sexta-feira, 14 de janeiro de 2005

Torres del Paine

Chego agora de Torres. Depois de duas horas e meia de onibus, chega-se à entrada do parque nacional. Daí, um transporte até uma hosteria. Essa é a parte fácil. Daí, à pé, montanha acima. A estrada começa com uma ponte dançante, que logo te sugere a encosta. Começamos a subir, eu e uma bonita americana, desafiando um vento fortíssimo, sem igual. Ela, que vinha de três dias nos andes peruanos e tem experiência em montanhismo, disse que nunca vira nada parecido. Muito menos eu. Alguns dizem que o vento pode chegar a 100 km/h. Para mim, ele partiu de 100 e deve ter chegado facilmente a uns 180 km/h, no mínimo. Nos agarrávamos às pedras (às pedras, vejam bem), corpo colado, pernas coladas, pés colados, tudo apoiado nas pedras, e o vento tentando nos convencer do abismo. Houve um momento, já quase chegando ao refúgio chileno, em que ficamos muito tempo sem dar um passo, agarrados às pedras, o abismo se abrindo à nossa frente, o vento açoitando, todo se rindo de nossa fragilidade. Mas aí chegamos, paramos um tempo para chocolates, frutas, castanhas, água, e depois partimos para a base das torres propriamente ditas. Caminha-se por um bosque muito agradável, com subidas e descidas suaves, e chega-se ao pé da morena. O argumento final dessa caminhada de 14 quilômetros é uma cascata de pedras com uns 600 metros de altura. Você tem de escalá-la, se quiser acercar-se dos maciços graníticos. Subimos, subimos, e nada. Uns japoneses, em descida, nos disseram que faltavam só "uns dez minutinhos". Sádicos. Subimos, subimos, e então chegamos, resfolegando. As três torres (quatro, na verdade), são como edificios gigantescos, perversos em sua verticalidade, com um lago por vezes verde em sua base. Não vou tentar descrevê-las, o que deixo às fotografias, mas afianço que são majestosas. O vento não te abandona um segundo, mas muda de direção. O tempo todo contra e, de repente, já quase no alto, começa a soprar a favor, empurrando para cima, induzindo pânico adicional, à vista de pedras gigantes, pouco amistosas. Mas foi fantástica a caminhada. Ficamos um tempão lá encima, tiramos vários fotos, que logo revelarei. Pausa para o lanche, mais fotos, e regresso. Na descida, uns italianos esbaforidos perguntaram quanto tempo faltava para o topo. "uns dez minutinhos", pois sim. Harvest, a americana, ficou no camping da base, aos pés das torres. Eu fiquei no refúgio, a 45 minutos pelo bosque. Aguardava-me um jantar o mais maravilhoso que já provei, haja vista a fome. Primeiro, uma sopa de legumes, a coisa mais saborosa, depois um frango com arroz, bem ao gosto brasileiro. Depois, uma sobremesa (com a fome domada, a sobremesa não me convenceu) e depois, cama. Dormi umas dez horas sem parar, e só acordei com a sinfonia de despertadores dos montanhistas, prontinho para o café-da-manhã. Nunca havia ficado em um refúgio de montanha, e a experiência de ver as torres através da alta vidraça, e os pingos de chuva, e um vento cortante lá fora são coisas difíceis de esquecer. Hoje eu poderia ter montado a cavalo, para ir à Lagoa Azul (de onde se avista as torres), mas preferi voltar a Natales e descansar. Amanhã volto ao parque, para outra aventura, dessa vez em outro refúgio. P. Natales, 14 de janeiro de 2005.

terça-feira, 11 de janeiro de 2005

Puerto Natales

Cheguei ao extremo sul chileno, região de Punta Arenas. Àquela cidade chega-se de avião. Daí, um ônibus para Puerto Natales, cidade distribuidora do turismo na regiao de Torres. No meu caso, ao chegar não achei ônibus (um sujeito, logo após garantir que havia, sumiu sem deixar vestígios). Juntamente com um casal australiano na mesma desventura, pegamos um táxi até Natales. Sao 3 horas em uma estrada muito cênica (a planície patagônica), sob sol até as 11 da noite. Natales e uma cidade muito pequena, repleta de restaurantes e casas voltadas para o turismo. E turistas. Hoje fui ao parque de Torres del Paine. Infelizmente choveu, e fez frio, e a visita não resultou proveitosa. Amanhã descanso um pouco e devo voltar ao parque, para outro tipo de visita. Mesmo na chuva, Torres me pareceu impressionante, nos poucos minutos de sol que tivemos. Já a geleira que visitamos é bem inferior às de Perito Moreno, bem perto daqui, no lado argentino. Talvez eu vá à Argentina, se o tempo aqui não melhorar. O hostal em que estou tem um bom café da manhã, e um quarto só pra mim. Por ora, é só. Puerto Natales, 11 de janeiro de 2005.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2005

