domingo, 30 de janeiro de 2005

Uluru

Caminhar em torno a esse maciço rochoso compensa qualquer sacrifício da viagem (aí incluídos vôos pela Virgin e ônibus quebrado no meio do deserto). Circundam-se 6 km de surpresas ininterruptas. Borges registrou, sobre uma caminhada igualmente heróica: “em vão esgotei meus passos; o negro embasamento não registrava a menor irregularidade, os muros invariáveis não pareciam consentir uma única porta.” Certas coisas, como a laje em forma de onda, as várias cavernas e saliências, e os indefectíveis paredões com 200, 250 metros de altura calaram-me, despertando a fúria fotográfica. São grandiosos os dispêndios da natureza. Subi a uma pedra para uma foto. Parecia a mais simpática e foi a primeira a me derrubar. A certa altura, parece que o paredão foi penteado por um cabeleireiro delirante. Próximo a esse monólito, outro tumulto lítico: Kata Tjuta. São rochas dispostas como um bolo não isento de loucura, vasto, obrigando a vista a contorcionismos verticais. Fatigamos suas veredas, e soubemos da intenção desse aparelho. "É impossível existir pedras tão soberbas", pensei. Olhei para os fios de água enferrujada dessas profundas redes de pedra e corrigi: "não só existem como dispensam almas líquidas". De Uluru (Ayers Rock) segue-se até Little Puta Puta. Perdão, mas é isso mesmo. Pouco mais à frente, a própria, a virtuosa Puta Puta. Um nome que, não fossem outras objeções, ainda teria contra si um pleonasmo. Mesmo isso é ninharia, perto do nome de um local sagrado encravado em Uluru: Mala Puta. Como foi que eles chegaram a um nome desses, nem o bom Deus sabe. Conheci, ainda, um interessante local chamado Putaruru, numa região, já viram, de nomes realmente originais. No Red Centre, as pessoas falam como texanos, com voz largadona e tirando a Pato Donald (uma americana, do estado de Washington, com quem repercuti essa impressão, limitou-se a exclamar, apiedada: so funny!). Os cabelos devem ser conservados rigorosamente desgrenhados; a roupa, amassada (estilo guardei numa garrafa), a camisa precisa estar aberta e os cadarços, soltos. A barba, sempre por fazer, e garrafas d’água na cintura, à guisa de revólveres. Não tive problemas para incorporar o figurino, menos a fala, é claro (conservo a fala campo-grandense, com portas e corguinhos rascantes). O aspecto geral, tipo “que me leve o diabo” é assimilado com grande facilidade pelos mochileiros, que já chegam aclimatados, de tão previdentes. Chapéus são bem vindos. Se você não tem um, bem, você vai precisar de um. Alice Springs, dezembro de 2004.

