Em Free thought and official propaganda, Bertrand Russel
propõe que a escola primária ensine a arte de ler com incredulidade os jornais. Entendo que essa disciplina socrática não seria inútil. Das pessoas que conheço, pouquíssimas sequer a soletram. Deixam-se lograr por artifícios tipográficos ou sintáticos; pensam que um fato aconteceu só porque está impresso em grandes letras pretas; confundem a verdade com o corpo doze; negam-se a entender que a afirmação: ‘Todas as tentativas do agressor para avançar além de B fracassaram de maneira sangrenta’ é mero eufemismo para admitir a perda de B. Pior ainda: exercem uma sorte de magia, pensam que formular um temor é colaborar com o inimigo... Russel propõe que o Estado tente imunizar os homens contra essas superstições e esses sofismas. Por exemplo, sugere que os alunos estudem as últimas derrotas de Napoleão nos boletins do Moniteur, ostensivamente triunfais. Planeja tarefas como esta: depois de estudar a história da guerra com a França em textos ingleses, reescrever essa história do ponto de vista francês.
Ponho-me de acordo com Borges, autor desse comentário. Condescendente e sonolento, fatigo os jornais. Não careço de fatos: contenta-me sua imagem invertida ou, quem sabe, torturados fragmentos; verdades suspicazes, constructos marotos, sobre os quais brincar de engenharia reversa. Talvez eu já queira uma mentira risonha, mas os jornais desta província observam mentiras burocráticas e enfadonhas, em ciclos intermináveis.
Lembro-me de que noticiam, a intervalos conhecidos, certos investimentos, certas escolas ou hospícios ou anfiteatros. São notícias tão auspiciosas quanto o advento de uma sorveteria, uma barbearia ou, quem sabe, uma fábrica de trins.
Nesta república, onde o tempo é da mais imprudente circulação, os jornais ventilam algo, parece que uma historinha de corrupção. Falam de um presidente, seu vice, um presidente de Câmara, muita gente, enfim. Já vimos isso tudo, antes. Onde será que foi?
Ora se não foi aqui mesmo!
Os grandes governadores, vestidos de púrpura com fasces e insígnia, são governados por seus criados, pelos amuos de suas mulheres e filhos; ou, em países constitucionais, pelos parágrafos dos seus jornalistas hábeis.
Carlyle, que incensava monarquias, sem explicar-nos onde, no que elas funcionariam, apresenta-nos essa nota em sua História da Revolução Francesa.
Folguei por dois meses. O País segue o mesmo. Os jornais não se deram o trabalho de estampar qualquer novidade, talvez por conservadorismo. Tanta falta de imaginação me aborrece.
Campo Grande, 16 de fevereiro de 2006.
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006
A volta
Meu apartamento, sede de toda paz, me acolhe sem censuras. 50 dias é menos que os parlamentares se concedem de férias por ano, mas já é um respeitável hiato no esquematismo quotidiano.
Acomodo as lembranças de viagem, os presentes que me dei. Algumas estátuas chinesas, outros vasos japoneses abriram caminho na sala (essa sala, tão confortável quanto pouco habitada) por sobre congêneres de outros países, de viagens já esquecidas.
Na minha oficina, o novo aparelho de som (japonês) sobre outro aparelho de som, num palimpsesto imprevisto. A competição entre os dois fornece a medida de minha necessidade dessas harmônicas.
As fotos vão para o computador. Adiciono meio terabytes à memória desse servidor, na esperança de que se lembre de todas as fotos que tentei tirar, e cujos motivos fugiram.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2006
Toronto
Nesta cidade acolhedora termino a aventura.
Foram oito paises, numa sucessão vertiginosa de idiomas, religiões, culinárias e gentes. A India, já viram, não me fez bem. Resta defesa para pessoas fracas, como eu. A miséria brasileira entristece, incomoda. Já a India é o permanente suicídio da alegria.
O Canada é moderno, rural, elegante e discreto. Sua vastidão gelada ignora fronteiras e vai até onde se exaure o Norte. A matriz do povo recebeu generosas contribuições de estrangeiros, sem prejuízo da harmonia.
Fui às Niagara Falls, sob tempestade. Ficou clara a invasão de prédios e outras urbanidades indevidas a essa reunião das águas. Quem conhece Foz do Iguaçu sabe da necessidade de preservar esses jorros de alegria da natureza.