Milford e Doubtful Sound

Despeço-me agora da Nova Zelândia. Amanhã, às nove, vou para Auckland, e às dezessete, um A-340 ficou de me levar a Santiago. Queenstown é a mais interessante cidade da Nova Zelândia, considerando toda a região. Fiz o passeio ao rio Shotover. Primeiro, a lancha rápida, que passa a milímetros das pedras. É muita adrenalina. O Shotover é um rio de águas verdes, entre montanhas, que corre numa garganta de impressionante altura. Após vários cavalos-de-pau no rio, o guia levou a lancha até o local de uma velha locomotiva, que vigiava a saída de uma cachoeira. Falou algo que não entendi, mas impressionou os demais. Mais tarde verifiquei por quê. À tarde, segui para o rafting. Adrenalina na veia. Você desce o rio com mais sete pessoas, remando um pouco. A garganta tem paredões que alcançam facilmente 300 metros de rocha pura. A vegetação, os ônibus e carros passando na estradinha lá em cima, e você remando, tirando tinta dos gumes de pedra. Daí começam as cachoeiras. E tome banho. Como eu estava sentado no penúltimo lugar, nõo tomei muita água. Os novaiorquinos, à frente, tomavam caldo direto. Você rema um pouco, se encolhe, recua o remo e torce para sair do outro lado. E sai. Às vezes, uma batida mais forte numa parede de pedra, às vezes um banho de àgua gelada, é normal. Então, o final. Passamos por mais uma cachoeira, pensando que o pior tinha passado. Foi quando veio a caverna. É um túnel escavado na rocha, onde mal cabe o bote. Encolhidos, entramos na escuridão, a água nos levando, a pedra passando a milímetros de nossas cabeças, a escuridão total, por um tempo que parece enorme, devido ao inusitado. Daí, a saída. Uma enorme cachoeira te aguarda, e não há nada que se possa fazer para se livrar de um grande banho. O melhor é se agarrar fortemente, para não cair do bote, e agüentar a água gelada, que te cobre e começa a adentrar a roupa de neoprene (macacão, jaqueta por cima, mais um casaco impermeável, mais colete e um capacete. Você fica parecendo astronauta). Após um violento puxão, gritos e muita água gelada, você sai pra luz do dia, e a primeira coisa que vê é uma velha locomotiva, que era usada pra produzir energia com a água que sai do túnel escavado na rocha bruta. Desnecessário dizer que foi o mais emocionante passeio, até agora. Isso foi há 3 dias. Hoje voltei ao Shotover, para o mountain bike. Eu achava que estava preparado, mas o fato é que descer uma montanha, de bicicleta, não é exatamente um passeio. As pedras, as descidas íngremes, as subidas, os muitos cursos dagua pelo meio, e mais pedras afiladas. Eu não fazia idéia de quão difícil pode ser manter-se em cima de uma bicicleta montanha abaixo. Mas foi simplesmente fantástico. Como bem demonstram meus ossos e pele (intactos) não tomei tombo, fotografei até falar chega e depois voltamos de helicóptero. Pra fechar o dia (e a Oceania), umas cervejas belgas e australianas, acompanhadas por um prato típico neozelandês: pernil de cordeiro, assado com ervas finas e batatas gratinadas. Não mencionei, ainda, os sounds, nomes que eles dão para os fabulosos braços de mar na região de Te Anau (lamento, mas o nome é esse mesmo). Não há palavras para esses colossos. Milford Sound consiste numa reunião assaz feliz de montanha e mar, que se encontram com rara intensidade. São maciços quilométricos, que de repente despencam direto no mar. Inúmeras cachoeiras, de alturas insensatas, testemunham esse encontro, caindo poderosamente sobre um mar convoluto. As nuvens não abandonam os cumes, provendo um decoroso véu para noivas de vasta sombra. O barco entrou quase embaixo da maior das cachoeiras; resisti sozinho no convés, para fotografar. Consegui, não sei com que resultado. Doubtful Sound (haja sounds) é outro meeting de montanhas, mar e nuvens. É um delírio silencioso de rochas, matas, nuvens e céu azul (isso mesmo: fomos os felizardos a ver céu azul numa regiao dominada pela volúpia das nuvens). São dois cruzeiros intensos, onde a natureza não se economiza. Tudo é magnificado até à vertigem, gerando continentes de lembrança na mente do visitante. Pra fechar, Te Anau é uma cidadezinha acolhedora, com uma casa de massas deliciosas e atendentes risonhas (não, não inverta os adjetivos). Tina supera todas, com seu jeito moleque. Ela senta à mesa, em vez de simplesmente anotar os pedidos (não estou falando só da minha mesa). Depois faz comentários deliciosos. Tem de tudo na Nova Zelândia, inclusive gente boa. O país é dos mais bonitos do mundo (como se sabe), e não pode ser esquecido. Queenstown, 7 de janeiro de 2005.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2005