Rangi

Tomei um ônibus que se dizia magic mas era apenas um ônibus, se bem que animado. Seu motorista (lembro que costumava se chamar Rangi) era um maóri entrado em carnes. Bastará dizer que sua silhueta sugeria que ele fora botado por uma ave gigante e malvada? Rangi era igual de frente, lado ou costas: a mesma linha suavemente inclinada, ganhando proporções épicas no centro. Mas Rangi é gente boa, com toda certeza. Guiou-nos por toda a ilha norte da Nova Zelândia, com grandes proveitos. Primeira parada, a caverna. Em Waitomo estão estacionadas cavernas com vermes que brilham no escuro. Você forma um trenzinho com os companheiros de passeio, cada qual sobre uma bóia (uma câmara de pneu de carro, normalmente. Alguns precisaram de uma de trator, mas isso é irrelevante para a economia geral da composição). O vagão que ia à minha frente era uma linda francesa. Que me lembre, foi a primeira francesa a me agarrar (quem vai à frente agarra firmemente as pernas de quem vai atrás). Não quero lembrar da inglesa que ia às minhas costas. Pois esse animado trenzinho (num sentido alheio a toda fraude) segue flutuando sobre um rio subterrâneo de águas poucas, turvas e geladas. Cada vagão se desloca vagarosamente sob um céu de estrelas verminosas. São grandes constelações em cada salão, até chegarmos à cachoeira. Lá, cada vagão despenha sobre a água escura, de costas, sobre seu flutuador, com grande estrondo e formação de ondas no escasso rio (alguns formaram verdadeiros vagalhões, privando brevemente de água o rio). Terminada essa etapa, de novo juntam-se os vagões, para margear por paredes de argila e pedra, navegando águas pouco esclarecidas. Ao término, uma cratera invertida, no teto, e uma escadaria. Perfurada por raios de sol sob intensa neblina, essa escada compõe um retrato de poesia concreta. Nenhuma câmera fotográfica profanou essa magia, que permanecerá na memória, fomentando o trabalho onírico. Rotorua. “Mas meu Deus do céu! Acaso agora é proibido respirar?”, foi a exclamação de uma inglesa ao chegarmos a Rotorua. O leitor não deve se preocupar em demasia em identificar quando chegou a essa cidade. Deixe-se guiar pelo faro. Sabem aquele forte cheiro dos mangues? Multiplique por dez e espalhe por toda uma cidade: é assim Rotorua. “Cagaram no mundo?”, indagou um japonês, indelicado (não entendo uma palavra de japonês, mas foi isso mesmo que ele disse, tenho certeza). Mais ao sul, Rangi gastou um tempão explicando a próxima paisagem, uma garganta com um rio ao fundo, que se resolvem em uns cento e vinte metros. Todos os motoristas de ônibus da Nova Zelândia e Austrália se pretendem comunicadores (e alguns o são); gastam horas explicando tudo, mesmo que a platéia tenha se evadido pelas ruas do sono. Rangi enfatizou que a próxima paisagem, à esquerda, seria uma profunda escavação do rio. Com esse lado do ônibus bloqueado por uma parede de curiosos, pensei rápido e concluí que à direita haveria paisagem semelhante, já que entráramos numa ponte. Numa fração de segundos virei a cabeça, a tempo de ver uma enorme placa, cobrindo todo o horizonte, onde quase se podia ler: “a paisagem é à esquerda, otário!”. Essas algumas das aventuras na ilha norte da Nova Zelândia. No dia 30 de dezembro aportei à ilha sul, para novas aventuras.

O idioma

Grandes são as alegrias de aprender outro idioma. Por algum motivo, que ora me foge, não as experimentei ainda, de sorte que fui descobrindo aos poucos que o inglês não é exatamente uma província do português. Imagine o leitor que eu só conseguia pronunciar confiavelmente os números até doze. Isso mesmo, só até doze. Ten, por exemplo, considero um número bom e cristalino: ten. Enough. Já o nine, o seven e o eleven, todos eles fáceis e plenos de méritos, são números de ampla aceitação. Até o 5, a única dificuldade é o 3. Quantas vezes o confundi com o 2, e vice-versa... Por algum motivo, as pessoas insistiam no 3, eu no 2. Em minha simplicidade, pensei um mundo em que não precisássemos de números maiores que 12. Ora, se adicionarmos o segmento negativo da escala (-1, -2 ...) e o zero, que é zero em qualquer idioma que se preze, teremos aí garbosos 25 números! Sabe-se lá quantos quatrilhões de combinações são possíveis com 25 números? Well, eu estava errado. E acabei descobrindo o número 20. Gente, twenty é demais. Quando o descobri, parecia que todas as portas de um ilimitado mundo se abriam. Se me perguntassem quantos filhos tenho, quantos dias ia viajar, quantas línguas falo, quantos dedos tenho em cada mão (uma das perguntas prediletas dos agentes de imigração), a resposta seria mesma e única: twenty, cheia de orgulho. Infelizmente, entre o 12 e o 20, temos as atrozes fraudes do 13, 14, etc. Tive muitos problemas com o 13, um número feroz, como se sabe. Toda vez que o pronunciava, as pessoas ouviam 30, e vice-versa, gerando não pouca confusão. Desafortunadamente, reservei 13 dias na Nova Zelândia, e logo todos passaram a me considerar um vadio: 27 dias na Austrália, 30 na Nova Zelândia e 12 no Chile... Mudei minha passagem, para ficar apenas 12 dias na Nova Zelândia, resolvendo de uma vez o problema e calando os críticos (existia um outra saída: uma consulta ao dicionário. Não sei se funcionaria. Há qualquer coisa de irrevogável na transmutação das cifras; seja como for, não fatiguei meu modesto dicionário). 12 dias na Nova Zelândia e 12 no Chile são a justa medida, qualquer um sabe disso.

