domingo, 18 de fevereiro de 2007

Pigs on the wing

Porquinhos rosados na garupa (cada qual mais mimoso). O cavalheiro ia ao mercado. Vietnã.

Arena em Arles

Woody Allen apresenta-nos a um Vincent Van Gogh transformado em dentista, que escreve uma carta ao irmão, Theo. A peça se chama Se os Impressionistas Tivessem Sido Dentistas: “a Sr.ª Sol Schwimmer está me processando porque fiz sua ponte de modo como a senti, e não para ajustar-se à sua boca ridícula! Está certo! Não posso trabalhar por encomenda, como um comerciante comum! Decidi que a ponte deveria ser enorme e espiralada, com dentes irregulares, explosivos, flamejando em todas as direções como uma fogueira! Agora ela está brava porque a ponte não lhe serve na boca! [...] Tentei forçar a dentadura, mas ela se projeta como um lustre estrelado. Ainda assim, acho que é bonita”.
Woody Allen apud Steven Pinker, in Como a Mente Funciona, ed. Companhia das Letras.

sábado, 17 de fevereiro de 2007

Sainte-Marie-Madaleine, Paris

Com suas colunas coríntias, esta igreja melhor seria uma templo romano. Começou a ser construída em 1764, atravessou as loucuras da Revolução Francesa (as decapitações aconteciam quase nas suas calçadas, na Praça da Revolução - depois Praça da Concórdia) e foi concluída em 1845, após as presepadas napoleônicas.

Teclado Qwerty

Anotei, certa vez, ao chegar a Paris:
Por incrível que pareça, o avião não caiu nenhuma vez! Hoje, um montão de coisas. Não vou contar agora porque o teclado francês foi feito, bem, por um retardado mental. As letras estão dispostas segundo caprichos que não conhecem o padrão mundial - apelidado Qwerty. Elas trocam de lugar, e escrever se torna uma excruciante procura... Não tem jeito: prêmio IgNobel para esse gênio.
O teclado francês não segue o padrão Qwerty. Deveria?
Jared Diamond, em Armas, Germes e Aço, anotou (p. 248-9): este livro (...) foi digitado em um teclado Qwerty, cujo nome foi extraído das seis letras da esquerda para a direita da fileira superior do teclado. (...) o layout desse teclado foi projetado em 1873 como uma proeza de antiengenharia. Ele emprega uma série de truques perversos destinados a obrigar os datilógrafos a digitar o mais lentamente possível, como espalhar as letras mais comuns por todas as fileiras do teclado e concentrá-las no lado esquerdo (forçando as pessoas destras a usar a mão mais fraca). A explicação dessa bizarrice é que as máquinas de escrever de 1873 emperravam se as teclas adjacentes fossem tocadas numa seqüência rápida, de modo que os fabricantes tinham de reduzir a velocidade dos datilógrafos. (...) experiências com um teclado mais eficiente, em 1932 [quando o problema técnico das teclas adjacentes fora abolido], mostraram que poderíamos dobrar nossa velocidade na datilografia e reduzir nosso esforço em 95 por cento. Mas nessa época o teclado Qwerty já estava consolidado. Era tarde demais: milhões de datilógrafos, a indústria e os vendedores se encarregaram de desencorajar qualquer tentativa de mudança. Não fora “uma decisão tomada em 1882 por uma certa Sra. Longley, que fundou o Instituto de Taquigrafia e Datilografia de Cincinatti, e o sucesso do brilhante aluno de datilografia da Sra. Longley (...) que arrasou seu rival não-Qwerty (...) em um famoso concurso de datilografia de 1888” e hoje talvez estivéssemos digitando em teclados decentes... Os economistas se engalfinham em torno desse problema, que explicita a temeridade de confiar cegamente no “mercado” (que, afinal, criou o teclado Qwerty). Alguns economistas, contudo, dizem que exilar as teclas de maior freqüência nos confins do teclado pode ser benéfico (não sei como), e mostram “pesquisas”, que têm a interesante propriedade de "provar" o que eles desejam. Sabem, isso de economista, ele pode ser honesto, bom pai, bom vizinho e até torcedor do nosso time. Mas é sempre prudente prender o patife. Não custa lembrar: “Com quantos economistas pode-se trocar uma lâmpada?” Três respostas possíveis: (a) Dois – Um para trocar a lâmpada e outro para segurar a escada imaginária. (b) Oito – Um para trocar a lâmpada e sete para garantir que todo o resto permaneça como está. (c) Nenhum – todos estarão esperando que apareça uma mão invisível. Pois bem, e o teclado francês?
Se os franceses queriam marcar posição, poderiam ter adotado o teclado Dvorak, muito mais eficiente, tornando sua economia mais competitiva. Tomar o que já era ruim e piorá-lo, de birra, eis uma conduta digna de prêmio IgNobel.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Volendã, Holanda