Queenstown

Cheguei a Queenstown. É uma cidade pequena, mas muito interessante; charmosa, situada entre grandes montanhas e um lago. Aqui próximo, ficam Milford Sound e outras atrações turísticas da Nova Zelândia. Irei conhecê-las nos cinco dias que aqui passarei. Amanhã farei um passeio pelo rio Shotover (lancha e rafting). Espero muitas emoções. No mais, um pouco de cansaço com tantos deslocamentos. E também saudades. Hoje comprei minha passagem para Campo Grande, mas antes tenho Torres Del Paine para conhecer. Vai ser interessante. Grande abraço. Queenstown, 3 de janeiro de 2005.

domingo, 26 de dezembro de 2004

Auckland

Estou na Nova Zelândia (Auckland, maior cidade - 750 mil habitantes). Pretendia partir hoje mesmo para o sul, para Waitomo e Rotorua, mas é feriado por aqui, e as coisas não funcionaram. Parto amanhã (o pessoal do hostel conta com isso - até já anteciparam o bota-fora. Onde vou, é sempre a mesma coisa: as pessoas se entusiasmam com a minha partida). Deixando o entusiasmo de lado, relato agora o incidente da banana. Um cara esqueceu uma banana na mochila. Em Auckland, há detectores com raio-X na chegada, e a banana foi descoberta. Os bons funcionários não tiveram dúvida em aplicar duzentos dólares de multa ao infrator, sem conversa. Não sei se esse dinheiro vai chegar as cofres públicos. A penalidade é intrinsecamente injusta e desproporcional à "infração" mas, sabem como é, uma pessoa à uma da madrugada não está em condições de raciocinar com argúcia, e o dinheiro teve de ser pago. O dado que me chamou a atenção, meditando sobre isso, é que não havia, em nenhum impresso, o artigo de lei ou norma administrativa estabelecendo a penalidade, suas formas de cobrança e contestação. Então, pode ter havido abuso, muito comum contra pessoas em desequilíbrio de informação (essencialmente, essa é a situação de um turista). Sei disso tudo porque a pena foi imposta a mim, mas são coisas da vida de um aventureiro. Já conheci duas pessoas que falam português na Nova Zelândia, contra nenhuma na Austrália. Um recorde! Estou me sentindo em casa. Raquel é a própria simpatia. Neozelandesa, já morou em São Paulo e Florianópolis. Ela tem uma fala deliciosa, com gírias de Floripa e jeito de brasileira nata. Até a próxima. Auckland, 26 de dezembro de 2004.