Fim da aventura

Cheguei ontem a São Paulo, pondo fim à aventura. Quando se está indo, é maravilhoso; você quer conhecer, olhar, lançar-se. Quando está de volta, também é maravilhoso: as pessoas, os reencontros, a cultura tão familiar, o país (há um país?). Nas minhas viagens, ida e volta são igualmente deliciosas. Quando cheguei a Sydney, uma moça brasileira resumiu bem a situação, à porta da rua do aeroporto: "Agora é se jogar no mundo". Eu me joguei, e não me arrependi. São Paulo está do jeito que a deixei: caótica, indomável, cheia de medos, mas também de jardins, liberdades e paraísos. Não sei o que fazer com São Paulo. Hoje dou umas voltas por essa cidade, mato a saudade da comida brasileira e retorno à noite para minha cidade. Espero encontrar tudo no lugar. São Paulo, 19 de janeiro de 2005 P.S.: fui a uma churrascaria, cujo nome não revelo, mas fica na Rebouças. Em busca da pura carne vermelha e fresquinha, só servida no Brasil, assediei os garçons. A picanha, a ponta de costela, a própria costela estavam além de minha capacidade de exposição. Depois, descendo alguns metros e entrando na Oscar Freire, chega-se à Hägen Daazs. Não é honesto relatar todos os crimes que cumpri nessa sorveteria. Certa ocasião, paguei um táxi de Congonhas até a Oscar Freire, só por causa do chocolate belga. O taxista, indignado, quase me expulsou do táxi, mas por fim se resignou. Depois, comprei a playboy do mês, talvez com a Luma. As fotos foram tiradas no Hotel Sun City, África do Sul, e me pareceu necessário matar as saudades daquele hotel. A decoração está deslumbrante, tal como a deixei. De muito bom gosto. Li (é claro que li), a reportagem. 2º P.S.: Logo depois do Natal, ocorreu uma tragédia na Indonésia, Tailândia, India e outros países. Devido a informação desencontrada, essa notícia ocasionou um incontrolável surto de euforia no Tribunal. Sem informação, meus colegas pensaram que eu estava num desses países. Pelos corredores podia-se ouvir uma prece: "Oh Deus, não permita que seja só o Gerson..." Muito anjo, a Rosanna foi a primeira a soltar a bomba: "Gente, ele está vivo. Escreveu hoje no blog..." Rosanna! Você se dá conta que estragou o fim de ano dos colegas? Francamente...

Chegada à Austrália

Após um vôo de vinte e tantas horas, com escalas em Santiago e Auckland, chega-se a Sydney. Um Jumbo nos acompanhou na aproximação final, pousando simultaneamente, quase ao nosso lado, numa pista paralela. Um 747 voando a alguns metros de sua janela, em atitude de pouso, é algo grandioso e perturbador. Ao fundo, a ponte que reivindica Sydney e a Austrália. Um Boeing 777 da Royal Brunei novinho em folha ajudou a compor o quadro. A primeira impressão, na saída do aeroporto: o calor, as moscas e o aspecto geral de país desenvolvido. No caminho para o hostel, em companhia de moças alemãs, a impressão se acentuou. No albergue, várias pessoas simpáticas, mas nenhuma amizade (é preciso mais investimento, concluí). De certa forma, Sydney realiza o que outras cidades apenas sonham. Parques por toda parte; a arquitetura pode não ser original, mas tem sempre algo que agrada. A Casa da Ópera talvez seja a obra mais importante da arquitetura do século 20, me disseram, e estou propenso a acreditar. O formato, em conchas, o tratamento genial dado às formas, seus detalhes generosos: como invejo um gênio que se realiza. Atravessar à pé a ponte foi como inserir-se numa fotografia dos anos 30. Suas colunas, negras, evocam catedrais esguias. Na luz esbatida do sol em retirada, conta-nos o metal uma história de desafio e glória. Tendo o sol deslizado em busca da América, me ponho à espera da noite. Ela pode ser fria em Sydney. Sydney, dezembro de 2004 II. Chegada ao outback. Vocês pensaram que as moscas eram assunto superado, não é mesmo? Pois elas estão aqui. Todas elas. E não adianta abanar. Se elas gostarem de você (elas vão gostar), abanar poderia magoá-las. Deixa que fiquem. São de um tipo pequeno, bem pequenininho, e tenazes. Hoje, ao amanhecer, subi a uma colina de onde se avista Alice Springs. É uma pequena coleção de prédios pequenos, acossada por morros de pedra ocre. Tomamos café e partimos para o deserto. No caminho, paramos para catar lenha para o jantar (na Austrália, é normal). Depois paramos, por quebra do ônibus. Foi estranho ter de esperar no meio do deserto, por muitas horas, sem que nada fosse feito. Nesse tempo, conversei com uma americana e duas alemãs (que pensei fossem irmãs). Yvonne é uma doce criatura. No sorriso, a chave da candura. Esses imprevistos é que nos dão lucro. Alice Springs, dezembro de 2004.

