quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

Paris

O jardim do Louvre, o obelisco, a igreja de Santa Madalena se encontram num mesmo lugar, vigiados pela Torre Eiffel. O Egito exige a devolução da estela sobre o obelisco, com seus mais de 4.000 anos, trocada por um relógio. A França resiste: "diabos, se eles queriam tanto o reloginho, que fiquem com ele!".

Moça vietnamita

Carcassone

Pont du Gard

Aí está, a ponte, a tarde, a saudade.

Fim de férias

Agora sim, fim de férias. Como de costume, arrematei todos os jornais e revistas que consegui trazer, para uma ambientação desse problema sempre adiado chamado Brasil. Mesmo pesquisando o miolo das reportagens, lá pela página 46 do caderno f, não há novidade, como todos suspeitavam. A dengue, que queima, as estradas, que ruem: a chuva. Os escândalos, a repovoação do estado, a inapetência geral: nada incomoda esse brasileiro, que espera o carnaval, copas, eleições; ganhar na loteria. O costureiro passa cantadas no recinto da Câmara; Bush pede 620 bilhões para suas guerrinhas; o premiê canadense diz que aquecimento global é coisa de socialista aloprado (eu sempre soube que era coisa de comunista). Espere um pouco leitor, que vou até minha sacada acender uma fogueirinha (vou dar uma utilidade a meus escritos). As revistas informam a volta de Collor e Letícia. Prefiro a de Letícia. O pior lugar-comum de quem volta de uma viagem, o mais imperdoável, é dizer que voltou com a cabeça mudada. Voltei com a cabeça mudada. O inferno são os outros.

domingo, 4 de fevereiro de 2007

Sarcasmo e literatura

Jonathan Swift, em A Tale of a Tub, escreveu que determinadas peles de arminho e uma peruca, colocadas de certo modo, formam o que costumamos chamar de juiz, assim como uma justa combinação de cetim e cambraia chama-se bispo.

Essas definições, risonhas, atendem aos requisitos de simplicidade, graça e economia. Swift era padre anglicano, foi secretário pessoal de primeiro-ministro, amigo de políticos e juízes. O fato não impediu essas louvaminhas. Impaciente da morte, o irlandês Swift esperou-a durante trinta anos de sofrimento físico e mental. Quando morreu, exibia venerável loucura. Os amigos, alvos dos elogios, lembraram que essa qualidade sempre o honrou.

Mais que um singelo exercício da injúria, A História de um Tonel é uma brilhante demonstração de força do escárnio. Borges, gênio argentino, não ignorava a arte da mais fina, às vezes devastadora ironia. Descria da democracia, “esse curioso abuso da estatística”, mas lutou e sofreu pela liberdade de consciência, pelo direito de se opor a tiranias. Apresentou-nos esta página, feliz, em que descreve uma sociedade futura, borgesiana:

- O que aconteceu com os governos?
- Segundo a tradição, foram caindo gradualmente em desuso. Convocavam eleições, declaravam guerras, impunham taxas, confiscavam fortunas, ordenavam detenções e pretendiam impor a censura e ninguém no planeta as acatava. A imprensa deixou de publicar suas colaborações e suas efígies. Os políticos tiveram de procurar ofícios honestos; alguns foram bons cômicos ou bons curandeiros. A realidade, sem dúvida, deve ser sido mais complexa que este resumo. 

Sua crítica a Hitler, e ao nazismo de seus contemporâneos, feita em 1940, ainda será leitura obrigatória quando meus genes estiverem dissolvidos na anarquia dos tempos. Sua coragem e previdência, sua disposição de nomear os bois assassinos, de não tergiversar, deixa-nos, brasileiros, constrangidos com o conforto ilícito dos escritores pátrios, sempre com desculpas perfeitas para não chegar a marreta nos crimes nossos de cada dia. Machado e Guimarães Rosa são gênios consumados. 

Mas me pergunto se, em algum momento, eles se preocuparam em aumentar nossa consciência social. Em Machado é possível encontrar finíssimas ironias contra o cinismo de nossa sociedade. Você só precisa ser sábio e erudito para achá-las. Quantos leitores as alcançam? Borges, intrépido – gênio – denunciou o argentino, em quem via um individualismo pouco edificante, denunciou o nazismo (eco tardio das iras de Carlyle e da improbidade de Fichte), o comunismo, a psicanálise e as feiúras pós-modernas.

Ganhou todas essas batalhas, foi senhor de uma literatura, mais do que de uma obra; não há uma única página sua que não encerre uma felicidade, como afirmou a respeito de De Quincey. A ninguém devo tantas horas de felicidade pessoal como a Borges, para tomar de empréstimo outra de suas frases luminosas.