sábado, 25 de dezembro de 2004

Kakadu Park

Uma coisa aprendi na Austrália: não falar mal dos ingleses. Em cada ônibus, avião ou bar, metade dos circunstantes será inglesa. Melhor não se meter com eles, leitor. Não é que na minha excursão havia um inglês? O Parque Nacional Kakadu é o maior da Austrália. Um lugar tão grande... tinha um inglês por lá, of course. Quem contempla-lhe o rosto tem a nítida impressão de que, inadvertidamente, entrou no desenho The King of the Hill, com todos aqueles personagens anódinos e inverossímeis. Um rosto gigante, mal decorado por uma boca pequena, de onde saiam palavras bem pequenininhas. Não se compreende a produção de um rosto com tão poucos e desusados traços. Censuraremos a natureza por tanta avareza? É possível um rosto com tanta economia de linhas? Essa mesquinhez me pareceu excessiva. Se Nicolai Gógol precisasse descrevê-lo, é quase certo que diria: “É de conhecimento geral que no mundo existem muitas dessas faces, na feitura das quais a natureza não quis dar-se muito trabalho, não usou nenhum dos instrumentos finos, tais como lixas, brocas e quejandos, mas simplesmente desceu a machadinha com toda a força: uma machadada, e saiu o nariz, outra, e resultaram os lábios; com dois movimentos de verruma grossa, fez os olhos, e soltou o resultado sem lixá-lo, para o mundo, dizendo: ‘vive!’” ¹ Não tenho a autoridade de Gógol, e jamais empregaria essas palavras, que poderiam ser mal recebidas pelos ingleses, um povo distinto. Contudo antipatizei logo de cara com aquele inglês, de várias máquinas fotográficas (uma delas igual à minha), no que fui logo correspondido. Vejam suas peripécias. À falta de cadeiras, ele puxou uma mesa, para sentar-se junto à fogueirinha após o jantar. Ali equilibrou primeiro uns 90, depois vigorosos 120 e, finalmente, todos os 190 mimosos quilinhos que Deus lhe deu. Como uma simples mesa suportou, não sei dizer. Sentados em cadeiras ou em mesas, ouvimos todos o guia tocar uma espécie de berrante do Território Norte: um cilindro que já deve ter sido de madeira e hoje é de fibra, de onde sai um som grave e enjoado. O sujeito passa horas entoando esse som, ininterruptamente, o que exige paciência. No dia seguinte, subimos a uma cachoeira, coisa de uns 80 m de queda livre. O tal inglês ficou conversando com Esther (a holandesa) lá em cima; o sol nos presenteava com plasma ardente. Ligeiramente preocupado com os 60° C, que cozinhavam os miolos, fugi, para uma fonte d´àgua, para refrigerar as idéias. E foi lá que presenciei a seguinte cena: vinha o econômico inglês, na fresca, sem camisa, quando engoliu uma mosca. Isso mesmo, uma mosca (não existe falta delas por lá). Após estremunhar e correr pra fonte d´água, ouvi esta fórmula, lacônica: - Like a suicide! Como um robusto inseto daqueles foi parar na pança do inglês, não posso dizer. Houve boatos de que todos aqueles galantes quilos premeditaram o acidente. Uma das versões dava conta que a defunta se aproximou imprudentemente da boca do inglês, sendo apanhada numa corrente de ar que a adentrava justamente naquele momento. Não acredito nessa versão, e o que eu não faria para punir seu autor. Solidarizei-me com o inglês, claro, tão logo pude controlar o riso, horas depois. Ele aprontou outras, mas não seria justo com os súditos de Sua Majestade ficar detalhando essas histórias. Darwin, dezembro de 2004.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2004

Natal em Sydney

É Natal, estou de volta a Sydney, após quase um mês pelo outback e costa australiana. Chove e faz um pouco de frio (nem tudo é perfeito). Um ótimo Natal a todos, desejando-lhes saúde, paz e prosperidade, sem querer ser original. Grande abraço.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2004