O quarto de albergue

O quarto de albergue. Abro a porta e ligo a luz. Deparo com fileiras intermináveis de camas que, a meus olhos cansados, pareciam infinitas em todas as direções. Em vão esgotei meus passos em busca de um lugar onde não houvesse camas e sua mobília humana. Sendo beliches de vários níveis, a impressão era a do interminável, do excessivo. Imaginei a dificuldade de adormecer em semelhante escaninho, mas o paradoxal é que, mal me deitei, aderi à primeira corrente de sonho que passou por aquela região do quarto. Num quarto de tamanhas proporções, diversas correntes de sonhos varrem o espaço, e você só precisa se deixar levar por um desses bondes oníricos (em verdade, o difícil é não ser arrastado por eles). Participei de vários sonhos coletivos, ou talvez um único, que passou em muitos países; falou muitas línguas, inventou muitos sentimentos e visitou todas as impressões. Estive também em sonhos alternativos, desgarrados das correntes principais e, como os demais, também ronquei e praguejei; também aceitei e neguei Jesus (três vezes, como nos ensinou o apóstolo Pedro) e também vi minha mãe. Os sonhos de predominância chinesa não me agradaram; os de tendência dinamarquesa me pareceram desnecessários. Ao acordar, em alguma cidade da Oceania, tudo desmentia a noite: o sol, a canção, o café e o ônibus à porta, o motorista bufando de raiva. Janeiro de 2005.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2005

Desfazendo as malas

Cheguei ao lar. Tudo na mais perfeita ordem, e agora tomo posse de uma nova paz. Depois de 53 dias, gente, é demais. Não fossem outras coisas, tem um teclado com acentos, cedilhas e caracteres em ordem, não numa cascata arbitrária e caótica, como nos cyber-cafés da vida. Uma coisa totalmente nova para mim. À medida que as malas vão sendo desfeitas, contam histórias, coisas que passaram despercebidas; revelam cicatrizes insuspeitadas. Decobri água recolhida nas montanhas geladas de Torres del Paine em meu cantil de alumínio, e agora vou bebê-la com volúpia redobrada. Bom, faz-se tarde. Dirijo-me para as ruas do sono (que devem estar caóticas).

