quarta-feira, 14 de março de 2007

1001

Constato, com certo orgulho, que meus visitantes passam de mil, a acreditar num programinha que conta o número de acessos.

É bem verdade que esse programinha inventa cidades: "Salto", Mato Grosso do Sul, e muitos outros fantasmas geográficos. Também é verdade que muitas cidades ele não conta. 

Que importa esses detalhes? Comemoro, orgulhoso, 1001 visitantes desde a "inauguração" do blog.
Não é nada, perto dos 250.000 acessos diários de Ricardo Noblat. E boa parte dos acessos foi patrocinada por mim mesmo.

Mas já é equivalente à tiragem de um livro.

O blog começou na Austrália, obra do amigo César. De lá pra cá, tenho escrito em muitos países, em todos os continentes. Trata-se de um diário, de um bloco de anotações, de um caderno de ensaios, e um álbum fotográfico.

Vai continuar.

O imperador Morrissey

Uma revista (ou jornal, não lembro) anotou, com certo cabotinismo:
O "maior ser britânico inglês vivo hoje" agora é também o "novo imperador romano". Para um senhor de 46 anos, o cantor inglês Morrissey está em pleno gás juvenil. "Acusado" de ter fundado os Smiths e ter salvo milhares de jovens tristes, miseráveis e incompreendidos (como ele se autoproclamava) que viviam trancados em seus quartos cinzentos, Morrissey voltou ao pop com o triunfante e oitavo CD solo "Ringleader of the Tormentors", gravado na Itália, para onde se mudou.
O disco ganhou lançamento físico nos EUA e na Europa mas, moderno, Morrissey já havia lançado seu primeiro single, "You Have Killed Me", no site MySpace (www.myspace.com/morrissey). O álbum circulou na internet antes de ser lançado pela gravadora. Steven P. Morrissey, popstar inglês, cantou (em Maladjusted) que Satã rejeitou sua alma. Sem conhecer as tratativas que culminaram nessa cizânia, nem a extensão das ambições dos desavindos, penso que Satã agiu certo. Eu jamais confiaria num cara que “perdoou Jesus” (conforme o cantor revelou, a um mundo incrédulo, em You are the Quarry). Morrissey não tinha esse direito, não sem nos consultar (a mim e a você, ótimo leitor).

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Sensacional montaria de sapos

Josias repete a mesma charge do ano passado para a mesma chamada: o sensacional desempenho de nossa economia em 2006.
Tal como naquele ano, demos uma surra nos haitianos (agora eles aprendem a não se meter com a gente, ora se aprendem).
Que importa se o mundo inteiro (menos o Haiti) cresceu mais que a gente? Não ligamos para essas chatices.
A charge, o percentual de crescimento, a catatonia geral: tudo se repete num Brasil que não se cansa de ser o último (ou penúltimo).

domingo, 25 de fevereiro de 2007

Danton e a honra

A Revolução Francesa, em princípio uma revolta da municipalidade de Paris contra a fome generalizada, solapou os fundamentos do Estado e trouxe a ruína para a pequena elite que orbitava a monarquia, inepta. A Convenção enfeixou o que hoje chamaríamos de funções executivas, legislativas, judiciais e do ministério público. Quem a controlasse, controlaria a França. Os poderes do rei foram minguando, minguando, até que nada restou. Ele fugiu, mas, também nisso foi inepto. Preso ao tentar chegar à Alemanha, sua sentença de morte era questão de dias. O limitado Luís XVI e a vasta França, vítimas do encantamento mórbido da Revolução, enfrentam-se. Após três votações da Convenção revolucionária, ele avança para a borda do cadafalso, com o rosto muito vermelho, dizendo: “Franceses, morro inocente: é do cadafalso e prestes a comparecer perante Deus, que vos digo isto.” Atam-no à prancha. Numa página dramática, o Abbé Edgeworth profere esta imortalidade: “Filho de São Luís, sobe ao Céu”. Cai o cutelo com um som áspero; e é cortada a vida dum rei. É segunda-feira, 21 de janeiro de 1793. Tinha trinta e oito anos. O imperador pagão pergunta à sua alma: Para que lugares vais partir? O rei católico deve responder: Para a barra do julgamento do Altíssimo Deus! Morto o monarca, o país galopa em vertiginosa insensatez. 1. Danton x Robespierre Um Danton, um Robespierre, produtos principais duma revolução vitoriosa, chegavam agora à presença inadiável um do outro; têm de resolver como hão de viver juntos, governar juntos. Concebe-se facilmente a profunda incompatibilidade mútua que dividia os dois; com que terror de ódio feminino a pobre fórmula verde-marinho olhava para a monstruosa e colossal realidade, ficando mais verde ao contemplá-la (...) Robespierre, não um homem, com o coração dum homem, mas um pobre pedante espasmódico e incorrutível, com uma fórmula de lógica em vez de coração; de natureza jesuítica ou metodista; cheio de hipocrisia sincera, de incorrutibilidade, de virulência e poltronice; estéril como o vento do Leste! Dois produtos tais são demasiados para uma só revolução. Incomodado com a rivalidade na liderança do Diretório ele alcança Danton. Um amigo de Danton o desperta com a notícia de que um mandado estava feito contra ele. Em vão os amigos e a esposa tentam fazê-lo fugir para a segurança. “Não se atreverão”, ele diz, mas, na manhã seguinte, corre o boato da prisão do Titã da Revolução. Atreveram-se. Ao Tribunal: Faz doze meses que eu propus a criação desse mesmo Tribunal Revolucionário. Disso peço perdão a Deus e aos homens. São todos irmãos Cains; Brissot ter-me-ia mandado guilhotinar como Robespierre agora manda. Deixo tudo numa confusão tremenda; nenhum deles entende nada de governo. Robespierre seguir-me-á: eu arrasto Robespierre. Oh, preferível ser um pobre pescador a metermo-nos a governar os homens. Devido à eficácia revolucionária, Danton esteve apenas três dias na cadeia. Às perguntas de presidente do tribunal revolucionário – Tinville – respondeu: Meu nome é Danton e minha residência será em breve no nada: mas viverei no Panteão da História. Carlyle reserva-lhe estas palavras: Apenas por uma questão dum fio de cabelo, pode haver uma reviravolta súbita, trocando de lugares réus e juízes, e ficando alterada a História da França! Porque em França, o único que pode tentar ainda governar (...) é este Danton. Ele é o único, (...) e talvez aquele outro indivíduo cor de azeitona, o oficial de artilharia de Toulon. Não por nada esse indivíduo era Napoleão. Nada de fraqueza, Danton! É o dia da grande morte: não há como os mortos, que não voltam.

