ar ascendente de rara intensidade que levou um obscuro tenente ao posto de “imperador”.
Ao perceber, antes de qualquer outro, a viabilidade da salva de metralha sobre os revoltosos parisienses, demonstrou conhecer a fraqueza do Diretório (medo e aversão ao populacho) e abriu caminho para o alto. Os corpos despedaçados de alguns incautos testemunham sua pressa. Depois, foi escolhido a mão militar do 18 Brumário, golpe de estado que objetivou implodir o Diretório, até onde meus conhecimentos chegam. Barras, herdeiro direto de Robespierre na liderança do Diretório, era um deslumbrado. Chegou a instituir um culto a sua pessoa. Foi o primeiro a usar Napoleão como mão militar de um projeto político débil e suspicaz. O tolo perfeito para ser usado pelo gênio matreiro de Bonaparte.
Num claro paralelo com Hitler,
“A impossibilidade de uma rápida vitória na Espanha ou mesmo qualquer vitória decisiva, foi uma das principais razões que levaram Bonaparte a lançar uma ofensiva contra a Rússia.”, diz o autor. O Sistema Continental era particularmente contrário aos interesses econômicos russos. Nas palavras do autor, “O comércio pelo Báltico era de vital importância (...) e já fora severamente perturbado pelas lutas da Dinamarca, relutante aliada da França, contra a Noruega, a Suécia e a Grã-Bretanha. Com efeito, a aliança da Dinamarca com a França acabara por levá-la à falência e a repudiar suas dívidas. Em 1811, a economia do Báltico estava arruinada e por isso o czar fazia ouvidos surdos à queixa de Bonaparte de que ele não fazia executar o sistema.”Napoleão podia mobilizar 650.000 soldados, alguns deles franceses, mas a Rússia é um continente, acostumada a zombar de superlativos.
Meses depois, cansado de servir de atração turística, da mesquinharia dos Bourbon, que não enviavam o dinheiro da pensão anual pactuada e vendo o rotundo fracasso do trono restaurado, Bonaparte fugiu da ilha, mediante estratagemas e mentiras. Iludiu a Nação, conseguiu reunir novo exército, com que começou nova guerra contra as potências européias, que de qualquer forma marchariam contra ele. Após algumas batalhas sobreveio Waterloo, que Napoleão quase ganhou, segundo o autor.
Creio que o general Grouchy honestamente vendeu Napoleão aos ingleses, já que seria desonesto um general não saber ler mapas. Com isto, abreviou-se a agonia de Napoleão, a essa altura com 45 anos de idade e 4 ou 5 milhões de mortes nas costas.
Ele partiu em férias finais para um penedo com 45 quilômetros de circunferência, no Atlântico Sul, cujo porto cultivava a amizade de navios militares e mercantes. Em Santa Helena a disenteria amebiana não era infreqüente. Ali viveu por 6 anos, em companhia de uma dúzia de serviçais e um seleto grupo de cortesãos (um animado círculo de ciúmes e intrigas), ao custo anual de meio milhão de napoleões de ouro ao contribuinte britânico.
Tendo resumido um resumo, e perpetrado impiedosas citações, quero agora dedicar-me a essa ótima morte, a de Napoleão. A República Francesa finge cultuar a memória de Napoleão, mas reservadamente deve lembrar que ele deixou a França menor que a encontrou, em 1799, além de ter doado ilicitamente um vasto território na América, sem outro proveito que ajudar um império rival a dominar o mundo. Seis dos cortesãos de Napoleão, além do camareiro, escreveram memórias, que “discordam grandemente entre si, muitas vezes em simples questão de fato”. O ponto é: Napoleão foi envenenado? Napoleão valia muito, enquanto mito. Até que surjam testes adequados, capazes de determinar com precisão aceitável se houve ou não envenenamento, devemos trabalhar com o material disponível, que é o contexto da morte. Encaremos assim: a Grã-Bretanha o queria morto, e não apenas pelo dinheiro gasto com seu exílio. Tratava-se de um homem perigoso, capaz de sublevar as massas francesas, induzindo guerras já desnecessárias.
Para a nova elite francesa, também não interessava Napoleão vivo, pelos mesmos motivos dos ingleses. O país tinha apurado até à borra a fórmula do homem-forte, do self-made-man, e seus grandes males: “o endeusamento da força e da guerra, o Estado centralizado e todo-poderoso, o uso da propaganda cultural para apoteose do autocrata, a mobilização de povos inteiros na busca do poder pessoal e ideológico”. Em meio a essa genuína e desculpável busca de um cadáver, única maneira de tornar Napoleão dócil e previsível, ele tem de ter sido envenenado. Do ponto-de-vista britânico, o corpo seria emblema da vitória final, demonstração indisputável do britannia rules. A França necessitava de um herói sem mácula, um gigante entre pigmeus. Evidentemente, o homem Napoleão, com seu fardo culpável de incompetências, covardias e mentiras era um estorvo. Necessário que a morte o absolvesse de seus crimes e imprudências. A morte operou esse milagre, como previsto.
Os Bourbon fugiram, escandalizados com a própria covardia e oportunismo. O núcleo do poder se abria para um Napoleão surpreso, que dele abusou sem hesitação.
Advogo que as massas têm o direito de errar, já que pagam o almoço dos genocidas. Fernando Collor, por exemplo, ganhou o direito divino de confiscar uma quantidade impensável do dinheiro dos pobres e da classe média brasileira, com o louvor dos economistas e da elite, que casualmente não enfrentou esse dissabor. Não é mesmo um azar, caro leitor, que o roubo nunca tenha chegado ao Supremo Tribunal Federal?
Os presidentes americanos iniciam guerras sempre que surge alguma dificuldade interna. Não importa o país, não importa a desculpa: roda-se o globo e, onde o dedo parar, aí estarão os marines, em questão de semanas. É claro que se o dedo recair em alguma potência militar ou econômica, recomenda a prudência proceder a novo sorteio. Assim, os panamás, os afeganistãos, os iraques, as granadas estarão sempre às mãos.
No caso da escapadela de Elba, foram 100.000 mortos. Nada mau, para um passeio. Mas não teria sido preferível deixar Napoleão na confortável vitrina insular?
Não compreendo as escolhas das multidões, de forma que ora me detenho ante esse mesmerizador de massas, militar prolixo, homem de vasta fúria. Deixo de condenar Paul Johnson, autor do resumo que me serviu de base, por entender que suas ingenuidades e omissões são sinceras e estão na média dos historiadores cristãos, embora enxergue certa inconsistência entre os atributos historiador e cristão.
Outubro de 2004.