Em temperaturas mais amenas, creio que me adaptaria muito bem a esse gigante amistoso e fácil.
Toronto, 7 de fevereiro de 2006.
Dever Cívico
É sempre um prazer ler o blog do Josias de Souza. Abaixo, ele faz uma desabafo digno da nossa situação, pouco civica. Convido o leitor para um breve exercício de reflexão:
Houve um tempo em que poucas experiências se comparavam ao prazer de entrar na cabine eleitoral. Lembra? Sentir, diante da cédula, aquela sensação gostosa. Os quadradinhos limpos, vazios, intocados, à espera do seu rabisco.
Era um instante simbólico, o pedaço de papel esperando por uma atitude. E você, convencido da sua relevância, assumia compromissos consigo mesmo: dessa vez vou caprichar. Serei um eleitor exemplar. A realidade está aí mesmo, diante dos meus olhos, esperando que eu a modifique.
A ditadura militar tinha ficado para trás. O país parecia ter voltado às suas mãos. Lembra? De volta à cabine eleitoral, você hesitava antes de marcar o “X” no quadradinho. Ficava indeciso: fulano ou beltrano? Partido “A” ou legenda “B”? E, finalmente, deitava sobre o papel a sua decisão. Como se fosse um testamento para as gerações futuras.
Seu zelo podia consumir minutos intermináveis. O bastante para que o pessoal da fila começasse a fazer cara feia. Mas você queria cumprir com o seu dever cívico. E deixava a seção eleitoral com aquele semblante virtuoso. Sentia-se um rei. O voto era seu cetro metafórico.
A urna eletrônica diminuiu o romantismo. Mas não suprimiu a solenidade. Você manteve a fé renitente na democracia. Continuou acreditando que estava participando de um ritual superior. Fechava os olhos para as evidências em contrário.
Hoje, você já não se reconhece naquele eleitor piegas de antigamente. Lembra da frustração dos dois Fernandos. Vê com tristeza a metamorfose do Lula e do PT. E começa a refletir sobre o hediondo paradoxo em que se transformaram as eleições.
O voto ficou cada vez mais corriqueiro e fácil. Ao mesmo tempo, a opção do eleitor nunca pareceu tão irrelevante diante do que fazem, no governo, os seus escolhidos. Onde você enxerga vocação política e carisma não costuma haver senão pretensão e picaretagem.
Você começa a entender melhor o espírito da democracia. Descobriu que o seu papel na história não é o de protagonista, mas o de otário. Tenta resistir à desesperança. Mas não consegue. Já não vai à urna por gosto. Comparece porque a lei o obriga. Se pudesse, iria à praia ou ao shopping.
Você agora já sabe: para que a hipocrisia continue funcionando, alguém precisa exercer o seu papel de otário. Você diz a si mesmo que não é um otário qualquer. Considera-se um otário consciente. Raciocina com os seus botões: os otários são necessários. Dão suporte à democracia. A hipocrisia passou a ser uma forma de patriotismo.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006
A Verdadeira India
Tendo percorrido muitos países, quero voltar a falar um pouco sobre a India.
1. Antes de ir, suspeitava que a India tinha sérios problemas de superpopulação, infraestrutura etc. Mas nada me preparou para o que vi. Em todo lugar, em cada rua, em qualquer direção que olhasse, milhares de mendigos, maltrapilhos, correndo de um lado para o outro, ou simplesmente parados, provendo o nada. Casas, lojas, escritórios e oficinas formam uma continuidade apavorante de escombros, carcomidos pela indiferença. Não há um centro da cidade e uma periferia: é tudo cinza e corroído, desgastado, de algum modo corrompido. Da mesma maneira os bancos, repartições públicas, escolas. Nada se salva na India real, exceto, talvez, as ruínas de civilizações pretéritas, com templos e monumentos que tentam desmentir a realidade com uma suntuosidade ilícita. Nada é moderno, nem clássico, nem ousado nem grandioso; nem mesmo kitsch: tudo é lixo, escombro e degredo, numa escalada insuportável, que cassa a alegria.