Machado é todo um continente de ceticismo, mas, ao contrário de Borges, não ignorou o exercício da aristocracia; também desdenhou a República e, mulato, pode ser acusado de inalcançáveis ironias a respeito da exploração do homem pelo homem. A descrição do escravo recém-liberto que compra um escravo para nele fazer montaria abunda em acusações contra o gênero humano. E revela o gênio por trás da equívoca pose aristocrática. Apraz-me a crítica, seja irônica, seja sarcástica.

Gógol nos concede o riso, embora Almas Mortas seja um livro profundo, que não consente epílogo: continua funcionando em nós, silencioso; perdura em nossas mentes enquanto a morte não nos absolver de nossas escravidões. Vejamos a Rússia, suas ênfases: 
- É claro, ninguém é perfeito, mas, em compensação, o governador, que ótima pessoa!
- É o primeiro bandido do mundo!
- Como assim, o governador, um bandido? – disse Tchítchicov, sem conseguir compreender como o governador fora parar na categoria dos bandidos.
- A cara dele também é de bandido! É só pôr-lhe na mão uma faca e soltá-lo na estrada – vai esfaquear o primeiro que encontrar, por causa de um copeque! 
Louvando a arte da conversação, pródiga em momices, diz:
Discutia-se, gritava-se, falava-se de tudo: de política, até de assuntos militares; alguns externavam opiniões liberais, pelas quais em outra ocasião teriam surrado os próprios filhos. (p. 179).
Borges lançou algumas das maiores mordácias contra sociedades secretas. A nomeação para o cargo de inspetor de aves e coelhos teve seu efeito, mas não o aniquilou; não sofreu qualquer acidente nem foi calado à força de suborno. Outras intimidações não funcionaram. Nenhuma prostituta o fisgou; sua vida era um inferno administrável, a nos fiarmos em notas autobiográficas. Perón, seu versátil antagonista, só entrará na eternidade por ter tentado intimidar o gênio de Tlön e da Biblioteca de Babel. À semelhança do cão que morde o dono.

Ele ataca a Fênix, seita que é muitas, senão todas:
Disse que a história da seita não registra perseguições. Isso é verdade, mas como não há grupo humano em que não figurem partidários da Fênix, também é certo que não há perseguição ou rigor que estes não hajam padecido ou exercido. (...) A iniciação no mistério é tarefa dos indivíduos mais desprezíveis. Um escravo, um leproso ou um mendigo servem de mistagogos. (...) O segredo é sagrado mas não deixa de ser um pouco ridículo; seu exercício é furtivo e ainda clandestino e os adeptos não falam dele. Não há palavras decentes para denominá-lo, mas se entende que todas as palavras o denominam, ou antes, que inevitavelmente o aludem. (...) Tenho merecido em três continentes a amizade de muitos devotos da Fênix; consta-me que o Segredo, a princípio, pareceu-lhes frívolo, penoso, vulgar e (o que é mais estranho) inacreditável. Não concordavam em admitir que seus pais se houvessem rebaixado a tais práticas. O estranho é que o Segredo não se tenha perdido, há muito; a despeito das vicissitudes do orbe, a despeito das guerras e dos êxodos, chega, surpreendentemente, a todos os fiéis. 
Essas páginas, esses autores, sempre me arrasam e, de algum modo, me fazem muito bem.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

Vivências

Sabe lá o que é cruzar a Europa de trem-bala, o janelão escancarado para campos e cidadezinhas – ocasionalmente obliterado pelo relâmpago de um trem no sentido oposto – escutando Madredeus, Marcelo Loureiro, Janis Joplin? Tem coisa que não adianta relatar.
No ipod, o Midnight Oil perguntava: Country Why? enquanto adentrávamos a Gare du Nord.
São Paulo chamava. Eu queria ir.
Tem que vivenciar.