sexta-feira, 14 de janeiro de 2005

Torres del Paine

Chego agora de Torres. Depois de duas horas e meia de onibus, chega-se à entrada do parque nacional. Daí, um transporte até uma hosteria. Essa é a parte fácil. Daí, à pé, montanha acima. A estrada começa com uma ponte dançante, que logo te sugere a encosta. Começamos a subir, eu e uma bonita americana, desafiando um vento fortíssimo, sem igual. Ela, que vinha de três dias nos andes peruanos e tem experiência em montanhismo, disse que nunca vira nada parecido. Muito menos eu. Alguns dizem que o vento pode chegar a 100 km/h. Para mim, ele partiu de 100 e deve ter chegado facilmente a uns 180 km/h, no mínimo. Nos agarrávamos às pedras (às pedras, vejam bem), corpo colado, pernas coladas, pés colados, tudo apoiado nas pedras, e o vento tentando nos convencer do abismo. Houve um momento, já quase chegando ao refúgio chileno, em que ficamos muito tempo sem dar um passo, agarrados às pedras, o abismo se abrindo à nossa frente, o vento açoitando, todo se rindo de nossa fragilidade. Mas aí chegamos, paramos um tempo para chocolates, frutas, castanhas, água, e depois partimos para a base das torres propriamente ditas. Caminha-se por um bosque muito agradável, com subidas e descidas suaves, e chega-se ao pé da morena. O argumento final dessa caminhada de 14 quilômetros é uma cascata de pedras com uns 600 metros de altura. Você tem de escalá-la, se quiser acercar-se dos maciços graníticos. Subimos, subimos, e nada. Uns japoneses, em descida, nos disseram que faltavam só "uns dez minutinhos". Sádicos. Subimos, subimos, e então chegamos, resfolegando. As três torres (quatro, na verdade), são como edificios gigantescos, perversos em sua verticalidade, com um lago por vezes verde em sua base. Não vou tentar descrevê-las, o que deixo às fotografias, mas afianço que são majestosas. O vento não te abandona um segundo, mas muda de direção. O tempo todo contra e, de repente, já quase no alto, começa a soprar a favor, empurrando para cima, induzindo pânico adicional, à vista de pedras gigantes, pouco amistosas. Mas foi fantástica a caminhada. Ficamos um tempão lá encima, tiramos vários fotos, que logo revelarei. Pausa para o lanche, mais fotos, e regresso. Na descida, uns italianos esbaforidos perguntaram quanto tempo faltava para o topo. "uns dez minutinhos", pois sim. Harvest, a americana, ficou no camping da base, aos pés das torres. Eu fiquei no refúgio, a 45 minutos pelo bosque. Aguardava-me um jantar o mais maravilhoso que já provei, haja vista a fome. Primeiro, uma sopa de legumes, a coisa mais saborosa, depois um frango com arroz, bem ao gosto brasileiro. Depois, uma sobremesa (com a fome domada, a sobremesa não me convenceu) e depois, cama. Dormi umas dez horas sem parar, e só acordei com a sinfonia de despertadores dos montanhistas, prontinho para o café-da-manhã. Nunca havia ficado em um refúgio de montanha, e a experiência de ver as torres através da alta vidraça, e os pingos de chuva, e um vento cortante lá fora são coisas difíceis de esquecer. Hoje eu poderia ter montado a cavalo, para ir à Lagoa Azul (de onde se avista as torres), mas preferi voltar a Natales e descansar. Amanhã volto ao parque, para outra aventura, dessa vez em outro refúgio. P. Natales, 14 de janeiro de 2005.

terça-feira, 11 de janeiro de 2005

Puerto Natales

Cheguei ao extremo sul chileno, região de Punta Arenas. Àquela cidade chega-se de avião. Daí, um ônibus para Puerto Natales, cidade distribuidora do turismo na regiao de Torres. No meu caso, ao chegar não achei ônibus (um sujeito, logo após garantir que havia, sumiu sem deixar vestígios). Juntamente com um casal australiano na mesma desventura, pegamos um táxi até Natales. Sao 3 horas em uma estrada muito cênica (a planície patagônica), sob sol até as 11 da noite. Natales e uma cidade muito pequena, repleta de restaurantes e casas voltadas para o turismo. E turistas. Hoje fui ao parque de Torres del Paine. Infelizmente choveu, e fez frio, e a visita não resultou proveitosa. Amanhã descanso um pouco e devo voltar ao parque, para outro tipo de visita. Mesmo na chuva, Torres me pareceu impressionante, nos poucos minutos de sol que tivemos. Já a geleira que visitamos é bem inferior às de Perito Moreno, bem perto daqui, no lado argentino. Talvez eu vá à Argentina, se o tempo aqui não melhorar. O hostal em que estou tem um bom café da manhã, e um quarto só pra mim. Por ora, é só. Puerto Natales, 11 de janeiro de 2005.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2005