2. O homem.
Nada é mais catastrófico, na India, que seu elemento humano. Não estamos falando de pobreza, apenas. Trata-se de um oceano de pessoas uniformemente baixas, e magras. Uma magreza de fome e ausência de proteínas. Pedem esmolas, cobram gorjetas, vendem porcarias, negam o contrato que acabaram de firmar: nenhuma indignidade lhes é estranha. Andam dependuradas em ônibus, ou dentro de carros, riquixás, de bicicleta ou à pé: transformam cada rua num pesadelo, que suplanta e destrói a India das paisagens e monumentos. No fog de Déli, ou qualquer outra cidade, milhões correm fantasmagoricamente atrás de alguma esmola, uma propina. Descrevem um lúgubre espetáculo de fome e miséria, sem apelo. Aos poucos, vê-se que as pessoas formam uma continuidade com as ruínas e escombros; unem-se num lastimável rio de nojo e desespero.
"Esta miséria", pensei, "é tão horrível que sua mera existência e perduração, embora no seio do subcontinente indiano, contamina o passado e o futuro e, de algum modo, compromete os astros. Enquanto perdurar, ninguém no mundo poderá ser valoroso ou feliz".
A paráfrase remete a Borges. Peço perdão por mais esta apropriação indébita.
Gerson Noronha Mota
Chocolates
Isso de chocolate japonês, pode ser perigoso.
Ontem, por exemplo, eu estava degustando um chocolate Meiji (nada a ver com a Restauração Meiji, que sempre associo, sem qualquer embasamento histórico, a uma revolta dos samurais) quando a restauração do meu dente não agüentou e ruiu.
O da frente.
Embargado o sorriso, a proibição de piadinhas, blagues e outras jocosidades não produziu senão sua feroz multiplicação.
E no karaokê que visitamos à noite, o japonês da portaria foi logo cobrando, enquanto batia as mãozinhas: "cadê o sorrizão do papai?"
Felizmente, uma relutante ida ao dentista me trouxe a serenidade que Bilac não teve na velhice.
A barra de Meiji, pela metade, ficou de presente para o Júlio, que presenteou a zeladora do hotel, uma senhora muito distinta e afortunadamente banguela.
Parei com chocolates, por ora.
Tóquio, 2 de fevereiro de 2006.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2006
Tóquio
São os insuspeitados canais, a baía, as ruas.
Tóquio é delicada, triunfante, educada.
Preciso de Tóquio, para minha viagem. Para as memórias e passeios e compras. Ainda não fui ao Palácio Imperial. Não conheço qualquer de seus jardins e já os sei belos e aprazíveis.
Tóquio fica ali, na esquina do coração, pulsando. É reunião pacífica de milhões. Um caos de organização obstinada. Nenhum lixo na rua, nenhum chiclete, nenhum barulho indevido, nenhum mendigo ou criança abandonada.
Se chove, quem não tem guarda-chuva logo arranja um e, feliz, vai visitar essa arquitetura que carece de adjetivos.
Me faz bem, Tóquio. Faz sonhar com um país que, possível, não está disponível para os brasileiros (eis o que é triste).
Gerson Noronha Mota
domingo, 29 de janeiro de 2006
Beijing
Palácio de Verão. As pessoas caminhavam sobre as águas congeladas de seu grande lago, enquanto, ao fundo, o sol fazia o possível para sustentar a definhante autoridade do dia.
Errei por esse palácio, de sólidos riachos e níveas pedras. Talvez ele seja mais amigo no verão. Não acredito que mais belo.
Pequim (Beijing) é cidade de muitos impérios. Está bastante claro que seus construtores ignoravam restrições e estafas. Pareciam devotos da harmonia.
Modernamente brotam torres de aço e concreto, sem qualquer menção à grandiosidade da arquitetura imperial. Hão de encontrar seu lugar, numa cidade já povoada de grandiosidades e delicadezas.
29.01.2006.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2006
China: primeiras impressões
A China é desmedida.
Beijing explode em cada esquina. Tudo é superlativo nesse país-continente.
Suas Muralhas são um desafio para câmeras e músculos. Corcovas de um dragão que, antigo, dorme em cimos fortificados.
A Cidade Proibida, de tão vasta, não se deixa conhecer senão em várias tentativas. Hoje a visitei pela segunda vez, sem a mesma luz favorável da primeira. Presenciei, no zoológico, todas as preguiças de um panda gigante. Por toda a tarde ele bocejava por nós dois.
A China cresce. Depressa e demais. Um brasil fica por aí, meio que não sei.