Em casa & Holanda

Em casa!
Adorável casa de um só e pouco habitante. Resumi a Holanda, mais ou menos assim:
"Como se sabe, a Holanda é obra de ciclistas fundamentalistas, aborrecidos com montanhas e outras fraudes encontradiças em países menos planejados. Suas ladeiras, que marcham desde diques, não ultrapassam o metro de desnível. Nada que não possa ser vencido com uma pedaladinha. Essa planura, de inalterável perfeição, foi conquistada à força de enganar os oceanos, que gostavam daqueles mesmos lugares onde pastavam cavalos marinhos e ora festejam bicicletas e vacas leiteiras. Caminhei por essas temeridades chamadas pôlderes – terras subliminares – como o discípulo sobre o mar: lívido ante o milagre de colheitas em campos de caprichosa geometria. Hidrovias ao redor de cada cultivo, por pequeno, para que patos selvagens, cisnes e outros jantares possam viajar com conforto. Num cruzamento dessas hidrovias julguei ver, de relance, um semáforo em funcionamento e uma família de patos esperando sua vez, enquanto os cisnes obedeciam, ordeiros, o sinal verde, mas o leitor deve considerar o vinho e a pressa do trem. O mar às vezes reclama seus antigos domínios. Na década de 1930 a nação descobriu, numa dessas justas, que milhares de holandeses haviam fugido às aulas de natação. Mesmo o mar interior formado pelo imenso dique concluído naquela mesma década foi reformado, e hoje é conformado lago, de águas doces. Amsterdã é uma prova de que a arquitetura não precisa ser banal certeza ou interminável imitação. Espalhando-se desde a estação central progridem losangos plenos de prédios e casarões, cada qual mais decoroso, todos de grande valor artístico e histórico. Em meio a eles, inúmeros canais, freqüentados por barquinhos. Bondes deslizam em quase todas as ruas, com os mesmos direitos e deveres dos carros. Ciclistas pontificam em todas as ruas, e não é raro que uma seja bonita. Uma bicicleta, que me acossava do fundo das eras, foi livrada no momento final, e pude atinar com a salvação da calçada.
As cidades européias abundam em igrejas, algumas tomadas do Islã, a maioria de uma suntuosidade incompatível com as doutrinas cristãs. Com Amsterdã ocorre o contrário, quase não as há. Não poderia mesmo ser diferente, na capital do ateísmo.
Consta que Schiller resumiu a Guerra dos Trinta Anos em um parágrafo. Concluo a Holanda – obra de milênios, a quem dediquei escassos dias – em alguns curtos parágrafos e umas fotos.
Não deixaram Schiller resumir a Guerra dos Cem Anos. Não vou me alongar sobre uma Holanda que o leitor deve descobrir por si mesmo.
Gare du Nord, Paris, 23 de janeiro de 2007."

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

Red Light

O bairro da luz vermelha desta cidade é pitoresco.
Turístico, "bem freqüentado", expõe moças em janelas, a maioria emoldurada com neon. Algumas chamam a atenção, não seriam de se jogar fora.
A maioria passou do peso, para uma exibição de corpo inteiro, e não cativa o olhar dos turistas. Muitas casas anunciam shows de sexo explícito. Meu voyerismo não chega a tanto.
As ruas são apinhadas de gente, meros curiosos. Os compradores das mercadorias estão lá, certamente, ou o aluguel das vitrinas não seria pago.
Há semelhanças e diferenças com o bairro congênere de Bangcoc. E com a rua Augusta de cada cidade brasileira, menos a proteção da polícia.

Notas

1. Viagem a Paris.
Três jatos apostando corrida sobre as montanhas nevadas do Irã, ao pôr-do-sol.
Eu estava no mais lento, e pude acenar para meus companheiros de jornada, sem obter resposta. Fotografei essa pressa.
2. A Tailândia.
Destino preferido de jovens europeus, o país oferece diversão, enquanto busca o desenvolvimento.
Nas calçadas, artigos de todas as grifes, imitações com graus variados de êxito. As comidas são feitas e apreciadas ali mesmo.
Com outro nome, vende-se a fruta-pão, que provei, em outro lugar (Bali, se não me engano).
Num passeio, um sistema de som expelia uma música tóxica, de louvores ao rei. Estilo norte-americano, década de 1950 ou 60.
Filmes promovem o rei, que tem efígies por todo lado, à Sadam Hussein. Também notei que seus óculos decoram as notas da moeda nacional, o Bath. Todas elas.
Nascido e criado nos Estados Unidos, onde cursou renomada universidade, o rei se esforça por não parecer ridículo.
Mas é. Todo rei ou rainha é.

Van Gogh

Alguns dizem que, em sua breve vida, Van Gogh não vendeu um único quadro. Outros, que teria vendido um. Afirmam, ainda, que um de seus quadros teria decorado um galinheiro.
Um quadro do mesmo pintor, hoje, custaria inimaginável cifra, caso alguém aceitasse vender.
Inúmeros artistas que participam da eternidade morreram sem o menor reconhecimento, a exemplo de Kafka. Ele cuidou que sua obra não lhe sobrevivesse, mas foi traído pelo amigo Max Brod, encarregado de entregá-la ao fogo. Borges observou, sagazmente, que o amigo apenas atendeu a intenção mais secreta do autor.
Harry Potter parece querer esgotar o estoque mundial de páginas em branco.
Esses fatos, creio, ilustram o aspecto aberrante de certas unanimidades.
Arles, 17.01.2007.