Brisbane

Estou em Brisbane (de novo). Fui a Fraser Island, ilha muito bonita, mas tivemos dia nublado. Fraser, assim como Brisbane, fica em Queensland, estado do nordeste australiano. Terminei há pouco minhas andanças pela cidade. Brisbane tem um rio (de mesmo nome) que corta a cidade e é magnífico. Sua arquitetura e urbanismo são fascinantes. Agora uma pequena história. Intitula-se o caso da sandália. Ocorre que, após 3 semanas de andanças, meus pés já não toleram nada senão sandálias havaianas. Estão latejando, e ameçam deixar-me ir sozinho. Fui a uma pequena ilha chamada Fitzroy, a 50 minutos de Cairns. Lá chegando, a primeira coisa a faser foi dormir, ao som do mar, à sombra de uma enorme árvore. Ao acordar, foi como se tivesse começado a sonhar: ou meus sentidos me traíam ou uma moça estava fazendo topless na areia, bem à minha frente. Se era sonho, devo dizer que foi dos mais bonitos que já tive. Todavia, certifiquei-me de que era realidade, e para não constranger a moça, fui caminhar pelas pedras. Casualmente, para ir às pedras, era preciso passar por ela. As pedras estavam áridas, e desinteressantes, como sói acontecer com pedras, então voltei, passando em frente à sereia, que a essa altura apenas incrementara sua posição. Alguns passos mais, percebi que perdera minhas sandálias nas traiçoeiras pedras. Como uma coisa dessas aconteceu, não sei, mas, contrariado, tive de voltar. Como houvesse esgotado o número de vezes que podia passar pela moça, ocorreu-me tomar um atalho, pela mata. Esse caminho me levava para trás de onde a moça expendia seu charme. Adentrando a mata, umas irritantes folhas secas me denunciaram, e a pobre francesa acabou suspeitando de que estava às voltas com um tarado, talvez tentando fotografá-la. Eu jamais pensaria numa indignidade dessas, deve ser dito em minha defesa. Felizmente, após uma pequena procura, achei as chinelas, caídas nas amaldiçoadas pedras. Muito feliz por retormar aquele caminho, voltei, mas a moça se tinha ido. Depois nos encontramos, numa praia menos liberal, e o episódio das sandálias foi abafado, segundo me pareceu. Foi a primeira vez que perdi minhas sandálias nesta viagem, e espero estar mais atento da próxima vez. Se cuida, gente.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2004

Cairns

G'day, people! Cheguei a Cairns! Depois da sauna do Território Norte, da poeira e do calor de Alice Springs, nada melhor que a tranqüila Cairns (nordeste da Australia). Hoje acabou a rotina de passeios começando às 4 da manhã. Fiz algo totalmente diferente. Mas tão violentamente radical que ninguém suspeitaria fosse possível: lavei roupas. Isso mesmo, lavei roupas. Fazia tempo que não me dedicava a atividade tão interessante e divertida (acreditem, depois de 20 dias fazendo passeios seguidos, lavar roupa pode ser uma terapia). Contudo, se houve entusiasmo para lavá-las, nem tanto para passá-las. Sabem como é: precisava sair para conhecer a cidade e tal. Ademais, lembro que é uma ofensa o sujeito chegar a um albergue com a roupa engomadinha. Lavada a roupa, saí. Bem em frente ao hostel está o maior shopping center do nordeste australiano. Entrei e comi uma comidinha tailandesa (voltei às experiências gastronômicas). A carne estava boa, mas o frango tava chegadinho numa pimenta. Depois, fui andar à pé pela cidade. No caminho (uma espécie de calçadão), um show de moda sertaneja australiana. Depois, a praia, com mais show pop. Por fim, pizza e cerveja Cascade, que ninguem é de ferro. Na volta, mais show, dessa vez de acrobatas, e parece que tem uns batistas cantando alguma coisa agora. Ontem, escrevi diversas coisas no blog, mas a moça desligou minha máquina sem me avisar, e perdi tudo. Seja como for, aqui vão algumas histórias. 1. Na viagem entre Melbourne e Adelaide, conheci Christy. Ela tem grandes olhos azuis e uma respeitável boca, pronta para soltar um enorme oh! woooowwwww! a cada resposta. Ela esteve no Laos, Vietnã, Camboja e na Tailândia, infelizmente com o namorado. Você é brasileiro? oh! woooowwwww! mora em Campo Grande? oh! woooowwwww! trabalha para o governo? oh! woooowwwww! mora sozinho? oh! woooowwwww! A cada oh! woooowwwww! um pequeno carnaval. Vocês não acreditariam na expressividade dessas inglesas. E quando elas soltam o infalível oh, really? Inaugura-se um pequeno escândalo em torno ao que deveria ser uma simples e útil expressão inglesa. Vocês não sabem o que elas fazem entre o r e o y. Até o actually elas pintam em cores irrepetíveis. Não terminei essa história porque fui traído por um botão que parecia ser de mudança de tamanho de fonte mas era um botão que, mais ou menos, queria dizer fechar-tudo-acabar-com-tudo-desligar-a-máquina-e-ir-pra-casa-e-se-enfiar-deibaixo-da-cama. Uma tecla incomumente poderosa. Então tchau. Depois tem mais. Baci Baci, conforme as italianas. Cairns, dezembro de 2004.