Os chineses trabalham. Inventam o futuro que melhor lhes quer.
domingo, 22 de janeiro de 2006
Malásia
Kuala Lumpur é grande, movimentada, com autopistas e trânsito que lembram países avançados.
A cidade é dominada pelas Petronas Twin Towers, dois espigões de 452 metros de altura, secundadas por alguns prédios e um alentado parque urbano.
À noite, seu brilho faz das torres um improvável desenho animado, de contornos vivíssimos, surreais. Chega-se a pensar que instalaram neon nos andares mais altos, e um visitante desatento imaginaria que chegou a Gothan City.
Já não são as mais altas do mundo (essa honra cabe à Taipei 101, com mais de 500 metros), mas são as mais impressionante que já avistei.
Os malaios são muitos, como previsto, e não se consegue negar a presença dos chineses. Estou em Chinatown, numa rua que compreende todas as marcas e muitas comidas orientais. Tudo na rua, tudo perfeito para um passeio.
O tempo é de uma quentura sem preguiça.
sexta-feira, 20 de janeiro de 2006
A cerimônia de cremação
Após algum tempo vendo os cadáveres se congratularem na voragem das chamas, ocorreu-me reparar no entorno da morte. Teriam todos eles merecido sua morte? Não haveria, entre tantos que ardiam, um fraudador, alguém que solertemente se introduzira entre os mortos, só para merecer os favores do fogo, que sabia ilícitos?
Jorge Luis Borges nos conta de múltiplos templos de ruínas circulares, em que medra um personagem que era muitos, porém sonhados. Entre tantos elementos, somente o fogo era seu amigo, e o sabia irreal.
Na unânime noite, ninguém viu a canoa de bambu sumindo-se no lodo sagrado, mas em poucos dias ninguém ignorava que o homem taciturno vinha do Sul. Esse homem sabia que sua obrigação imediata era o sonho.
Sonhou uma nuvem de alunos taciturnos, que esgotavam os degraus de um anfiteatro circular: os rostos dos últimos pendiam a muitos séculos de distância e a uma altura estelar, mas eram absolutamente precisos.
Insatisfeito com aceitarem passivamente sua doutrina, o mago diplomou para sempre esse vasto colégio, em prol de um único aluno, mas também este ruiu, como ruem os sonhos excessivamente rebuscados.
Industriado pelo Fogo, que lhe ministrou magias, ele finalmente concebeu o filho. Sonhado em todas suas minúcias e instruído nos ritos, foi enviado rio abaixo, para oficiar em outro templo. Tempos depois, já tendo ouvido falar das artes do filho, nas ruínas de um templo circular a jusante, o mago se viu cingido pelas chamas.
Por um instante, pensou refugiar-se nas águas, mas depois compreendeu que a morte vinha coroar sua velhice e absolvê-lo de seus trabalhos. Caminhou contra as línguas de fogo. Estas não morderam sua carne, estas o acariciaram e o inundaram sem calor e sem combustão. Com alívio, com humilhação, com terror, compreendeu que ele também era uma aparência, que outro o estava sonhando.
Em meio a essa digressão chega, de barco, uma turba, juntamente com a família, conduzindo um sadhu, havido por santo. Do morto, seguramente boa pessoa, bom chefe de família, marido amantíssimo e pai extremoso, nada apurei, porque os da multidão se desmanchavam aos brados de Osho! Osho! Osho!
Ooooooooooosssssssshooooooooooooooooooooooo!!!
Do momento em que aportaram, até a deposição do morto numa confortável e espaçosa pira, bem acima das outras, menos respeitáveis e mais próximas da água desse rio que todas as nações resolveram chamar Ganges e que, na Índia, se chama Ganga, um enorme grito se construía: Osho.
Depois da pausa para breves preces, alguns passes mágicos - que não excluíram algumas voltas ao cadáver - e mais oshos, muitos oshos!
Não passou despercebida uma figura, um tipinho vestindo alaranjado berrante, que gritava, a mais não poder, o nome de seu preferido. Toda vez que sentia um arrefecimento nos ânimos cultuais ele tomava a si a tarefa de informar ao mundo a quem se devia veneração. Não apenas berrava. Erguia as mãozinhas, gesticulava e parecia incorporar o próprio Osho, tamanha a fé, o entusiasmo. Não se contentava em gritar: esmurrava os ouvidos dos pobres turistas. Sustentava o brado saboreando cada silaba de tão propício nome: Osho!!!
