terça-feira, 23 de setembro de 2008

Turbulência

Bush acaba de fazer na economia o que tinha feito em geopolítica ao coordenar o ataque às torres gêmeas, via omissão.
Na ocasião do ataque ao WTC, a CIA, os serviços secretos de Israel, Alemanha e até a ABIN sabia do ataque, quando, onde e que andar de cada prédio seria atingido (tudo bem, exagerei: é improvável que a ABIN saiba de algo a não ser fofoca do gabinete do Gilmar Mendes).
Menos Bush, a acreditarmos em iaras e sacis. De uma popularidade de última semana de governo para a quase unanimidade da nação. E não precisou pagar nada. O seguro das torres cobriu... Como é fácil a vida dos genocidas!
Agora, a mesma esperteza. Paul Krugman entregou o cara, mais uma vez, em artigo de hoje, na Folha de São Paulo. Josias complementa, com a percuciência de sempre:
Sim, porque os especuladores que aqui gorjeiam são os mesmos que gorjeiam lá. A platéia, aturdida, olha para o mercado de ações como quem observa um bebê. A Ásia dormiu bem? A Rússia soluçou? Nova York teve febre? A Bovespa fez cocô mole ou duro?

domingo, 21 de setembro de 2008

José

E agora, José? tenho visto o vão esforço, tua versão de luta pela vida, a tentativa de não sucumbir aos apelos sensuais do nada. Sou testemunha de que não descansas, de que trabalhas; és diligente, José, simples e de uma austeridade insondável. Mas, a vida... E agora? José, cancelaram tua vitória, desclassificaram teu mérito, indicaram outro para ocupar tua pessoa. Você, que dificilmente é você, sem nome e incoerente quanto és. Adoeceram tuas roseiras; no assalto ao banco de que recebias, levaram só os teus valores e, José, caçoaram dos versos que arriscaste no escuro. E agora, você? Se você navegasse pela internet espalhando botes suicidas; se simplificasse a solução dada a Fermat, se invertesse a polarização da Terra, achas que te amariam, José? José, lacra tua biblioteca. Está vazando, e contamina o mundo com emissões políticas, literaturas, metais volatizados. Engoma teu terno de vidro que todas as passadeiras quebraram e escondem de ti cacos por se juntar. José, não minta. Não adianta ajudar as pessoas em suas ferozes felicidades. Escreve aquilo mesmo que sentes, que sentistes a vida inteira. Não te comprometas com os amigos, eles firmaram contratos à parte. José, o que foi isso de tentar o suicídio? Não podes. Está tudo predeterminado, de modo que teus esforços de viver/morrer não se sustentam mais que rituais há muito desacreditados. Se você gemesse, denunciando o cego impacto da vida, talvez conquistasse a antipatia do síndico, a compreensão solidária do recém-nascido. Se você soltasse todos os gases que te inflacionam as entranhas, talvez conseguisse alívio e poderias contar uma vantagem. Se você dispensasse toda sua fortuna no amparo de pobres e necessitados, talvez subvertesse a marcha do desespero, e poderias descontar no ajuste anual do imposto de renda a dor alheia que mitigaste suportando a própria. Talvez um cálice de um bom vinho do Porto adoçasse a partida que ensaias sem entusiasmo. Uma nova utopia põe-se a caminho, como um iceberg, embrionária num mundo que periclita. Existem muitas chances, José. José, por que tanto problema? Por que não visitas um psiquiatra? Vá e veja o enorme esforço, a ciência desfazendo equívocos químicos em que o cérebro nem sabe que incorre. Sozinho na tarde da cidade, esperas a noite, que esfria. Cancelas um pensamento, sorves outro livro, protestas. Estais cansado, José, e tudo acabou, tudo mofou, tudo fugiu. Sozinho você marcha, José! José, o que é tudo isto? Sobre o poema José, um libelo contra a solidão do homem moderno, suas inconsistências e angústias. E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, você? Sozinho no escuro qual bicho-do-mato, sem teogonia, sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja a galope, você marcha, José! José, para onde?
José, C.D.A.

Chapada Diamantina

Pantanal

Pará

Peixe-Boi, em Belém.

Belém

Jardim botânico de Belém.

Ilha de Marajó

Praia de Joannes, ao amanhecer. O Pará.

Búfalo, ilha de Marajó

Que que foi?