Milford e Doubtful Sound

Despeço-me agora da Nova Zelândia. Amanhã, às nove, vou para Auckland, e às dezessete, um A-340 ficou de me levar a Santiago. Queenstown é a mais interessante cidade da Nova Zelândia, considerando toda a região. Fiz o passeio ao rio Shotover. Primeiro, a lancha rápida, que passa a milímetros das pedras. É muita adrenalina. O Shotover é um rio de águas verdes, entre montanhas, que corre numa garganta de impressionante altura. Após vários cavalos-de-pau no rio, o guia levou a lancha até o local de uma velha locomotiva, que vigiava a saída de uma cachoeira. Falou algo que não entendi, mas impressionou os demais. Mais tarde verifiquei por quê. À tarde, segui para o rafting. Adrenalina na veia. Você desce o rio com mais sete pessoas, remando um pouco. A garganta tem paredões que alcançam facilmente 300 metros de rocha pura. A vegetação, os ônibus e carros passando na estradinha lá em cima, e você remando, tirando tinta dos gumes de pedra. Daí começam as cachoeiras. E tome banho. Como eu estava sentado no penúltimo lugar, nõo tomei muita água. Os novaiorquinos, à frente, tomavam caldo direto. Você rema um pouco, se encolhe, recua o remo e torce para sair do outro lado. E sai. Às vezes, uma batida mais forte numa parede de pedra, às vezes um banho de àgua gelada, é normal. Então, o final. Passamos por mais uma cachoeira, pensando que o pior tinha passado. Foi quando veio a caverna. É um túnel escavado na rocha, onde mal cabe o bote. Encolhidos, entramos na escuridão, a água nos levando, a pedra passando a milímetros de nossas cabeças, a escuridão total, por um tempo que parece enorme, devido ao inusitado. Daí, a saída. Uma enorme cachoeira te aguarda, e não há nada que se possa fazer para se livrar de um grande banho. O melhor é se agarrar fortemente, para não cair do bote, e agüentar a água gelada, que te cobre e começa a adentrar a roupa de neoprene (macacão, jaqueta por cima, mais um casaco impermeável, mais colete e um capacete. Você fica parecendo astronauta). Após um violento puxão, gritos e muita água gelada, você sai pra luz do dia, e a primeira coisa que vê é uma velha locomotiva, que era usada pra produzir energia com a água que sai do túnel escavado na rocha bruta. Desnecessário dizer que foi o mais emocionante passeio, até agora. Isso foi há 3 dias. Hoje voltei ao Shotover, para o mountain bike. Eu achava que estava preparado, mas o fato é que descer uma montanha, de bicicleta, não é exatamente um passeio. As pedras, as descidas íngremes, as subidas, os muitos cursos dagua pelo meio, e mais pedras afiladas. Eu não fazia idéia de quão difícil pode ser manter-se em cima de uma bicicleta montanha abaixo. Mas foi simplesmente fantástico. Como bem demonstram meus ossos e pele (intactos) não tomei tombo, fotografei até falar chega e depois voltamos de helicóptero. Pra fechar o dia (e a Oceania), umas cervejas belgas e australianas, acompanhadas por um prato típico neozelandês: pernil de cordeiro, assado com ervas finas e batatas gratinadas. Não mencionei, ainda, os sounds, nomes que eles dão para os fabulosos braços de mar na região de Te Anau (lamento, mas o nome é esse mesmo). Não há palavras para esses colossos. Milford Sound consiste numa reunião assaz feliz de montanha e mar, que se encontram com rara intensidade. São maciços quilométricos, que de repente despencam direto no mar. Inúmeras cachoeiras, de alturas insensatas, testemunham esse encontro, caindo poderosamente sobre um mar convoluto. As nuvens não abandonam os cumes, provendo um decoroso véu para noivas de vasta sombra. O barco entrou quase embaixo da maior das cachoeiras; resisti sozinho no convés, para fotografar. Consegui, não sei com que resultado. Doubtful Sound (haja sounds) é outro meeting de montanhas, mar e nuvens. É um delírio silencioso de rochas, matas, nuvens e céu azul (isso mesmo: fomos os felizardos a ver céu azul numa regiao dominada pela volúpia das nuvens). São dois cruzeiros intensos, onde a natureza não se economiza. Tudo é magnificado até à vertigem, gerando continentes de lembrança na mente do visitante. Pra fechar, Te Anau é uma cidadezinha acolhedora, com uma casa de massas deliciosas e atendentes risonhas (não, não inverta os adjetivos). Tina supera todas, com seu jeito moleque. Ela senta à mesa, em vez de simplesmente anotar os pedidos (não estou falando só da minha mesa). Depois faz comentários deliciosos. Tem de tudo na Nova Zelândia, inclusive gente boa. O país é dos mais bonitos do mundo (como se sabe), e não pode ser esquecido. Queenstown, 7 de janeiro de 2005.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2005