A certa altura, vi que a ele se juntara outra pessoa, e ambos seguiam rumo ao nirvana (no caso, conquistado a duras penas e muitos berros). Era um ocidental, segundo me pareceu e, por segundos, divisei o que pensei ser a figura do Júlio.
"Essa não! Júlio, um místico!", pensei. Felizmente, tudo não passou de um golpe de vista desastrado, e o Júlio navegava com segurança rumo a algum passeio turístico. Pelo menos, foi isso que ele me disse, na volta.
Phuket, 20 de janeiro de 2006.
quarta-feira, 18 de janeiro de 2006
O delito
Num acesso - pouco edificante - de insensibilidade ecológica, comprei presas de elefantes no Camboja. Eram duas enormes peças, pesando uns 18 quilos, de um marfim ricamente matizado em tons de amarelo.
Sem me importar com a ameaça de extinção do elefante asiático, e tampouco com a suspeita de ilegalidade da aquisição, comprei-as a módica quantia, e estava feliz com a façanha. Parecia que eu triunfara sobre a fera na indevassável selva cambojana.
Depois desse dia, um sonho, recorrente:
um rio de gárrulos elefantes dava voltas e mais voltas em torno a uma pedra que podia ser os restos de uma estrela, mas também era meu túmulo, e ardia. Eram elefantes negros, ferais e banguelas.
A horrenda ciranda seqüestrava os sonhos, multiplicando recriminações e remorso.
Hoje, no aeroporto de Chiang Mai, oportunos guardas vieram me absolver de meu crime, confiscando as presas, espero que para sempre. O comprovado fato de serem presas falsas não me socorreu, porquanto as feras seguiam crescentemente destroçando minhas noites. Com júbilo, com alívio passei adiante esse pesadelo, e espero que ninguém mais dele se aposse. Com o tempo, possa eu esquecer o delito, e os sonhos retomem seu curso mais pacífico.
Chiang Mai, 16 de janeiro de 2006.
Elefantes
O que os tailandeses chamam fazenda de elefantes é, em verdade, um parque de diversões. Ali, elefantes são treinados para impressionar.
Na chegada, os turistas dão cachos de bananas e canas-de-açúcar cortadas. Eles pegam com a tromba e levam a suas bocarras, com destreza e volúpia. Depois, um banho no rio, e brincadeiras de molhar turistas com jatos d'água.
O futebol de elefantes é hilário e muito instrutivo. Eles são espertos, diretos e, ao contrário dos humanos, não fazem falta. O jogo é jogado; são todos contra todos e não há juiz.
O goleiro é hábil, evita muitos gols, mas os atacantes são aplicados. A certa altura, depois de mais um gol de bola parada, o elefante goleiro (não confundir com um goleiro-elefante) dirigiu-se à torcida pedindo desculpas. Muito natural: é um elefante asiático.
Nesse momento, um dos jogadores (o mesmo que gira sua tromba como um hélice, de forma bem pouco conspícua), aproveitou a contrição para marcar mais um gol. Entrou com bola e tudo. A comemoração foi no estilo americano: espalhafatoso, exagerado, desrespeitoso.
Depois, o mesmo elefante se entregou aos prazeres da pintura. Nao é que o bandido, rei da sem-vergonhice na fazenda, tem estilo impressionista?
De onde eu estava, via-o pontilhar a tela, todo se gostando das zombarias que proferia.
Comprei um quadro, à saida, só para descobrir que fora pintada pelo cara (sua foto acompanha o quadro). Agora, não sei que fazer com a pintura.
As visitas a essas fazendas são divertidíssimas. No dia seguinte, numa outra fazenda, elefantes menos exibicionistas, mas não menos habilidosos, jogavam basquete. Um deles tomava a bola com a tromba, dava uns passinhos de bailarina, na ponta das patas traseiras, um pulinho e... Cesta!
Todas as vezes que arremessou, chuá!, sem aro.
O mesmo paquiderme batia pênaltis com as patas, dianteiras ou traseiras, sempre balançando a rede. Também marcava gols de calcanhar, esse artilheiro desmedido.
Depois, contato com a torcida, de preferência para um suculento cacho de bananas.