terça-feira, 14 de dezembro de 2004

Darwin

Olá, gente. Agora, um pequeno relato da viagem. Acordei às 2:30 da madrugada para o vôo de balão. O balão não voou, claro que não (por causa do vento. Mas como diabos uma coisa dessas foi acontecer - ventar?), e fui ajudar uma moça suíça que perdera o namorado num bar. Tava bebendo, conversando com os amigos. Não voltou. Lá fui eu, e ela, atrás do vi... cara. Encontramo-lo sentado a uma mesa, o bar já fechado, luzes apagadas, o último funcionário p. da vida, indo embora. Após uma conversa, ele se deixou estar, e nós voltamos. Pelo menos a suíça ficou mais aliviada. Depois fui dormir, coisa que não fazia, de forma decente, havia umas três noites. A última noite foi assim: em sacos de dormir, no meio do deserto, com o nariz apontando para as estrelas. E que estrelas. Vocês não vão acreditar no poderio das estrelas daqui. São as mesmas do Brasil, mas o ar seco e limpo do deserto faz com que seu brilho seja ensurdecedor. Parece um insensato concurso de holofotes. Daí acordamos e fomos ver o nascer do sol na rocha Uluru. É de enlouquecer. Depois, café e estrada. Duas horas depois, King Canyon, lugar belíssimo, que exigiu 4 horas de vigorosa caminhada. Gastei uns 3 filmes nesse canyon, de larga beleza. À tarde, estrada, num calor sufocante (o patife do motorista, alegando economia, desligou o ar condicionado. Para meu pasmo, os demais turistas não reclamaram dessa esperteza). Daí, de volta a Alice Springs, a tempo de um jantar numa boate da cidade, com direito a brincadeiras de locutores e DJs. Depois, vôo para Darwin, território localizado no extremo norte da Austrália, um lugar parecido, no clima torridamente tropical, com Manaus e Belém. O ar é tão denso que pode ser fatiado, em fatias quentes. Haja garrafas d'água. Depois eu conto mais.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2004

Austrália

Troquei a chuva torrencial e ininterrupta de Adelaide pelo calor abrasador de Alice Springs. Vocês me viram reclamar do sol de Sydney? Esqueçam. O sol de Alice é como se o próprio demônio estivesse pururucando sua pele. Sobre Adelaide, resta apenas dizer que parei com os restaurantes indianos, tailandeses e similares, por ora. Toda aquela pimenta estava me deixando muito emotivo. O vôo foi ótimo: 2 horas sobre o deserto, inclusive Woomera, área usada para testes nucleares, segundo consta. Você tem de pagar pelo lanche, durante o vôo. Os comissários parecem mascates disputando a comissão de uma cerveja. Conclusão: não confiem em Virgin. Prefiram Qantas. Chegada a Alice: Aeroporto pequeno, sol arrazador. Após acertar o vôo de balão para a terça-feira, fui a um deserto em miniatura perto da cidade. É uma espécie de zoológico, só com animais do deserto. É bem completo, e tem enormes cangurus e emus (não confundir com as emas sul-americanas, nem com o casuar, restrito a extremo norte. Todas essas aves se parecem, no geral). O deserto é de um vermelho vivo; o sol demonstra singular competência e a temperatura fica acima dos 35° C, à sombra. Assisti, ainda, a uma demonstração de falcoaria, com aves bem adestradas. Bacana, mas algo artificial.
Agora a cidade: é pequena, com ar de interior, mas tem todo o conforto de cidade média. existem enormes blocos de pedra ocre entre as casas, e o deserto espreita. Segundo os mapas, ela é cortada por um rio, mas dele só existe a areia e as pontes. Desolador. A cidade não tem o charme de El Calafate, nem o excessivo rigor agreste de San Pedro de Atacama. É uma típica cidade australiana: limpa e urbanizada, mas povoada de aborígines que perambulam feito fantasmas-mendigos, andrajosos, pelas ruas e shoppings. Amanhã acordo às cinco e seguirei para Uluru. Não é fácil a vida de turista.
Depois eu conto mais, que o tempo tá se acabando. Beijos (para as meninas) e abraços,