Volendam & Marken

Chego de um tour por essas cidadezinhas graciosas da Holanda.
Primeira parada, fábrica de sapatos típicos, de madeira. Um cidadão pegava gritos no recinto, num idioma que tem de ser holandês, porque não entendi nada. O amável gritão prosseguiu em outros idiomas, enquanto eu registrava a fabricação desses sapatos, de questionável índice de conforto.
O Júlio confiou-me a tarefa de degustar um bacalhau fresco em Volendã. Ele disse que tinha sido o melhor que já provara.
Fui direto ao restaurante indicado, e pedi logo o prato sonhado todos esses dias.
Junto com o chope artesanal, o kabeljauw provocou maravilhas. Estava perturbadoramente delicioso. Eu poderia acrescentar alguns elogios, mas não creio que seja necessário.
A loirona holandesa apresentou-me uma conta, que tive de rejeitar, por ridícula. Pedi o apoio de copos do restaurante, moda inaugurada pelo mesmo Júlio, em Praga.
Merkem é cidadezinha das mais pitorescas. Fotografei sem parar, embora o guia estivesse em ritmo de maratona. Os espanhóis mencionaram "conhecer a América em um dia", com aquele ritmo.
Na volta, piadas, espanholas e holandesas.

domingo, 21 de janeiro de 2007

A Pont du Gard

Eu mato, eu mato,
quem roubou minha cueca
pra fazer pano de prato...
bis.
Escrevi, dias atrás:
"Deixo a Provença em direcão a Carcassone. Ontem, a Pont du Gard. Esse guarda era mesmo cheio das "influências": tinha uma ponte e um castelo só pra si...
A Pont é parte de um aqueduto de 50 quilômetros de extensão, construído pelos romanos, há uns dois mil anos. O ribeirão Gauche, perto de Nîmes, lhe serve de cenário mais propício.
Quando cheguei o sol de inverno deitava luz imemorial e atravessei, desprevenido, os pórticos desse conduto aparelhado pelos séculos, talvez excessivos.
Do outro lado ouvi o diálogo e entendi as silenciosas urgências do sol. Os pórticos projetavam-se altaneiros sobre um riacho esmeralda, e o conjunto, inteiramente vitorioso, recebia generosas pinceladas de ouro.
Tanta beleza, concentrada num fim de tarde, era demasiado, e tive raiva de tantas tardes, pretéritas e futuras, em que não estive/estarei aqui.
Nîmes, 18.01.2007."

Amsterdã: a noite, o vinho, os queijos

O vinho branco desceu muito bem. Junto com os queijos, de clara inspiração francesa, foi uma experiência.
Eu concluíra que vinho branco bom não existe. O vinho desta noite provou que eu estava errado.
Comprado por cinco ou seis euros, o vinho desceu magnificando as papilas. Por pouco não fecho a garrafa e o levo para o Brasil.
Os queijos também contribuíram, numa noite de inverno despretensiosa e festiva.

Amsterdã

Dia pleno.
Primeiro, o museu nacional, de nome difícil. Muitos Rembrandts, dois deles colossais. Obras maravilhosas, de uma luminosidade inacreditável.
Depois, o museu Van Gogh. O pintor viveu em Arles e Saint Remy, na provença, além de Paris. Seus quadros são de uma beleza inaugural. Os Girassóis e A Colheita não são menos que perfeitos.
As pinceladas vigorosas, as cores incendiárias causam genuíno transporte de prazer. Gênio consumado, Van Gogh teve uma vida atormentada. Era sustentado pelo dedicado irmão, que morreu meses após o pintor e foi enterrado ao seu lado.
Seus quadros não faziam sucesso (nunca vendeu um único, segundo alguns) e, anos depois, um diretor de museu foi demitido, na Alemanha, por expôr a obra do artista, entre outros impressionistas.
Depois, a casa em que se escondia Anne Frank, que terminou assassinada pelos nazistas.
Após, fui à exposição Bodies. Trata-se de uma mostra do interior de corpos humanos, usando uma nova técnica de conservação de tecidos. Parece que minha visita coincidiu com a de todos os alunos de medicina da Europa: eles se plantavam em frente aos corpos, mesmerizados, insensíveis aos turistas (que também haviam comprado ingressos).
Fiquei estomagado, como diria um português. Apesar dos avisos de não toque, a multidão só faltou comê-los.
O ter ficado estomagado não me impediu de entrar no primeiro bom restaurante que encontrei no caminho, por acaso um uruguaio, que serve um suculento bife de chourizo.
Agora, penso que uns queijos vão bem, junto com o vinho branco que trouxe da Franca, para enfrentar esse inverno holandês...