Queenstown

Cheguei a Queenstown. É uma cidade pequena, mas muito interessante; charmosa, situada entre grandes montanhas e um lago. Aqui próximo, ficam Milford Sound e outras atrações turísticas da Nova Zelândia. Irei conhecê-las nos cinco dias que aqui passarei. Amanhã farei um passeio pelo rio Shotover (lancha e rafting). Espero muitas emoções. No mais, um pouco de cansaço com tantos deslocamentos. E também saudades. Hoje comprei minha passagem para Campo Grande, mas antes tenho Torres Del Paine para conhecer. Vai ser interessante. Grande abraço. Queenstown, 3 de janeiro de 2005.

domingo, 26 de dezembro de 2004

Auckland

Estou na Nova Zelândia (Auckland, maior cidade - 750 mil habitantes). Pretendia partir hoje mesmo para o sul, para Waitomo e Rotorua, mas é feriado por aqui, e as coisas não funcionaram. Parto amanhã (o pessoal do hostel conta com isso - até já anteciparam o bota-fora. Onde vou, é sempre a mesma coisa: as pessoas se entusiasmam com a minha partida). Deixando o entusiasmo de lado, relato agora o incidente da banana. Um cara esqueceu uma banana na mochila. Em Auckland, há detectores com raio-X na chegada, e a banana foi descoberta. Os bons funcionários não tiveram dúvida em aplicar duzentos dólares de multa ao infrator, sem conversa. Não sei se esse dinheiro vai chegar as cofres públicos. A penalidade é intrinsecamente injusta e desproporcional à "infração" mas, sabem como é, uma pessoa à uma da madrugada não está em condições de raciocinar com argúcia, e o dinheiro teve de ser pago. O dado que me chamou a atenção, meditando sobre isso, é que não havia, em nenhum impresso, o artigo de lei ou norma administrativa estabelecendo a penalidade, suas formas de cobrança e contestação. Então, pode ter havido abuso, muito comum contra pessoas em desequilíbrio de informação (essencialmente, essa é a situação de um turista). Sei disso tudo porque a pena foi imposta a mim, mas são coisas da vida de um aventureiro. Já conheci duas pessoas que falam português na Nova Zelândia, contra nenhuma na Austrália. Um recorde! Estou me sentindo em casa. Raquel é a própria simpatia. Neozelandesa, já morou em São Paulo e Florianópolis. Ela tem uma fala deliciosa, com gírias de Floripa e jeito de brasileira nata. Até a próxima. Auckland, 26 de dezembro de 2004.

sábado, 25 de dezembro de 2004

Kakadu Park

Uma coisa aprendi na Austrália: não falar mal dos ingleses. Em cada ônibus, avião ou bar, metade dos circunstantes será inglesa. Melhor não se meter com eles, leitor. Não é que na minha excursão havia um inglês? O Parque Nacional Kakadu é o maior da Austrália. Um lugar tão grande... tinha um inglês por lá, of course. Quem contempla-lhe o rosto tem a nítida impressão de que, inadvertidamente, entrou no desenho The King of the Hill, com todos aqueles personagens anódinos e inverossímeis. Um rosto gigante, mal decorado por uma boca pequena, de onde saiam palavras bem pequenininhas. Não se compreende a produção de um rosto com tão poucos e desusados traços. Censuraremos a natureza por tanta avareza? É possível um rosto com tanta economia de linhas? Essa mesquinhez me pareceu excessiva. Se Nicolai Gógol precisasse descrevê-lo, é quase certo que diria: “É de conhecimento geral que no mundo existem muitas dessas faces, na feitura das quais a natureza não quis dar-se muito trabalho, não usou nenhum dos instrumentos finos, tais como lixas, brocas e quejandos, mas simplesmente desceu a machadinha com toda a força: uma machadada, e saiu o nariz, outra, e resultaram os lábios; com dois movimentos de verruma grossa, fez os olhos, e soltou o resultado sem lixá-lo, para o mundo, dizendo: ‘vive!’” ¹ Não tenho a autoridade de Gógol, e jamais empregaria essas palavras, que poderiam ser mal recebidas pelos ingleses, um povo distinto. Contudo antipatizei logo de cara com aquele inglês, de várias máquinas fotográficas (uma delas igual à minha), no que fui logo correspondido. Vejam suas peripécias. À falta de cadeiras, ele puxou uma mesa, para sentar-se junto à fogueirinha após o jantar. Ali equilibrou primeiro uns 90, depois vigorosos 120 e, finalmente, todos os 190 mimosos quilinhos que Deus lhe deu. Como uma simples mesa suportou, não sei dizer. Sentados em cadeiras ou em mesas, ouvimos todos o guia tocar uma espécie de berrante do Território Norte: um cilindro que já deve ter sido de madeira e hoje é de fibra, de onde sai um som grave e enjoado. O sujeito passa horas entoando esse som, ininterruptamente, o que exige paciência. No dia seguinte, subimos a uma cachoeira, coisa de uns 80 m de queda livre. O tal inglês ficou conversando com Esther (a holandesa) lá em cima; o sol nos presenteava com plasma ardente. Ligeiramente preocupado com os 60° C, que cozinhavam os miolos, fugi, para uma fonte d´àgua, para refrigerar as idéias. E foi lá que presenciei a seguinte cena: vinha o econômico inglês, na fresca, sem camisa, quando engoliu uma mosca. Isso mesmo, uma mosca (não existe falta delas por lá). Após estremunhar e correr pra fonte d´água, ouvi esta fórmula, lacônica: - Like a suicide! Como um robusto inseto daqueles foi parar na pança do inglês, não posso dizer. Houve boatos de que todos aqueles galantes quilos premeditaram o acidente. Uma das versões dava conta que a defunta se aproximou imprudentemente da boca do inglês, sendo apanhada numa corrente de ar que a adentrava justamente naquele momento. Não acredito nessa versão, e o que eu não faria para punir seu autor. Solidarizei-me com o inglês, claro, tão logo pude controlar o riso, horas depois. Ele aprontou outras, mas não seria justo com os súditos de Sua Majestade ficar detalhando essas histórias. Darwin, dezembro de 2004.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2004