Disse, linhas atrás, que esses elefantes são treinados para impressionar. Em verdade, essas adoráveis criaturas demonstram personalidade e inteligência raras, e cabe abolir qualquer treinamento.
PS: o elefante artilheiro/pintor é uma elefanta adolescente.
Phuket, Tailândia, 18 de janeiro de 2006.
Praga, um comentário
Alguns querem ver Paris em Praga; outros, Viena.
Enganam-se.
Praha, com suas mil torres, passeia por muitos estilos, está acima dessas simplificações.
Em Praga Einstein teria se encontrado com Kafka. Einstein formulou a Relatividade Especial em 1905, no casa dos vinte anos, e a Relatividade Geral em 1915, dentro, portanto, da temporada passada nessa cidade, entre 1911 e 1912. Praga também abrigou Mendel, o obeso monge que cultivava ervilhas e morreu sem ver-lhe reconhecida a paternidade de uma abordagem estatística da hereditariedade que depois veio a dar na genética. A cidade viu florescer o gênio de Tycho Brahe, bem antes, numa sólida demonstração de tradição cultural.
Quer a tradição turística que Einstein juntava-se a Kafka num café no centro dessa cidade, na época mais fecunda do escritor tcheco, de A Colonia Penal, O Castelo, e O Processo, entre outros delírios severos.
A Relatividade, com sua descrição essencialmente geométrica do universo, postula que a gravidade é uma deformação no tecido espacial causada pela presença de corpos maciços. Previa que a luz vinda de estrelas atrás do sol, por exemplo, seria empenada nas bordas do mesmo e chegaria à Terra - consta que essa previsão foi confirmada, em Sobral, num eclipse solar em 1918 -.
Assumia que a luz tem peso e não caminha em linha reta.
Desnecessário perquirirmos se a teoria está certa. Newton, com seu sistema mecânico quase perfeito, descreve o mundo com precisão de uma parte por mil. A Relatividade é precisa em uma parte por milhão, e a Mecânica Quântica, grosso modo, faz previsões válidas em uma parte por bilhão de unidades. O problema é que, virtualmente, nenhum postulado quântico faz sentido. Todos parecem ter sido inventados por um ficcionista licencioso e demasiado imodesto.
Kafka postula mundos insuportáveis, em que as pessoas são peças de uma burocracia total, sórdida e assassina. Os personagens, agindo com estranha naturalidade, prodigalizam torturas uns aos outros, tudo à sombra de uma autoridade invisível, intolerável e malvada.
Josef K., executado sem ter acesso ao processo, nem saber qual teria sido o delito ou a acusação, é móvel da mais devastadora acusação contra o gênero humano (Machado de Assis também o faz, sem a mesma monumentalidade, quando retrata a escravidão).
A mim, o cerne dessa culpa foi formulado por Anna Arendt: a banalidade do mal.
Pouco importaria Josef K., ou Samsa, ou outro torturado personagem do brutal mundo de Kafka. Pouco importaria seu sofrimento, não fosse o ruinoso incômodo de nos identificarmos com esses fiapos humanos.
O pobre ratinho, apaixonado pela diva ratazana, também a denuncia como uma lamentável fraude musical, e por isso sofre, e com ele sofremos.
São muitas as aflições em Kafka, uma escrita poderosa, de precisão e impiedade militares. Às vezes penso esquecê-lo (mas não o Khmer Vermelho). Quem sabe consiga, e os sonhos voltem a ser só sonhos.
terça-feira, 17 de janeiro de 2006
Tailândia
A Tailândia desconcerta.
Imaginem que um insensato demiurgo resolveu instalar o rio Paraguai bem no meio da cidade de São Paulo, com direito a exuberantes camalotes migrando através de suas águas, verdes. Imaginem esguias pontes cruzando esse rio; palácios e templos dourados crivando suas margens.
Imaginem um povo em grande cópia e contínua ebulição, numa cidade do tamanho do Rio. Agora, adicionem coleantes canais visitando bairros e freguesias, numa versão esmeralda e tropical de Veneza.
Acrescentem prédios modernos, com capitólios encimando soberbos pagodes, e shopping centers enfileirados um após outro, em louca repetição do apelo consumista, tudo coroado por um calor senegalês: não por nada esse delírio se chama Bangkok.
É uma alegria estar aqui.
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