"Hidrovias ao redor de cada cultivo, por pequeno, para que patos selvagens, cisnes e outros jantares possam viajar com conforto. Num cruzamento dessas hidrovias julguei ver, de relance, um semáforo em funcionamento e uma família de patos esperando sua vez, enquanto os cisnes obedeciam, ordeiros, o sinal verde, mas o leitor deve considerar o vinho e a pressa do trem."

Vietnã

Campo de arroz ao amanhecer. Norte do Vietnã.

Arles

domingo, 11 de fevereiro de 2007

Subindo o vulcão

3h30min da madrugada, acordo. Na recepção do hotel, um guia falando inglês, sob holofotes ocasionais de relâmpagos. Uma hora de caminhada depois, estamos perto da cratera. O vento açoita, anima a chuva; os relâmpagos se empolgam e entremostram o topo. Fazemos uma virada à esquerda, andamos paralelos à cratera e chegamos. Café quente, pão recheado com banana e ovos cozidos nos aguardavam. Oferecem refrigerante a 4,5 dólares a garrafinha. Os franceses aceitam. A cratera é modesta; o vulcão é preguiçoso. Em uma furna, garrafas com água fervem com o calor telúrico. Fomos ver outras crateras e seu trabalho recente: um vale de lava escura, com algumas dezenas de anos.
No fim, uma hora de caminhada morro abaixo e não se fala mais nisso.
Bali, janeiro de 2007.

Menina vietnamita

Hue

Show em Hue, centro montanhoso do Vietnã.

sábado, 10 de fevereiro de 2007

A banalidade do mal

Josias de Souza reclama da nossa violência consentida. Ele evoca a banalidade do mal, diagnóstico brilhante de Anna Arendt para a maldade gratuita do nazismo.
Nós, brasileiros, falimos, enquanto sociedade. Não somos os únicos. Individualmente consideradas, as pessoas das sociedades falidas, como as da África, são racionais e se comportam como as de sociedades avançadas.
Mas, consideradas em seu meio, elas agem de forma doentia (o que, basicamente, explica a fracasso).
No nosso caso, vemos uma sobrenatural brutalidade se tornar banalidade. Bandidos fecham um ônibus, encharcam-no de gasolina, impedem uma mãe com um bebê de sair e tocam fogo. Todos morrem, incinerados. Nada de mais.
A novidade da semana:
Um grupo de marginais abordara, num subúrbio do Rio, a comerciante Rosa Cristina Fernandes. Queriam o carro dela. Rosa não opôs resistência. Desceu. Tirou do veículo a filha Aline, 13. No instante em tentava destravar o cinto de segurança do filho João, 6, os bandidos arrancaram. E lá se foi João, dependurado do lado de fora do carro. Arrastaram-no por sete inesgotáveis quilômetros. Abandonaram-no numa rua sem saída, ao lado do Corsa sujo de sangue, corpo dilacerado, sem cabeça, ossos à mostra.
(...)
Assim como na rotina de Eichmann, o que espanta na realidade brasileira não é propriamente a anormalidade. Espantosa é a normalidade que resplandece em torno do inaceitável.
Sabe o que estamos fazendo a respeito, leitor?
Isso mesmo: NADA.
Estamos até felizes. Só temos de evitar ser sorteados pelos criminosos, pelos mosquitos da dengue, pelos esmoléus, pelas kombis de anúncios de rua, pelas crateras nas estradas...
Nada a fazer, dizem os semi-mortos personagens de Samuel Beckett. "Amém", dizemos todos nós, brasileiros falidos.

Estela

Aí está o obelisco (andou freqüentando as páginas de um best seller, ao que parece).