Natal em Sydney

É Natal, estou de volta a Sydney, após quase um mês pelo outback e costa australiana. Chove e faz um pouco de frio (nem tudo é perfeito). Um ótimo Natal a todos, desejando-lhes saúde, paz e prosperidade, sem querer ser original. Grande abraço.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2004

Brisbane

Estou em Brisbane (de novo). Fui a Fraser Island, ilha muito bonita, mas tivemos dia nublado. Fraser, assim como Brisbane, fica em Queensland, estado do nordeste australiano. Terminei há pouco minhas andanças pela cidade. Brisbane tem um rio (de mesmo nome) que corta a cidade e é magnífico. Sua arquitetura e urbanismo são fascinantes. Agora uma pequena história. Intitula-se o caso da sandália. Ocorre que, após 3 semanas de andanças, meus pés já não toleram nada senão sandálias havaianas. Estão latejando, e ameçam deixar-me ir sozinho. Fui a uma pequena ilha chamada Fitzroy, a 50 minutos de Cairns. Lá chegando, a primeira coisa a faser foi dormir, ao som do mar, à sombra de uma enorme árvore. Ao acordar, foi como se tivesse começado a sonhar: ou meus sentidos me traíam ou uma moça estava fazendo topless na areia, bem à minha frente. Se era sonho, devo dizer que foi dos mais bonitos que já tive. Todavia, certifiquei-me de que era realidade, e para não constranger a moça, fui caminhar pelas pedras. Casualmente, para ir às pedras, era preciso passar por ela. As pedras estavam áridas, e desinteressantes, como sói acontecer com pedras, então voltei, passando em frente à sereia, que a essa altura apenas incrementara sua posição. Alguns passos mais, percebi que perdera minhas sandálias nas traiçoeiras pedras. Como uma coisa dessas aconteceu, não sei, mas, contrariado, tive de voltar. Como houvesse esgotado o número de vezes que podia passar pela moça, ocorreu-me tomar um atalho, pela mata. Esse caminho me levava para trás de onde a moça expendia seu charme. Adentrando a mata, umas irritantes folhas secas me denunciaram, e a pobre francesa acabou suspeitando de que estava às voltas com um tarado, talvez tentando fotografá-la. Eu jamais pensaria numa indignidade dessas, deve ser dito em minha defesa. Felizmente, após uma pequena procura, achei as chinelas, caídas nas amaldiçoadas pedras. Muito feliz por retormar aquele caminho, voltei, mas a moça se tinha ido. Depois nos encontramos, numa praia menos liberal, e o episódio das sandálias foi abafado, segundo me pareceu. Foi a primeira vez que perdi minhas sandálias nesta viagem, e espero estar mais atento da próxima vez. Se cuida, gente.