China

China

sábado, 20 de setembro de 2008

Antonia Fraser perpetrou Uma Vida, sobre Oliver Cromwell. Ele nasceu em 1599, quatro anos antes da morte da rainha Elizabeth e da ascenção do rei James I, que patrocinou a versão da bíblia em inglês (reza a lenda que teria sido Shakespeare o tradutor). Morre-lhe o pai aos dezoito anos. Deixa Cambridge e volta pra casa. Casa-se em 1620 (a esposa lhe daria oito filhos). Carlos I sucede James I em 1625. Em março de 1628, Oliver ingressa na Câmara dos Comuns, câmara baixa que o rei convocava quando lhe dava na veneta, para reuniões por curtos períodos (os reis se aconselhavam com a Câmara dos Lordes, simulacro de Senado habitado por uma rica fauna de “nobres” puxa-saco do rei). Em maio é redigida a Petition of Rights, um dos documentos fundadores da moderna noção de Estado de Direito. Magoado, no ano seguinte Carlos I dissolve o Parlamento. O que se passa a seguir, e é retratado burocraticamente nas 650 páginas seguintes, é uma horrenda dança pírrica: Ao contrário do pai, Carlos I era um inepto. Inglaterra, Escócia e Irlanda agonizavam numa severa crise religiosa. Anglicanos, “papistas”, presbiterianos, “independentes” e outros descendentes dos sectarismos de Lutero e Calvino: uns e outros mandavam-se acaloradamente ao inferno. A questão é hoje ininteligível, dada a rígida separação entre estados e igrejas. Na época, a igreja era o formidável braço ideológico dos estados, com poderes de cobrar impostos, o que implicava profundos e insuspeitados reflexos no direito de propriedade, centro gravitacional de todo conglomerado social. Recentemente Mr. Lula disse algo como "manter" a separação entre estado e igreja. Interessante a idéia do metalúrgico que se imagina autocrata. A declaração foi dada em face de negociações “secretas” entre o Itamarati e o Vaticano, esse suave simulacro de um estado pirata. Tão secretas que ao Senado Federal foi negado ter ciência de seus termos. No final, anotei: Texto convencional. Oliver recebe da autora o benefício da dúvida, sempre, mesmo quando não há dúvida. Alguém disse ser inconcebível uma biografia sem certa empatia pelo biografado. Meritória, a tese prova que biografias de Hitler, Pol Pot, Stálin ou Mao são impossíveis. Oliver Cromwell foi um dos maiores bandidos do mundo, usurpador cínico sob o conveniente verniz de um carola. Abril de 2007.

Fausto

Vendo minha alma. Está novinha, quase sem uso. Vendo minha alma. Já dela não careço. Enquanto fui religioso, me serviria para habitar o céu; pretendia estreá-la no inferno. Ora está sem serventia. Não conheço os recursos, as funcionalidades de uma alma. Estou vendendo, não preciso mais. Se com a alma somos humanos, se com ela amamos, é controverso. A minha eu vendo, não sei a sua. O Fausto de Goethe é um dândi aborrecido; o Fausto de Mann é obsceno e resignado. Ambos se amarguram no previsível final; ambos sofrem de imperdoável irrealidade. O Fausto do Rosa – o jagunço Riobaldo – fatigador de desertos em tudo misteriosos, firmou pacto envergonhado, conseguiu a chefia do bando mas perdeu Diadorim. Vendo minha alma por preço justo, não por suborno em espécie. Se a venda é insensata, folgo com a companhia. Ao contrário da maioria, não acredito em castigos ou prêmios eternos. Vendo minha alma sabendo que contrato algum perdura ou prevalece. E por havê-la sem uso. Seu funcionamento silencioso, comparável ao de Deus, me angustia. Vendo minha alma, não meu corpo. Num mundo como o hodierno é até preferível vender logo a alma; não se demorar donzelo enquanto outros enriquecem ou assumem cargos importantes. Vou depressa vender-me. Depressa lucrar sem causa. Steven P. Morrissey, popstar inglês, cantou (em Maladjusted) que Satã rejeitou sua alma. Sem conhecer as tratativas que culminaram nessa cizânia, nem a extensão das ambições dos desavindos, penso que a virtude está com Satã. Eu jamais confiaria num cara que “perdoou Jesus” (conforme o cantor revelou, a um mundo incrédulo). Morrissey não tinha esse direito, não sem nos consultar (a mim e a você, ótimo leitor). Disse Borges, a respeito de Sturluson: “(...) famoso como historiador, (...) poeta, duplo traidor, decapitado e fantasma. (...) Dura palavra é traidor. Sturluson era – talvez – um mero fanático disponível, homem dilacerado até o escândalo por sucessivas e contrárias lealdades.”¹ Talvez seja o caso de lembrar o homem swiftiano, de “memória curta, que se faz necessária conforme as várias ocasiões que de hora em hora lhe surgem para diferir de si mesmo e jurar pelos dois lados de uma contradição”. Um homem acossado por lealdades contrárias me parece compreensível. Conheço muitos. Tenho amigos com lealdades contrárias e, curiosamente, não sucessivas. Nunca os vi escandalizados, mas talvez a dificuldade esteja em mim. A circunstância fortuita da decapitação também é tranqüila. Quão dura acusação a de ser fantasma! 18.5.2004 Paulo Coelho, nosso chefe literário no momento, fez um pacto com o Diabo. Solene, um pacto desses, para ser verossímil, deve ser vazado em carmim. Caneta Bic vermelha, no caso de Paulinho. Goethe deu tratos à bola para livrar a cara, e a alma, de seu Fausto. Paulinho só precisou dar uma voltinha, convencer-se da tolice e, no retorno, cancelar o pacto, unilateralmente.
Quê que você fez, Paulinho?! Não vê o transtorno que causou? Não dá mesmo para confiar em ninguém... ¹ Obras completas, p. 408, tomo I

A fuga

Deixa que fujam as galáxias todas contentar-me-ei com o calor de uma estrela. Viveremos na mais completa amplitude. Pois deixa que as galáxias se afastem todas, convulsas, em sua insensata jornada pelos céus. Ficaremos. Seremos humanos, mesmo assim. Que importa as galáxias fugirem, confusas, arrastando consigo o tecido espaço-temporal? Temos seu registro de luz, não nos desviaremos do caminho que convém seguir. Porfiaremos, humanos desde os princípios, junto a nossa pequenina e boa estrela. Luz e calor vitais. 9.2.2002

Ouro Preto