domingo, 18 de fevereiro de 2007

Pigs on the wing

Porquinhos rosados na garupa (cada qual mais mimoso). O cavalheiro ia ao mercado. Vietnã.

Arena em Arles

Woody Allen apresenta-nos a um Vincent Van Gogh transformado em dentista, que escreve uma carta ao irmão, Theo. A peça se chama Se os Impressionistas Tivessem Sido Dentistas: “a Sr.ª Sol Schwimmer está me processando porque fiz sua ponte de modo como a senti, e não para ajustar-se à sua boca ridícula! Está certo! Não posso trabalhar por encomenda, como um comerciante comum! Decidi que a ponte deveria ser enorme e espiralada, com dentes irregulares, explosivos, flamejando em todas as direções como uma fogueira! Agora ela está brava porque a ponte não lhe serve na boca! [...] Tentei forçar a dentadura, mas ela se projeta como um lustre estrelado. Ainda assim, acho que é bonita”.
Woody Allen apud Steven Pinker, in Como a Mente Funciona, ed. Companhia das Letras.

sábado, 17 de fevereiro de 2007

Sainte-Marie-Madaleine, Paris

Com suas colunas coríntias, esta igreja melhor seria uma templo romano. Começou a ser construída em 1764, atravessou as loucuras da Revolução Francesa (as decapitações aconteciam quase nas suas calçadas, na Praça da Revolução - depois Praça da Concórdia) e foi concluída em 1845, após as presepadas napoleônicas.

Teclado Qwerty

Anotei, certa vez, ao chegar a Paris:
Por incrível que pareça, o avião não caiu nenhuma vez! Hoje, um montão de coisas. Não vou contar agora porque o teclado francês foi feito, bem, por um retardado mental. As letras estão dispostas segundo caprichos que não conhecem o padrão mundial - apelidado Qwerty. Elas trocam de lugar, e escrever se torna uma excruciante procura... Não tem jeito: prêmio IgNobel para esse gênio.
O teclado francês não segue o padrão Qwerty. Deveria?
Jared Diamond, em Armas, Germes e Aço, anotou (p. 248-9): este livro (...) foi digitado em um teclado Qwerty, cujo nome foi extraído das seis letras da esquerda para a direita da fileira superior do teclado. (...) o layout desse teclado foi projetado em 1873 como uma proeza de antiengenharia. Ele emprega uma série de truques perversos destinados a obrigar os datilógrafos a digitar o mais lentamente possível, como espalhar as letras mais comuns por todas as fileiras do teclado e concentrá-las no lado esquerdo (forçando as pessoas destras a usar a mão mais fraca). A explicação dessa bizarrice é que as máquinas de escrever de 1873 emperravam se as teclas adjacentes fossem tocadas numa seqüência rápida, de modo que os fabricantes tinham de reduzir a velocidade dos datilógrafos. (...) experiências com um teclado mais eficiente, em 1932 [quando o problema técnico das teclas adjacentes fora abolido], mostraram que poderíamos dobrar nossa velocidade na datilografia e reduzir nosso esforço em 95 por cento. Mas nessa época o teclado Qwerty já estava consolidado. Era tarde demais: milhões de datilógrafos, a indústria e os vendedores se encarregaram de desencorajar qualquer tentativa de mudança. Não fora “uma decisão tomada em 1882 por uma certa Sra. Longley, que fundou o Instituto de Taquigrafia e Datilografia de Cincinatti, e o sucesso do brilhante aluno de datilografia da Sra. Longley (...) que arrasou seu rival não-Qwerty (...) em um famoso concurso de datilografia de 1888” e hoje talvez estivéssemos digitando em teclados decentes... Os economistas se engalfinham em torno desse problema, que explicita a temeridade de confiar cegamente no “mercado” (que, afinal, criou o teclado Qwerty). Alguns economistas, contudo, dizem que exilar as teclas de maior freqüência nos confins do teclado pode ser benéfico (não sei como), e mostram “pesquisas”, que têm a interesante propriedade de "provar" o que eles desejam. Sabem, isso de economista, ele pode ser honesto, bom pai, bom vizinho e até torcedor do nosso time. Mas é sempre prudente prender o patife. Não custa lembrar: “Com quantos economistas pode-se trocar uma lâmpada?” Três respostas possíveis: (a) Dois – Um para trocar a lâmpada e outro para segurar a escada imaginária. (b) Oito – Um para trocar a lâmpada e sete para garantir que todo o resto permaneça como está. (c) Nenhum – todos estarão esperando que apareça uma mão invisível. Pois bem, e o teclado francês?
Se os franceses queriam marcar posição, poderiam ter adotado o teclado Dvorak, muito mais eficiente, tornando sua economia mais competitiva. Tomar o que já era ruim e piorá-lo, de birra, eis uma conduta digna de prêmio IgNobel.